Todo mundo sabe que a democracia ocupou um papel importante na Doutrina Bush. O que nem todo mundo sabe é que esse papel foi indispensável para que a doutrina pudesse ser colocada em prática no Afeganistão e no Iraque



Baixar 9,93 Kb.
Encontro23.08.2017
Tamanho9,93 Kb.
Todo mundo sabe que a democracia ocupou um papel importante na Doutrina Bush. O que nem todo mundo sabe é que esse papel foi indispensável para que a doutrina pudesse ser colocada em prática no Afeganistão e no Iraque. Se o terrorismo era o alvo e a guerra preemptiva unilateral o foguete, então a democracia foi o combustível. Este é o argumento do artigo que estamos propondo. Para demonstrá-lo recorreremos à análise sistemática das relações entre democracia, segurança e os interesses nacionais americanos; bem como ao exame das crenças americanas na universalidade dos valores democráticos, na relação direta entre democracia e segurança, e na responsabilidade americana de liderar a democratização do mundo – pilares da política externa americana no pós-Guerra Fria. Será dado destaque à convicção da administração Bush nos efeitos positivos da exportação de democracia pelo uso da força para o Afeganistão e para o Iraque. Finalmente, será mostrado que, entre as justificativas para as intervenções militares nos dois países, a promoção de democracia prevaleceu sobre outros objetivos de curto prazo, tais como a destruição de bases da Al Qaeda, a remoção de Saddam Hussein do poder, ou a busca por armas de destruição em massa. Este trabalho utilizará analise de conteúdo qualitativa e quantitativa dos discursos do Presidente Bush e de seus Secretários de Estado e de Defesa.

George W. Bush foi o presidente do período pós-Guerra Fria que mais explicitamente fez uso do meio mais radical de exportação de democracia: o uso da força. É claro que existiram outras intervenções militares americanas no pós-Guerra Fria, mas em nenhuma delas o objetivo primário era exportar democracia para os países-alvo. Isso aconteceu porque a maneira definitiva identificada por Bush para acabar com o terrorismo era a democracia. Será argumentado que mesmo uma doutrina de política externa tão agressiva e radical como a de Bush é totalmente compatível com a Tradição Liberal Americana e com seus correspondentes princípios que podem ser identificados nas doutrinas de política externa dos presidentes do pós-Guerra Fria.

Logo depois dos atentados terroristas do 11 de setembro, a administração Bush começou a definir a segurança americana em termos de sua capacidade de influenciar sociedades e estruturas políticas domésticas de outros países. A exportação de democracia foi elevada à categoria de princípio definidor da doutrina de política externa e, como demonstrado pela guerras no Afeganistão e no Iraque, se tornou uma parte importante da resposta americana à ameaça terrorista. De fato, o Presidente Bush proclamou diversas vezes em seus discursos pós-11 de setembro que a prioridade de sua administração era combater o terrorismo e que regimes autoritários financiavam e serviam de refúgios para terroristas. Isso significava que um Afeganistão e um Iraque democráticos tornariam não apenas os Estados Unidos, mas o mundo todo, mais seguros. Esta retórica foi iniciada em seu primeiro discurso ao Congresso após os atentados terroristas no dia 20 de setembro de 2001 e persistiu durante seus dois mandatos, até seu último ano de governo, em 2008.

Esta conexão entre terrorismo e regimes autoritários é um ponto crucial da Doutrina Bush, que prevê, como conseqüência, a construção da democracia como ferramenta indispensável para se vencer a Guerra contra o Terrorismo. E se as operações militares no Afeganistão podem ser consideradas um consenso tácito entre os demais membros da comunidade internacional, o mesmo não se pode dizer da invasão do Iraque. “A ameaça vem do Iraque”, disse Bush em seu discurso à nação sobre o Iraque em 7 de outubro de 2002. Durante todo o ano de 2002 e início de 2003, Bush se dedicou a preparar o povo americano para a próxima invasão a outro rogue state. Ele falou várias vezes ao Congresso e à Nação, garantindo que Saddam Hussein não apenas abrigava e financiava grupos terroristas, como possuía e produzia armas de destruição em massa. Ele insistia que o regime iraquiano violava suas obrigações perante a comunidade internacional desde a Guerra do Golfo, desafiava as resoluções do Conselho de Segurança da ONU que ordenavam o desarmamento iraquiano, ameaçava os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, e continuava a ameaçar o mundo e os Estados Unidos.

Seguiu-se um período de grande pressão americana para que a ONU reagisse ao perigo posto por Saddam Hussein. Colin Powell acompanhava de perto todas as resoluções sobre o tema e requisitava aprovação para uma operação militar multilateral e preemptiva. O governo Bush, no entanto, estava disposto a agir mesmo sem tal aprovação. A ação unilateral e a preempção, quando necessárias, eram elementos importantes da Doutrina Bush. Elas foram amplamente utilizadas no caso do Iraque. Neste momento, a existência de armas de destruição em massa e o medo de que elas poderiam chegar às mãos de terroristas se tornaram justificativas determinantes para as intervenções militares. Quando ficou claro que essas armas não existiam, Bush e Powell insistiram que, diante das evidencias disponíveis naquele primeiro momento, a decisão de invadir o Iraque era a correta.

Quando Condoleezza Rice assume o Departamento de Estado, a armas de destruição em massa não são mais a principal preocupação americana. Tampouco é preciso defender a escolha pela ação unilateral e preemptiva. Ela se focou na condução da Guerra ao Terrorismo, o que exigia não apenas a vitória militar, mas a construção de regimes democráticos nos rogue states. Rice se juntou a Bush para reforçar a importância da democracia como arma fundamental para combater o terrorismo. Esta é a parte mais importante da Doutrina Bush. Em uma análise de conteúdo dos discursos do Presidente Bush e seus secretários de Estado e Defesa, dentre as justificativas anunciadas para as intervenções militares no Afeganistão e no Iraque, duas se destacam e são usadas na mesma proporção (20%): terrorismo e democracia. Estes resultados confirmam o argumento do artigo: as intervenções militares são lançadas de maneira radical e preemptiva para combater o terrorismo e para promover democracia, sendo a última o único antídoto definitivo para o primeiro. Estas são as justificativas importantes. Armas de destruição em massa podem ser reais ou não.



Ao eleger a promoção de democracia como arma central para combater o terrorismo, Bush entrelaça sua política externa à política de defesa. O objetivo era construir, pela força, um ambiente democrático e, portanto, mais seguro e mais próspero para os Estados Unidos.


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal