Trabalho de Deus



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Encontro14.09.2017
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Goldman Sachs

O banco que faz o “trabalho de Deus”

Alimentou a máquina do subprime, ajudou a manipular as contas da Grécia, mas continua a dirigir o mundo. Num livro agora editado em Portugal, o jornalista belga Marc Roche desvenda os bastidores do gigante, numa altura em que a sua rede de influência na Europa parece estar mais forte do que nunca



Público 2012-maio 31, Economia Ana Rita Faria

Está em todo o lado: na maré negra do golfo do México, na bolha da Internet, na falência do Lehman Brothers, na manipulação das contas gregas e na crise do euro.

O português António Borges, os italianos Mario Draghi e Mario Monti e o norte-americano Henry Paulson são apenas alguns dos nomes da sua vasta rede de influências.

Na “franco-maçonaria” que é o Goldman Sachs (GS) só entram os melhores. A agressividade e o puritanismo são as regras de ouro num mundo onde se trabalha em equipa e 24 horas por dia.

Ninguém envelhece no banco americano. Antes disso, saltam para os corredores do poder político e das organizações internacionais.

Num mundo povoado de “ex-Goldmans”, o grande banco gira habilmente a roleta do casino. Reina sobre a finança mundial. “Eu faço o trabalho de Deus”, ironizou um dia Lloyd Blankfein, o presidente executivo do Goldman Sachs. Agora, em cerca de 200 páginas, o jornalista de economia belga Marc Roche explica como é que o banco americano se tornou omnipresente e, tantas vezes, omnipotente. O seu livro “O Banco: Como o Goldman Sachs Dirige o Mundo” acaba de ser lançado em Portugal. E tem logo um aperitivo nacional nas primeiras páginas: as ligações de António Borges ao banco americano.

Marc Roche escreve que o atual consultor do Governo para as privatizações, parcerias público-privadas e banca terá deixado o cargo de diretor europeu do FMI não por “razões pessoais”, segundo reza a versão oficial, mas devido às suas ligações ao GS. António Borges foi durante oito anos (entre 2000 e 2008) um dos dirigentes do Goldman Sachs International, a filial europeia do banco americano.

Para Marc Roche, o Goldman poderá ter interesse em ter um dos seus “ex-alunos” ligado às privatizações portuguesas e, consequentemente, retirar algum proveito daí enquanto assessor financeiro. “É óbvio que Portugal não é um grande mercado para o GS, mas fi ca no CV do banco e é, sobretudo, uma boa publicidade, depois de ter estado ligado à manipulação das contas gregas”, explicou o autor em entrevista ao PÚBLICO.

Mas António Borges é apenas um dos nomes de uma extensa rede de influências. Na Europa, o banco não perde tempo com diplomatas, antigos primeiros-ministros ou ministros das Finanças. O alvo são ex-comissários europeus e antigos banqueiros centrais. E, olhando para a lista de intermediários, “o GS nunca esteve tão forte”, considera Marc Roche. Apesar das crescentes imposições de regulação do sistema financeiro nos EUA e na Europa.

Apesar de algumas limitações nos bónus dos banqueiros. Apesar de a má imagem que o banco deixou na opinião pública ter sido identificada como “um novo fator de risco” nos negócios no relatório anual do grupo.

Mario Draghi, um dos ex-vicepresidentes europeus do banco (e responsável pelo departamento que, pouco antes da sua chegada, tinha ajudado a Grécia a maquilhar as contas), é presidente do Banco Central Europeu (BCE). Mario Monti foi conselheiro do GS até se tornar primeiro-ministro de Itália, abrindo as portas da Europa ao banco. Entre os nomes associados ao GS está ainda Otmar Issing (antigo economista-chefe do BCE e ex-membro do banco central alemão) e Peter Sutherland (antigo comissário europeu da Concorrência que teve um papel importante no resgate à Irlanda).

Qual sociedade secreta, os ex-membros do GS têm por regra omitir que trabalharam no banco, mas mantêm-se em contacto depois de saírem. A cultura do trabalho em equipa é, aliás, uma das traves-mestras do sucesso do Goldman. Num banco que é simultaneamente consultor de empresas e governos, faz trading de matérias-primas e taxas de juro, opera no mercado cambial e dos derivados e gere fundos de investimento, a informação é o bem mais valioso. Circula de departamento em departamento. Potencia negócios. E também conflitos de interesses.

A isso junta-se um rigoroso processo de recrutamento (os candidatos têm de passar por 20 a 30 entrevistas de selecção) e uma rigorosa “dieta” de trabalho. “Não há outro banco onde se sacrifique assim a vida pessoal”, conta o correspondente do jornal francês Le Monde em Londres há mais de 20 anos. As férias sem telemóvel e email são malvistas, as ligações extraconjugais afastam pretensões de ascensão. A própria alimentação é controlada. Fora das paredes do banco, reina o secretismo.

Mas não é só a cultura do GS que justifica o seu sucesso e poder. “Os governos são fracos e, por isso, ficam fascinados pelo Goldman”, resume Marc Roche. A relação de poderes está desequilibrada, avisa o jornalista, mas não há aqui “um plano pré-concebido pelo Goldman para dominar o mundo” ou “uma teoria da conspiração”. Não é o poder que motiva o banco e sim os lucros.

O primeiro serve para chegar ao segundo. Foi isso que conduziu o GS à Grécia. Foi isso que o levou a negligenciar a maré negra do golfo do México. Foi isso que o levou a enganar os seus próprios clientes na crise do subprime. Três episódios reveladores do poder do banco.
A incendiária grega

Em 1999, quando se decide a criação do euro, a Grécia não pode aderir à moeda única. Infringe dois critérios do tratado de Maastricht: dívida pública inferior a 60% do produto interno bruto (PIB) e défice abaixo dos 3% do PIB. É então que o Governo grego pede ajuda ao Goldman Sachs. Antigone Loudiadis, de origem grega e uma das especialistas em produtos financeiros complexos no Goldman Sachs International em Londres, desencanta um esquema financeiro que colocará a Grécia dentro dos critérios europeus. E que, nove anos mais tarde, ajudará a desencadear uma crise ainda sem fi m à vista em toda a zona euro.


O jogo do crude

Pior: depois de receber dinheiro da Grécia como consultor do Governo, o banco irá especular sobre a dívida do país e do euro e pôr mesmo em marcha a sua rede de influências para tentar contrariar uma operação de resgate a Atenas, que lhe estragaria o negócio.

Mas o rol de conflitos de interesse em que o Goldman se tem visto envolvido é bem mais extenso. O caso da petrolífera britânica BP é um deles. Uma semana depois do derrame de crude no golfo do México, em Abril de 2010, e perante a queda a pique da cotação da empresa, os analistas do GS continuam a recomendar a compra de ações da BP.

Na origem do otimismo estão vários cordões umbilicais: um deles é Peter Sutherland (que presidia à BP e dirigia também a filial europeia do GS); o outro é Lorde Browne, na altura director-geral da BP e com assento no conselho de administração da petrolífera. Foi, aliás, a filosofia “goldmaniana” deste último que levou a empresa a apostar fortemente na atividade de mercados. O contraponto foi uma política de redução de custos que fragilizou as questões da segurança e lançou “as premissas da catástrofe futura” — o derrame no golfo do México.


Fintar a crise

O episódio mais revelador do poder do Goldman Sachs parece ser, contudo, a forma como escapou praticamente incólume à crise financeira de 2008-2009. À custa de dois gigantes: a AIG e o Lehman Brothers.

Apesar de ser o banco consultor da seguradora, o GS apostou contra ela logo a partir de 2007. Em 2008, dá um último abalo à confiança dos mercados na AIG, pondo em dúvida a sua solvabilidade. Mas é apanhado na própria armadilha.

Com os investidores receosos do impacto que uma falência da AIG teria no banco, Lloyd Blankfein recorre a um antigo “goldmaniano”: o secretário do Tesouro Henry Paulson.



O resultado é conhecido: o Governo americano acaba por salvar a AIG e assegurar que esta pagará aos seus credores, entre os quais o GS. O mesmo não acontecerá com o Lehman Brothers. O presidente do Goldman faz parte do grupo de banqueiros que se reúnem para decidir o destino daquele banco.

É de opinião que se deve deixar cair. Sem bancos interessados em ficar com o Lehman, Paulson decreta a falência do banco. Menos um concorrente para o Goldman Sachs. Mais terreno livre para estender o seu império.


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