Tendências e abordagens pedagógicas da Educação Física escolar e suas interfaces com a saúde



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Tendências e abordagens pedagógicas da Educação Física escolar e suas interfaces com a saúde

http://www.efdeportes.com/efd182/tendencias-pedagogicas-da-educacao-fisica-escolar.htm

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Tendências e abordagens

pedagógicas da 

Educação Física escolar e

suas interfaces com a

saúde

Tendencias y abordajes pedagógicos de la



Educación Física escolar y sus relaciones con

la salud


 

*Professor de Educação Física. Professor Adjunto

da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

**Médico Psiquiatra. Professor Titular

da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Heraldo Simões Ferreira*

José Jackson Coelho Sampaio**

heraldo.simoes@uece.br

(Brasil)

 

 



 

 

Resumo



          A Educação Física é considerada uma profissão da área da saúde, porém também é uma disciplina do currículo

escolar. A introdução da Educação Física nas escolas brasileiras se deu efetivamente através da Reforma Couto Ferraz, em

1851. Através de reforma realizada por Rui Barbosa, em 1882, houve uma recomendação que a ginástica fosse obrigatória.

Porém, é somente a partir de 1920 que vários estados incluem a Educação Física em suas reformas educacionais. Através

deste  artigo  buscamos  visualizar  a  saúde  como  conteúdo  das  tendências  e  abordagens  da  Educação  Física  Escolar.

Realizamos uma revisão da literatura sobre o tema. A Educação Física Escolar segue o modelo biomédico, que por sua vez,

considera o paradigma cartesiano como sua diretriz. É necessária uma crítica ao pensamento predominante na área, que se

norteia  na  relação  causal  atividade  física-saúde,  para  tanto  revisitamos  a  história  da  Educação  Física  enquanto  disciplina

escolar.  Visitamos  a  tendência  higienista,  situada  temporalmente  entre  as  décadas  finais  dos  anos  1800  e  seguindo  até

1930, onde o ideal de saúde era pautada pela eugenia; a tendência militarista, que operou entre 1930 até 1945, nesta fase

a saúde na Educação Física era tida como um meio para preparar futuros soldados; a tendência pedagogicista, situada entre

1945 e 1964, onde a saúde passa a ser pensada de forma pedagógica; a tendência esportivista, entre 1964 e 1985, quando

a  saúde  é  voltada  para  a  descoberta  de  novos  talentos  esportivos;  e  finalmente,  a  tendência  popular,  que  impera  na

Educação  Física  desde  1985  até  os  dias  atuais,  na  qual  os  conceitos  de  saúde  se  aproximam  da  qualidade  de  vida.

Concluímos que a Educação Física deve ultrapassar os aspectos individuais e biológicos de suas práticas e partir para um

novo rumo coletivo.

          Unitermos: Educação Física. Saúde. Escola.

 

 



EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires - Año 18 - Nº 182 - Julio de 2013. 

http://www.efdeportes.com/

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1.     Introdução



    Vários são os autores que identificam a relação histórica entre a Educação Física e a saúde, entre

eles  Ghiraldelli  Júnior  (1998),  Soares  (1994)  e  Carvalho  (1995).  Carvalho  (1995)  identifica  duas

formas de reproduzir a relação citada: uma identifica a prática da atividade física como produtora

de  saúde  e  outra  como  prevenção.  Para  a  autora,  ambas  constroem  sua  epistemologia  na

concepção  de  que  somente  o  exercício  físico  é  o  responsável  pela  saúde  dos  alunos,

desconsiderando aspectos como: políticas públicas, cultura, contexto social e saneamento.

        Para  compreendermos  o  papel  da  saúde  na  Educação  Física  Escolar  no  Brasil,  é  necessário

resgatar a história da disciplina e seus respectivos períodos. A introdução da Educação Física nas

escolas  brasileiras  se  deu  efetivamente  através  da  Reforma  Couto  Ferraz,  em  1851.  Através  de

reforma  realizada  por  Rui  Barbosa,  em  1882,  houve  uma  recomendação  que  a  ginástica  fosse

obrigatória. Porém, é somente a partir de 1920 que vários estados incluem a Educação Física em

suas reformas educacionais (BETTI, 1991)

        Ghiraldelli  (1998),  explica  que  a  Educação  Física  brasileira  apresenta  concepções  históricas,

identificando-as  em  cinco  tendências[1]:  Higienista  (até  1930),  Militarista  (de  1930  a  1945)

Pedagogicista (1945 a 1964) e Competitivista (1964 a 1985).

    Posteriormente podemos incluir a Educação Física Popular (1985 até os dias atuais). A Educação

Física  Popular  se  desmembra  em  várias  abordagens[2].  A  seguir  analisaremos  cada  uma  delas,


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tendências e abordagens, e sua relação com a saúde.

2.     A saúde e as tendências pedagógicas da Educação Física Escolar

2.1.     Tendência Higienista (até 1930)

        Esta  tendência  foi  bastante  influenciada  pela  medicina  e  pela  eugenia.  Segundo

Darido  e  Rangel  (2005)  esta  concepção  possuía  como  preocupação  principal  os

hábitos  de  higiene  e  saúde,  valorizando  tanto  o  desenvolvimento  físico  quanto  o

moral, a partir do exercício.

        De  acordo  com  Luz  (2007),  a  medicina  teve  um  papel  estratégico  no

desenvolvimento da Educação Física. Para o autor, os saberes e práticas da Educação

Física  passam  a  sofrer  influências  dos  saberes  da  área  médica,  buscando  uma

legitimação  científica,  principalmente  na  área  biomédica,  como  todos  os  saberes

relativos ao corpo.

        Possuía  como  característica  a  utilização  da  ginástica  calistênica,  os  professores

eram da área médica, não havia interação entre alunos e professor, os mais fracos e

doentes  eram  excluídos  das  aulas  e  não  havia  nenhuma  interação  com  as  questões

pedagógicas da escola (SOARES, 1994).

        O  tema  saúde  era  uma  preocupação  da  elite  da  época,  que  temendo

contaminações, utilizou a Educação Física como um meio de doutrinar as classes mais

baixas,  no  sentido  de  fiscalizar  e  promover  a  assepsia  corporal.  Tal  fiscalização  era

realizada  no  início  das  aulas  quando  era  realizada  a  inspeção,  momento  em  que  os

alunos  deveriam  mostrar  aos  professores  a  limpeza  corporal  –  unhas,  cabelos,

pescoço, braços e pernas. Alunos com qualquer tipo de doença eram eliminados das

aulas, aqueles que estivessem demonstrando qualquer tipo de impureza – roupa suja,

unhas a fazer, etc., eram sumariamente excluídos. As blusas do uniforme da prática

de  Educação  Física  deveriam  ser  brancas,  fato  até  hoje  usualmente  corriqueiro  nas

aulas  da  disciplina,  tal  cor  foi  admitida  por  representar  a  pureza  e  a  limpeza

(AZEVEDO, 1920).

        Os  modelos  eugênico,  higienista  e  biologicista  de  encarar  a  saúde  podem  ser

considerados  os  precursores  da  pedagogia  da  Educação  Física  escolar,  baseada  na

apologia  ao  estilo  de  vida  ativo  adquirido  pela  exercitação  mecânica,  cujos

fundamentos,  até  hoje  produz  sentimentos  de  culpa  naqueles  que  não  seguem  os

direcionamentos  impostos  por  esta  tendência  da  disciplina  no  que  diz  respeito  à

aparência física (SOARES, 1994). Como afirmam Goldemberg e Ramos (2002, p. 25):

“devido a mais nova moral, a da ‘boa forma’, a exposição do corpo em nossos dias,

não exige dos indivíduos apenas o controle de suas pulsões, mas também o controle

de sua aparência física”.

        A  seguir,  demonstramos  a  ideologia  da  Educação  Física  da  época,  biologicista,

ilustrado por uma passagem do livro ‘Da Educação Physica’ de Fernando de Azevedo

(1920, p.70):

        Por  meio  dessa  ginástica,  assim  caracterizada,  devem  adquirir-se,

sobre o ponto de vista fisio-anatômico: a beleza corporal e, sob o ponto

de  vista  psicológico,  a  coragem,  a  iniciativa,  a  vontade  perseverante,

ou,  em  uma  palavra,  certas  aptidões  morais,  além  do  equilíbrio

funcional dos órgãos, que é a expressão e o índice da saúde do corpo,

e, por fim, a beleza na forma e no movimento.


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    Oliveira et al. (2005) defendem a hipótese de que a instituição médica, baseada no

biologicismo, favoreceu a compreensão da Educação Física como sinônimo de saúde e

criação  de  hábitos  higiênicos  que  afastassem  da  população  a  possibilidade  de

contaminação por doenças e outros agravos, e como um caminho para a promoção

da eugenia, ou seja, o melhoramento da raça. Portanto, a medicina contribuiu para a

construção de uma Educação Física com bases biológicas, desconsiderando questões

que fugissem aos aspectos anatômicos e de rendimento físico.

    Consideramos que, no período da tendência Higienista, corroborando com Ramos e

Ferreira (2000), a preocupação da Educação Física era com a formação de um homem

‘brasileiro’,  que  pudesse  representar  a  nação,  observando-se  suas  características

eugênicas,  e  que,  desta  forma,  reforçava  a  idéia  da  saúde  utilitarista,  de  caráter

médico-higiênico (RAMOS; FERREIRA, 2000).

    Faria Junior (1991) e Mota (1992) lembram que a busca por indivíduos fortes, a

preocupação com os aspectos posturais, a influência médica e a boa aparência eram

as  metas  dos  programas  de  Educação  Física  da  época.  Para  ambos,  o  processo  de

medicalização da Educação Física ainda persiste como método, até os dias atuais.

    A tendência Higienista encerra seu ciclo, em 1930, com o advento de um mundo

preocupado,  não  mais  com  o  desenvolvimento  da  medicina,  mas  com  a  guerra

(GHIRALDELLI JUNIOR, 1998).

2.2.     Tendência Militarista (1930 – 1945)

    Totalmente biologicista, como sustenta Daolio (1995), esta tendência expressa a

forma  como  os  professores  compreendiam  os  alunos,  considerando-os  de  forma

homogênea. Com a implantação do Estado Novo, na década de 30, a escola passa a

sofrer  transformações  nos  programas  das  disciplinas.  Assim,  os  professores  de

Educação  Física  passam  a  atuar  recorrendo  a  filosofia  da  militarização,

institucionalizando  os  corpos  de  seus  alunos  e  renegando  o  aspecto  educacional  da

prática (GUEDES, 1999).

        A  Educação  Física  Militarista  passa  a  ser  influenciada  pelas  questões  bélicas.  As

preocupações  com  eventuais  guerras  e  o  envolvimento  do  país  nestes  conflitos

chegam à Educação Física com avidez. O período militarista se configura entre o final

da  Primeira  e  a  Segunda  Guerra  Mundial,  portanto,  uma  época  de  conturbações

políticas (GHIRALDELLI JUNIOR, 1998).

    Havia a necessidade de preparar futuros jovens para possíveis envios de tropas à

guerra,  assim  o  governo  brasileiro  encara  a  Educação  Física  como  um  meio  de

treinamento para os alunos. As aulas passam a ser ministradas, em sua maioria, por

militares.  Exercícios  como  polichinelo,  abdominal,  flexão  de  braço,  corridas,  defesa

pessoal,  instruções  militares  e  ginásticas  passam  a  configurar  como  conteúdos  da

Educação Física escolar (GHIRALDELLI JUNIOR, 1998).

        A  relação  aluno-professor  abandona  a  postura  paciente-médico,  como  era

considerada na tendência Higienista, e passa a vigorar como recruta-sargento. Não há

diálogo  entre  ambos.  Os  fundamentos  do  nazismo  e  do  fascismo,  em  ascensão  na

Europa, também são percebidos. O nacionalismo exacerbado e reproduzido através de

hinos e canções de amor à pátria, a preocupação com a limpeza da raça, o racismo, o

culto ao belo e a exclusão dos ditos inferiores passam a serem situações freqüentes

nas sessões de Educação Física (FERREIRA, 2009).


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        O  tema  saúde  era  abordado  somente  na  prática,  na  construção  de  futuros

soldados, fortes e doutrinados, capazes de representar a pátria em combates. Havia a

exclusão  dos  mais  fracos  e  incapazes,  pois  a  eugenia  ainda  era  preconizada  como

meio de seleção dos melhores. Para que o Brasil fosse à guerra, como de fato acabou

ocorrendo, necessitávamos de jovens saudáveis e dispostos (FERREIRA, 2005).

    As mulheres começaram a ser incluídas de forma mais forte nas aulas de Educação

Física,  porém  separadas  dos  homens.  A  separação  ocorria,  pois  os  exercícios

masculinos  eram  mais  rigorosos  e  a  ginástica  feminina  era  mais  branda.  O  objetivo

desta inclusão era favorecer a saúde feminina, porém atrás desta ação, na verdade, o

que havia de fato era a preocupação com as futuras mães, assim a Educação Física

feminina se preocupava em preparar o corpo de suas alunas para uma boa gestação.

Ao ficarem grávidas eram dispensadas das aulas. O pensamento era voltado para o

nascimento de brasileiros puros e saudáveis, para tanto deveriam ter mães saudáveis

(GHIRALDELLI JUNIOR, 1998).

    Com o final da guerra, em 1945, e conseqüentemente o fim do pensamento militar

e o início da construção de um novo mundo, a Educação Física no Brasil, seguindo os

países  do  ocidente,  volta-se  ao  modelo  americano,  um  dos  países  vencedores  da

Segunda Guerra (GHIRALDELLI JUNIOR, 1998).

2.3.     Tendência Pedagogicista (1945 – 1964)

        Após  a  Segunda  Guerra  Mundial,  com  a  derrota  do  nazi-facismo  e  a  vitória  dos

aliados, a Educação Física passa a sofrer a influência do liberalismo americano, assim

como  grande  parte  do  mundo  ocidental.  Nos  Estados  Unidos  a  Educação  Física

recorria  a  jogos  e  brincadeiras,  ginásticas,  lutas  e  esportes,  principalmente  o

basquetebol e o voleibol, conteúdos logo assimilados pela disciplina no Brasil. Ainda

no  campo  da  atividade  física,  os  americanos  passaram  a  investir  em  programas  de

exercícios físicos e na formação de atletas (SESC, 2003)

        No  Brasil,  com  o  crescimento  da  escola  pública,  como  atesta  Ghiraldelli  Júnior

(1998) a Educação Física recebe impulsos da ideologia desenvolvimentista do Governo

de  Juscelino  Kubitscheck  e  passa  a  se  integrar  pela  primeira  vez  nas  questões

pedagógicas na escola.

    Neste período, ainda de acordo com o autor citado, a Educação Física passa a ser o

centro vivo da escola, responde a preparação de alunos para festas, torneios, desfiles,

formação  de  bandas  musicais,  entre  outras.  A  participação  dos  alunos  é  mais

inclusiva.

    Pela primeira vez a saúde passa a ser discutida de forma teórica e assuntos como

primeiros  socorros,  higiene,  prevenção  de  doenças  e  alimentação  saudável  são

incorporados às aulas de Educação Física. Entretanto, no período ainda não se notava

uma preocupação com a saúde coletiva, e sim individual. Não havia discussões sobre

lazer, moradia, emprego e saneamento, condições básicas para a saúde, na visão da

Saúde Coletiva (FERREIRA, 2009).

        Um  fato  negativo  desta  tendência  é  o  início  do  culto  ao  corpo  de  forma

consumista, a partir da década de 60, fortemente apoiado pelo modeloamerican way

of life, que passa a ser copiado pela sociedade brasileira (COURTINE, 1995).

        De  forma  inversa,  agora  positivamente,  a  tendência  Pedagogicista,  denominada

por  alguns  como  biopsicossocial,  foi  inspirada  no  discurso  liberal  da  escola  nova  e


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Tendências e abordagens pedagógicas da Educação Física escolar e suas interfaces com a saúde

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buscava efetivar um caráter mais educacional à Educação Física.

    Guedes (1999) explica que as introduções de idéias pedagógicas fizeram com que

a Educação Física fosse reconhecida como um meio de educação, pois advogava no

sentido de explicar que o homem, para ser instruído de forma integral, deveria não

somente ser educado cognitiva e afetivamente, mas também no campo físico. Para o

autor  tal  fato  proporcionou  aos  professores  da  disciplina  substituir  os  métodos

mecânicos da prática.

        O  autor  ainda  afirma  que,  da  mesma  forma  como  os  militares  da  tendência

militarista  tentaram  superar  os  métodos  médicos  da  tendência  Higienista,  foram  os

pedagogos  que  procuraram  tomar  o  lugar  dos  militares  na  tendência  Pedagogicista,

apesar de resquícios da área médica e militar que se mantiveram presentes nas aulas

dos professores da época. Assim a relação agora era, enfim, aluno-professor.

        A  Educação  Física  brasileira  parecia  caminhar  a  largos  passos  para  uma  boa

utilização  de  seus  métodos,  passando  a  vogar  em  prol  da  discussão  teórica

educacional, porém, havia em seu caminho um empecilho que lhe proporcionou uma

vertiginosa queda de volta ao biologicismo: a ditadura militar.

2.4.     Tendência Esportivista (1964 – 1985)

    Em 1º de abril de 1964, no Brasil, os militares tomam o poder e a partir de então,

instalam  um  governo  onde  as  pessoas  com  idéias  contrárias  eram  rigorosamente

punidas com perseguições, cadeia, exílio e morte. A censura passa a ser exercida e

ocorrem  a  fiscalização  de  sindicatos,  entidades  estudantis  e  partidárias  (FERREIRA,

2009).


    Nesse mesmo período, o Brasil consegue vários resultados expressivos no esporte

como o tricampeonato da seleção brasileira de futebol, no México em 1970. O povo

comemorava nas ruas as vitórias brasileiras. O governo patrocinava as festas e desta

forma percebeu que a população adorava esportes e que, com a atenção direcionada

às  disputas,  afastava-se  das  discussões  políticas.  Assim,  os  militares  resolvem

incentivar  a  prática  esportiva,  com  objetivos  claros:  descobrir  novos  talentos  e

transformar o Brasil em potência olímpica. Porém havia objetivos escusos: ao praticar

esportes a população se ocupava e deixava de lado as preocupações com o governo

(FERREIRA, 2009).

        Para  atingir  os  objetivos  traçados,  o  governo  resolve  então  apoiar  a  prática  de

esportes  na  escola  e  a  Educação  Física  se  torna  o  alvo  prefeito.  A  partir  deste

momento  a  Educação  Física,  que  buscava  um  avanço  como  meio  educativo,  na

tendência  Pedagogicista,  retorna  ao  biologicismo.  Os  professores  agora  deveriam

deixar de lado os aspectos sociais, educativos e afetivos e se preocupar somente com

o rendimento e o aprimoramento das habilidades esportivas (FERREIRA, 2009).

        A  Educação  Física  passa  a  ser  dominada  pelos  esportes,  melhor,  passa  a  ser

sinônimo  de  esportes.  Há  uma  exclusão  generalizada  daqueles  que  não  possuem

habilidades,  a  competição  passa  a  ser  o  objetivo  do  processo.  A  relação  professor-

aluno  passa  a  ser  técnico-atleta.  O  período  que  compreende  esta  tendência  na

Educação Física é de 1964 a 1985 (FERREIRA, 2009).

    Nesta tendência da Educação Física a saúde, física, se torna um tema importante,

pois é necessário atender aos futuros atletas. A fisiologia e o treinamento esportivo,

principalmente, atingem um grande desenvolvimento (FERREIRA, 2009).


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Tendências e abordagens pedagógicas da Educação Física escolar e suas interfaces com a saúde

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        Ainda  neste  período  a  Educação  Física  também  recebe  influências  dos  discursos

econômicos,  que  preocupados  com  os  problemas  de  saúde,  alertavam  para  a

realização  de  atividades  físicas  pela  população.  O  argumento  na  verdade  era  o  de

tornar  menos  custosa  a  saúde  para  os  governos.  Esse  movimento

denominado  healthism  teve  sua  origem  nos  Estados  Unidos  e,  anos  mais  tarde  no

Brasil, passa a se chamar de Movimento da Saúde (SOARES, 1994).

    O Movimento da Saúde é pautado pelo individualismo, em detrimento das questões

sociais.  Assim,  as  atividades  físicas  passam  a  ser  medidas  privadas,  diferentemente

das tendências Higienista e Militarista, onde a ideologia era voltada para o Estado por

meio da consecução da eugenia e sua busca incessante pela melhoria da raça (GÓIS

JÚNIOR; LOVISOLO, 2003).

        Também  conhecida  como  tendência  Competitivista,  Mecanicista  ou  Tecnicista,  a

tendência Esportivista ainda hoje é muito representativa na área da Educação Física

Escolar.  Seus  métodos,  conteúdos,  formas  e  meios  se  resumem,  como  o  nome  já

informa,  à  prática  esportiva,  com  todas  as  suas  normas,  técnicas,  táticas  e  busca

de performances. Talvez esta seja a tendência que mais raízes deixou na prática da

Educação Física Escolar (FERREIRA, 2009).

        A  partir  de  meados  dos  anos  80,  a  ditadura  brasileira  começa  a  se  sentir

desprivilegiada e sem forças que a sustentem no poder. Os movimentos democráticos

começam a se fortalecer, entre eles as Diretas Já. O Brasil não se torna uma potência

olímpica, pelo contrário, os resultados em competições internacionais são pífios. Com

eleição de um presidente civil e a retomada da democracia, a Educação Física penetra

na era da tendência popular (FERREIRA, 2009).

2.5.     Tendência Popular (1985 – atualidade)

        A  década  de  80  faz  fervilhar  os  movimentos  populares.  O  Movimento  Sanitário

cresce  nos  municípios  e  se  organiza.  Em  1986,  na  já  comentada  8ª  Conferência

Nacional  de  Saúde,  ocorre  o  reconhecimento  do  Conceito  Ampliado  de  Saúde,  que

entende saúde como um conjunto de situações que vão além do biológico, incluindo o

social, o cultural e o econômico (BRASIL, 1986).

        A  Educação  Física  pautada  na  tendência  Popular  é  dominada  pelos  anseios

operários  de  ascensão  na  sociedade.  Conceitos  como  inclusão,  participação,

cooperação, afetividade, lazer e qualidade de vida passam a vigorar nos debates da

disciplina.  O  aluno,  depois  de  um  longo  período,  desde  a  tendência  Pedagogicista,

entre 1945 e 1964, passa a ser parte do processo, sendo ouvido, podendo sugerir e

criticar (FERREIRA, 2009).

    A saúde como tema deste período da Educação Física engloba diversos assuntos

como o sedentarismo, as doenças sexualmente transmissíveis, o combate às drogas e

os primeiros socorros (FERREIRA, 2009).

        A  força  do  biologicismo,  tão  presente  em  outras  tendências  da  Educação  Física,

parece  declinar.  Lesões,  traumas,  estresse,  e  uso  de  drogas  para  aumentar  o

rendimento direcionam a atenção da população para os efeitos do esportivismo e de

sua busca pelo alto rendimento. Solomon (1991) afirma que somente a dedicação aos

exercícios  não  são  suficientes  para  a  prevenção  de  doenças  cardíacas.  A  afirmação

produz um efeito devastador na Educação Física, que inicia então uma nova leitura do

seu papel como produtora de saúde.


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    Porém a Educação Física na verdade, entra em crise epistemológica. O que fazer?

Não se respira mais os ares do Higienismo e sua assepsia corporal; não se pretende

mais produzir futuros soldados, como preconizava o a tendência Militarista; não há a

necessidade de produzir atletas, pois a escola não possui esta função, como queria a

tendência Esportivista. Qual a ciência da Educação Física? A que se destina? Qual o

verdadeiro papel da saúde na Educação Física? Desta crise, aflorada pela necessidade

de sobrevivência, surgem as abordagens da Educação Física.

3.     A Saúde e as abordagens da Educação Física

        Darido  (2003)  explica  que  a  partir  da  década  de  80,  é  iniciado  um  amplo  debate  sobre  os

pressupostos  e  a  especificidade  da  Educação  Física.  Como  resultados  surgem  várias  abordagens

pedagógicas  para  a  área,  como  as  abordagens  Psicomotora,  Desenvolvimentista,  Construtivista,

Saúde Renovada, Crítico-superadora, Critíco-emancipatória, entre outras.

    A Educação Física passa então a realizar importantes mudanças em sua estrutura: reformulação

curricular, conteúdos desenvolvidos para a escola, reflexões críticas acerca da falta de ideologia na

área,  entre  outras  (RAMOS;  FERREIRA,  2000).  Tais  discussões  fazem  surgir  um  novo  cenário,

marcado pela ruptura com o biologicismo reinante.

    Desta forma a Educação Física avança para a ampliação de seus conteúdos e percepção do corpo

e  do  movimento,  voltando-se  então  para  a  compreensão  da  cultura  corporal  (BRACHT,  1996;

COLETIVO  DE  AUTORES  1992).  Betti  (1992)  concorda  com  o  avanço,  e  explica  que  a  Educação

Física  “deve  preocupar-se  com  a  formação  do  cidadão  que  irá  usufruir,  partilhar,  produzir,

reproduzir e transformar as formas culturais da atividade física” (BETTI, 1992, p.285).

    A seguir nos deteremos a apresentar as principais abordagens da Educação Física escolar, na

visão de Darido (2003), e sua relação com a saúde.

3.1.     Psicomotricidade.

    A Psicomotricidade é o primeiro movimento a se articular como uma abordagem da

Educação  Física  Escolar,  seus  princípios  extrapolam  a  ordem  biológica  e  de

rendimento  corporal,  inserindo  na  prática  o  conhecimento  de  ordem  psicológica

(DARIDO,  2001).  Soares  (1996)  afirma  que  esta  corrente  visa  o  desenvolvimento

integral do aluno, estimulando os aspectos motores, cognitivos e afetivos.

        Seu  grande  difusor  foi  o  francês  Le  Boulch  (1986)  que  preconizava  a  educação

psicomotora  através  de  movimentos  espontâneos  com  o  intuito  de  favorecer  a

imagem do corpo, para o autor citado, o núcleo central da personalidade.

    A Psicomotricidade busca desenvolver fatores como a noção de corpo, tonicidade,

equilíbrio,  estrutura  espaço-temporal,  lateralidade,  coordenação  motora  global  e

coordenação  fina  (FERREIRA,  2001a).  A  saúde,  nesta  abordagem,  é  vista  de  forma

indireta  como  resultado  do  desenvolvimento  dos  fatores  psicomotores,  afetivos  e

cognitivos.

3.2.     Construtivismo.

    Esta abordagem é baseada no construtivismo de Piaget. Darido (2001) afirma que

a  corrente  construtivista  sofreu  influências  da  psicomotricidade,  no  sentido  de

valorizar  aspectos  psicológicos,  afetivos  e  cognitivos  no  desenvolvimento  do

movimento humano. Dentro desta complexidade a construção do conhecimento se dá

através da interação sujeito-mundo.


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        Freire  (1991)  pode  ser  considerado  como  o  responsável  pela  introdução  desta

abordagem na Educação Física Escolar. Seu livro Educação de Corpo Inteiro (1991) é

considerado uma obra de referência no contexto construtivista.

        Para  o  autor,  a  criança  é  uma  especialista  no  jogo,  no  brincar  e  no  brinquedo;

possui um conhecimento prévio que deve ser respeitado e considera o erro como um

processo para a aprendizagem. O tema saúde na abordagem construtivista é, assim

como na psicomotricidade, compreendido de forma indireta.

3.3.     Desenvolvimentista.

        A  abordagem  desenvolvimentista  se  preocupa  com  o  desenvolvimento  das

habilidades motoras básicas, entre elas as habilidades locomotoras, de manipulação e

de estabilização.

    No Brasil, Go Tani (1988) é o representante desta abordagem. O autor explica que

a  Educação  Física  deve  se  preocupar  com  o  crescimento  e  desenvolvimento  motor,

pois  para  esta  abordagem  defende  que  o  movimento  é  o  principal  meio  e  fim  da

Educação  Física.  Por  ser  mais  biologiscista,  a  abordagem  Desenvolvimentista  possui

um conceito de saúde indireto, se resumindo à preocupação com a aprendizagem das

habilidades  motoras,  pois  é  através  delas  que  os  seres  humanos  se  adaptam  aos

problemas do cotidiano (DARIDO, 2001).

3.4.     Críticas

    Ao se opor ao tecnicismo da Educação Física escolar, alguns autores elaboram uma

proposta  de  mudanças  para  a  área  regida  pelo  marxismo.  As  abordagens  críticas,

também  denominadas  progressivas,  exigem  do  professor  de  Educação  Física  uma

visão  da  realidade  de  forma  mais  política.  Combatem  a  alienação  dos  alunos  e

defendem  uma  postura  de  superação  das  injustiças  sociais,  econômicas  e  políticas.

Dentre essas abordagens podemos citar a abordagem Crítico-superadora e a Crítico-

emancipatória (DARIDO, 2001).

    O livro, representativo da abordagem Crítico-superadora, Metodologia do Ensino da

Educação  Física,  publicado  por  um  Coletivo  de  Autores  (1992),  instiga  a  reflexão

sobre questões de poder, interesse, esforço e contestação. Analisa que não se deve

apenas  explicar  como  ensinar,  mas  sobretudo,  como  se  adquire  conhecimento,  e

dentro deste contexto, respeita os aspectos sócio-culturais dos alunos. Sugere que os

conteúdos  da  Educação  Física  Escolar  devem  considerar  a  realidade  dos  operários.

Nesta  abordagem  a  disciplina  é  tida  como  um  tipo  de  conhecimento  que  trata  da

cultura corporal (DARIDO, 2001).

        A  abordagem  Crítico-emancipatória  possui  como  principal  autor  Kunz  (1994).

Segue as diretrizes da Escola de Frankfurt e busca um ensino, através da Educação

Física, de libertação de falsas ilusões, interesses e desejos criados por uma mídia com

interesses  capitalistas  (DARIDO,  2001).  As  abordagens  críticas  iniciam  pela  primeira

vez  após  a  tendência  Pedagogicista,  o  debate  sobre  saúde.  Porém  o  debate  sobre

saúde apresentado nestas abordagens reflete o pensamento marxista do Coletivo de

Autores  (1992)  e  Kunz  (1994),  desta  forma  as  discussões  envolvendo  saúde  se

direcionam mais para as questões de justiça social.

3.5.     Saúde Renovada

        A  partir  da  década  de  90,  ocorre  a  existência  de  uma  abordagem  da  Educação



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Física Escolar voltada para as questões da saúde, não apenas repetindo os conceitos

da  tendência  Higienista,  mas  ampliando  a  discussão  (DARIDO,  2003).  A  autora

denominou  a  abordagem  de  Saúde  Renovada.  Para  Darido  (2003)  os  principais

teóricos da abordagem são Nahas (1997) e Guedes e Guedes (1996).

        Nahas  (1997)  e  Guedes  e  Guedes  (1996)  passam  a  defender  a  idéia  de  uma

Educação  Física  escolar  dentro  da  perspectiva  biológica,  para  explicar  as  causas  e

fenômenos  da  saúde,  entretanto  não  se  afastam  das  questões  sociais.  Discutem  o

sentido de qualidade de vida e bem estar. Guedes e Guedes (1996) alertam para as

preocupações com a incidência de distúrbios orgânicos associados a falta de atividade

física.


        Guedes  e  Guedes  (1996),  afirmam  que  a  prática  da  atividade  física,  através  da

Educação Física Escolar, na infância e adolescência pode estimular uma vida saudável

na  fase  adulta,  para  tanto  o  hábito  da  vida  saudável  deve  ser  ensinado  na  escola.

Sugerem a reformulação dos programas de Educação Física Escolar, agora como um

meio de educação e promoção da saúde.

        Para  Darido  (2003),  essa  abordagem  é  considerada  renovada,  pois  incorpora  os

preceitos positivos do higienismo, descarta soluções negativas, como o eugenismo e

recorre a um enfoque mais sociocultural que biológico.

    Nahas (1997) cita que o objetivo da Educação Física Escolar é ensinar conceitos

básicos  da  relação  atividade  física-saúde,  essa  perspectiva  inclui  todos  os  alunos,

principalmente os mais necessitados, como sedentários, obesos, portadores de baixa

aptidão física e especiais. Tais colocações refletem o pensamento de Betti (1991) ao

alertar  para  a  necessidade  da  inclusão  de  todos  os  alunos  nas  aulas  de  Educação

Física.


    A compreensão de saúde e o entendimento dos benefícios que a atividade física

produz  no  organismo  são  informações  que  não  se  resumem  apenas  à  prática

costumeira  dos  esportes.  Estes  conceitos  devem  ser  assimilados  e,  sendo

incorporados, produzirão futuros adultos conscientes dos hábitos saudáveis ao longo

da vida (GUEDES; GUEDES, 1996; NAHAS, 1997).

        Para  os  autores  citados,  a  compreensão  de  saúde  deve  envolver  temas  como:

estresse, sedentarismo, doenças hipocinéticas, problemas cardíacos, entre outros. Os

autores  compreendem  saúde  como  a  capacidade  do  indivíduo  desfrutar  a  vida  com

bem  estar,  e  não  apenas  ausência  de  doença.  Consideram  que  a  saúde  não  é  um

estado estável e sim mutável, que é construído individualmente ao longo da vida, e

para  isso,  a  Educação  Física  escolar  é  fundamental.  Percebemos  que  o  conceito  de

saúde  aqui  está  focado  no  individual  e  não  no  social.  Palma  (2001),  sustentando

nossa  crítica,  preconiza  a  necessidade  de  considerar  os  fatores  sociais  e  ambientais

como propulsores da saúde.

3.6.     Parâmetros Curriculares Nacionais[3] – PCNs

        O  Ministério  da  Educação  e  do  Desporto,  inspirado  no  modelo  educacional

espanhol,  convidou  um  grupo  de  pesquisadores  de  várias  áreas  do  conhecimento,

entre  elas  a  Educação  Física,  para  a  construção  dos  Parâmetros  Curriculares

Nacionais-PCNs (DARIDO, 2001).

        De  acordo  com  Darido  (2010),  as  propostas  dos  PCNs-Educação  Física

apresentavam avanços embora muitos dos conteúdos do documento já haviam sido


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discutidos em obras anteriores (BETTI,1991; BETTI, 1994; COLETIVO DE AUTORES,

1992).  Para  a  autora,  três  aspectos  levantados  nos  PCNs-Educação  Física  são

relevantes: princípio da inclusão; as dimensões de conteúdo atitudinais, conceituais e

procedimentais; e, os temas transversais.

    Na Educação Física Escolar a preocupação com saúde, em momentos é voltada ao

higienismo, ora à eugenia e em outros à aptidão física (RAMOS; FERREIRA, 2000). O

tema  saúde  na  verdade,  é  muito  pouco  explorado  pelos  professores  de  Educação

Física e os PCNs se propõem a alterar este quadro.

    Os PCNs-Saúde buscam atrelar-se a um conceito de saúde que supere o paradigma

biológico  e  informativo.  No  documento  são  considerados  os  diversos  enfoques  que

formam  a  composição  do  cenário  da  saúde,  incluindo  aí  os  aspectos  sociais,

econômicos, culturais, afetivos e psicológicos (BRASIL, 1998). O texto introdutório dos

PCNs-Saúde apresenta o desafio de educar para a saúde, no que se refere a hábitos e

atitudes de vida (BRASIL, 2000).

    É fato que a transmissão de conhecimento de saúde no Brasil nas escolas, quando

efetivada,  tem  se  realizado  através  de  meras  informações  sobre  os  aspectos

biológicos do corpo, a descrição de doenças e suas causas e de hábitos e de higiene.

Estas situações não são resolutivas para que os alunos desenvolvam atitudes de vida

saudável (BRASIL, 1998).

    Peregrino (2000) também reforça a idéia do ensino de saúde errôneo na educação

do  Brasil.  De  acordo  com  a  autora  o  ensino  é  linear  e  tradicional,  segue  uma

complexidade  crescente,  mas  fragmentada,  não  há  uma  relação  dos  assuntos  de

saúde com o contexto social e cultural dos alunos.

        Os  PCNs-Saúde,  inspirados  nos  textos  e  nas  obras  de  Canguilhem,  idealizam  o

preenchimento desta lacuna no ensino de saúde. Buscam um modelo de compreensão

de  saúde  mais  abrangente,  não  excluem  as  questões  biológicas,  mas  defendem  o

fenômeno social como fator decisivo do entendimento de saúde (BRASIL, 2000). Em

nossa compreensão esta é a abordagem que mais se aproxima dos ideais da saúde

coletiva,  por  abordar  e  considerar  fatores  externos,  e  não  somente  a  prática  de

exercícios,  como  indicadores  de  saúde,  entretanto  deixa  de  incluir  características

extremamente importantes no campo da própria saúde coletiva, como a humanização,

o cuidado consigo e com o outro, o vínculo e o diálogo.

4.     Conclusões Reflexivas

    Após todas estas tendências e abordagens da Educação Física Escolar, sentimos a necessidade

de  sintetizar  o  papel  da  saúde  em  cada  uma  delas.  O  quadro  a  seguir  representa  nosso

entendimento sobre o assunto:

Quadro 01: O papel da saúde nas tendências e abordagens da Educação Física Escolar.

Tendência/abordagem

Papel da saúde

Higienista

Promover a assepsia social, preocupação com a limpeza corporal,

eugenia. Somente aulas práticas. Tema saúde abordado

indiretamente. Visão biologicista e individualista de saúde.

Preparar alunos saudáveis através de exercícios militares para



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Militarista

representar o Brasil em futuras guerras. Somente aulas práticas.

Tema saúde abordado indiretamente. Visão biologicista e

individualista de saúde.

Pedagogicista

Início de discussões teóricas sobre o tema, mesmo que simplórias,

sobre primeiros socorros, higiene, prevenção de doenças e

alimentação saudável. Visão individualista de saúde.

Esportivista

Os alunos deveriam possuir saúde para tornarem-se atletas.

Desenvolvimento da fisiologia e do treinamento esportivo. Somente

aulas práticas. Tema saúde abordado indiretamente. Visão

biologicista e individualista de saúde.

Popular


Discussões teóricas sobre diversos temas como o sedentarismo, as

doenças sexualmente transmissíveis, o combate às drogas e os

primeiros socorros. O biologicismo começa a declinar. Percepção de

que somente a dedicação aos exercícios não é suficiente para a

prevenção de doenças. Crise epistemológica na Educação Física, que

provoca nova leitura do seu papel como produtora de saúde.

Psicomotricidade

Saúde tratada de forma indireta através de atividades que

desenvolvam os aspectos psicomotores, cognitivos e afetivos.

Somente aulas práticas. Visão não biologicista, porém individualista

de saúde.

Construtivista

Saúde tratada de forma indireta através de atividades lúdicas

envolvendo o jogo. Visão não biologicista, porém individualista de

saúde.

Desenvolvimentista



Saúde tratada de forma indireta através de atividades que

desenvolvam as habilidades motoras. Somente aulas práticas. Visão

biologicista e individualista de saúde.

Críticas


Saúde tratada de forma direta através discussões e debates sobre as

injustiças sociais pautadas no marxismo. Visão não biologicista e

socialista de saúde.

Saúde Renovada

Saúde tratada de forma direta através de discussões e aulas

práticas. A relação atividade física – saúde é tida como causa efeito.

Visão não completamente biologicista, porém defende de forma

muito forte as questões orgânicas como única fonte de saúde. Visão

individualista de saúde.


12/9/2014

Tendências e abordagens pedagógicas da Educação Física escolar e suas interfaces com a saúde

http://www.efdeportes.com/efd182/tendencias-pedagogicas-da-educacao-fisica-escolar.htm

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PCNs

Saúde tratada de forma direta através de discussões e aulas

práticas. Aproxima-se do campo da Saúde Coletiva por incluir em

suas discussões temas da Saúde Pública. Considera a cidadania

como saúde. Visão não biologicista e, ainda que não tão incisiva,

coletiva de saúde.

Fonte: Autoria própria.

        Após  este  quadro  síntese,  compreendemos  a  necessidade  de  uma  nova  proposta  política

pedagógica para a Educação Física Escolar, no sentido de desenvolver os conteúdos e conceitos de

saúde, esta nova proposta deve ser ancorada nos princípios da Saúde Coletiva.

    Entenderemos Saúde Coletiva neste estudo como uma área da saúde que compreende fatores

sociais,  culturais,  econômicos  e  históricos  como  pré-requisitos  de  saúde.  Estes  fatores  podem  ser

discutidos nas aulas de Educação Física escolar, seja na teoria ou na prática, associando as práticas

corporais e os exercícios físicos com tais temas.

    A presença das ciências sociais e humanas (antropologia, sociologia, economia, política, história,

filosofia,  ética,  estética)  foi  se  consolidando  sendo  consideradas  como  fundamentais  para  a

compreensão da Saúde Coletiva. Na Educação Física Escolar também há a necessidade da inclusão

destas  ciências  para  entender  o  aluno  de  forma  integral.  Não  é  possível  compreender  um  ser

somente a partir da biologia e suas funções orgânicas.

    Aspectos como moradia, alimentação, lazer, emprego, acesso a serviços de saúde, saneamento e

cultura  são  considerados  indispensáveis  para  a  aquisição  da  saúde.  Tais  aspectos  são  até  certo

ponto, como já comentados, contemplados nos PCNs.

    Entretanto as normas e procedimentos relacionados à humanização, como o diálogo, o cuidado e

o vínculo também fazem parte da Saúde Coletiva. Na Educação Física Escolar, consideramos que a

humanização ainda não é praticada.

Notas


1.  Tendências da Educação Física: são relacionadas com os períodos históricos do Brasil. Suas características acompanham

do contexto sócio-cultural que o país atravessa.

2.  Abordagens  da  Educação  Física:  são  entendimentos  da  Educação  Física  por  autores,  ou  grupo  de  autores,  onde  cada

qual procura explicar os conteúdos, sistemas e métodos da disciplina dentro de sua própria experiência teórica e prática.

3.  Reconhecido como uma abordagem no livro Educação Física na Escola, de Darido e Rangel (2005).

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