Teologia sistemática IV i – o homem (Antropologia)



Baixar 194,96 Kb.
Página1/4
Encontro14.09.2017
Tamanho194,96 Kb.
  1   2   3   4
TEOLOGIA SISTEMÁTICA IV

I – O Homem (Antropologia)

Ó Senhor; Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!... Quando vejo dos teus céus, obra dos teus dedos, alua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal para que te lembres delE o0 filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste.

As palavras acima foram pronunciadas pelo salmista Davi, extasiado com a grandeza da criação (SI 8.1,3-5). Da mesma forma, Jó, o patriarca, exclamou: “Que é o homem, para que tanto o estimes, e ponhas sobre ele o teu coração, e cada manhã o visites, e cada momento o proves?” (Jó 7.17,18).

Ainda que, no seu tempo, não dispusesse de modernos meios tecnológicos para contemplar as estrelas e o Universo, Davi se sentia deslumbrado ante a glória de Deus, revelada através da sua criação. Ao ver os astros, incluindo o Sol, a Lua e as estrelas, ele, reconhecendo a pequenez do ser humano ante a majestosa visão dos horizontes do espaço sideral, fez a pergunta que muitos ainda hoje fazem: “Que é o homem mortal?”

Que é o homem? Que ser é esse? De onde ele veio? Para onde vai? Essas são algumas perguntas que inquietam aqueles que se debruçam sobre a realidade à sua volta. A essas perguntas e, principalmente, à primeira, há muitas respostas.

Os filósofos, em sua maioria absoluta, formada por materialistas, ateis- tas ou pretensos agnósticos, respondem que o homem é apenas um “animal que pensa” — ou fruto da evolução aleatória das espécies. Eles atribuem a existência do ser humano ao acaso, como se fosse descendente de um animal irracional. Este teria evoluído de um microorganismo umcelular que povoava as águas dos mares.

Pascal, a exemplo de Davi, mas com outra visão, indagou: “Que é o homem diante do infinito”?1 E ampliou a sua indagação:

Afinal que é 0 homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito; tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre 0 tudo e 0 nada. Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto 0fim das coisas quanto 0 seu principio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e éAhe igualmente impossível ver 0 nada de onde saiu e 0 infinito que 0 envolver

Platão (428 a.C.) afirmava que o homem é “um bípede sem penas”. Mas um outro filósofo, que gostava de criticá-lo, matou um galo, o depenou e saiu pelas ruas dizendo: “Eis o homem de Platão”. Francisco de Carvalho, em uma música, diz: “Que bicho é o homem, de onde ele veio para onde vai? De onde ele veio para onde vai? Onde é que entra, de onde é que sai?”

Muitos cientistas e filósofos têm a idéia de que o homem pertence ao reino animal, e isso tem levado inúmeras pessoas a se considerarem parte do mundo zoológico. Dizem os cientistas: “falando fisicamente, o homem é um animal especializado. Sua especialização se baseia em três direções principais: I. A postura ereta. 2. O polegar oposto. 3. O grande desenvolvimento da posição cerebral pré-frontal”.3

Descartes supervalorizava a consciência, admitindo que ela seria o âmago ou a essência do ser. Foi ele quem disse: “Penso. Logo, existo”. “Protágoras, de Abdera, dizia, segundo o testemunho de Platão, que ‘o homem é a medida de todas as coisas’. Em outras palavras: não existe verdade absoluta, mas tão-somente opiniões relativas ao homem...”4 Aqui vemos as raízes do humanismo, que, hoje, predomina na mentalidade pós-moderna. J. Huxley dizia que “o homem é um macaco um pouco melhorado, e às pressas”.

A ciência moderna é ainda mais presunçosa, arrogante e materialista acerca da origem e da natureza do homem. Com mais sofisticação do que os antigos filósofos, os cientistas de hoje são preconceituosos e fechados ao debate quanto à origem do homem, com total desrespeito à idéia de um ser criado à imagem e semelhança de Deus.

Disse Horgan, numa visão reducionista sobre o que é o homem:



Não somos mais que um monte de neurônios. Mas, ao mesmo tempo, a neurociência até agora provou ser estranhamente insatisfatória. Explicar a mente em termos de neurônios não esclarece nem henefcia muito mais do que explicar a mente em termos de quarks e elétrons. Existem muitos reducionismos alternativos. Nada mais somos que um feixe de genes idiossincráticos. Nada mais somos que um conjunto de adaptações esculpido pela seleção natural. Nada mais somos do que um monte de apetrechos de computação dedicados a tarefas diferenciadas. Somos nada mais que um feixe de neuroses sexuais...־’

Essa é a visão do materialismo científico. Seus questionamentos e afirmações absurdas resumem as três perguntas filosóficas, que, ao longo dos séculos, inco- modam e desafiam a compreensão do homem diante da grandeza do Universo: “Quem sou eu?”, “De onde vim?’'’ e “Para onde vou?” Eles buscam responder à pergunta sobre o ser humano, sua origem, seu ser e seu destino.

Neste capítulo, desejamos responder aos questionamentos acerca do homem, sua origem e seu destino, à luz da Palavra de Deus, introduzindo, para efeito de reflexão, opiniões externas à Bíblia, a fim de reforçarmos o entendimento dos que crêem em Deus e em sua bendita Palavra, que não tem uma ou algumas respostas. Ela tem a resposta!

A antropologia humana exalta a teoria da evolução das espécies, por meio do acaso e da chamada “seleção natural”. A Antropologia Bíblica fundamenta-se na Palavra de Deus, que afirma categoricamente: “No princípio, criou Deus os céus e a terra... E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn I.I,26a). Esse é o ponto de partida, diante do qual o cristão, que crê na revelação divina, jamais tergiversará diante dos argumentos humanos, materialistas, contrários à fé em Deus.



A ORIGEM DO HOMEM

O ser humano, criado à imagem, conforme a semelhança de Deus, teve uma origem especial. Se analisarmos o primeiro capítulo do livro de Gênesis, o livro das origens, observamos que o Criador, ao fazer uso de sua divina inteligência e do seu poder absoluto, soberano, fez surgir o universo ex-nihi10 — ou seja, a partir do nada.

A criação do Universo e da Terra. Em tempos de um passado longínquo, alguém chegou a acreditar que a Terra era um imenso plano, nas costas de um elefante, que, por sua vez, firmava-se nas costas de uma tartaruga gigantesca...

Os egípcios criam que o planeta era apoiado sobre cinco colunas. Eram vislumbres das grandes perguntas: “Como tudo começou?” e “O que é o Uni- verso?” Mas o Gênesis começa com a expressão: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn I.I). Essa é a origem do Universo, incluindo o pequeníssimo planeta Terra.

Para que situemos o homem no plano divino da criação, vale a pena relembrar o que foi criado, em cada dia:

1) No dia primeiro, Deus criou a luz cósmica, fez separação entre a luz e as trevas, e criou o dia, e a noite (Gn I.I-5); Ele disse “Haja luz. E houve luz” (Gn 1.3); foi o sobrenatural fat lux, que fez acender a primeira energia luminosa do Universo.

2) No segundo dia, Deus fez “uma expansão no meio das águas” — provavelmente águas em estado gasoso, acima e abaixo da expansão — e criou os céus (Gn 1.6-8).

3) No terceiro dia, Ele ajuntou “as águas debaixo dos céus num lugar” e fez aparecer “a porção seca”, chamando-a de Terra; e ao “ajuntamento das águas”, chamou mares; naquele mesmo dia da criação, o Senhor ordenou que a terra produzisse “erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto que esteja nela sobre a terra” (Gn 1.9-13).

4) No quarto dia, o Senhor criou os luminares para “sinais e para tempos determinados”; dois grandes luminares, o Sol, para iluminar o dia, e a Lua, para alumiar a noite; e fez também as estrelas (Gn I.I4-19).

5) No quinto dia, Deus determinou que as águas produzissem répteis, e que as aves voassem no céu; fez também as grandes baleias, a partir das águas (Gn 1.20-23);

6) No sexto dia, o Criador determinou que a terra produzisse “alma viven- te conforme sua espécie; gado e répteis, e bestas-feras da terra conforme a sua espécie” (Gn 1.24,25).

Até aqui, resumimos, segundo a Bíblia, a origem do Cosmos, ou do Universo, incluindo o pequenino planeta Terra, cuja criação foi a partir do nada, o que corrobora o texto de Hebreus 11.3: “Pela fé, entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente”.

De fato, quando olhamos para uma parede, pensamos que ela é perfeitamente sólida, impenetrável. No entanto, sob a lente de um poderoso microscópio eletrônico, poder-se-á constatar que ela está cheia de buracos, e mais: que as partículas não estão em repouso, estáticas, mas em pleno movimento — as moléculas, formadas de átomos, com seus elétrons e nêutrons, e partículas subatômicas, estão se movimentando como universos em dimensão micro.

Ao contrário do que dizem os cientistas materialistas, em sua presunção e vangló- ria, o mundo e o homem não surgiram por acaso, como lemos em Atos 17.24-26:



O Deus que fez 0 mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas; e de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação.

Diz, ainda, a Palavra de Deus, em Salmos 33.6-9:



Pela palavra do Senhor foram feitos os céus; e todo 0 exército deles, pelo espirito da sua boca. EL· ajunta as águas do mar como num montão; põe os abismos em tesouros. Tema toda a terra ao Senhor; temam-no todos os moradores do mundo.

Porque falou, e tudo se fez; mandou, e logo tudo apareceu.

Continuando nossa observação acerca do relato da criação, verificaremos que a criação do homem foi diferenciada da de todos os outros seres e elementos da natureza. Ele não foi feito a partir do nada, mas a partir das substâncias já existentes, como frisamos a seguir, e de um modo distinto da criação dos outros seres e das coisas.

A criação do homem. Ainda no dia sexto da criação Deus disse:



Façamos 0 homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre 0gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. E criou Deus 0 homem à sua imagem; à imagem de Deus 0 criou; macho efêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Frutifcai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo 0 animal que se move sobre a terra

(Gn 1.26-28).

Enquanto os outros seres foram criados sob o impacto do fiat (“faça-se”) de Deus, o homem teve criação de modo bem diferente. Deus — hb. Elohim, expressão plural de El — concretizou o seu projeto para criar um ser especial, de forma especial, nos atos da criação. Assim, Ele, em conjunto com os outros componentes de sua Unidade, que se consubstanciam na Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), de modo solene e majestático, disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (v.24).

A criação do homem foi o coroamento da criação de Deus:



Assim, os céus, e a terra, e todo 0 seu exército foram acabados. E, havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus 0 dia sétimo e 0 santificou; porque nele descansou de toda a sua obra, que Deus criara e fizera

(Gn 2.1-3).

Deus, então, “descansou”, isto é, terminou a sua obra, a criação de todas as coisas.

Imagem e semelhança de Deus

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” (Gn I.24b). O verbo “fazer”, na primeira pessoa do imperativo, no plural, denota que o Criador não estava sozinho, na criação do homem. A compreensão humana não alcança a grandeza daquele momento único e singular, totalmente distinto de todo processo criador dos demais seres.

Apesar disso, pode-se entender que, num ponto do planeta, no Oriente, no sítio do jardim do Eden ou do Paraíso, o Deus Pai, o Deus Filho e Deus Espírito Santo se reuniram solenemente para fazer surgir o novo ser que haveria de revolucionar toda a criação. Por um momento, de modo positivo; por muitos séculos, de modo negativo. Mas, de qualquer forma, ali estava a reunião solene da Trindade para criar o homem à imagem e semelhança de Deus!

Em Gn 1.26-30, encontramos 0 homem feito à imagem de Deus; l) um ser espiritual apto para a imortalidade, v. 2 6b; 2) um ser moral que tem a semelhança de Deus, v.27; 3) um ser intelectual com a capacidade da razão e de governo, vv.26c,28-30.6

Acima vemos a interpretação do que é ser imagem e semelhança de Deus encontrada no Comentário Beacon, publicado no Brasil pela CPAD.

O homem foi feito para ser dominador da natureza. E não poderia ser de modo diferente. Deus fez o ser humano à sua imagem, conforme a sua seme- lhança, para ser governante dessa “pequena parte do Universo”; para dominar sobre as criaturas viventes, criadas antes dele. O salmista Davi disse que Deus fez o homem pouco menor que os anjos e lhe deu, no início, domínio sobre toda a criação (SI 8.5-8).

Esse era o plano original de Deus para com o ser humano: ser representante de Deus, com autoridade sobre toda a criação. Como veremos adiante, esse plano foi prejudicado pela Queda, transtornando todo o Universo.

O homem à imagem de Deus. Diante da grandeza e da nobreza originais confe- ridas ao ser humano, o que viria a significar o homem à imagem de Deus? As respostas a essa questão não são completas. Há quem diga que a imagem de Deus no homem seria física. Ou que essa imagem seria a postura reta, ou vertical, do esqueleto humano.

Não se deve sequer ocupar espaço e tempo com esse argumento, pois Deus, sendo espírito (Jo 4.23), não projetaria imagem física no homem. As questões sobre a imagem de Deus no homem têm suscitado muitas discussões, desde que os teólogos começaram a se debruçar sobre o estudo acerca da criação e, em especial, do ser humano.

Os chamados pais da igreja entendiam que a imagem de Deus no homem seria o conjunto de características morais e espirituais que o levam a ser santo. Mas houve quem entendesse que tais características também seriam corporais. Irineu e Tertuliano faziam distinção entre imagem e semelhança, considerando a primeira como os aspectos corporais, e a segunda como as características espirituais.

Orígenes e Clemente de Alexandria discordavam dessa afirmação; antes, diziam que a imagem se referia às características próprias do ser humano, enquanto a semelhança dizia respeito às qualidades provindas de Deus — não inerentes ao ser humano. Já Pelágto via na imagem somente a capacidade de raciocínio que o homem desenvolvia, podendo valer-se do livre-arbítrio.

Já os escolásticos8 concordaram em muitos aspectos com os pais da igreja, mas ampliaram o conceito de imagem de Deus, incluindo a idéia de intelecto, razão, liberdade; a semelhança seria o sentimento de justiça provinda do Cria- dor. A imagem de Deus seria algo concedido ao homem de modo natural, e a semelhança, uma espécie de dom sobrenatural, que controlaria a natureza inferior do homem.9

Os reformadores, em geral, não faziam distinção entre a imagem e a semelhança de Deus no homem; eles entendiam que a justiça original faria parte da imago Dei. na condição original do ser humano.

A imagem conforme a semelhança de Deus. A discussão teológica sobre o significado da imagem de Deus, ou a imago Dei, não tem um consenso efetivo. Há divergências entre os teólogos. De início, no Gênesis, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (1.26); no versículo seguinte, lemos: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (v.27).

Notemos que o texto bíblico de Gênesis 1.27 não repete a expressão “ímagem, conforme a nossa semelhança”. Parece-nos razoável entender que o ponto central, ou a idéia-chave, do relato bíblico é o registro de que o homem (o ser humano) foi feito “à imagem de Deus” (v.26). A passagem deixa claro que tanto o homem como a mulher foram criados à “imagem de Deus”. Com essa expressão, entendemos que o Gênesis demonstra qual é a natureza original do homem — ele foi criado à imagem de Deus.

A semelhança tem caráter explicativo, indicando a conformidade pela qual aquela imagem de Deus foi impressa no ser criado. Ou expressa o modo ou o modelo daquela imagem. Não há necessidade, pois, de se estudar as duas palavras “imagem” e “semelhança”, separadamente, buscando significados complexos para cada uma delas.

Berkhof afirmou:



As palavras “imagem” e “semelhança”são empregadas como sinônimos e uma pela outra, e, portanto, não se referem a duas coisas diferentes.

Essa idéia corrobora o nosso entendimento, acentuando que, em Gênesis I.I6, são empregadas as duas palavras, mas, no versículo 27, somente a primeira delas.10

Chafer também reforça esse entendimento, referindo-se às palavras “imagem” e “semelhança” da seguinte maneira:

Em Gênesis 1.26,27, ambas as palavras, “imagem” e “semelhança”, aparecem, mas a palavra “imagem” ocorre três vezes enquanto 0 termo “semelhança” ocorre apenas uma vez.11



Em Gênesis 5, vemos a palavra “semelhança” incluída na genealogia de Adão: “Este é o livro das gerações de Adão. No dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez” (v.I). Certamente, o termo “semelhança”, aqui, se refere à imagem de Deus, que é semelhante ao Criador, conforme já explicitado.

O homem é distinto e superior aos animais. A diferença entre o homem e os animais é tão grande, em termos qualitativos, a ponto de não haver margem para especulações quanto à origem dos humanos e dos irracionais. O Projeto do Genoma Humano (PGH), iniciado em 1990, constatou, em 2003, que há no corpo humano em tomo de quarenta mil genes, concluindo o seqüenciamento de três bilhões de bases que constituem o DNA da espécie humana, com 99,9% de precisão.

O que intriga os cientistas e os leva a sonhar com a descoberta do “elo perdido” entre o símio e o homem é o fato de o Projeto Genoma ter concluído que a diferença entre o DNA do homem e do chimpanzé é apenas de 5%. Ou seja, em termos meramente numéricos, o homem e o macaco têm semelhanças quase totais. Entretanto, em termos qualitativos, inclumdo-se o raciocínio lógico, a capacidade da fala e habilidades gerais, o homem se distancia do macaco tanto quanto os corpos celestes que estão a anos-luz do nosso planeta.

Com apenas 5% de diferença entre o código genético do homem e o do macaco, como pode haver tão grande diferença de conhecimento e de habilidades? Será que se pode esperar que um macaco, um dia, vá compor uma frase, uma página ou escrever um livro? Não há dúvida de que não. A idéia central, na Bíblia, é de que o homem foi feito à imagem de Deus. E jamais poderia ser visto como semelhante aos animais. Como vimos, a diferença qualitativa entre o homem e o animal ultrapassa qualquer visão materialista da natureza do ser humano.

Semelhança natural com Deus. Langston afirma que o homem tem “semelhança natural” com Deus:

O homem ê uma pessoa como Deus ê uma Pessoa, e a semelhança entre um e outro acha-se no espírito, naquilo que 0 homem é na sua natureza pessoal. Assim sendo, a ‘1semelhança natural” entre Deus 0 homem perdura sempre; porque 0 homem não poderá jamais deixar de ser uma pessoa como Deus 0 é.

Não devemos confundir imagem natural com imagem física, pois Deus é espírito e não tem partes físicas, a exemplo do homem.

Strong também afirma que o homem tem “Semelhança natural com Deus, ou pessoalidade”. E acentua:

O homem foi criado um ser pessoal e é esta pessoalidade que 0 distingue do irracional. Pessoalidade é 0 duplo poder de conhecer a si mesmo relacionado com 0 mundo e com Deus e determinar 0 eu com vista aos fins morais. Em virtude dessa pessoalidade 0 homem pôde, na criação, escolher qual dos objetos de seu conhecimento — 0 eu, 0 mundo, ou Deus — deve ser a norma e 0 centro de seu desenvolvimento. Essa semelhança natural com Deus é inalienável e, constituindo uma capacidade para a Redenção, valoriza a vida até mesmo dos não regenerados (Gn 9.6; l Co 11.7; Tg 3.9).13

O homem, um ser pessoal, à semelhança de Deus, tem inteligência, vontade e emoções. Tal condição lhe distingue dos animais. Enquanto estes apenas agem por instinto, conforme o que Deus programou para eles, aquele tem autoconhecimento e autodeterminação. O homem imagina, projeta, cria, inventa e produz coisas. O animal apenas repete o que lhe instiga a natureza.

No hebraico e no grego, as palavras para identificar “a imagem” não contribuem muito para o entendimento do termo em análise. Por isso, as discussões teológicas e filosóficas continuam a deixar muitas lacunas quanto à sua interpretação. No grego do Novo Testamento, a palavra “imagem” é eikon e pode se referir a uma imagem de escultura. Tem o sentido de representação ou de manifestação. Mas também pode se referir a Cristo, “o qual é imagem do Deus invisível” (Cl I.I5), ou “o eíkon de Deus”, que não é só uma representação, como o é uma estátua, ou um ídolo; é primeiramente a igualdade na essência de Deus.

Assim, surge a questão: o homem, feito à imagem de Deus, é apenas uma representação do Criador, ou tinha algo divino nele, ou participava da real essência de Deus? A palavra hebraica para “imagem” é tselem; e, para “semelhança”, demut. Elas se referem a algo similar ou idêntico ao que representam, ou àquilo de que são à “imagem”.

Podemos dizer que o homem era, no seu estado original, no ato da criação, uma imagem ou representação de Deus, tendo características de Deus em sua pessoa, tais como pessoalidade, amor, justiça, santidade, retidão, perfeição moral; tudo isso à semelhança de Deus. Mas o homem não poderia ser igual a Deus. Só Jesus é “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3); “o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl I.I5).

Semelhança moral com Deus. A interpretação do que vem a ser a “semelhança” de Deus no homem tem muitas variantes. Há quem entenda que essa “semelhança” é apenas moral e espiritual. Outros entendem que é mais ampla, incluindo a essência da divindade do Criador. Na Bíblia de Estudo Pentecostal14, lemos que “Eles tinham semelhança moral com Deus, pois não tinham pecado, eram santos, tinham sabedoria, um coração amoroso e o poder de decisão para fazer o que era certo (Ef 4.24). Viviam em comunhão pessoal com Deus, que abrangia obediência moral e plena comunhão”.

Na Bíblia de Estudo Pentecostal também está escrito que “Adão e Eva tinham semelhança natural com Deus. Foram criados como seres pessoais, tendo espírito, mente, emoções, autoconsciência e livre-arbítrio”.13 Na visão acima, a semelhança do homem com Deus é moral, incluindo características especiais, concedidas por Deus, tais como ausência de pecado, santidade, sabedoria, amor e poder para agir de modo certo. E, ao mesmo tempo, tinham semelhança natural, por terem sido criados como seres pessoais, dotados de características próprias da pessoalidade.

Langston disse:



O homem foi criado bom. Todas as suas tendências eram boas. Tosos os sentimentos do seu coração inclinavam-se para Deus, e nisto consistia a sua semelhança moral com 0 Criador. As Escrituras ensinam mui claramente que 0 homem foi criado natural e moralmente semelhante a Deus, e ensinam também que ele perdeu esta semelhança moral quando caiu pelo pecado.16

Este é um ponto importante: o homem, quando deu lugar ao Diabo e desobedeceu a Deus, pecou; e, assim, perdeu aquela semelhança moral com o Criador. Ficaram, na verdade, os traços daquela semelhança, distorcida, prejudicada, no ser humano. Esses traços são os sensos de justiça e de ética, e da busca por um Ser supremo, no âmago de sua consciência.

I) Há uma lei interior dentro do ser humano. Na consciência do homem vemos que ele tem um referencial, um juízo de valor que aponta o que é certo e o que errado. Isso se chama faculdade moral, que aprova ou desaprova os atos praticados ou imaginados. Isso é um traço da semelhança moral com Deus, que alertou ao homem para que não pecasse, desobedecendo e se apropriando do fruto da árvore interditada.

Paulo fala dessa faculdade moral que há dentro de cada um quando ensina que o homem tem uma lei interior que aprova ou desaprova os seus atos. Podemos chamá-la de lei da consciência.

Assim disse o apóstolo Paulo:

Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei, os quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os (Rm 2.14,15).

Os animais não têm essa lei interior, que serve de referencial moral, pois sua natureza não comporta essa faculdade.

2; Há um padrão moral universal para o homem. Como ser moral, em sua semelhança com Deus, o homem, falível, não pode se guiar apenas por sua consciência, ou seu coração, numa linguagem metafórica. Disse o profeta Jeremias: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isso para dar a cada um segundo os seus caminhos e segundo o fruto das suas ações’’ Jr 17.9,10

O coração, nesse caso, não corresponde ao músculo cardíaco, e sim à consci- ência, ou à mente humana. Por causa do pecado original, todo o ser do homem ficou imperfeito, e seu coração, sua mente (ou sua consciência(, tornaram-se enganosos e perversos. Por isso, o homem precisa de um padrão sublime para servir de referencial para suas ações.

Esse padrão não é — nem poderia ser — outro, senão a Palavra de Deus. Disse o salmista: “Lâmpada para os meus pés é tua palavra e luz, para o meu caminho” (SI 119.105). Jesus também afirmou: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.48; cf. Jo 17.23). Esse é, pois, o padrão para o ser humano, ainda que essa perfeição, requerida por Cristo, não possa ser absoluta, e sim relativa, visto que a natureza, atingida pelo pecado, não pode alcançar o grau de perfeição nesta esfera da existência.

Só na eternidade, após a ressurreição dos salvos, ou ao Arrebatamento dos que permanecerem fiéis a Deus, nesta vida, é que haverá o estado de perfeição plena, quando os santos chegarão à estatura de varão perfeito (cf. Ef 4.13).

3) O homem foi feito adulto — e perfeito.

Leite Filho, analisando o homem, ressalta:



Um fato relacionado à criação do homem que se faz notório e que passamos a considerar é que 0 homem foi criado adulto. A cada passo das Escrituras percebe-se uma evidente maturidade dos seres que foram criados, assim também 0 homem.

Com isto queremos indicar que Deus não criou nenhum óvulo ou embrião, e sim 0 homem já adulto.1

Certo ensinador afirmou que Adão foi feito menino e cresceu no meio do jardim entre os animais. E um aluno lhe perguntou: “Quem deu de mamar à criança?”, sentindo-se constrangido com a explicação sem fundamento bíblico do tal “mestre”.

Para ter a capacidade reprodutiva, o homem foi feito com todas as suas potencialidades físicas e emocionais. Adão e Eva foram apresentados um ao outro, como marido e mulher, formando um casal, visando a unir-se numa “só carne” (Gn 2.24), para gerarem filhos e perpetuarem a continuidade da raça humana.

Quanto à perfeição do homem criado, referimo-nos à sua imagem e semelhança com o Criador, o que lhe conferia, na condição original, uma verdadeira perfeição em relação a seus descendentes, após a Queda. Tal perfeição do ser criado põe por terra os pressupostos da teoria da evolução, de Charles Darwin.

O homem não evoluiu a partir de organismos inferiores e chegou ao estágio superior. Ao contrário, ele começou num estágio altamente superior, mas, por causa do pecado, perdeu a sua condição privilegiada de um ser especial. Em lugar de evoluir, o homem passou por um processo de involução, espiritual, emocional e fisicamente, depois da Queda.

Uma síntese das idéias. Em resumo, a imagem de Deus, no homem, refere-se à imagem espiritual e moral, conforme a semelhança de Deus; e também à imagem natural, pelo fato de o homem ser uma pessoa, à semelhança de Deus, que também é Pessoa. Quanto ao corpo, foi feito por Deus para abrigar a parte espiritual do homem, formada por espírito e alma (cf. I Ts 5.23; Hb 4.12).

Essa imagem de Deus foi corrompida pelo pecado. Mas, quando o homem se volta para o Criador e aceita a salvação, através de Jesus Cristo, torna-se “a imagem e glória de Deus” (I Co 11.7). Nascido de novo, o salvo é revestido “do novo homem, que, segundo Deus, é criado em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4.24).

O homem, nascido de novo, em Cristo, é “nova criatura” (2 Co 5.17) e se toma participante “da natureza divina” (2 Pe 1.4). Tal participação, no presente, é parcial, pois o homem está sujeito a fraquezas e ao pecado; mas, na glorificação, será restaurada a “semelhança” da “imagem de Deus”, pois “agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos” (I Jo 3.2).

Um dia, o homem será restaurado em sua perfeição original. Disse Paulo: “até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4.13). Na glorificação dos salvos, a expressão “à imagem e conforme a semelhança de Deus” será plenamente en- tendida, pois o ser humano, totalmente restaurado, elevar-se-á a um nível superior.





Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4


©bemvin.org 2019
enviar mensagem

    Página principal