Teor de lactose em leites uht que declaram ser zero lactose



Baixar 0,59 Mb.
Página4/4
Encontro28.10.2017
Tamanho0,59 Mb.
1   2   3   4

Fonte: Elaborada pelos autores

A vantagem desse método reside no fato de que a reação se processa à temperatura relativamente baixa, numa faixa que pode variar de 4ºC a 40ºC, sendo a temperatura ótima de 30ºC a 40ºC, permitindo uma maior economia energética, além de não se formarem produtos colaterais, tais como o a desnaturação de proteínas, reações de escurecimento que ocorrem no processo ácido. O processo se resume em deixar o leite em repouso para sofrer ação da enzima lactase, por um período de três a quatro horas, em temperatura ambiente. Assim, a lactase quebra a lactose em dois componentes: glicose e galactose. (AMARAL, 2016; FAEDO et al., 2013)

A glicose, por ter um princípio sensorial de ser mais doce que a lactose, altera o sabor do leite, deixando-o com um gosto mais adocicado, porém não há adição de açúcar (sacarose) ao produto. O leite com zero teor de lactose não tem nenhuma perda de nutrientes. Ele apresenta o mesmo valor calórico, fornecimento de nutrientes, aminoácidos e vitaminas essenciais. No entanto, o leite submetido ao processo de hidrólise, pode ainda apresentar até 1% de lactose. Sendo assim, a lactose não é retirada do leite, e sim quebrada, fazendo o processo que o organismo não consegue fazer. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, 2013)

É provável que esse residual de lactose que pode estar presente no leite UHT, declarado zero lactose, venha a desencadear sintomas indesejáveis nas pessoas que apresentam hipolactasia.

As pessoas que apresentam hipolactasia devem ingerir alimentos que contenham cálcio, já que o não consumo do leite e de lácteos podem desencadear carências nutricionais com impacto na saúde, como a hipocalcemia. A falta de ingestão desse nutriente pode ocasionar também um efeito negativo no aporte nutricional, sobretudo na fase de crescimento da infância para adolescência e na fase adulta podendo ocasionar a osteoporose. (Centro de Nutrição e Alimentação Mimosa, 2016)

Barbosa (2011) considera que mais de 50% dos adultos no mundo são intolerantes à lactose, fato esse que motivou a realização de uma investigação experimental sobre o possível teor de lactose que pode estar presente em leites UHT declarados comercialmente como “zero lactose”, visto que há grande demanda de pessoas que possuem intolerância à lactose e que devem consumir produtos com restrição da mesma.

A única garantia que o consumidor com hipolactasia tem de que o leite está deslactosado é a informação declarada pelo fabricante na embalagem, porém se essa informação não for verídica, a pessoa com intolerância irá desencadear os sintomas da má digestão de lactose, como dor abdominal, distensão intestinal flatulência, diarreia dentre outros.

De acordo com a Lei nº 13.305, de 4 de julho de 2016:
Art. 1º O Decreto-Lei nº 986, de 21 de outubro de 1969, passa a vigorar acrescido do seguinte art. 19-A: 

"Art. 19-A. Os rótulos de alimentos que contenham lactose deverão indicar a presença da substância, conforme as disposições do regulamento. Parágrafo único. Os rótulos de alimentos cujo teor original de lactose tenha sido alterado deverão informar o teor de lactose remanescente, conforme as disposições do regulamento." (BRASIL, 2016, seção 1)


Apesar de atualmente os produtos lácteos sem lactose serem uma parte pequena no mercado, os mesmos vêm com o propósito de suprir as carências nutricionais de indivíduos que não podem consumir leite com a presença de lactose.

Com base nas pesquisas, o presente artigo tem o objetivo de avaliar a fidedignidade das informações sobre o teor de lactose em leites UHT declarados "zero lactose" comercializados nos principais supermercados do munícipio de Lins/SP, bem como, quantificar, tabelar e discutir os teores de lactose obtidos nos resultados seguindo a Instrução Normativa (IN) nº 68 de 12 dezembro de 2006 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).




  1. Metodologia

No plano de amostragem foram selecionadas, nos meses de abril, junho e julho do corrente ano, quatro marcas de leites UHT declarados "zero lactose", comercializados comumente nos principais supermercados localizados no município de Lins/SP, sendo designadas neste trabalho como A, B, C e D.

As amostras foram encaminhadas para análises quantitativas, para o Laboratório de Análises Químicas, Microbiológicas e Controle Industrial (LACI) localizado no campus da Fundação Paulista de Tecnologia e Educação (FPTE) em Lins, SP.

Entre os métodos quantitativos disponíveis para a determinação de lactose, neste trabalho utilizou-se o método titulométrico de glicídios redutores em lactose e glicídios não redutores em sacarose (Cloramina-T), que fundamenta-se na quantidade de iodo liberado por uma amostra adicionada de cloramina- T e iodeto de potássio para controle de qualidade do leite e produtos lácteos de acordo com a IN n°68, de 12 de dezembro de 2006, estabelecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). (BRASIL, 2006) (Souza, 2011)

Após o recebimento dos laudos com os resultados das análises, os mesmos foram utilizados para confrontar as informações fornecidas pelos fabricantes nas embalagens em relação ao teor de lactose.


  1. Resultados e Discussões

Na tabela 1 apresentam-se os resultados obtidos a partir da análise de glicídios redutores em lactose e glicídios não redutores em sacarose (Cloramina –T) nas amostras de leite UHT analisadas, que declaram ser “zero lactose”.


Tabela 1: Expressão dos resultados de determinação do teor de lactose em leite UHT

Amostras de leite UHT

Teor de lactose na amostra (%)

(20/04/2016)

Teor de lactose na amostra (%)

(07/07/2016)

Teor de lactose na amostra (%)

(23/09/2016)


Média (%)


A

ND*

0,86

ND

0,29%

B

ND

0,57

ND

0,19%

C

ND

0,57

ND

0,19%

D

ND

0,85

ND

0,28%

Fonte: Elaborada pelos autores

*ND: não detectado
Observou-se que no período de 20/04/2016 e 23/09/2016 não foi detectada a presença de lactose nos leites UHT analisados, estando os mesmos de acordo com a Lei nº 13.305, de 4 de julho de 2016, sancionada pelo presidente em exercício Michel Temer, que altera o Decreto-Lei nº 986, de 21 de outubro de 1969, que institui normas básicas sobre alimentos, que tem a intenção de deixar transparente à sociedade não somente a presença da lactose, mas, também, na hipótese de alteração do teor original da substância, seu remanescente, assim as pessoas com hipolactasia não desencadearão os sintomas são desagradáveis, já descritos.

Nota-se que no mês de julho todas as amostras analisadas, apresentaram valores consideráveis de lactose, porém nas embalagens a informação é a de que o leite apresenta 0% desse açúcar, o que sugere ao consumidor que naquele produto não há nenhum traço sequer de lactose.

A Lei nº 13.305/2016 promulgada em 04 de julho do corrente ano e a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 26, de 02 de julho de 2015 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) declaram em seu escopo que os rótulos de alimentos que contenham lactose e os que alteraram o seu teor original devem indicar a presença da substância ou o teor remanescente desse carboidrato, assim sendo, consumidores tem o direito de ser informado sobre o teor de lactose no leite ou em qualquer outro produto alimentício, e até mesmo antes, de ter natureza de comando normativo, o direito de ser informado tem um caráter ético, que deveria ser declarado voluntariamente pelo fabricante em relação a todo e qualquer produto que tenha, em sua composição, lactose assegurando aos cidadãos dados claros e precisos sobre o que ele consome. Se o produto consumido apresenta algum tipo de risco à saúde, é direito do cidadão ser informado, sendo essa obrigação do Estado e das empresas, independentemente de lei que assim determine, portanto, essas empresas estão lesando as pessoas com hipolactasia com informações confusas.

A concentração de lactose no leite in natura é de aproximadamente 5% (4,7 a 5,2%), porém, diversos fornecedores de lactase industrial afirmam que se a deslactosação for realizada seguindo os processos industrias recomendados o produto final deverá apresentar 0% desse carboidrato, o que talvez não seja verídico.



A Anvisa, abriu em 29/09 uma consulta pública sobre declaração obrigatória de lactose nos rótulos dos alimentos e a classificação desses alimentos, com a proposição de que os alimentos classificados “Isentos de lactose” sejam aqueles que contêm quantidade de lactose igual ou menor a 10 (dez) miligramas por 100 (cem) gramas ou mililitros do alimento pronto para o consumo, de acordo com as instruções de preparo do fabricante. Esses devem trazer a declaração “isento de lactose”, “zero lactose”, “0% lactose”, “sem lactose” ou “não contém lactose”, próxima à denominação de venda do alimento. Os produtos classificados como “Baixo teor de lactose” serão aqueles que contêm quantidade de lactose maior que 10 (dez) miligramas por 100 (cem) gramas ou mililitros do alimento pronto para o consumo. Devem trazer a declaração “baixo teor de lactose” ou “baixo em lactose”, próxima à denominação de venda do alimento. 

Diante dessas novas propostas que em breve devem entrar em vigor, os teores encontrados nas amostras em julho, atendem os valores máximos permitidos podendo ser declarados como “zero lactose”.



Considerações Finais

Pesquisadores americanos afirmam que a tolerabilidade diária de lactose em indivíduos jovens e adultos, com lactase não persistente, pode chegar até 12g (quantidade equivalente a encontrada em um copo de leite) e que é até mesmo possível uma tolerância de quantidades maiores de lactose, desde que o consumo seja realizado com outros alimentos e distribuído ao longo do dia. Verificaram também, que geralmente nas pessoas com hipolactasia as manifestações de intolerância a lactose surgem quando atingido o consumo limite de 50g de lactose diária. (WILT et al., 2010a; WOOTEN, 2010; NATIONAL DAIRY COUNCIL, 2008).



Vale aqui ressaltar que o mais importante é a preservação dos direitos dos consumidores, que devem ser esclarecidos para que possam agir com liberdade quando da escolha de produtos que atendam às suas necessidades nutricionais e que não comprometam a sua saúde, assim como, os fabricantes de leite ou de qualquer outro produto alimentício não devem apresentar informações nutricionais falsas, enganosas ou confusas, em letras miúdas, com vocabulário técnico incompreensível em seus rótulos, ou em qualquer meio de comunicação transmitido de forma oral ou escrita sobre os alimentos comercializados prontos para a oferta ao consumidor.


Referências Bibliográficas



ALMEIDA, Karina Nascimento de. Elaboração de bebida isotônica a partir de permeado de soro com lactose hidrolisada. 2014. 63 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2014. Disponível em: . Acesso em: 18 out. 2016.

AMARAL, Jaqueline Lopes. Produtos "sem lactose". 2016. Tecnologia Láctea. Disponível em: . Acesso em: 05 jul. 2016.
BARBOSA, Cristiane Rickli; ANDREAZZI, Marcia Aparecida. Intolerância à Lactose e suas Consequências no Metabolismo do Cálcio. Saúde e Pesquisa, Maringá, v. 1, n. 4, p.81-86, jan. 2011. Mensal. Disponível em . Acesso em: 20 ago. 2016.

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Constituição (2016). Rotulagem de Lactose nos Alimentos nº 13.305, de 04 de julho de 2016. Lei Nº 13.305, de 4 de Julho de 2016. 1. ed. Seção 1. Disponível em: . Acesso em: 31 out. 2016.
BRASIL, Ministério da Agricultura. Secretária de Defesa Agropecuária. Métodos analíticos físico-químicos para controle de leite e produtos lácteos. Instrução Normativa(IN) nº68 de 12 de Dezembro de 2006.

Brasília: Ministério da Agricultura, 2006.
Centro de Nutrição e Alimentação Mimosa. CNAM. INTOLERÂNCIA À LACTOSE. Disponível em: . Acesso em: 22 mai. 2016.
CARNEIRO, Isadora Franco Cardozo. Desenvolvimento de filme proteico reutilizável para hidrólise de lactose em leite. 2015. 11 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Programa de Pós-graduação Stricto Sensu Mestrado em Ciência e Tecnologia do Leite, Universidade Norte do Paraná, Unopar, Londrina, 2015. Cap. 2. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2016.
CASAGRANDE, Marielen; PISTORELLO, Raquel Isoton; BISI, Bernadete. Intolerância a lactose. 2014. 1 f. TCC (Graduação) - Curso de Ciência da Saúde, Instituto Federal do Rio Grande do Sul- If, Caxias do Sul, 2014. Cap. 3. Disponível: < https://periodicos.ifrs.edu.br/index.php/MostraIFTec/article/view/1030/922>. Acesso: 23 de maio de 2016.

FAEDO, Rubens et al. OBTENÇÃO DE LEITE COM BAIXO TEOR DE LACTOSE POR PROCESSOS DE SEPARAÇÃO POR MEMBRANAS ASSOCIADOS À HIDRÓLISE ENZIMÁTICA. Ciatec – Upf, Passo Fundo, Minas Gerais, v. 3, n. 1, p.44-54, 2013. Disponível em: . Acesso em: 18 out. 2016.
HOSHIONO, Lígia K. O. Estudo da hidrólise da lactose na obtenção de leite lactose hidrolisado microfiltrado e avaliação de parâmetros físico-químicos para determinação da sua vida útil. 2016. Disponível em: . Acesso em: 20 Não é um mês valido! 2016.
Intolerância à lactose e probióticos. São Paulo: Aplacom, 2016. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2016.
LOPES, Renata Ruivo Sofia et al. PREVALÊNCIA DE INTOLERÂNCIA À LACTOSE EM PRÉ-ESCOLARES E ESCOLARES NO MUNICÍPIO DE DUQUE DE CAXIAS. In: CIÊNCIA,

TECNOLOGIA E SOCIEDADE: RESPONSABILIDADE SOCIAL, 16., 2008, Duque de Caxias. 6º Amostra Acadêmica. Duque de Caxias: UNIMEP, 2008. v. 6, p. 1 - 4. Disponível em: < http://www.unimep.br/phpg/mostraacademica/anais/6mostra/1/356.pdf>. Acesso em: 22 de maio 2016.
OBÓN, J.M.; CASTELLAR, M.R.; IBORRA, J.L.; MANJÓN, A. Beta-Galactosidase Immobilization for Milk Lactose Hydrolysis: A Simple Experimental and Modelling Study of Batch and Continuous Reactors. Biochemical Education, v.28, n.3, p.164–168. 2000.

SOUZA, Luiz José de. (Brasil). Industrias de Laticínios (Ed.). Nova Legislação comentada de produtos lácteos:Regulamentos técnicos rotulagem padrões microbiológicos APPCC PNQL. 3. ed. São Paulo: Setembro Editora, 2011. 357 p.
PEREIRA, Mônica Cecília Santana et al. LÁCTEOS COM BAIXO TEOR DE LACTOSE: UMA NECESSIDADE PARA PORTADORES DE MÁ DIGESTÃO DA LACTOSE E UM NICHO DE MERCADO. Rev. Inst. Lactic "Cândido Tostes", Minas Gerais, n. 389, p.57-65, dez. 2012. Disponível em: . Acesso em: 21 mar. 2016.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. UFMG. Escola de Veterinária. PRODUÇÃO DE LEITE SEM LACTOSE. 2013. Disponível em: . Acesso em: 05 jul. 2016.
VALSECHI, Prof. Dr Octávio Antônio. O leite e seus derivados. 2001. Disponível em: . Acesso em: 22 maio 2016

 VARELLA, Dr. Drauzio. INTOLERÂNCIA À LACTOSE. 2014. Disponível em: . Acesso em: 23 Não é um mês valido! 2016.
WILLIAMS, Margaret Mc. Alimentos: Um guia completo para profissionais. 10. ed. Barueri-sp: Manole Ltda., 2016. 251 p.
WILT, T. J. et al. Evidence-based practice center presentation i: methods of systematic review and the prevalence of lactose intolerance and differences by race, ethnicity, and age. In: NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH. Lactose Intolerance and Health. Kensington: National Institutes of Health, 2010a. p. 59-64. Disponível em: Acesso em: 16 set. 2016.
YAMASAKI, Karina Akemi. Conduta dietética na intolerância à lactose. São Paulo: Karina AkemiYamasaki, 2008. 30 slides, color. UNIFESP. Disponível em : < http://docplayer.com.br/14195137-Conduta-dietetica-na-intolerancia-a-lactose.html>. Acesso em: 23 de maio de 2016.




1   2   3   4


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal