Um ensaio etnográfico entre os Agentes Indígenas de Saúde no contexto da atenção diferenciada em saúde na aldeia Mapuera etnia Wai Wai: desafios e perspectivas



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Um ensaio etnográfico entre os Agentes Indígenas de Saúde no contexto da atenção diferenciada em saúde na aldeia Mapuera etnia Wai Wai: desafios e perspectivas

Davi Viana de Sousa¹

Isabela Vanessa Sampaio dos Reis¹

Petrônio Lauro Teixeira potiguar Júnior²



Resumo: O desenvolvimento de pesquisa no contexto da saúde indígena é de extrema complexidade por necessitar de observação e convivência com os atores sociais. Além disso, trata-se de uma temática pouco debatida na academia, em especial, no Oeste do Pará. Neste sentido, o objetivo desta pesquisa foi procurar saber de que forma os Agentes Indígena de Saúde- AIS concebem o processo de atenção diferencia de saúde na aldeia Mapuera etnia Wai Wai, no oeste paraense, fundamentalmente, quais os desafios que eles encontram neste contexto. Assim, a metodologia utilizada nesta pesquisa deu-se a partir de um ensaio etnográfico com observação participante e aplicação de um roteiro de entrevista entre os AIS e posterior análise de dados, cuja análise de conteúdo foi basilar. Este trabalho não ofereceu risco aos envolvidos na pesquisa e teve como direcionamento a autorização destes atores para todas as etapas que nele se desenvolveu. O benefício da pesquisa se materializa através, dentre outros aspectos, da socialização dos resultados da pesquisa e, principalmente, na composição de sugestões para a melhoria do atendimento diferenciado em saúde indígena na referida aldeia/etnia. A pesquisa apontou, entre outras questões, que a atenção diferenciada é percebida pelos AIS como uma interação culturalmente respeitosa entre os envolvidos no processo saúde-doença; ficou evidente também, que uma assistência diferenciada enfrenta importantes desafios em sua consolidação plena dentro da aldeia, como a falta de materiais básicos, a distância geográfica e o desconhecimento de métodos de cura tradicionais por parte dos AIS. A temática indígena necessita ser mais explorada, no que se refere a pesquisas sobre a realidade dos povos indígenas e ao interesse das entidades acadêmicas da região para a construção de uma assistência em saúde que seja, de fato, diferenciada.
Palavras-chave: saúde indígena, atenção diferenciada, agentes indígenas de saúde.


INTRODUÇÃO:
De acordo com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, a atenção diferenciada é definida como uma distinção na qualidade dos serviços, através de princípios de respeito à diversidade cultural dos povos indígenas, buscando ainda a incorporação de práticas terapêuticas tradicionais nos serviços de saúde destinados a atender estas populações.

A referida política, além conter estratégias de proteção à cultura e aos costumes no atendimento básico de saúde indígena, articula formas para melhor diagnosticar doenças ou qualquer tipo de manifestação no contexto saúde-doença, como a criação de um ator social para melhorar o atendimento básico, o Agente Indígena de Saúde (AIS). Em seu artigo, Diehl (op. cit., 2012) vê a institucionalização dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) juntos às Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) como uma das estratégias do subsistema de saúde indígena para atingir seus objetivos enquanto modelo de atenção diferenciada.

Neste sentido, nota-se nas literaturas a importância do papel do AIS na assistência diferenciada em saúde nas aldeias indígenas - baseada no princípio de respeito às particularidades desses- já que esse se torna o elo entre a Equipe Multidisciplinar de Saúde indígena (EMSI) e a aldeia, sendo assim, o principal responsável para que esse modelo de atenção se concretize.

No entanto, em sua pesquisa de dissertação de mestrado realizada com agentes indígenas do Alto Xingu, Novo (2008) afirma que essa posição de mediador em que os AIS se encontram é envolta de ambiguidades e conflitos, a começar pelas divergentes interpretações e definições a respeito do que seja a atenção diferenciada e do papel do AIS dentro das ações de saúde.

O atual momento, marcado por mudanças na transição da gestão na saúde indígena, passando a responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), do Ministério da Saúde, vem demandando a reflexão sobre os problemas que afetam o papel de articulador dos AIS, com vistas a evitar a perpetuação das indefinições que cercam a atuação desses profissionais (GARNELO et al, 2012: UEPA:2012).

Portanto, essas considerações embasam as propostas da pesquisa aqui revelada já que salientam a necessidade de um debate consistente sobre a regulamentação e a caracterização do trabalho dos AIS. Contata-se ainda, os poucos estudos realizados acerca da saúde indígena na região, o que dar margem à necessidade de se ampliar as pesquisas com esse público, já que as populações indígenas são, culturalmente e antropologicamente, parte da identidade da sociedade dessa região.

Diante da problemática, o objetivo geral deste estudo foi analisar a percepção dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) sobre a atenção diferenciada, assistida pelo Subsistema de Saúde indígena, executada na aldeia Mapuera1 pela equipe de enfermagem, bem como, sua atuação no referido contexto.

Para alimentar os objetivos gerais, embasaram-se como objetivos específicos identificar o entendimento dos AIS sobre o conceito e aplicação prática da assistência diferenciada na aldeia, relacionar os possíveis conflitos culturais existentes na relação entre os profissionais de enfermagem não índios e a população indígena vivenciada por eles a partir da prestação da assistência diferenciada, conhecer as dificuldades encontradas por esses profissionais indígenas na atuação como mediador das ações de saúde desenvolvida pela equipe de enfermagem, referentes ao processo comunicativo e seu papel no atendimento a saúde básica na região.



Desenvolvimento

Metodologia: A metodologia utilizada para sustentar essa pesquisa tratou-se de um “ensaio etnográfico” no local de atuação dos agentes indígenas de saúde, assumindo assim o caráter de pesquisa qualitativa descritiva.

A etnografia ou ensaio etnográfico, entendida como modalidade de pesquisa científica, primordialmente de caráter qualitativo, fundamenta-se, de acordo com Sousa (2008), na inserção do pesquisador em um campo diferente, do ponto de vista cultural, de seu próprio habitat durante determinado período de tempo, a depender da modalidade, onde etnografia demanda mais tempo de permanência no local a ser estudado do que o ensaio etnográfico.

O local de sua realização foi a Aldeia Mapuera de etnia Wai Wai localizada no território do município de Oriximiná, ao curso do médio-alto do rio Mapuera, a esquerda do rio que é afluente do Rio Trombetas. Chega-se a esta área somente por transportes fluviais, pequenas embarcações e aéreo através de aviões de pequeno porte.

Os sujeitos da pesquisa foram os agentes indígenas de saúde (AIS) que atuam na Aldeia Mapuera prestando serviços de atenção básica nesse território. A coleta de dados ocorreu através de uma entrevista semiestruturada, na qual tinha um roteiro com diversas perguntas abertas que se direcionavam ao tema proposto, cuja interpretação do material obtido se deu através da análise do conteúdo.

Os princípios éticos atenderam às exigências da Resolução 466/2012 e da Resolução nº 304/2000. Esta pesquisa obteve parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), além de autorização das lideranças indígenas, da Fundação Nacional do Índio – FUNAI.

Resultados e Discussão: A maioria dos agentes indígenas de saúde (AIS), seis dos sete que atuam dentro da aldeia, afirmaram que trabalham a cerca de 12 a 14 anos como agentes, tempo que corresponde ao período que se deu início ao reconhecimento da categoria profissional de AIS, através do Ministério da Saúde por recomendação da 2ª Conferencia Nacional de saúde indígena em 1993.

O questionamento acerca do que eles pensavam sobre a atenção diferenciada em saúde aplicada na aldeia, visava entender de que maneira se dá o processo de atendimento em saúde de forma a cumprir os princípios propostos pela PNASPI, pois para Novo (2008), o problema do modelo de atenção à saúde indígena parece residir na falta de definição a respeito do que seja “atenção diferenciada” e das formas possíveis de colocá-las em prática.

Diante da pergunta: “o que você pensa sobre a atenção diferenciada em saúde indígena desenvolvida pela equipe de enfermagem na aldeia Mapuera?”. 57,14% das respostas estiveram associadas à diferença cultural entre a equipe multidisciplinar e a comunidade e a preocupação por parte dos profissionais de saúde em respeitar a cultura e assim manter uma boa relação com os indígenas, conforme os trechos a seguir: AIS 1: “[...] Há respeito em relação à cultura. Povo não briga com branco, branco respeita também, eles continuam a cultura deles. A equipe fala para não perder [a comunidade] a língua materna, eles [a equipe] aprendem a língua. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS 4: Tem gente que respeita cultura indígena né, tem outras que, às vezes ,precisa de orientação aqui dos cacique né... A gente tem nossa cultura, tipo, diferente dos brancos né... E tem gente que às vezes não sabe né que a gente fica diferente da cidade, né. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Nas falas fica evidente a importância da liderança local, no caso, o cacique, para conciliar possíveis conflitos culturais que possam existir, uma vez que ele representa o mais alto cargo hierárquico na aldeia e, portanto, exerce poder de tomadas de decisões que influenciam em toda a aldeia e que também reflete no trabalho da equipe de saúde.

Em outras falas, observamos uma relação hierárquica evidente no pronunciamento “ela não tá ralhando com a gente”, onde os profissionais brancos são tidos como referências pelos AIS, isso é comprovado por Silveira (S/D) que diz que os AIS ocupam uma relação de inferioridade na equipe multidisciplinar.

Sobre a forma de tratar as doenças na aldeia, os AIS foram unanimes em considerar o método baseado no modelo biomédico levado pela EMSI como principal meio de tratamento, uma vez que, segundo eles, as práticas tradicionais de cura já são quase inexistentes entre os wai wai, conforme podemos constatar nos seguintes trechos:

AIS 5: “Nós tá acostumando a tomar remédio da farmácia né. Aqui não existe nossa tradicional medicamento porque avô já morreram não ensinando criança. Outras aldeias ainda sabem remédio caseiro, como tratar, mas a gente só conhece alguns, pra dor de barriga, pra diarreia, a gente procura no mato, tomando o chá, melhora né, não é muito. Agora a gente costuma só tomar remédio da farmácia mesmo. Povo acredita pouco no remédio caseiro porque não conhece muito, antigamente o velho sabia, mas não ensinou criança né.” (Pesquisa de campo: maio, 2014).

As falas dos AIS da etnia Wai Wai foram diferentes da que Novo (2008) observou nas aldeias do Alto Xingu, onde há um forte recurso às praticas e técnicas curativas nativas, através da utilização tanto de raízes, ervas e demais remédios e eméticos, ou mesmo do trabalho dos pajés. O mesmo foi observado por Silveira (2011) entre os Yanomamis em que o uso da farmacopeia nativa é comum e está distribuído de forma heterogênea nas comunidades, sendo os casos mais graves tratados com xamanismo e os pequenos mal-estares tratados com “remédios do mato” ou “do posto de saúde”.

Porém Mendonça (2004) observa que os índios, de maneira geral, têm mudado seu modo de vida de forma drástica nos últimos anos, seja pela limitação dos territórios, sedentarismo, diminuição dos recursos naturais; seja pela introdução de novos costumes, alimentação, remédios, mudanças na estrutura familiar, aumento do número de filhos, rompimento de tabus alimentares e ritos de passagem.

Isso nos leva a outro ponto, o fato grande parte dos AIS da Aldeia Mapuera desconhecerem os saberes tracionais de saúde, diferentemente do que Langdon (2006) encontrou nas terras indígenas Xapecó, onde a maior parte dos AIS afirmou ter conhecimento de práticas indígenas.

A principal razão para a perda das práticas tradicionais de cura foi a introdução de uma versão do cristianismo evangélico fundamentalista, a partir de 1950, pelos missionários norte-americanos da Unevangelized Fields Mission (UFM), que fundaram no Brasil a Missão Evangélica na Amazônia (MEVA), que levou ao abandono dos rituais de cura através da comunicação com os espíritos e do uso de ervas e por meios das práticas xamânicas, que perderam força frente aos medicamentos alopáticos que eram associados ao poder divino, tornando, assim, o cristianismo como a nova via de controle das potências sobrenaturais. (OLIVEIRA, 2010).

A conversão dos wai wai ao cristianismo evangélico resultou na extinção dos pajés (xamãs) da aldeia Mapuera, que passaram a exercer a função de pastores nas igrejas evangélicas locais. No relato seguinte, fica evidente a relação da conversão dos pajés e lideranças com o abandono da terapêutica tradicional:

AIS 6: Agora quase já acabou esse [tratamento tradicional]... Antigamente tinha pajé, agora mudou, não tem mais pajé. Antigamente tinha remédio caseiro, tomavam remédio da casca de pau, pra qualquer doente. Agora é difícil. Acabam acostumando com remédio da cidade. Acabou também pajé pra curar paciente, mudou pra virar como branco, pra ficar “crente”. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Diante desse contexto, é evidente o desconhecimento, pela população da aldeia, do sistema tradicional de cura, praticado pelos pajés, raizeiros, rezadores , o que implica a relação da assistência de saúde constitui-se de uma via de mão única, em que prevalece o modelo biomédico sobre os recursos curativos próprios da aldeia, não havendo articulação de saberes e práticas no processo saúde-doença, contrariando o que dita a PNASPI (2012).

Dentre as dificuldades apresentadas pelos AIS, as mais elencadas estão relacionadas com a falta de insumos, como medicamentos e combustível para o transporte de pacientes, como podemos confirmar nas declarações seguintes:

AIS 2: “ Falta de combustível... que dificulta o atendimento nas outras comunidades”. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS 3: “Falta de combustível para subir em cada aldeia para transportar paciente.” (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS 6: “A equipe está aqui mas não tem remédio para algumas doenças. Não mandam remédio, não tem como trabalhar direito, a enfermeira passa receita, mas não tem remédio.” (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Essas dificuldades, ouvidas durante nossa visita à aldeia, corroboram com a análise de Novo (2008) que ouviu a mesma queixa dos AIS que estudou, onde a falta de materiais e recursos para atendimentos e encaminhamentos aparenta ser um descaso dos órgãos responsáveis pela gestão da saúde indígena, e que acaba interferindo na atuação dos AIS, apesar dos altos investimentos em medicamentos e insumos relatos pela FUNASA (2009), onde um dos maiores resultados foi a otimização dos mecanismos de controle e de acompanhamento dos contratos para aquisição de combustíveis utilizados pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI).

Em algumas falas também se comprova a falta de recursos como impacto na atuação dos AIS, como queixam eles ao se perguntar quais desafios eles enfrentavam para exercerem seus papéis como agentes indígenas de saúde:

AIS 4: Dificuldade sempre a gente né, por que às vezes a gente não sabe como escrever, e nisso que a gente tem bastante dificuldade né, mas a gente tira dúvida com a enfermeira e a gente consegue fazer mais papel de AIS. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS 5: Nossa dificuldade é papel de agente de saúde né, tá precisando rede para peso da criança, tá faltando aqui na aldeia material de agente de saúde. Nós também “tamo” precisando de material para orientar povo, pra fazer palestra... Agora nós queremos a bolsa de agente de saúde, a farda. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Levando em consideração a importância da comunicação entre toda a equipe de saúde, o que inclui os agentes indígenas, estes profissionais esbarram em algumas dificuldades para se comunicar com o restante da EMSI, que foram citadas em alguns depoimentos diante da seguinte pergunta: “Que tipo de dificuldade você encontra no que diz respeito à comunicação com o restante da equipe de saúde?”:

AIS 5: Eu tenho primeiro dificuldade de falar português, aí eu aprendi, estudei, agora “tô” falando pouquinho, mas entendo como branco fala, a equipe também não fala a língua wai wai né... eu ajudando na interpretação na consulta. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS 7: Eu na acho muita dificuldade com a enfermeira, As vezes a gente tem sim porque a nossa língua é diferenciada né e quem não fala bem português tem dificuldade. Mas a gente fala bem com a enfermeira. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Sobre essa dificuldade em comunicação, Amazonas e Aciole (2011) encontraram os mesmos resultados quando pesquisaram em terras indígenas Wai Wai, onde ao mesmo tempo em que ressalta a importância do AIS no processo de articulação e transmissão de informações no momento do atendimento básico de saúde, evidencia a preocupante dificuldade relacionada à comunicação, pois todos os entrevistados de sua pesquisa relataram “dificuldade com língua”, principalmente relacionada à tradução feita pelos AIS, sobre a qual diz que nem sempre é fidedigna.

Pudemos conferir também que a função de AIS vai além de uma responsabilidade meramente profissional, pois acaba tomando um sentido mais amplo, uma vez que para eles é uma oportunidade de ajudar os indígenas na sua comunidade a ter uma saúde melhor e tem um papel representativo diante do seu povo. Como podemos constatar nos seguintes depoimentos:



AIS 5: Pra mim, to ajudando a saúde do meu povo né. Porque sempre eu trabalhando com enfermeira, ajudando, respeitando ela também... qualquer coisa meus povo chateado com enfermeira porque eles não entendem... (Pesquisa de campo: maio, 2014).

AIS7: Eu acho bem isso pra ajudar meus parentes, quando eu faço interpretação da enfermeira pra paciente. Ajudo meus parentes, meu povo né. (Pesquisa de campo: maio, 2014).

Esses argumentos corroboram com o pensamento dos AIS estudados por Novo (2009) nas aldeias do Alto Xingu, os quais consideraram essa função como um “sonho”, pois sua importância perpassa pela perspectiva de “fazer saúde” para sua aldeia.



Foto 01: AIS atuando como intérprete durante a consulta de enfermagem (Fonte: Pesquisa de campo, 2014)

28,58% dos entrevistados relataram necessitar de mais capacitações, desejam mais treinamentos para AIS para aumentar suas funções. Segundo a FUNASA (2008), tanto a supervisão quanto os treinamentos sobre os determinantes do processo saúde-doença são essenciais para o êxito da atuação dos AIS.

Considerações transitórias:

A partir dos resultados apreendidos das entrevistas e analisados, pôde-se perceber que o papel do AIS no contexto estudado ainda está muito ligado a uma relação hierárquica, onde o AIS assume apenas o papel de reprodutor de tarefas organizadas pela equipe.

Na visão dos AIS da Aldeia Mapuera, a atenção diferenciada perpassa pelo respeito cultural, esse é o primeiro passo para o êxito de uma assistência que leve em consideração as particularidades de etnias indígenas.

Na aldeia estudada, verificou-se a ampla predominância do tratamento medicamentoso convencional sobre o tratamento tradicional nativo da aldeia, fato que está relacionado não somente com a supervalorização da terapêutica biomédica, mas também se alia com a mudança da estrutura religiosa da aldeia, que passou a discriminar as práticas de cura nativas.

A atuação do AIS como intérprete também se faz como um campo amplo a ser explorado e debatido, tendo em consideração sua importância no momento das consultas e de toda as ações em saúde desenvolvidas pela equipe multidisciplinar, onde eles veem não só como parte de seu compromisso profissional, mas como uma maneira de “ajudar o povo” da sua comunidade e também fortalecer seus laços com seus “parentes”. O papel do agente indígena como intérprete é sim uma importante estratégia diferenciada em saúde, fazendo com que eles participem do processo-saúde doença que envolve sua comunidade.

As contínuas capacitações e treinamentos dos AIS, acompanhados de intensa supervisão, são, sem dúvida, uma importante ferramenta para a melhoria do atendimento e da atuação desses profissionais indígenas, que devem reconhecer a importância de seu papel no plano assistencial de saúde indígena, no que tange à atenção primária, sendo que a metodologia desses cursos devem considerar as especificidades e realidades locais de cada etnia.



Referências

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1 Aldeia localizada no território do município de Oriximiná, ao curso do médio-alto do rio Mapuera, a esquerda do rio que é afluente do Rio Trombetas.


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