Um Toque de Pecado



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Encontro29.08.2018
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“Um Toque de Pecado”, que estreou em Dezembro em Portugal e obteve o prémio de melhor argumento no Festival de Cannes de 2013, é , não só o filme mais violento de Jia Zhangke, um dos mais celebrados realizadores chineses actuais, como provavelmente um dos filmes mais violentos do cinema chinês continental.  “Um Toque de Pecado” integra quatro histórias interligadas que ocorrem em vários pontos do país, oferecendo uma cross-section da sociedade chinesa e da China contemporânea na qual a ficção se mistura com acontecimentos reais recentes, enquanto extractos de ópera servem para comentar a situação sócio-cultural. A injustiça, a corrupção, a desigualdade, o abismo entre ricos e pobres estão omnipresentes e, de facto, estas questões são o tema principal, resultando numa violência da parte dos opressores mas também da parte das vítimas que está sempre prestes a explodir.

O filme completa um círculo, terminando onde começou, e mostra o predomínio do status quo, apesar de todos os actos de rebeldia que lhe são infligidos. Dahai matou os principais corruptos de Wujinshan que se apropriaram da mina, a antiga empresa colectiva, sem partilhar os dividendos conforme acordado. Porém, nada mudou:  a viúva do gerente continua a dirigir a empresa denominada ‘shengli’, termo que significa vitória em chinês, e contrata a protagonista da terceira história depois de ela ter emigrado para Wujinshan. As personagens podem ser móveis, mas não conseguem escapar ao destino ou obter uma vida melhor, tal como o titulo chinês do filme que pode ser traduzido como ‘Destino’ sugere.

Na primeira história, Dahai indignado com a corrupção da mina e do governo de Wujinshan, tenta fazer chegar uma petição ao governo central, mas nos correios exigem a morada exacta e a carta não é aceite. O sistema de petição tem origens na China imperial e permite a quem sofreu injustiças queixar-se oficialmente a nível local, provincial ou nacional. Por causa dos seus protestos, Dahai é violentamente agredido e humilhado e, depois de ter esgotado as tentativas de negociação, acaba por matar os principais corruptos da aldeia.

A segunda história é a de Sanr, um criminoso migrante, que não querendo que ele ou os seus se resignem a uma vida pobre na aldeia de Shapingba, se dedica a matar e roubar gente abastada. A vinçança dos oprimidos contra os novos ricos não parece apresentar qualquer solução, Sanr está condenado a vaguear, e mais cedo ou mais tarde será provavelmente apanhado. O vazio moral geral e o sistema corrupto parecem ser o que corrompe Sanr. No entanto, Sanr obedece aos princípios da piedade filial e, segundo critérios chineses, também pode ser considerado um pai e marido responsável. O dinheiro que rouba vai principalmente para a familia e não para o seu uso pessoal. Jia Zhangke enaltece a personagem que é baseada no criminoso Zhou Kehua, também ele proveniente de Shapingba, que, entre 2004 e 2008, foi assaltando e matando pela China fora, mas cujo dinheiro em parte servia para sustentar a vida luxuosa da sua amante.

Xiaoyu é a protagonista da terceira história. Recepcionista numa ‘casa de massagens’, na realidade uma fachada para um bordel, namora um homem casado há vários anos. Atacada pela mulher dele e por uns rufiões ao serviço dela, é mais tarde agredida por um mafioso que visita o bordel.  Numa longa cena é esbofeteada com notas de dinheiro enquanto é-lhe exigido que ofereça serviços sexuais. O dinheiro é todo poderoso na China actual e quem tem dinheiro tem poder. Xiaoyu mata-o em autodefesa.

Xiaohui, o protagonista da última história, vai mudando dum emprego opressivo para outro em Dongguan, uma cidade do sul da China, perto das zonas económicas especiais e de Macau e Hong Kong. Dongguan é conhecida por ser a fábrica do mundo, muitas multinacionais aí fabricam os seus produtos e a cidade atrai milhões de emigrantes das regiões mais pobres do interior da China. Dongguan é também conhecida como sendo a capital chinesa do sexo e parte desta história passa-se num bordel de luxo. Xiaohui não encontra esperança para uma vida melhor na cidade mais próspera e, em virtude de várias pressões sociais e pessoais, suicida-se.

Nos filmes anteriores de Jia os protagonistas também são personagens marginais que sofrem dificuldades. No entanto, são muito mais contidos, sofrendo em silêncio ou levando a cabo pequenos actos de rebeldia inofensivos, como o ladrão furtivo em “Xiao Wu” (1997), em contraste com “Um Toque de Pecado”, no qual a certa altura a raiva contida explode e é levada ao extremo.

Jia, tal como outros realizadores da chamada Sexta Geração de cineastas (à qual ele é considerado pertencer), tem produzido através dos seus filmes um cinema engagé que aborda problemas sociais actuais e retrata também as grandes transformações sócio-culturais e económicas que a China atravessa num estilo realista, as vezes próximo do documentário. Jia já tinha experimentado misturar documentário e ficção em “24 City” (2008) e “I Wish I knew” (2010). Em “24 City”, que documenta uma antiga fábrica de armamento prestes a ser demolida, Jia entrevista os antigos trabalhadores da fábrica e mistura esses diálogos com entrevistas ficcionadas protagonizadas por actores conhecidos. Neste filme, Jia ficciona vários acontecimentos reais e os protagonistas partilham mesmo um dos nomes próprios das personagens dos acontecimentos reais. A primeira história alude à revolta do mineiro Hu Wenhai que, em 2001, indignado com a corrupção em Wujinshan, sua aldeia, e depois de uma petição que dirigiu ao governo local não só não ter dado resultado mas ainda ter sido espancado com uma pá por causa dos seus protestos (tal como no filme), acabou por matar 14 pessoas envolvidas no caso. A terceira história refere-se ao caso de Deng Yujiao, uma pedicura de um hotel onde se praticava prostituição e que em 2009 foi esbofeteada com notas de dinheiro enquanto dois homens do governo local tentavam violá-la, acabando Deng por matar um dos agressores. Nesta história, também se alude ao desastre de comboio de alta velocidade de 2011, que nunca foi plenamente investigado, o que desencandeou protestos contra a censura. A quarta história refere-se à empresa taiwanesa Foxconn em cujas fábricas se têm suicidado todos os anos vários trabalhadores, tendo a Foxconn sido acusada de ser uma sweatshop onde os trabalhadores gozam de poucos direitos. Refere-se também a outros acontecimentos de que Lianrong, a prostituta da quarta história, e Xiaohui tomam conhecimento nas redes sociais da internet: uma funcionária do governo que tem em sua posse inúmeras bolsas Louis Vuitton e a explosão de uma mina (estando as minas chinesas entre as mais perigosas do mundo). Estes casos vieram à luz nos microblogues chineses onde muitas notícias que não aparecem na imprensa oficial são primeiro divulgadas, causando muita discussão, indignação e até protestos, sendo em alguns casos depois retomadas pela imprensa (Lianrong e Xiaohui interpretam os papeis dos activos cibernautas chineses que dão a conhecer e divulgam este tipo de notícias).

Os extractos de ópera presentes no filme têm a função de comentar as personagens e os acontecimentos. Um dos extractos do início do filme refere-se a história de Dahai. Trata-se de uma adaptação para ópera, de um dos grandes clássicos da literatura chinesa “A borda de Água” , atribuído a Shi Nai’an , um romance da dinastia Ming (1368-1644) sobre foras- da- lei que lutam contra a corrupção na corte dos Song, e que, por sua vez, também é baseado em acontecimentos reais. O romance chegou a ser banido durante certos períodos da história chinesa por incitar à rebelião. Neste excerto da ópera, Lin Chong, um dos 108 heróis, depois de sofrer injustiças nas mãos de ministros corruptos, decide juntar-se aos rebeldes do Monte Liang que, tal como o herói Dahai do filme, são homens íntegros que se opõem ao sistema. Enquanto Dahai se prepara para a sua guerra, a ópera elogia a determinação e a coragem de Lin Chong em pegar nas armas, sobrepondo-se aos dois heróis. Dahai é tão heróico como Lin Chong e os tempos actuais são tão corruptos como os de antigamente. A ópera que encerra o filme refere-se à história da cortesã Su San. Trata-se de uma ópera muito popular adaptada de um capítulo do livro “Histórias para Acordar o Mundo” de Feng Menglong, do final do período Ming que por sua vez se baseou numa história verdadeira. Parte do enredo da ópera passa-se na província de Shanxi onde começa e termina o filme (e donde é originário Jia Zhangke). Su San é vendida a um comerciante pela madame do bordel, sendo pouco depois injustamente acusada de ter envenenado o marido, que, na realidade, foi morto pela sua outra mulher e pelo amante desta. Os juízes que sabem quais os verdadeiros culpados do crime são subornados. Há paralelos com a história de Xiaoyu, tendo a ópera como subtexto a opressão das mulheres e a corrupção: tanto uma como outra são mulheres violentadas e acusadas de crimes pelos quais não são responsáveis (no caso de Xiaoyu o crime foi em autodefesa).

Jia referiu-se a “Um Toque de Pecado” como um filme de artes marciais contemporâneo. A linguagem estilizada em certas cenas, como a de Xiaoyu ao cometer o crime, presta homenagem a “A touch of Zen” (1975), daí o titulo em inglês: “A Touch of Sin”. “A touch of Zen” é um clássico do grande mestre do género, o realizador King Hu que trabalhava em Hong Kong e Taiwan, e cujo protagonista é também uma mulher. Jia pediu à actriz Zhao Tao que visse o filme inúmeras vezes de forma a capturar a calma e a postura da protagonista. Há também semelhanças temáticas: em primeiro lugar, a violência, mas também o facto de que, tal como neste filme, os filmes de artes marciais têm personagens itinerantes e solitárias que vivem à margem da sociedade. Também são injustiçados que defendem a sua honra, dedicando-se a uma rebelião ou pelo menos a uma certa resistência contra o sistema. O filme de artes marciais é um género apreciado por Jia Zhangke e que o realizador tem tencionado filmar há vários anos, tendo atrasado mais uma vez esse projecto para se dedicar a “Um Toque de Pecado”, tal era a urgência que sentia em fazer um filme sobre acontecimentes recentes inquietantes.

Tal como em alguns filmes de Jia, momentos surreais misturam-se com um registo realista. Neste filme, por exemplo, há uma estranha cena na qual Xiaoyu, fugindo da agressão orquestrada pela mulher do amante, se refugia numa tenda que se dedica a espectáculos com serpentes, e mais tarde uma serpente atravessa o seu caminho. Os vários animais e motifs religiosos sobre os quais a câmara se vai focando também contribuem para este ambiente surreal. Em entrevistas, Jia revela ter começado a preocupar-se com os direitos dos animais e que a violência toca tudo: as pessoas , os animais, e o ambiente que no filme aparece muito degradado. A iconografia religiosa, por outro lado, parece realçar, por contraste, o abismo moral.



A estreia de “Um Toque de Pecado” na China estava prevista para Novembro de 2013, mas ainda não aconteceu e não se sabe se ou quando poderá ser visto nos cinemas chineses. No entanto, o filme passou a censura, tendo Jia tido apenas que fazer algumas alterações antes de o filme ser autorizado, sendo essa a versão que estreou em Portugal. Mesmo depois de autorizado, é possível que mais alterações venham a ser exigidas antes de o filme poder ser legalmente distribuído na China, tal como já aconteceu com filmes de outros realizadores. Em todo o caso, tal como qualquer filme chinês por mais controverso que seja, muito rapidamente aparecem na China cópias piratas, e já estão a venda DVDs do filme no mercado chinês, permitindo ao reduzido público doméstico interessado neste tipo de cinema conhecer mais esta obra de Jia Zhangke.


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