Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Visita aos amigos e parentes: precursor do turismo rural? Resumo



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Dan Gabriel D’Onofre – Brasil

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Visita aos amigos e parentes: precursor do turismo rural?

Resumo

Com a finalidade de discutir o fenômeno de visita a amigos e parentes que residem no espaço rural de Carmo, este trabalho almeja relacionar os conceitos advindos de campos multidisciplinares que tratam do lazer turístico. Inicialmente, há uma introdução com destaque aos aspectos metodológicos que orientam o trabalho, seguindo por uma apresentação dos dados históricos e sociodemográficos de Carmo. Posteriormente, há uma sucinta discussão sobre lazer e turismo, em que, seguidamente, há a apresentação dos dados sobre o comportamento da relação hóspede – anfitrião em Carmo. Por fim, a conclusão ressalta os aspectos da mudança em relação ao turismo invisível por parte do poder público de Carmo, bem como a insipiência da profissionalização dos anfitriões no espaço em questão.



Introdução

A industrialização da cidade do Rio de Janeiro e seu entorno, bem como a devida urbanização desorganizada desta metrópole, ocasionou um rápido crescimento demográfico na citada região. Muitos desses migrantes deixaram diversas localidades do país, como também o interior do Rio de Janeiro, para se fixar em cidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro a partir da segunda metade do século XX. O estabelecimento destes imigrantes fluminenses foi possibilitado, em partes, pela absorção desta força de trabalho junto às inúmeras ocupações formais e informais presentes na economia da região metropolitana, a contrastar com o que se evidenciava no interior.

Parte desses imigrantes se estabeleceu na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, através de suas ocupações, a contemplar diversas de suas necessidades, incluindo o lazer. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2013), o estado fluminense é a quarta menor unidade da federação brasileira em extensão territorial. Soma-se o fato de ter sido a capital federal por cerca de 200 anos, a segunda maior cidade brasileira, em número de habitantes e produção econômica, legou uma considerável infraestrutura de acessibilidade que, somado ao rodoviarismo executado a partir de 1950, permitiu a mobilidade por certas regiões não só do estado do Rio de Janeiro, como aos demais estados do Sudeste brasileiro. Ao adentrar a classe média, esses já estabilizados migrantes fluminenses passaram a frequentar em seu tempo livre suas regiões de origem.

Com o objetivo de analisar perspectivas teóricas que identificam práticas humanas, este trabalho almeja relacionar tanto o lazer à visitação de parentes e amigos, como também definições de ordem científica advindas da turismologia. Salienta-se que o Ministério do Turismo (BRASIL, 2012) constatou que do total de brasileiros que viajaram em momentos de lazer, mais de 68% se hospedam em casa de amigos ou parentes. O método desta pesquisa acionará aspectos qualitativos para dar conta de analisar este movimento migratório motivado ao lazer com base num estudo de caso (D’ONOFRE, 2013) executado junto aos anfitriões de uma comunidade rural do primeiro distrito de Carmo, região Serrana do Rio de Janeiro, no ano de 2013. Para tanto, aciona-se pesquisa bibliográfica sobre conceitos advindos da sociologia do lazer, bem como estudos da hospitalidade, turismo, além dos aspectos sociodemográficos do recorte espacial em questão. Consequentemente, pretende-se refletir o fato de que as atividades desempenhadas durante a visitação aos parentes e amigos que permaneceram no recorte rural do território fluminense são análogas e precursoras ao profissionalismo ao turismo rural.



O espaço em questão: o município fluminense de Carmo

Carmo é um município da Serra Fluminense, uma das regiões políticas do Estado do Rio de Janeiro. Sua formação está ligada a Cantagalo, município vizinho que originou diversas outras ainda no século XIX. Carmo tem sua história ligada à expansão da cafeicultura no período Imperial, onde figurara como importante polo de produção, embora não tenha sido um dos principais. A estrutura de sua sociedade, ainda no século XIX, baseava-se no domínio de homens de origem lusitana que comandavam grandes fazendas de cafeicultura sob base de mão de obra escrava de origem africana, podendo ocorrer alguns casos de mestiçagem entre estes e os primeiros habitantes do país (indígenas).

Com a Lei Áurea de 1888, a libertação dos escravos vai impactar diretamente na forma como a sociedade fluminense se organizará no campo, sendo perceptível nas regiões interioranas a evasão dos negros alforriados em direção aos quilombos e arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, se soma à vinda de imigrantes italianos, portugueses e alemães e suíços que começam a habitar tais áreas do município de Carmo. Nesse período do século XIX, vigia uma política de Estado que previa o branqueamento da população brasileira via imigração europeia, sendo uma de suas prerrogativas era evitar fatos semelhantes aos que se sucederam durante a Revolução Haitiana de 1804.

Os rendimentos da cafeicultura deixaram marcas na sociedade carmense, inferindo inclusive na paisagem local. Algumas propriedades obtiveram ganhos significativos com a produção do café no período imperial, a ponto de seus proprietários erguerem suntuosas sedes, as quais passaram a contar com a linha férrea1 para escoar a produção cafeeira, bem como facilitar o transporte de passageiros.

A decadência da cafeicultura fluminense foi sucedida por um rearranjo econômico organizado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro durante a transição do regime Imperial à República Velha. Segundo Santos e Mendonça (2006), o ideário era que os estados brasileiros, de uma forma geral, resolvessem seus problemas de abastecimento interno através da policultura e de avanços técnicos (p. 88). Entre 1900 a 1920, Carmo sagrou-se, ainda em concordância com as autoras, como polo produtor de itens como arroz, feijão, milho e açúcar, além de permanecer como polo cafeicultor e de produção de aguardente (cachaça).

Após o Golpe Militar de 1964, o Estado do Rio de Janeiro vivenciou um dos maiores golpes contra sua agricultura: o encerramento das ferrovias que cortavam o território fluminense. Mesmo antes do período ditatorial, o Governo de Juscelino Kubitschek (1956 – 1961) havia optado em sua gestão por um modelo econômico que tinha nas montadoras de veículos as grandes responsáveis por parte da geração de empregos no país a inaugurar o rodoviarismo no Brasil2. Essa ação afetou diretamente a economia carmense, pois sem único meio de escoamento da produção, as atividades produtivas ligada são setor primário tiveram de passar por um novo rearranjo.

A segunda metade do século XX, inaugurou um período de mudanças radicais no que tange à economia fluminense. A Companhia Siderúrgica Nacional, a Fábrica Nacional de Motores e a Companhia Nacional de Álcalis se tornaram polos de atração de muitos brasileiros, incluídos os carmenses que passaram a enfrentar as dificuldades no escoamento da produção de alimentos a partir de 1967. Assim, essas companhias que se instalaram em cidades como Volta Redonda (Sul Fluminense), Cabo Frio (Baixadas Litorâneas ou Região dos Lagos), Duque de Caxias (Baixada Fluminense), bem como o apelo do aquecimento econômico de atividades diversas na cidade do Rio de Janeiro (Estado da Guanabara de 1960 a 1975), acabavam por atrair carmenses, principalmente jovens que também viam as universidades e escolas técnicas como alternativa à reprodução social.

A partir da década de 1970, aqueles que ficaram no campo passaram a dedicar-se à pecuária de leite e corte, mormente. Nesse período, a população no campo começou a diminuir, sendo sensível o aumento de pessoas residentes na sede municipal. Muitos carmenses passaram a se fixar tanto na cidade do Rio de Janeiro, como no entorno (Região Metropolitana) e outros municípios médios fluminenses, fez com que o relacionamento com seus familiares que permaneceram em Carmo se desse apenas durante alguns fins de semana, feriados e férias. Sobre esse fato, garantias trabalhistas bem como o sucesso em empreitadas profissionais liberais permitem que esses imigrantes carmenses reforçassem seus laços familiares com seus pais e avós que ainda moram em estabelecimentos rurais. Vale lembrar que, mesmo aqueles que não alcançaram postos de trabalho qualificado, a proximidade de Carmo a cidade do Rio de Janeiro (cerca de 190 km pela Rodovia BR 116) possibilita que este destino seja mais acessível inclusive aos menos abastados. Desta maneira, os imigrantes carmenses retornam a Carmo como uma forma de lazer e reforço de laços sociais.



A relação entre lazer e turismo

A concepção humana sobre o tempo sempre esteve a se modificar, seja de acordo com os padrões impostos pelas elites, seja devido aos avanços tecnológicos que impõem formas distintas sobre a questão da produção e do consumo elaboradas pelas sociedades num geral. Bacal (2003) defende que mesmo diante de quadros de valores morais e psicológicos, cada indivíduo age segundo seu livre-arbítrio. Ainda segundo a autora, modos de agir e ser estão imersos em “redes de fatores que atuam como uma das bases e das condições limitadoras sobre as quais os indivíduos desenvolvem suas potencialidades”. Ou seja, a cultura permite que seres humanos tracem estratégias de assimilação sobre o tempo vivido e a se viver, sendo estas ações estruturantes e estruturadoras de relações tecidas entre os mais diversos seres que tornam esse mundo assimilável.

A fim de definir distinções sobre os tempos vividos, Dumazedier define lazer como

“[...] um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares ou sociais” (DUMAZEDIER, 1973: 34).

De acordo com essa concepção, a experiência humana poderia ser analisada de acordo com o tempo de vida. O lazer o momento em que, liberado das obrigações profissionais, religiosas e políticas, as pessoas executariam atividades num recorte temporal limitado de acordo com sua classe social, respaldo legal advindo de políticas públicas, bem como as tecnologias aplicadas nos modelos de produção econômico. Com base nesses fatos, Barretto (2003) defende que o turismo seria uma das atividades de lazer mais nobres. A autora também salienta que “a viagem (elemento dinâmico) e a estada (elemento estático) acontecem fora do lugar de residência, [e] as pessoas desenvolvem atividades diferentes do seu cotidiano.” (BARRETTO, 2003, p.12).

Barretto (2003) também ressalta que esse movimento de pessoas é particular por ser temporário, visto que a volta para casa em pouco tempo é o objetivo final. E mais, durante essa visita, o turista é a pessoa que não desempenhará atividades lucrativas, sendo as suas motivações relacionadas às razões espirituais ou vitais mais próprias e íntimas (BARRETTO, 2003). Tal conclusão se deve ao fato de o turismo ser um lazer e consequentemente, quando a academia promove o conceito de “turismo de negócios”, seria um paradoxo, haja vista que, em suma, seria “lazer de negócio”.

Parte-se do pressuposto de que o lazer também é um momento apto ao consumo de bens e serviços que compõem as atividades humanas. Para tanto, Bacal (2003) pondera que a vitória dos movimentos sociais europeus do século XIX em prol da garantia dos direitos de redução da jornada de trabalho, direito ao repouso e ao lazer (oito horas para cada atividade), só fora possível devido ao fato de que as empresas capitalistas enxergavam no momento de lazer a possibilidade de escoar parte de sua produção via consumo pelas classes trabalhadoras. Assim, a vitória pelo tempo livre é também parte orquestrada pelo interesse à maximização do consumo de bens e serviços produzidos pelos diversos setores econômicos.

No Brasil, as viagens têm tido importância para a cadeia produtiva do turismo. Ao que diz respeito às viagens de lazer que têm como meta hospedagem em casa de parentes ou amigos, fica evidente que este comportamento de consumo é muito arraigado. Segundo o Ministério do Turismo, 62,8% dos viajantes domésticos optam por ficar em casa de amigos e/ou parentes, sendo que se analisado apenas aqueles que viajam por lazer (excetua-se quem viaja a trabalho, por exemplo), o índice vai para 68,2% (BRASIL, 2012). A pesquisa utilizada revela que do total de domicílios urbanos entrevistados, em cerca de 48% deles algum ente da família realizou uma viagem3. Consequentemente, há de se ponderar que o mercado consumidor de viagens no Brasil ainda opera diante de restrições, pois mesmo aqueles que viajam, ao se hospedar em casa de amigos e/ou parentes, indicam que essa prática possa vir a ser uma alternativa de mitigar os gastos com esse tipo de lazer. Há também de se ponderar que, ao realizar no mínimo uma viagem, os viajantes domésticos o fazem por manter seus laços familiais e de amizade dentro da cota de tempo livre que os cabem cujos momentos estão ligados aos feriados religiosos (Natal, Páscoa, Corpus Christis, São Jorge-Ogum) ou às celebrações de Ano Novo, bem como aniversários, festas (casamentos, batizados) ou mesmo rituais fúnebres. É este o caso dos viajantes que frequentam o espaço rural de Carmo.



A dinâmica de viagens no espaço rural de Carmo e sua relação com o turismo rural

D’Onofre (2013) ao realizar levantamento sobre as relações tecidas pela hospitalidade na Região Serrana do Rio de Janeiro, deparou-se com um cenário provocador. Carmo não lista como um dos principais redutos turísticos fluminenses. Fora do que sua prefeitura considera como perímetro urbano, Carmo não contava com empreendimentos de hospedagem em seu primeiro distrito. Além disso, eram raros os sítios (pequenas fazendas) que realizavam alugueis para pessoas recrearem em suas estruturas. Assim, os estabelecimentos rurais onde as pessoas mantinham residência fixa recebiam apenas visitantes que pertenciam às suas redes de familiares e amigos.

Ao sistematizar o comportamento social das famílias rurais em Carmo, D’Onofre (2013) defende que os anfitriões e hóspedes se organizam de acordo com os círculos sociais. Estes círculos são formados de acordo com os graus de parentesco, amizade e afinidade, além da proximidade física entre as pessoas (D’ONOFRE, 2013, p. 78 – 82). Em Carmo, as famílias rurais revelaram que são preponderantemente amigos, familiares, vizinhos e pessoas que fazem parte do cotidiano, os quais D’Onofre classifica como círculo social próximo direto (CSPD), haja vista que os hóspedes que aparecem com maior frequência. São pessoas que, segundo essas famílias, aparecem com maior periodicidade pelo fato de viverem nas redondezas de suas propriedades. Baseado nas categorias teóricas do turismo, o autor formula a distinção entre hóspedes desses anfitriões com base em sua origem, motivação e ligação mútua.

De acordo com a pesquisa de D’Onofre (2013), essas mesmas pessoas que fazem parte do círculo social próximo de uma família rural possui outros amigos que não são comuns a essa. Assim, segundo este autor, quando em contato com essa família se tornam parte do círculo social próximo indireto (CSPI). Segundo a teoria do turismo (BARRETTO, 2003), os pertencentes do círculo social próximo não são turistas, visto que por mais que atravessem fronteiras municipais, essas pessoas estão no entorno imediato das residências de seus anfitriões (algo em torno de um raio de 30 km). Isto é, em conformidade com o que D’Onofre (2013) apresenta, esses hóspedes dificilmente pernoitam na casa das famílias anfitriãs.

Muitas dessas famílias revelaram possuir algum parente (geralmente filhos e netos) e amigos vivendo fora do município, em localidades do Sudeste, os quais D’Onofre classifica como pertencentes ao seu círculo social expandido direto (CSED). Quanto aos familiares de Carmo, o autor pondera que são majoritariamente pessoas que decidiram dedicar sua vida a outras atividades que não se baseassem nos recursos internos da propriedade familiar. Através do relato dos entrevistados, D’Onofre (2013) verificou que quando jovens carmenses se dedicam aos estudos em instituições de ensino profissionalizante e/ou superior, ampliam suas redes de sociabilidade com pessoas até então desconhecidas nesses municípios citados. Segundo o autor,

Os laços de amizade e afeição criados lá influenciam os hábitos de hospitalidade desvelados no espaço rural carmense, pois, durante as férias e recessos que ocorrem durante o ano letivo, muitos desses jovens retornam a casa de seus pais sendo corrente a companhia de amigos (D’ONOFRE, 2013, p. 81).

D’Onofre aponta que estes amigos dos filhos das famílias rurais são considerados como pertencentes ao círculo social expandido indireto (CSEI), pois são terceiros no contato com as famílias rurais. Na maioria das vezes quando o elo com os familiares radicados fora do espaço rural carmense se deteriora, dificulta-se a recepção desses amigos indiretos pelas famílias rurais de Carmo.

De maneira semelhante, D’Onofre (2013) reitera que quando esses jovens optam por prosseguir sua vida longe de Carmo, torna-se costume retornar ali opcionalmente para reforçar laços de parentesco em momentos de lazer. Ainda de acordo com o autor, muitos destes jovens se tornam profissionais que usufruem de garantias legais como o direito a férias remuneradas. Ao possuir automóveis, podem acessar o Carmo para visitar seus parentes, mesmo quando em descanso semanal (sábados e domingos), além dos eventuais feriados, devido às distâncias reduzidas. Tal característica torna-se aderente à premissa de Barretto (2003) que considera relevante distinguir viagem e turismo4.

O mesmo modelo rodoviarista da segunda metade do século passado, o qual resultou no desmonte da agricultura carmense, hoje possibilita o deslocamento “porta a porta” dos hóspedes às casas de seus familiares rurais em Carmo. Como se constata em D’Onofre (2013), apesar de as famílias anfitriãs não considerarem seus parentes e amigos como turistas, a teoria do turismo irá apontá-los como tais, haja vista que eles se deslocam por um tempo determinado com retorno programado às suas casas (BARRETTO, 2003; LOHMANN & PANOSSO NETTO, 2008). Além disso, D’Onofre (2013) salienta que tal prática não visa remuneração visto que essas viagens são motivadas pela vontade de reforçar laços afetivos entre hóspedes e anfitriões. Consequentemente, o autor pondera que tal fenômeno é possibilitado pelo acesso ao lazer turístico, pois os pertencentes ao círculo social expandido optam por livre e espontânea vontade usufruir seu tempo livre junto às suas famílias e amigos que vivem no espaço rural serrano, quando poderiam escolher outra localidade ou mesmo permanecer em suas residências. Logo, D’Onofre considera que há uma contradição que se classifica como turismo invisível. Esse conceito emerge diante do fato de que por mais que haja a prática de viagens com fins de lazer para a casa de amigos e parentes, os anfitriões não reconhecem seus hóspedes como turistas, mesmo que esse seja o panorama da maioria das viagens de lazer no Brasil (BRASIL, 2009).

Neste sentido, ao tornar público5 essas pesquisas junto ao poder público municipal de Carmo, bem como sua comunidade, resultou em uma mudança sobre o turismo como mote de desenvolvimento ao município. O poder público de Carmo iniciou, a partir do primeiro semestre de 2014, uma série de iniciativas para a sinalização turística do município, bem como a promoção de uma série de eventos das mais variadas formas, além de algumas iniciativas no que tange à infraestrutura municipal e à comercialização de produtos locais, com destaque à Cachaça da Quinta6. Ou seja, o turismo que até então era invisibilizado, passou a ser um dos motes para a política municipal na promoção de atrativos para não somente os turistas invisíveis como também àqueles que possam ter interesse na visitação do município. No que diz respeito à visitação, hospedagem ou recreação em fazendas e propriedades no espaço rural carmense, não há qualquer iniciativa até o momento.


À guisa de conclusão
O município de Carmo apresenta em seu território um vasto legado da agricultura e da pecuária iniciadas no século XIX. Da cafeicultura no período imperial à agricultura desmontada na ditadura militar (1964 – 1985), Carmo passa por um processo de diversificação da sua economia ligada não apenas ao setor primário, mas também ao terciário. A modalidade de transporte rodoviário que dificultara o escoamento da produção primária em Carmo na segunda metade do século XX, foi a responsável pela difusão do acesso das propriedades rurais aos migrantes que retornam para usufruir lazer junto aos seus familiares.

Embora a teoria do turismo classifique esse fluxo de visitantes às casas de amigos e parentes como turistas, os anfitriões em Carmo não reconhecem seus hóspedes enquanto tais. Esse fenômeno é fato para se constatar que embora haja turismo em Carmo, mesmo que o município não desponte como um dos principais redutos turísticos do estado do Rio de Janeiro, ele é invisível. Através da publicação e apresentação pesquisa de D’Onofre, o poder público de Carmo iniciou uma série de ações para que o turismo pudesse se transformar em um dos setores econômicos responsáveis pelo aquecimento da economia local.

No entanto, ainda não houve uma estratégia organizada para que estabelecimentos rurais em Carmo passassem a oferecer serviços comerciais de hospitalidade. Consequentemente, pode-se compreender que as variáveis tempo (frequência temporal da presença do hóspede), espaço (distância da origem do hóspede em relação à residência do anfitrião) e afetividade (a vontade de agradar um ente que é especial na vida do anfitrião devido ao fato de ser um familiar ou amigo) influenciam a maneira como o anfitrião lida com a prática da recepção no espaço rural de Carmo, a não reverberar na opção da profissionalização destes anfitriões enquanto fornecedores de serviços comerciais de hospitalidade.

Referências

BACAL, Sarah. (2003). Lazer e o universo dos possíveis. São Paulo: Aleph.

BARRETTO, Margarita. (2003). Manual de iniciação ao estudo do turismo. Campinas: Papirus.

BRASIL. (2012). Ministério do Turismo. Caracterização e dimensionamento do turismo doméstico no Brasil – 2010-2011. São Paulo: FIPE. Disponível em: < http://www.dadosefatos.turismo.gov.br/export/sites/default/dadosefatos/demanda_turistica/domestica/downloads_domestica/Demanda_domestica__2012__Relatorio_Executivo_nov.pdf>.

IBGE. (2013). Área territorial brasileira. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/areaterritorial/principal.shtm.

CACHAÇA DA QUINTA. (2015). Notícias & Imprensa. Carmo/RJ. Disponível em: http://www.cachacadaquinta.com.br/entrada.php.

CAMARGO, Luiz Octávio de Lima. (2003). Os domínios da hospitalidade. In: DENCKER, A. F. M; BUENO, M. S. (org.). Hospitalidade: cenários e oportunidades. São Paulo: Pioneira Thomson Learning.

DUMAZEDIER, Joffre. (1973). Lazer e cultura popular. São Paulo: Perspectiva.

D’ONOFRE, Dan Gabriel. (2013). Hospitalidade de famílias rurais na Serra Fluminense: olhares de anfitriões. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Rural) Faculdade de Ciências Econômicas: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

LAMEGO, Alberto Ribeiro. (1963). O homem e a serra. Rio de Janeiro: Divisão Cultural.

LOHMANN, Guilherme; PANOSSO NETTO; Alexandre. (2008). Teoria do turismo: conceitos, modelos e sistemas. São Paulo: Aleph.

MARAFON, Glaucio José; RIBEIRO, Miguel Ângelo. (2006). A agricultura familiar, pluralidade e turismo rural: reflexões a partir do território fluminense. Revista Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, jan./dez. p. 111 – 129.

MARAFON, Glaucio José; SILVA, Eduardo Sol Oliveira da. (2007). A Agricultura Familiar no estado do Rio de Janeiro. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, 2., 2007, Santa Cruz do Sul. Anais... Santa Cruz do Sul: Universidade de Santa Cruz do Sul.

SANTOS, Ana Maria; MENDONÇA, Sonia Regina. (2006). A economia agrícola fluminense (1910 – 1920). In: Revista Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, jan./dez. p. 87 – 110.



1 O que hoje é o município de Carmo era servido pelo Ramal de Sumidouro, o qual foi adquirido pela The Leopoldina Railway Company, em 1885. Em 1889, o ramal chegou a Nova Friburgo, importante polo cafeeiro e comercial da Serra Fluminense, que era servida pela Linha de Cantagalo, cuja estação inicial era em Porto das Caixas, às margens da Baía da Guanabara no município de Itaboraí (GIESBRECHT, 2015).

2 Embora seja importante dizer que, durante o período JK, surgira a Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), uma empresa estatal que tinha por objetivo requalificar esta modalidade de transporte no Brasil. Após 1964, os militares no poder desmancharam a maior parte das ferrovias no estado do Rio de Janeiro, sendo o Ramal de Sumidouro (o qual conectava Carmo às demais estações) extinto em 31 de maio de 1967.

3 Dentre aqueles que não realizaram sequer uma viagem, 46,7% revelaram não ter dinheiro para arcar com estas e 24,1% disseram não dispor de tempo, a totalizar 70,8% das causas principais relativas ao impedimento em viajar (BRASIL, 2012, p. 35).

4 Para a autora, a viagem está contida no turismo, visto que muitas viagens não são de turismo quando não obedecem a um tempo de permanência que não se estenda por mais de 12 meses (como as migrações, por exemplo), quando possuem caráter lucrativo (viagens de negócios e para exercício de profissão) e não se fundamentam na livre e espontânea vontade de buscar prazer (BARRETTO, 2003, p. 13).

5 No início de janeiro de 2014, D’Onofre realizou palestra com o resultado final das pesquisas realizadas durante os anos de 2011 e 2012 (D’ONOFRE, 2013).

6 A Cachaça da Quinta é o primeiro destilado brasileiro condecorado com a Grand Gold Medal, em duas décadas do consagrado Concours Mondial de Bruxelles, durante o Spirits Selection 2013. Honraria máxima concedida às melhores bebidas do mundo (CACHAÇA DA QUINTA, 2015).


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