Ústav romanských jazyků a literatur Bakalářská diplomová práce 2012 Samira Mirieva Masarykova univerzita Filozofická fakulta Ústav romanských jazyků a literatur



Baixar 0,56 Mb.
Página1/3
Encontro21.11.2016
Tamanho0,56 Mb.
  1   2   3



Filozofická fakulta

Ústav romanských jazyků a literatur

Bakalářská diplomová práce

2012 Samira Mirieva
Masarykova univerzita

Filozofická fakulta

Ústav romanských jazyků a literatur

Portugalský jazyk a literatura

Samira Mirieva

A imagem da mulher nos contos „Singularidades de uma rapariga loura“, „José Matias“ e „No Moinho“ de Eça de Queirós

Bakalářská diplomová práce

Vedoucí práce: Mgr. Silvie Špánková, Ph.D.

2012

Prohlašuji, že jsem diplomovou práci vypracovala

samostatně s využitím uvedených pramenů a literatury.
……………………………………………..

Podpis autora práce



Na tomto místě bych chtěla vyjádřit hlubokou vděčnost paní Mgr. Silvii Špánkové, Ph.D. za její pomoc,

rady a čas, který věnovala mé práci.

Índice
Introdução........................................................................................ 7
1. Imagem da mulher na prosa portuguesa do século XIX:

o Romantismo e o Realismo.............................................................. 9
2. As feições do Romantismo e Realismo na imagem da mulher ... 14
2.1 Descrição da personagem feminina...................................... 14
2.2 Localização da personagem feminina................................... 17
2.3 Aspecto parentesco da personagem feminina....................... 22
2.4 A característica comparativa da psicologia da personagem

feminina...................................................................................... 26


2.5 A relação amorosa da personagem feminina......................... 33
Conclusão........................................................................................... 37
Bibliografia......................................................................................... 38

Introdução
No século XIX em Portugal, tal como noutros países europeus, acontece a transição da corrente do Romantismo ao Realismo na vida literária do país. Eça de Queirós é uma figura-chave da sua época, cujas obras se tornaram clássicas e apresentam a importíssima contribuição à literatura portuguesa e europeia em geral. Entre os heróis dos seus romances e contos destaca-se a figura feminina, a que o autor dá a devida atenção. Nunca antes o mundo interior da mulher era tão abertamente apresentado na literatura portuguesa. A personagem feminina torna-se para o autor um objecto de minuciosa análise, onde encontramos diferentes manifestações dos movimentos romântico e realista que fazem a figura feminina multifacetada e complexa.

Nós pessoalmente tomámos conhecimento com a obra de Eça de Queirós na Rússia, onde o escritor é considerado um mestre do realismo europeu. Na Universidade Estatal de São Petersburgo nos foram apresentados os trabalhos do autor português por Andrei Rodosski, professor do Departamento de Filologia Românica e do Departamento da Cultura Europeia Ocidental. Mais tarde, na Universidade de Masaryk, na República Checa em Brno, alargámos o nosso conhecimento pela leitura de outras obras do autor e dos artigos críticos dele, o que deu a base para tentar combinar este conhecimento num trabalho.

O nosso trabalho dedica-se aos três famosos contos do escritor: “Singularidades de uma rapariga loura”, “José Matias” e “No Moinho”, onde focamos a nossa atenção na personagem feminina principal. Vamos observar como as duas principais correntes literárias do século XIX influenciaram e manifestaram-se na imagem da mulher nestas obras.

No primeiro capítulo vai seguir a representação da mulher na literatura portuguesa do século XIX, e veremos como muda a sua imagem sob a influência de diferentes correntes literárias. Neste capítulo também vamos inteirar-nos de algumas imagens de mulheres das obras de Eça de Queirós, como o principal representante do movimento do Realismo em Portugal.

No próximo capítulo serão apresentadas as feições do Romantismo e Realismo na imagem da mulher dos contos dados. Esta parte do nosso trabalho será dividida em cinco subcapítulos. Em cada um deles vamos considerar as personagens femininas sob vários aspectos, a fim de vermos os traços típicos de Realismo, Romantismo ou até Naturalismo na imagem da mulher.

Ao longo de todo o nosso trabalho, além de factos conhecidos, tentaremos também expressar os nossoa próprios pressupostos no que diz respeito a alguns símbolos e meios narrativos utilizados pelo autor. Em nossa análise pretendemos basear-nos sobretudo no livro “Introdução à Leitura de Contos de Eça de Queirós”, o qual nos ajudará a entender melhor os aspectos ligados a problemática dada. Para esclarecer e explicar o nosso próprio ponto de vista vamos recorrer à ajuda de citações e exemplos dos contos de Eça de Queirós.



1. Imagem da mulher na prosa portuguesa do século XIX: o Romantismo e o Realismo

A imagem da mulher na literatura portuguesa tem vários construções e conteúdos o que sempre dependem da corrente literária. A imagem feminina exerceu uma influência sobre a sociedade, a igreja e o movimento literário. Partindo do facto de que a Bíblia é o documento fundador da civilização ocidental cristã, é nesta que encontramos a primeira imagem de uma mulher, Eva. Eva representa a figura negativa da mulher, isto é, a personagem, que leva Adão ao pecado. Esta negatividade mais tarde vai ser neutralizada pela imagem positiva representada pela Virgem Maria. Avançando-se na leitura Bíblica, Maria é o exemplo e o modelo perfeito de mulher, o que nos remete à figura da mulher da época do Romantismo.

O Romantismo, como é sabido trouxe uma nova filosofia e valores ideológicos à vida cultural do século XIX. Os escritores aceitam tais temas como: “evocação do popular, do medievo, do exótico; exaltação da liberdade; “eu”, medida do Universo”1

Um dos princípios básicos do Romantismo é a idealização, através da qual, o romântico foge da realidade. A idealização é aplicada principalmente a tais conceitos como o amor, ou o objecto amado, que nesta situação, é a dona do coração. Os escritores românticos vêem a mulher como uma criatura distante, que é idealizada por aquele que a ama. Aqui podemos ver algumas características do Trovadorismo, tais como a religiosidade e a glorificação da figura feminina. Estes temas encontram-se nas novelas de cavalaria medievais. Na visão dos românticos a mulher é a personagem poderosa e inacessível, que ao mesmo tempo é cheia de virtudes e castidade.

As características que unem as figuras femininas românticas, são a alta espiritualidade e a pureza moral. Deste modo, a idealização das mulheres equipara-as a uma santa, isto é, de alguma forma a heroína do romance torna-se o protótipo da personagem bíblica.

Um bom exemplo é a obra de Almeida Garrett, “O Arco de Sant`Ana”, onde o nome da Aninhas, a mulher de Afonso de Campanha, que foi raptada pelo bispo do Porto, está conectada de forma directa ao arco. Aninhas tem o cuidado de acender velas para a Santa e desta forma guardar o seu nicho na limpeza. Chamamos a atenção ao facto que o autor chama a sua heroína em honra de Santa Ana. Assim Almeida Garrett traça um paralelo entre a personagem feminina do romance e Santa Ana, que permite ao autor logo desde o início do livro estabelecer na mente do leitor a imagem de Ana como uma jovem casta e piedosa.

Para percebermos melhor o significado das imagens medievais na personagem da mulher no século XIX, dirigimo-nos à história „A Dama do Pé de Cabra“ de Alexandre Herculano. A obra, que se baseia numa lenda medieval, apresenta um modelo feminino “formoso”. A dama é vista, primeiro, no alto do penhasco, cantando em voz alta e de forma expressiva e angelical: “Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo, lindo cantar. Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre ela estava assentada uma formosa dama: era a dama quem cantava.“ 2

Nesta lenda vemos a mulher misteriosa, poderosa, capaz de dirigir um cavaleiro. Dom Diego imediatamente se apaixona pela dama, que o incita a fazer uma pesada promessa: “O de que eu quero que te esqueças é do sinal-da-cruz: o que eu quero que me prometas é que nunca mais hás-de persignar-te.”3 O juramento consiste na condição de D. Diogo nunca mais se benzer, que é a negação de um valor medieval fundamental - a Igreja. A mulher provoca o homem ao pecado e nesta acção, vemos uma semelhança com a Eva, a personagem bíblica, que também solicitou a Adão o acto de desobediência à lei divina.

A dama de Pé de Cabra é uma figura, na qual predomina o imaginário, o inverossímil e a fantasia, o que nos permite caracterizá-la como uma figura grotesca. Os escritores românticos usaram o grotesco como outra forma sublimada e com uma sombra de mistério de acordo com as linhas básicas da estética romântica.

Como se sabe, a primeira fase da obra de Eça de Queirós é romântica. Álvaro Manuel Machado menciona, que “para Eça, o Romantismo era antes de mais a descoberta de Shakespeare, embora leia também Heine, Vítor Hugo, Michelet, Gérard de Nerval e Baudelaire.”4 É evidente, que durante este período o autor foi influenciado pela leitura romântica.


“A figura feminina começa por aparecer delirantemente romântica, «lírica», mesmo no sentido subalternizante que o termo veio a ter em quase toda a obra queirosiana. Nas Prosas Bárbaras, a figura feminina apresenta-se muito tensa e exorbitante, mas ao mesmo tempo informe e brumosa. Concretizava-se em alternativa numa «moça de olhos pretos», «serenos, mas eternamente falsos», «figura colorida e vaga como as nuvens», «olhos húmidos como violetas debaixo de água», «braços cor de mármore», «cabelos ou negros e flutuantes ou cor de amora», etc. Ao mesmo tempo, esboça-se aí uma primeira dualidade tipológica que persiste no conjunto da sua obra. Num campo está a mulher «carinhosa e doce e meiga e casta e consoladora», noutro, «a altiva, inquieta e desdenhosa»; esta tem os olhos negros, «como duas flores de mal», aquela «olhos azuis como duas elegias». Via ainda a primeira na igreja, em orações, «como uma fidalga espanhola», mas, «na linha de sombra dos seus lábios,corria um sorrisa, que só dizia – Amor!»”5

Então, neste fase “ao lado de uma imagem positiva, encarnada quer em figuras angelicais e marianas(...) surge a mulher traidora, cuja perfídia vai da falsidade e infidelidade.”6

Na segunda metade do século XIX chega a corrente do Ultra-romantismo, o movimento, que se desvia das normas do Romantismo, preferindo o sofrimento, o fatalismo e o pessimismo, mantendo, no entanto, o culto da mulher.

Um dos representantes mais famosos do Ultra-romantismo, o português Júlio Dinis, no seu livro “Uma família inglesa” cria duas imagens femininas: “(...)Jenny – menina que era um anjo no seio da família, precocemente amadurecida. Cecília – tipo de rapariga formosa, modesta e cometida, muito dedicada à família do patrão de seu pai, cheia de sensibilidade.(...)”7

Uma jovem ou uma mulher deste período pode ter diferentes características e descrições, mas sempre acaba por ter uma imagem idealizada. A mulher não é capaz de uma acção decadente, o amor para ela é perfeito, e, portanto, ela é também perfeita.

O segundo grande movimento na vida cultural da Europa do século XIX é apresentado pelo Realismo, o conceito que caracteriza a função cognitiva da arte. Uma das principais obras do realismo surge no ano 1857 com a publicação do romance francês “Madame Bovary” de Gustave Flaubert.8 Este romance, que provocou uma explosão a literatura europeia, abalou os valores românticos de muitos intelectuais e escritores daquela época. No centro da obra está a nova imagem da mulher, que o leitor europeu ainda não tinha visto. Devido ao exemplo deste livro observamos uma inovação na apresentação do caráter da mulher. Um sociólogo, escritor, e jornalista brasileiro, Luís Cristóvão escreveu sobre esta obra:


“Desde o início do livro a descaracterização da idealizada mulher Romântica é evidente. Emma Bovary é uma mulher insaciável, inteligente e bela, mas é obrigada a casar com um apático e passivo médico de uma pequena cidade do interior da França. Ela vive em um constante estado de opressão, onde as sonhadas diversões urbanas que ela imaginava nunca são concretizadas. Sua vida vai ficando cada vez mais monótona e ela começa a se arriscar em aventuras muito mais sérias.”9
Assim, em França começa o movimento do Realismo, que gradualmente penetra em outros países europeus, incluindo Portugal. Em 1871 realizam-se as Conferências do Casino, onde se forma a nova apresentação do homem na literatura.

“Segundo Eça, o Realismo não era apenas um processo formal; era uma base filosófica que suportava todas as concepções do espírito, uma espécie de roteiro do pensamento humano nas regiões da Beleza, da Bondade e da Justiça(...). Reagingo contra o Romantismo, que era a apoteose do sentimento, thansformava-se na anatomia do carácter, na critica do homem, na arte que o pinta aos seus próprios olhos, para se conhecer, para saber se é verdadeiro ou falso, para condenar o que houvesse de mau na sociedade de que fazia parte.” 10

Eça de Queirós é o principal representante da prosa realista em Portugal. Na grande variedade de diferentes personagens do escritor destaca-se a figura feminina que tem importante significação na sua obra. De “Prosas Bárbaras” às “Cidade e as Serras” a mulher radicalmente muda a sua imagem.

No ano 1871 foram publicados “As Farpas”, onde o escritor “começa por considerar a mulher como a grande responsável pelo teor das gerações.”11 “As Farpas” apresentam-nos uma crítica da sociedade portuguesa e na consequência disto, a crítica das raparigas urbanas:

“O balanço das condições físicas d`uma rapariga portuguesa é este: músculos sem exercício, pulmões sem ar, circulação comprimida, digestão estrangulada. Estão dominadas pela moda que vem de fora: não se aceita o corpo que a natureza dá; procura-se aquele que se vende nas modistas.”
Desta citação é claro visto um motivo realista: desmascarar a mulher portuguesa e apresenta-la assim, como ela realmente é. A mulher já não tem imagem positiva, ela é submetida pela dura crítica,
“Desde as suas prosas cáusticas nas Farpas aos seus primeiros romances “zolaicos”, Eça ocupa-se deveras, com lucidez crítica de anatomista e patologista social, da mulher autêntica da sua geração, a do setentismo, a mulher tal como existia na sua sociedade, na família portuguesa, no seu habitat natural, na sua casa(...), movendo-se no interior da rede de relações sociais, económicas mentais e práticas, a mulher evidentemente mutilada, censurada, tolhida, vítima constante e fatal da educação, da dependência social do maridos, dos preconceitos que lhe incutiram desde menina, no colégio e no meio familiar, bem como nas leituras e no teatro, na ópera ou no Passeio Público, entre as vizinhas ou as colegas de colégio.”12
Já no ano 1874 está publicado o conto “Singularidades de uma rapariga loura”, em que Eça cria a primeira das suas expressivas personagens femininas. A heroína principal destrói a sua ideal imagem e revela os seus vícios.

Naquela época, era necessário afirmar uma mulher real e destronar a mulher romântica, o que o autor faz no seu livro “O Primo Basílio”, grande romance do escritor português, que pode ser considerado como uma resposta ao romance de Flaubert “Madame Bovary”.

O romance “O primo Basílio” é uma crítica á mulher da burguesia lisboeta, onde a protagonista Luísa é a bela, sentimental e mal-educada jovem, que sendo incapaz de ocupar o tempo livre na ausência do seu marido, comete adultério. Luísa idealiza o seu estado de amante, imaginando-se a heroína de uma obra romântica.

Além disso, a personagem feminina torna-se a vítima da situação, que é um traço típico do escritor neste fase:


“Entre 1874 e 1880, o universo feminino queirosiano não se alterou muito.(...) Este período da superioridade masculina encerra-se com o conto “No Moinho”, onde, pela última vez, a mulher cede aos impulsos unilaterais do homem e “aceita” (isto é, não escolhe) a sua pressão.”13

Assim, vimos como muda a imagem da mulher na literatura portuguesa durante o século XIX. O próprio autor disse, que o escritor realista vai ver a mulher, “estuda-lhe a figura, os modos, a voz; examina o seu passado, indaga da sua educação, estuda o meio em que ela vive, as influências que a envolvem, os livros que lê, os gestos que tem.”14 No seu trabalho “Idealismo e Realismo” Eça explica, que assim o escritor realista pode dar o mau exemplo ao leitor e o leitor evitará que sua filha seja assim.15

Concluindo, no século XIX a mulher apresenta duas imagens: a imagem da mulher idealizada, onde o autor não permite o comportamento vulgar da heroína. Isto é o oposto da imagem da mulher realista, que está representado com os seus vícios, defeitos, com a crítica da sua educação e que é o objecto de estudo para escritor. As personagens femininas de Eça de Queirós desempenham um papel muito importante na área da literatura realista.


2. As feições do Romantismo e Realismo na imagem da mulher

2.1 Descrição da personagem feminina
No conto “Singularidades de uma rapariga loura”, a primeira menção da personagem Luísa, objecto amado do protagonista, surge num momento em que Macário está à espera do aparecimento da outra mulher “com o cabelo preto.”16. De repente, em vez da senhora de cabelos pretos aparece uma loura: “Mas apareceram uns cabelos louros.”17 Assim, o primeiro aspecto para que o narrador chama a atenção do leitor é a cor do cabelo da menina. Tradicionalmente, o cabelo loiro na literatura europeia está ligado ao sol e a qualidades como a pureza e iluminação.18 É interessante notar que, antes da aparição de Luísa, o autor assinala os pensamentos de Macário: “Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre.”19 Assim, talvez o narrador antecipe o aparecimento da personagem feminina principal.

Antes de descrever a aparência de Luísa, sucede a exclamação “Oh!”, que pode ser considerada como discurso indirecto livre do protagonista Macário. O narrador predetermina a beleza da heroína. Depois das primeiras impressões, Macário vai para a varanda, focando a sua atenção nos detalhes e o leitor vai gradualmente aproximando-se do objeto descrito. Aqui encontramos uma comparação interessante: “fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa.”20 Como se sabe, a vinheta é uma pequena gravura colocada no início ou no fim de um livro ou de um manuscrito para servir de ornamento, para o que são bastante adequados epítetos como “fina”, “fresca”, mas não o epíteto “loura”. O autor reitera a cor do cabelo da heroína, dando-lhe um significado especial. A cor do cabelo, para Eça de Queirós, desempenha um papel importante pois descreve, não só a aparência da personagem, mas também as suas características internas.

Prossigamos à descrição: “a brancura da pele tinha alguma coisa da transparência das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha antiga, e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado – pomba, arminho, neve e ouro.”21

A brancura da pele confere à imagem da jovem mais claridade. O narrador compara o perfil da heroína com uma medalha antiga. Frequentemente nas tais medalhas estão representadas as personagens da mitologia grega. Assim, esta comparação eleva toda a imagem feminina e aproxima-a dos cánones da beleza grega, que serviam de exemplo para os escritores românticos.

No final da descrição, o narrador refere-se aos poetas pitorescos, que chamariam a menina de “pomba, arminho, neve e ouro”. Para entendermos melhor o que significa esta característica, vamos prestar atenção ao simbolismo do arminho. Arminho é um símbolo de pureza e castidade características estas conferidas pela sua pele branca.22 Esta comparação constitui o típico traço romântico na descrição da personagem feminina. É óbvio que o narrador joga com chavões românticos, descrevendp a heroína com quatro epítetos, exagerando a sua pureza. A aparência da personagem feminina está premeditadamente idealizada.

Ao longo do conto, com a menção do nome de Luísa, encontramos tais epítetos como “mimosa”, “fresca”, “cabeça loura e amorosa”, “clara”, “repousada”, “serena”. Todos estes epítetos e comparações remetem o leitor à época do Romantismo. A grande quantidade de adjectivos ligados à sua aparência angelical tornam a idealização óbvia. O leitor começa a perceber o carácter intencional da “extrema admiração” da personagem feminina. Eça de Queirós disseca a técnica da idealização romântica.

Podemos ver esta desnudação da técnica e idealização no fragmento seguinte: “e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da peça de ouro nova.”23 Enquanto o narrador chama a atenção para a moeda de ouro, Macário encanta-se por Luísa. Além disso, aqui é possivel notar um paralelo entre a cor do seu cabelo e uma moeda de ouro. Deste modo, o narrador revela ao leitor a essência da jovem. A comparação de Luísa, no início do conto, com o ouro adquire mais tarde um significado diferente. A moeda de ouro e a cor do cabelo falam sobre a natureza verdadeira de Luísa, a de ser uma ladra.

Na história, há também um outro aspecto que pode ser compreendido como uma das características românticas da figura feminina. O narrador menciona o leque de Luísa e diz, que deu para Macário “no goto”. No texto, podemos ver uma descrição detalhada do leque: “era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca com dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de fio de ouro, tinha incrustações de nácar a linda maneira persa.”24 “A preocupação que a posse do leque oriental, por parte de Luísa, causa a Macário é várias vezes referida no texto, deixando subentendido, mais uma vez, o mistério que envolve a personagem feminina.”25 O misticismo do leque é definitivamente um traço romântico.

A partir desta análise podemos concluir que a aparência da jovem no conto está propositadamente idealizada, o que faz com que o leitor repare na óbvia técnica romântica.

Voltemo-nos para a próxima história sob o título de “José Matias”, prestando a nossa atenção para a primeira menção sobre a figura feminina principal: “O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Tróia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira ... Foi a sublime beleza româtica de Lisboa, nos fins da Regeneração.”26

A apresentação de Elisa começa com a comparação da heroína com mulheres como Helena de Tróia e Inês de Castro, ícones da tradição da literatura ocidental e ibérica. Neste contexto, isso parece bastante irónico, como se o autor se apressasse a mencionar as figuras femininas lendárias antes de dizer o nome da personagem. Todavia, esta comparação dá à imagem da Elisa a grandeza e superidade e eleva-a ao nível de uma personagem épica.

Na descrição seguinte, é claro que a aparência da heroína corresponde aos cánones românticos da beleza feminina:“Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados . Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas.”27 Neste fragmento, usa-se a descrição típica de uma mulher da época do Romantismo.

Elisa é frequentemente nomeada ou descrita como uma deusa: “a deusa raramente emergia de Arroios”28, “Introibo ad altarem Deae”29, “a divina Elisa”30, ”a túnica da Virgem sublimada.”31 É óbvio que o epíteto “divina”, que na maioria das vezes encontramos associado ao nome da heroína, não atesta apenas sobre a idealização romântica, mas também a ironia da idealização romântica. Estes traços irónicos não permitem ao leitor mergulhar na atmosfera da beleza romântica.

No conto “No Moinho”, ao descrever a aparência da protagonista, o autor não exagera a sua beleza ao contrário das duas obras anteriores: “A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loira, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce.”32

Desta citação, vemos a imagem da mulher, sem admiração excessiva como nos contos “Singularidades de uma rapariga loura” e “José Matias”. Eça de Queirós chama à sua beleza “delicada e tocante” e não acrescenta nenhuns clichés românticos, o que evidencia uma descrição bastante realista. Aqui novamente, a heroína tem cabelos loiros, mas ao contrário de Luísa isso não é a sua característica principal. Visto que Maria da Piedade “personifica, a seu modo, Luísa d`O Primo Basílio”33, há influência da obra de Gustave Flaubert “Madame Bovary”, em que a protagonista também tem cabelos louros.

Voltemos a nossa atenção para a imagem da Maria da Piedade aos olhos de Adrião: “Adrião via-a de perfil (...)era deliciosa assim, tão branca, tão loira, de uma linha tão pura sobre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gosto, o seu mantelete antiquado, mas ele achava nisso mesmo uma ingenuidade picante.”34 Apesar da expressão da pureza da imagem da heroína, há também uma menção ao mau gosto das suas roupas, o que novamente nos indica a manifestação dos traços realistas na descrição da mulher.

Com a idealização das duas personagens femininas, Luísa e Elisa, Eça de Queirós revela os traços românticos. Luísa é linda como ouro, arminho, neve; a beleza de Elisa compara-se com a beleza divina, então o leitor não vê a personagem própria, mas o desnudamento dos meios românticos na descrição da figura feminina. A excpeção é a obra “No Moinho”, onde a aparência da heroína é bastante orgânica para o conto realista.

  1   2   3


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal