Sociedade bipolar e o arquétipo do Trickster Anselmo Cereza Netto



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Encontro28.10.2017
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James Hillman no livro Psicologia Alquímica nos fala num trecho:

“Em vez de segurar ou atuar, aja internamente. Cozinhe no rotundum, como já foi chamado um vaso, referindo-se tanto a um recipiente quanto a redondeza do crânio. Mantenha o calor dentro da cabeça ao esquentar os devaneios da mente. Imagine, projete, fantasie, pense.”

O que podemos tirar disso, ainda em paralelo ao que vimos até então: Definitivamente não devemos reprimir nossos conteúdos/devaneios mentais, mas devemos, sim, pensá-los livremente e deixar de ter a consciência de que esses pensamentos são seus, e de que podem ser controlados. Eles não podem, eles simplesmente aparecem, em forma de desejos, de padrões de imagens arquetípicas, e não podemos evitá-los, mas apenas aceitá-los e nos abrir para o que eles podem estar querendo nos dizer. Nosso desejo não deve ser lançado ou projetado diretamente no exterior, no mundo, pois assim como o fogo direto e intenso, sem ter cuidado ele apenas queima e enegrece as sementes, sementes de tudo que possa ser visto como potencialidades para o novo.

Ficamos tão presos no exterior, criticamos tudo que vemos, buscamos sempre todos os defeitos dos outros e intensificamos eles ainda mais, muito mais até do que realmente são, e com isso conseguimos com muito sucesso, desviar o foco de nossa própria atenção para aquilo que realmente importa, que é o que sentimos dentro de nós mesmos. O mundo geralmente é para nós aquilo que fazemos dele, é o reflexo de nosso interior, então se o tempo todo ficamos encontrando no externo coisas horríveis, odiosas e desprezíveis, pare e tente imaginar como o interior que tanto evitamos não deve estar a essa altura.

E tudo bem admitir termos todas essas coisas “horríveis” em nós, tudo bem mesmo, de verdade, isso não nos torna pessoas ruins, mas muito pelo contrário, na verdade isso além de nos lembrar que somos todos iguais, sem exceções, nos apodera também pois cada um tem com isso a chave para iniciar uma transformação muito mais profunda do que essa imposição demasiadamente extrovertida faz parecer que temos. Que fique claro que com isso não digo que ser extrovertido é ruim, mas apenas que tudo quando é excessivo em nossas vidas, é ruim. E afinal, só pode transformar e lidar com a escuridão interna, aquele que se abre a experienciar isso, até acabar descobrindo que ela é necessária para lembrar-nos sempre quão humanos nós somos, e que ela pode não ser assim tão assustadora.

Um psiquiatra e psicanalista chamado Heinz Kohut, em sua obra The Restoration of the Self, apresenta um conceito que ele chama de Transferência Especular, que basicamente fala de um acolhimento empático muito necessário ao terapeuta, mas que qualquer um pode claro, praticar por si mesmo. A definição desse conceito, resumidamente é:

“...de acordo com Kohut, vem de uma necessidade humana básica e vital de “ressonância empática”. Todos nós precisamos de espelhamento para nos reconhecermos e necessitamos de ressonância empática para nos sentirmos reais, aceitos e valiosos para os outros e, consequentemente, para nós mesmos.”

Falamos com isso, da necessidade de desenvolvermos uma capacidade de oferecer acolhimento, assim como também termos consciência de que de um modo ou de outro, o tempo todo estamos sendo exemplos para alguém, indiferente da idade. Aqui friso novamente a grande importância de nos vermos mais responsáveis por nossas atitudes, para com que tipo de ações e intenções realmente devemos estar deixando falar em nossos atos. Pois assim como dito inicialmente, palavras simples podem ter um peso muito grande, e o mesmo vale para nossos atos na vida de outras pessoas, pois podemos também ser exemplos nós mesmos.

Há um filme (muito bom, que recomendo muito também) que me lembrei ao escrever esse texto, chamado Mr. Nobody, um filme que fala muito sobre física quântica sendo aplicada na nossa vida cotidiana com pitadas de uma estética surrealista futurista, e que nos fala também, e resumindo bem basicamente, sobre como nossas vidas são regidas por escolhas e o quanto elas afetam toda a nossa existência e a de todos os outros, e a partir disso o filme entra num viés de como uma escolha rejeitada pode ter sido numa outra realidade paralela e totalmente diferente, onde tal escolha foi tomada e não rejeitada, e o filme acaba virando um emaranhado de possibilidades que nos traz muito mais questionamentos do que conclusões, deixando o final (ou os finais) para nossa própria interpretação. É daqueles filmes que te deixa com uma sensação boa, e ao mesmo tempo encucado com tudo o que viu, mas enfim, o que quero ressaltar dele é uma cena específica que gostaria de usar (sem detalhar muito para não estragar o filme a quem não viu) como imagem para ilustrar melhor o que estou querendo dizer aqui.

A cena conta como o personagem principal não consegue o telefone de sua amada, porque no exato momento em que ela lhe dá o papel com o número, uma gota de chuva cai em cima do papel, que borra esse número e ele o perde. Até aí tudo bem, mas então ele começa a explicar como foi que isso aconteceu. Tudo começou porque um brasileiro desempregado estava fervendo um ovo, e o calor produzido por isso causou uma pequena diferença de temperatura que foi se condensando até, dois meses depois, se tornar uma grande nuvem de chuva no Canadá, a qual acerto a gota no papel. Ele só ferveu esse ovo porque não estava no trabalho, que era numa fábrica de calças jeans, e isso porque 6 meses antes, o personagem principal havia comparado o preço de uma calça jeans que tinha vindo da fábrica dele com uma mais barata de outro lugar, e comprou a mais barata, o que ocasionou na futura demissão desse brasileiro, e que nos levou então a parte do ovo e da nuvem.



Claro que isso envolve uma série de teorias, tal qual a do efeito borboleta, mas podemos ver isso de modo mais concreto e mais corriqueiro para entendermos melhor essa dinâmica, e ver também como uma capacidade de acolhimento, ou uma ressonância empática, em apenas um momento chave, pode fazer toda a diferença. Vamos imaginar uma cena então:

Num não tão belo dia, algo qualquer aconteceu e deixou o sujeito A de muito mal humor, algo nem tão grande assim mas que por algum motivo, sujeito A se deixou afetar por ele. Por conta disso, ele sai para pegar o ônibus para o trabalho, e a primeira pessoa que encontrou foi o cobrador, que lhe saudou com um bom dia e um sorriso, o qual sujeito A apenas ignorou e nem sequer olhou o cobrador nos olhos. O cobrador também não gostou disso, e agiu de forma semelhante com o sujeito B que foi o próximo a entrar no ônibus. O sujeito B, que estava tentando se adaptar ao clima dessa cidade nova a qual se mudara a pouco, tentava timidamente ter um certo contato com os outros, mas o fato do cobrador parecer irritado, o fez pensar que poderia ser com ele, e o sujeito B então se fechou até descer em seu ponto. Ao sair, se distraiu enquanto andava na calçada e esbarrou com o sujeito C, e sem pedir desculpas e nem nada, pois achou que a reação do sujeito C fosse ser igual a do cobrador, simplesmente virou a cara e continuou seu trajeto. O sujeito C por sua vez, já com a cabeça cheia de preocupações, pois é o chefe de sua empresa, acabou se irritando mais ainda, e sentiu que precisava extravasar aquilo de algum modo, e foi quando o sujeito C repreendeu sujeito D, além de fazê-lo trabalhar mais. Sujeito D por sua vez, trabalhou até mais tarde, o que o deixou muito muito cansado, e ao sair com seu carro, acabou se distraindo e bateu no carro do sujeito E. Não foi uma batida muito forte e nada grave aconteceu, mas foi daquelas batidas onde acertou uma parte do carro a qual o concerto e o custo causarão certa dor de cabeça. Sujeito D então, mais irritado que nunca, volta para sua casa, bebe um pouco a mais que o normal e perde o controle, acabando por agredir sua mulher e filho pequeno, e isso tem acontecido já fazia um tempo mas naquele dia pareceu ter sido ainda pior. No dia seguinte, o filho pequeno do sujeito D vai para o colégio e, por conta de as vezes ter esses atos de violência em sua convivência com o pai, ele tem demonstrado certa agressividade com seus colegas, e nesse dia acabou agredindo o filho do sujeito A numa briga. Ele volta para casa desconcertado com o fato, o sujeito A percebe mas fica meio assim de perguntar, e então sua mulher pergunta e não obtém resposta, fazendo com que o filho corra para o quarto, aparentemente chorando. A mulher do sujeito A não fica feliz com a passividade dele, e começa então uma discussão.

Um exemplo que claro, é fictício, mas que muito provavelmente pode e deve acontecer todos os dias de nossas vidas. Talvez se o sujeito A tivesse compreendido que seu mal humor era algo dele, que ele teria que lidar e resolver com ele mesmo, e tivesse apenas dado bom dia ao cobrador, quem sabe o quanto de todos esses eventos pudessem até ser evitados. Um simples gesto muitas vezes, pode mudar completamente a vida de outra pessoa, e principalmente a sua também.



Talvez aqui possamos ver de alguma maneira que não somos então tão pequenos quanto achamos que somos, e que um aparente pequeno gesto pode influenciar totalmente nossas vidas e a de muitos outros, pois somos todos parte de um grande coletivo, de algo maior, somos interligados. Apesar de sempre nos pregarem a necessidade de sermos independentes, esquecemos completamente de que somos também todos interdepentendes uns dos outros. Que possamos parar e refletir a respeito.
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