SÃo cipriano o legítimo capa preta



Baixar 4,8 Kb.
Pdf preview
Página1/19
Encontro07.10.2019
Tamanho4,8 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19

SÃO CIPRIANO
O LEGÍTIMO CAPA PRETA
 
 

 

 
DEDICATÓRIA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ESTE LIVRO É DEDICADO A TODOS QUE BUSCAM O BEM!
 
 

 
ÍNDICE
 
 
DEDICATÓRIA
QUEM FOI CIPRIANO?
DADOS BIOGRÁFICOS DO FEITICEIRO
EPISÓDIOS DA VIDA DE CIPRIANO, ANTES DA CONVERSÃO
UMA NOVA AVENTURA
OUTRO CASO
MÁGICA DOS BICHOS
DISPUTA DE CIPRIANO COM GREGÓRIO
A DOENÇA QUE MOLESTA O CORPO É COISA DE SATANÁS?
PRIMEIRA ESCONJURAÇAO
SEGUNDA ESCONJURAÇÃO
TERCEIRA ESCONJURAÇÃO
A FEITICEIRA DE ÉVORA — PODEROSA BRUXA
ENCONTRO DE CIPRIANO O BRUXO COM LAGARRONA. QUEM DOS DOIS MAIORES FEITICEIRO?
ORAÇÕES DE SÃO CIPRIANO
ORAÇÃO QUE SE LÊ AO ENFERMO PARA SE SABER SE A MOLÉSTIA E NATURAL OU SOBRENATURAL
AO DEMONIO, PARA NÃO MORTIFICAR O ENFERMO ( Para todo o tempo da esconjura)
OUTRA ORAÇÃO DE SÃO CIPRIANO
CONJURAÇÃO
ORAÇÃO PARA LIVRAR O ENFERMO DO PODER DE SATANÁS
Como se há de fechar a morada
PALAVRAS SANTÍSSIMAS QUE O RELIGIOSO DEVE DIZER QUANDO ESTIVER A FECHAR A MORADA
SOBRE FANTASMAS QUE APARECEM NAS ENCRUZILHADAS
ORAÇÕES PARA PEDIR PELOS ESPÍRITOS BONS
SALVADOR DO PECADOR
ORAÇÃO PARA ASSISTIR AOS DOENTES NA HORA DA MORTE
REZAS FORTES DA ANTIGUIDADE USADAS POR C/PRIANO NA HORA CERTA
ORAÇÃO DAS HORAS ABERTAS
DA TRINDADE Rezar às Três da Tarde)
GRANDE VIBRAÇÃO (Para as Seis Horas)
NA PERIGOSA HORA (Rezar à Meia-Noite)
ESTUDOS E EXPERIÊNCIAS DE CIPRIANO
ELIXIR MARAVILHOSO PARA CASAMENTO FELIZ
NA CRUZ DE S. BARTOLOMEU SEGREDOS DA MAGIA
Como fazer a cruz
Como usar a cruz
PODEROSA FÓRMULA PARA UMA MOÇA CONQUISTAR UM HOMEM E CASAR COM ELE
MÁGICA DAS FAVAS PARA TORNAR UMA PESSOA INVISÍVEL
CABEÇA DE GATO PRETO, MÁGICA PARA SE FICAR INVISÍVEL
OUTRA DO GATO PRETO PARA CASOS DE AMOR
PARA SE VINGAR DOS INIMIGOS
PARA SE GERAR UM DIABINHO
COMO FAZER PACTO COM O DEMÔNIO E DELE OBTER TUDO QUE SE QUER
MÁGICA DO CÃO PRETO, QUE O SEGUIRÁ ONDE QUER QUE VÁ
OUTRA DO CÃO PRETO PARA SE FAZER AMAR
MÁGICA DO SAPO PARA ALGUÉM REVELAR O QUE DESEJA FAZER
OUTRA DE SAPO PARA QUALQUER EMPREENDIMENTO
MÃGICA DA POMBA PARA CONQUISTAR MULHER
PÍLULA MARAVILHOSA PARA CONQUISTAR HOMEM
ÓLEO MÁGICO PARA FAZER APARECER FANTASMAS

BRUXEDO DO SAPO PARA OBRIGARA AMAR CONTRA VONTADE
OUTRA DE SAPO PARA FAZER O MAL
OUTRO BRUXEDO DO SAPO PARA FAZER CASAMENTO
TALISMàPARA SE GANHAR NO JOGO
TALISMàPARA REGRESSAR À TERRA NATAL, RICO E FELIZ
DO SAPO PRETO PARA CONVERTER O BOM NO MAU FEITIÇO
COM OLHOS DE SAPO PARA QUE SEU HOMEM GOZE SÓ COM VOCÊ
MAIS UMA DO SAPO PRETO PARA APRESSAR O CASAMENTO
MÁGICA DO AZEVINHO
MÁGICA DO VIDRO ENCANTADOR
AGULHA MÁGICA
DA POMBA PRETA ENCANTADA PARA LEVAR CARTA À NAMORADA
FEITIÇO DO MOCHO PARA A MULHER CATIVAR O HOMEM
FEITIÇO DO OURIÇO-CACHEIRO
ENCANTOS DA CORUJA
MÁGICA DA RAIZ DE SALGUEIRO
OVOS DE FORMIGA PARA A MULHER SE LIVRAR DO HOMEM QUE NÃO QUER
ESPONJA MARAVILHOSA, INFALÍVEL PARA EVITAR GRAVIDEZ
PELO DE MULA. OUTRA MÁGICA PARA A MULHER NÃO TER FILHOS
BRUXEDO DE AVELA PARA AQUECER MULHER FRIA
FEITIÇARIA DAS ROSAS VERMELHAS
SIDEROL E OS SETE PRODÍGIOS
1 — FEITIÇO PARA PROTEGER A CASA CONTRA INIMIGOS OCULTOS
2 — SEGREDO DA ÁGUA DO MAR  PARA ELIMINAR MAZELAS
3 — COMO ENFEITIÇAR UMA PESSOA COM QUEM SE DESEJA CASAR
4 — TREVO DE QUATRO FOLHAS, MÁGICA PARA OBTER FORTUNA
5 — REZA DO GATO PRETO, PRATICADA PELOS CIGANOS ROMS
6 — LENHO DE CIPRIANO CONTRA FEITIÇOS
7 — MÁGIGA DAS ERVAS SANTAS — DE COMO CIPRIANO ENGANOU ZEDEON
PODER MAGNÉTICO
Templo Magnético
Segredo para Magnetizar uma Garrafa D'água
O Réptil Magnetizador
O Amor Magnetizador
Influência dos Planetas
Fluido Nervoso
Fluido Moral
A Força da Vontade
Mau-Olhado
Modo de Magnetizar uma Pessoa
CATALEPSIA MAGNÉTICA
FENÔMENOS DO HIPNOTISMO
A LETARGIA
A CATALEPSIA
O SONAMBULISMO
FASCINAÇÃO E ALUCINAÇÃO
CRUZES E OUTROS SÍMBOLOS MÁGICOS BENÉFICOS E MALÉFICOS
CRUZ EGÍPCIA
CRUZ DA MAGIA BRANCA
CRUZ DA BRUXARIA
CRUZ DA MAGIA NEGRA
CRUZ SAGRADA DOS ROMANOS
CRUZ DOS PRÍMEIROS CRÍSTÃOS
A GRANDE CRUZ DE SÃO CÍPRIANO

BRUXO DE GRANDE PODER E MALDADE CIPRIANO FEZ ESCOLA A ELE SUCEDERAM ADMIRÁVEIS MESTRES DA FEITIÇARIA
RECOMENDAÇÃO PRIMEIRA
Afa Afca Nostra
FUNDAMENTOS DOS RITUAIS DE MAGIA NEGRA
Manifestação do espírito:
Resposta ao espírito:
O satânico impõe:
O mágico responde:
Oração para Despedir o Espírito
FEITICEIROS
FEITICEIRAS
DROGAS E UNGUENTOS
SEGREDOS SECULAR ES
GÊNIOS DO BEM E DO MAL COMANDADOS POR CIPRIANO
BONS E MAUS GENIOS NO CAMINHO DE TODOS
INFLUÊNCIA DOS GÉNIOS
NUMEROLOGIA POR CIPRIANO
O DIA EM QUE NASCEMOS E A NUMEROLOGIA
DIA 1
DIA 2
DIA 3
DIA 4
DIA 5
DIA 6
DIA 7
DIA 8
DIA 9
DIA 10
DIA 11
DIA 12
DIA 13
DIA 14
DIA 15
DIA 16
DIA 17
DIA 18
DIA 19
DIA 20
DIA 21
DIA 22
DIA 23
DIA 24
DIA 25
DIA 26
DIA 27
DIA 28
DIA 29
DIA 30
DIA 31
TESOUROS ENCANTADOS
SÍTlOS DOS TESOUROS
TESOUROS DA GALIZA
EXTRATO DO PERGAMINHO QUE RELACIONA OS TESOUROS ENCANTADOS
TESOUROS ESCONDIDOS PELOS BRUXOS NO SÉCULO III

Total de 26 Tesouros (Interpretado assim: 2 + 6 = 8 = Cabala da Fortuna)
SIGNIFICADO DOS SONHOS
APÊNDICE I
BRUXEDOS E FEITIÇOS NO SÉCULO XX
COMO TRABALHAM OS BRUXOS NO SÉCULO XX
REGRAS PARA ATIVAR OS FEITIÇOS DE AMOR
A LISTA DE COMPRAS DO FEITICEIRO
ALGUNS FEITIÇOS DE AMOR
TRUQUES PARA DESENVOLVER O SEU OLHO-MAU
TRUQUES PARA SE DEFENDER DO OLHO-MAU
PRAGAS MAIS COMUNS
PÓS E FÓRMULAS MÁGICAS
ESPECIALIDADES DOS FEITICEIROS
APÊNDICE 2
INICIAÇÃO A MAGIA NEGRA
Ritual de iniciação do noviço para feiticeiro ou feiticeira.
Ritual
Ritual de iniciação de um sacerdote à condição de alto sacerdote
Ritual
ORAÇÃO DA CABRA PRETA

 
 

QUEM FOI CIPRIANO?
 
DADOS BIOGRÁFICOS DO FEITICEIRO
 
 
       Cipriano, conhecido como o Feiticeiro, nasceu na cidade de Antióquia, situada entre a Síria e a antiga Arábia. Seus pais, vendo que o filho era
dotado de muito talento, o que lhe permitia granjear a estima dos homens, destinaram-no ao sacerdócio dos deuses, e mandaram dar-lhe toda a instrução
necessária para isso. Cipriano aprendeu a ciência dos sacrifícios oferecidos aos ídolos, de modo que ninguém conhecia melhor do que ele os mistérios
da idolatria.
       Aos trinta anos de idade, Cipriano fez uma viagem a Babilônia, para aprender astrologia e numerologia, os mistérios e segredos dos Caldeus.
Além de empregar naqueles estudos o tempo que poderia aproveitar no conhecimento de outras verdades, Cipriano aumentou sua malícia e iniquidade,
quando se entregou inteira​mente ao estudo da magia, a fim de conseguir, por meio desta arte, estreitas relações com os demônios, levando ao mesmo
tempo uma vida desregrada, libertina, escandalosa e impura.
       Conquanto o fervoroso cristão, Eusébio, que havia sido seu companheiro de estudos, censurasse a má vida de Cipriano, pro​curando tirá-lo do
profundo abismo em que o via precipitado, este tão-somente desprezava as exortações e censuras do antigo colega como se utilizava da sua infernal
inteligência para ridicula​rizar os sagrados mistérios e os virtuosos professores da lei cristã, por ódio à qual, chegou a unir-se aos bárbaros
perseguidores para forçar os cristãos a renunciar a Jesus Cristo.
        
       A vida de Cipriano tinha chegado a tal estado; minar e con​verter este infeliz vaso de contumélias e ignomínias em vaso de bondade, por isso
somente a divina graça poderia operar no cora​ção de Cipriano prodigioso milagre.
       Em Antióquia vivia uma jovem de nome Justina, rica quanto formosa, a quem o pai Edeso e a mãe Cledônia educaram com des​velo nas
superstições pagãs. Justina era dotada de rara inteligência. Assim que ouviu os sermões de Prailo, diácono de Antióquia, abandonou as extravagâncias
das práticas dos gentios e, abraçando a fé cristã, conseguiu logo depois converter seus próprios pais.
       Sendo batizada, a ditosa moça tornou-se logo depois uma das mais perfeitas esposas de Jesus Cristo, consagrando sua vida ao Divino Mestre,
procurando todos os meios de conservar esta deli​cada e preciosa virtude; para isso observava rigorosamente a modéstia, entregando-se às orações e ao
retiro. Não obstante isso, um rapaz chamado Aglaide, logo que a viu ficou enamorado e pediu-a aos pais para sua esposa, com o que concordaram
Edeso e Cledônia. Apesar de todos os empenhos e rogos de Aglaide, Justina não concordou casar.
       Aglaide valeu-se então das artes de Cipriano, o qual, com efeito empregou os meios mais eficazes da sua ciência diabólica para atender ao
namorado, que era seu amigo. Ofereceu aos de​mônios muitos sacrifícios abomináveis e eles lhe prometeram o desejado êxito, cobrindo logo a jovem
com terríveis tentações e ameaçando-a com terríveis fantasmas. Justina, porém, fortale​cida pela graça de Deus, saiu vitoriosa de todas as tentações
dia​bólicas.
       Indignado Cipriano por não poder vencer a moça, rebelou-se contra o demônio, que estava presente e falou-lhe: "Pérfido, já estou vendo a tua
fraqueza, pois não podes vencer uma delicada donzela, tu, que tanto te gabas do teu poder e de fazer prodigiosas maravilhas. Dize-me logo o motivo
desta mudança e com que armas se defende ela para inutilizar os teus esforços? ''
       O demônio não teve outra saída, confessou-lhe a verdade, di​zendo que o Deus dos cristãos era o supremo Senhor do céu, da terra e do inferno e
que ele não podia nada fazer contra o sinal da cruz com que Justina continuamente se armava. Tão logo ele aparecia para tentá-la era obrigado a fugir
em virtude da sombra do sinal da cruz.
       "Pois se assim é — replicou Cipriano — eu sou muito louco em não me entregar ao serviço do Senhor, que é mais poderoso do que tu. Se o sinal
da cruz dos cristãos obriga-te a fugir, não quero mais utilizar-me do teu prestígio, renuncio a todos os teus sortilégios, confiando na bondade do Deus
que há de me admitir como seu servo."
       Irritado, o demônio por perder aquele que por seu inter​médio fizera tantas conquistas, apoderou-se do seu corpo. Porém, foi logo obrigado a sair,
pela graça de Jesus Cristo, que estava senhor do seu coração. Em consequência Cipriano teve de se empenhar em vigorosos combates contra os
inimigos da sua alma; mas o Deus de Justina a quem Cipriano sempre invocara valeu-lhe com o seu socorro e o fez vitorioso.
       Para este resultado muito concorreu seu amigo Eusébio, a quem Cipriano foi logo procurar e disse chorando: “Meu grande amigo, chegou para
mim o feliz tempo de reconhecer meus erros e espero que o teu Deus, que desde já confesso ser o único e verdadeiro, me admita entre seus ínfimos
servos, para maior triunfo da sua benigna misericórdia”.
       Eusébio ficou muito satisfeito por essa prodigiosa mudança. Abraçou afetuosamente o amigo, deu-lhe muitos parabéns pela sua heroica
resolução, animando-o a confiar sempre na infalível verdade de Deus, que jamais desampara aos que sinceramente o procuram. Assim fortificado,
Cipriano pôde resistir com valor a todas as tentações do diabo.
       Para isso ele fazia sem cessar o sinal da cruz, tendo sempre nos lábios e no coração o sagrado nome de Jesus. Vendo os demônios todos os seus
artifícios inteiramente frustrados, esfor​çaram-se em levar Cipriano ao desespero, falando-lhe:
       "O Deus dos cristãos é sem dúvida o único Deus verdadeiro, mas que é um Deus de pureza, um Deus que pune com severidade extrema mesmo
os menores crimes, a maior prova somos nós mesmos, os demônios, que por um só pecado de orgulho fomos condenados a um castigo extremo. Sendo
assim, como haveria perdão para ti, Cipriano. Pela gravidade das tuas culpas já tens um lugar preparado no mais profundo inferno. Portanto, não tendo
misericórdia que esperar, cuida somente de divertir-te, satisfazendo à rédea solta todas as paixões da tua vida."
       Na verdade, esta tentação pôs em grande perigo a salva​ção de Cipriano. O amigo Eusébio, sabedor da crise que pertur​bava Cipriano, animou-o e
consolou-o, propondo-lhe com a benigna misericórdia com que Deus recebe e generosamente per​doa aos pecadores arrependidos, por maiores que
sejam os peca​dos. Depois, o mesmo Eusébio levou-o à assembleia dos fiéis, onde se admitiam as pessoas que desejavam instruir-se nos mistérios da fé
cristã.
       No livro Confissão, afirma o próprio Cipriano, que à vista do
        
       respeito e piedade de que estavam penetrados os fiéis, adorando o verdadeiro Deus, tocou-o vivamente no coração. Disse: "Eu vi cantar naquele
coro os louvores a Deus e terminando cada verso dos salmos com a palavra Aleluia, tudo com atenção respeitosa e suave harmonia, parecendo-me estar
entre homens celestes".
       No fim do ofício religioso, admiraram-se os assistentes de que um presbítero como Eusébio introduzisse Cipriano naquela sagrada reunião. E o

bispo que a estava presidindo muito mais o estranhou, pois não julgara sincera a conversão de Cipriano. Porém este desfez todas as dúvidas,
queimando todos os seus livros de magia e ingressando no grupo dos catecúmenos, depois de haver distribuídos todos os seus bens aos pobres.
       Estando suficientemente instruído na doutrina cristã, Cipri​ano foi batizado pelo bispo, juntamente com Aglaide, o apaixo​nado de Justina, que
arrependido da sua loucura quis emendar a vida e seguir a fé verdadeira. Comovida com esses dois exemplos da divina misericórdia, Justina cortou os
cabelos em sinal de sacri​fício que fazia a Deus da sua virgindade e repartiu também pelos pobres os bens que possuía.
       Cipriano fez grandes e maravilhosos progressos nos caminhos do Senhor; sua vida foi um perene exercício na mais rigorosa peni​tência. Muitas
vezes foi visto prostrado por terra, a cabeça coberta de cinza, rogando a todos os fiéis que implorassem para ele a divina misericórdia. E para mais se
humilhar e erradicar sua antiga soberba, obteve, depois de muitos rogos, que se lhe desse o emprego de varredor do templo.
       Cipriano morava em companhia do presbítero Eusébio, a quem venerou como se fora seu pai espiritual. O divino Senhor, em reconhecimento do
bom proceder e humildade, concedeu-lhe a graça de fazer milagres. Sua eloquência concorreu para a conver​são à fé de muitos idólatras. Servindo-se do
seu famoso escrito Confissão, no qual fez públicos seus crimes e excessos, animava a confiança tão-somente dos fiéis como também dos pecadores.
       Por isso, a fama das conquistas que Cipriano fazia para o reino de Jesus e o seu zelo chegaram aos ouvidos dos imperadores. Diocleciano, que
então se achava em Nicomédia, informado dos milagres de Cipriano e da santidade de Justina, deu ordem ao juiz Eutolmo, governador da Fenícia, para
que prendesse ambos.
       Conduzidos à presença do juiz, Cipriano e Justina respon​deram e confessaram com tanta eloquência a fé em Jesus Cristo que pouco faltou para
converterem aquela autoridade. Entretanto, para que não supusessem que ele favorecia os cristãos, o juiz man​dou açoitar com duas cordas Justina e
rasgar com grampo de ferro as carnes de Cipriano. Esse cruel suplício causou horror entre os presentes.
       Vendo o déspota que nem as promessas, nem as ameaças, nem o terrível suplício abatiam a constância dos dois, mandou atirar cada um em uma
grande caldeira cheia de alcatrão, banha e cera fervente. Mas a súbita serenidade que se via nas faces e nas palavras dos mártires indicava que nada
padeciam, naquele tormento. Percebia-se que mesmo o fogo, debaixo das caldeiras, não tinha o mínimo calor. À vista disso, um sacerdote dos ídolos,
de nome Atanásio, que por algum tempo fora discípulo de Cipria​no, julgando que todos aqueles prodígios eram provocados pelos sortilégios do seu
antigo mestre, e querendo ganhar reputação maior entre o povo, invocou os demônios, nas suas cerimônias mágicas, e lançou-se na mesma caldeira de
onde Cipriano foi tirado. Porém logo morreu queimado, com as carnes despregadas dos ossos.
       Este fato produziu grande perplexidade nos presentes e quase aconteceu na cidade um motim em favor de Cipriano. Intimidado, o juiz resolveu
enviar os mártires a Diocleciano, informando o imperador de tudo quanto acontecera. Lendo a carta, Diocleciano, sem mais formalidades de processo,
ordenou que Cipriano e Justina fossem degolados. A sentença foi executada no dia 26 de setembro, às margens do Rio Galo, que atravessa a cidade de
Nicomédia.
       Chegando naquela ocasião um bom cristão de nome Teotisto a falar em segredo a Cipriano, foi também condenado e degolado. Esse homem era
um marinheiro que, vindo das costas da Toscana, desembarcara próximo a Bitínia. Os seus companheiros eram tam​bém todos cristãos e sabendo do
acontecido vieram durante a noite recolher os corpos dos três mártires e os levaram para Roma, onde ficaram ocultos na casa de uma piedosa senhora,
até o tempo de Constantino Magno, quando foram transladados para a Basílica de São João de Latrão.
       Em uma das suas melhores orações, Gregório Nazianzeno, elogiando os dois mártires, Cipriano e Justina, convida tão-somente as virgens como
também as casadas a que imitem a jovem mártir. Diz o doutor: — "Sendo ela furiosamente acometida, o candor da sua pureza pelos impulsos dos
homens lascivos e sugestões dos demônios impuros, recorreu às armas da oração e morti​ficação, macerando o corpo com jejuns, invocando com fervor
e humildade o auxílio de Cristo.
        
       Valham-se, pois, das mesmas armas, quando se virem tenta​das pelo poder das trevas. O Senhor certamente as defenderá, para que as trevas
sejam vencidas como também para que com maior mérito recebam a coroa da vitória. Por fim, Gregório Nazianzeno, propõe o exemplo de Cipriano,
cuja admirável conversão servirá de estímulo e de conforto aos pecadores, por mais carregados que estejam de inumeráveis e pesadas culpas,
incutindo-lhes confiança na divina misericórdia, pela virtude da sua graça, pode abrandar os corações mais duros, reduzindo-os logo ao exercício de
sincera penitência e levá-los depois a um sumo grau de eterna glória.

 
 
 

  EPISÓDIOS DA VIDA DE CIPRIANO, ANTES DA CONVERSÃO
 
        
       No dia 14 de março do ano 299 Cipriano estava conversando com Satanás, e disse:
       —    Ó amigo Satanás, qual é a ceia que me das hoje, em recom​pensa da minha fidelidade? Respondeu Satanás:
       —    Vou dar-te uma ceia, ou antes, um prazer de que ficarás muito contente.
       Cipriano ficou muito satisfeito com a promessa do demô​nio e retrucou:
       —    Meu amigo e meu senhor, a quem amo e sirvo há dez anos, com muita fidelidade e imenso prazer, de tal modo que me parece só estou
satisfeito quando estou junto de ti. . .
       —    Já que me amas e me és fiel, hei também de amar-te da mesma maneira. Mete a tua fava na boca e acompanha-me.
       Satanás e Cipriano logo desapareceram, Oito minutos depois estavam sobre o palácio do rei de um país distante. Esse rei tinha uma filha de
nome Clotilde. Satanás abriu um buraco, no lado direito do quarto da princesa Clotilde, depois voltando-se para Cipriano disse-lhe:
       —    Vês aquela bonita princesa? Respondeu Cipriano:
       —    Creio que não há moça tão formosa que se lhe possa comparar. Falou Satanás:
       —    Pois já vês, Cipriano, meu servo, que eu sou teu amigo e que te amo de todo o coração.
       Ouvindo estas palavras, Cipriano postou-se aos pés do diabo, dizendo:
        
       —   Meu amigo e senhor, a quem amo de todo coração, corpo, alma e vida, se vós podeis fazer com que eu goze aquela donzela, juro-vos amar-
vos ainda mais do que até agora.
       E Satanás:
       —   Deixo-a ao teu alcance. Convence-a com as tuas astúcias e artes, pois eu estou aqui pronto para tudo quanto quiseres.
       Depois disso, Cipriano tratou de fazer uma feitiçaria para que a princesa o seguisse ou mandasse chamá-lo. Mas nem Cipria​no nem todos os seus
feitiços puderam convencer a princesa.
       Desesperado, um dia entrou no palácio, foi ao gabinete do rei mas não o encontrou.
       Irritado, ficou pensando meia hora no que haveria de fazer. De repente, o rei entrou pela porta do gabinete e bradou em alta voz:
       —   Acudam-me! Acudam-me!
       Cipriano mete a mão no bolso direito para tirar a fava e botá-la na boca, e fugir, mas não a encontrou. Meteu a mão no bolso esquerdo e tirou um
canudinho de prata, onde se escondia um diabinho.
       Cipriano disse:
       —   Quero já quatro castelos em volta de mim.
       —   Executarei suas ordens, num momento, responde o dia​binho.
       No mesmo instante, chegaram cavalaria e escoltas de sol​dados, porém nada fizeram. O combate foi tão forte que o castelo ficou inteiramente
destruído.
       O rei ajoelhou-se aos pés de Cipriano e lhe suplicou que o per​doasse pelo amor daquele a quem Cipriano mais quisesse.
       —   Saberás que sou um mago e além de ser mago pratico arte diabólica. Tu vês que este palácio está destruído. Que me das tu, se eu fizer com
que o palácio se levante tal como era antes, e isto, imediatamente?
       Depois proferiu as seguintes palavras:
       —   Eu mando já pelo poder da magia negra que tudo faz, mando já, que este palácio seja levantado e fique no seu próprio natural e para golão
traga matão, vais de pauto a chião a molidão, pexela ispera regra retragarão, onite protual fines! Abracadabra!
       Quando Cipriano acabou de dizer estas palavras o palácio ficou tal qual era. O rei que viu Cipriano fazer tantas maravilhas, cada vez mais
assustado, lançou-se pela segunda vez a seus pés e disse-lhe:
       Peço-te, rogo-te, senhor, que me perdoe, se achas que te ofendi nalguma coisa. Cipriano retorna:
       — Levanta-te. Estás perdoado mas com a condição de que hás de me dar a princesa Clotilde, que é tua filha.
       Ouvindo estas palavras, o rei tremeu e ficou imóvel, sem poder dar uma única palavra. Cipriano outra vez bradou:
       — Já te disse. Queres dar-me a tua filha Clotilde? Do contrá​rio tudo será outra vez reduzido a nada.
       m rei nada respondeu. Voltou a gritar Cipriano:
       — Então, que digo eu?
       m rei continuou silencioso. Irado, Cipriano deu um forte grito:
       — Por toda a força da minha arte mágica, negra e branca, mando que já todo este reino fique encantado, reduzido a penedos, o rei e a rainha
sejam duas pedras de mármore!
       Em cinco minutos, foi executada a sua ordem! Só não pôde encontrar Clotilde por causa de uma oração que ela rezava todos os dias. Assim que
viu tudo encantado, menos Clotilde, Cipriano ficou irado contra Satanás e bradou em alta voz:
       — Satanás! Satanás! Aparece-me, meu. Satanás!
       — Aqui estou às tuas ordens, amigo Cipriano, disse o espírito das trevas.
       — Quero que me digas a razão por que eu não posso satisfazer os meus apetites com esta linda princesa. A princesa, que ouviu estas palavras,
disse em voz baixa:
       — Se tu és o demônio, peço em nome do Senhor para que só digas a verdade. Obrigado por invencível força divina, Satanás disse a Cipria
       no:
       — Meu amigo saberás que há um Deus poderoso, que cobre o céu e a terra e tem poder sobre tudo. Se ele quiser, tu e eu não nos moveremos
daqui porque ele é poderoso. A princesa invocou o seu santo nome e eu não pude deixar de confessar a verdade além de que a princesa reza uma oração
todos os dias, que a livra de tudo quanto é tentação minha ou dos meus queridos filhos.
       Ouvindo isto, Cipriano prostrou-se por terra e disse:
       "Senhor dos altos céus, quem sois vós, que eu não conheço? E tu, Satanás, espírito maligno, demônio maldito, tu foste a minha perdição! Maldita
seja a hora em que fui concebido; maldito seja o ventre que me concebeu; malditos sejam o pai e a mãe de quem sou descendente;  maldita seja a hora
em que nasci; maldito seja o leite que mamei; maldito seja quem tal criação me deu; malditos sejam quantos passos tenho dado nesta vida! Meu Deus,
meu Deus, fazei já abrir as portas do inferno para tragarem este maldito homem; desapareça para sempre! Jesus, Jesus, Jesus, se ainda tenho salvação
respondei-me dos altos céus!"

       Cipriano ouviu uma voz que lhe dizia:
       —  Filho, continua com esta vida que tens, que eu te avisarei, com um ano de antecipação da tua morte, para cuidares da tua salvação.
       Cipriano beijou a terra e agradeceu a Deus os benefícios que lhe fazia.
       Porém foi engano de Cipriano, porque aquela voz que ele ouviu foi do próprio demônio, que para enganá-lo subiu aos astros para dar a
impressão de que era Deus que respondia å seus rogos.
       Cipriano, tal corno um inocente, acreditou na voz que ouvia. Muito ingênuo devia ser para não se aperceber de que aquela voz não podia ser a de
Deus. Porém Jesus Cristo, bondoso e justo, não deixou de. perdoar a Cipriano os pecados cometidos pela ambição desmedida, que a ilusão pelo poder
de Satanás lhe havia causado. Cipriano retirou-se do palácio e quando já ia distante ouviu uma voz que lhe dizia:
       —  Cipriano, Cipriano, vale-me nesta aflição pelo amor do grande Deus.
       Cipriano tremeu e caiu por terra.
       A boa princesa Clotilde chegou junto e lhe disse:
       —  Eu mando em nome de Deus! Levanta-te!
       Cipriano levantou-se de repente e fitou os olhos na linda princesa, dizendo-lhe:
       —  Que pretendes? A princesa respondeu:
       —  Invoco o santo nome de Jesus, para que tu, homem, não te movas daqui sem que vás restituir a vida de meu pai e de minha mãe e desencantar
tudo àquilo quanto tens encantado neste reino por uma arte oculta, maligna e poderosa.
       —  Eu — disse Cipriano — tudo isto te faço, porém peço-te que me digas qual é a oração que dizes todos os dias, por causa da qual eu nunca
pude levar adiante os meus desejos, mesmo usando de todos os meus feitiços e encantos.
       Responde a princesa:
        
       — A oração é muito simples, te ensinarei de muito boa vonta​de. Escuta:
       "Eu me entrego a Jesus e à Santíssima Cruz, ao Santís​simo Sacramento, às três relíquias que tem dentro, às três missas do Natal, que não me
aconteça nenhum mal. Maria Santíssima seja sempre comigo, o anjo da minha guarda me guarde e me livre das astúcias de Satanás.
       Cipriano foi em seguida ao local do palácio, desencantou tudo quanto tinha encantado e disse para a princesa:
       — Pede sempre por mim nas tuas orações.
       A princesa assim fez e obteve de Nosso Senhor Jesus Cristo o perdão para os pecados de Cipriano, que não levou senão mais de um ano naquela
vida enganosa.

 
 
 

  UMA NOVA AVENTURA
 
        
       Certo dia Cipriano foi ao palácio do rei da Pérsia para dizer ao monarca que pretendia sua filha, a princesa Neckar, para casa-la com um seu
amigo, chamado Nabor, de uma rica família da Babilônia.
       O rei da Pérsia disse que Neckar jamais seria esposa de Nabor, pois ele já tinha escolhido um parente para ser o marido da prin​cesa.
       Cipriano insistiu, pedindo que o rei consentisse que ele, Cipriano, falasse com a princesa, pois se esta o ouvisse certamente consentiria.
       O monarca achou inconveniente esta exigência, chamou alguns eunucos e mandou pô-lo para fora do palácio. Como Ci​priano tentasse reagir, o
rei mandou encarcerá-lo nos porões do palácio.
       Entretanto, com bons modos, Cipriano captou a confiança de um criado da princesa Neckar. Deu-lhe um elixir para que pingasse dentro de um
copo d'água, para a princesa cheirar. Esse criado chamava-se Alan, e, sem Neckar perceber, pingou cinco gotas do elixir num copo d'água.
       A princesa cheirou o líquido e logo depois começou a sentir uma sensação deliciosa, aparecendo-lhe em visões um belo rapaz. Sentiu forte
desejo de casar-se com ele.
       Tendo sido chamado por sua filha, o rei ficou sabendo de tudo o que se passava com ela, sem perda de tempo mandou chamar um pintor para
com as explicações da princesa apanhar os traços e pintar o retrato do jovem que ela via nas suas visões. Deste retrato tiraram-se muitas cópias e foram
entregues a emissários do reino para, percorrendo o mundo, encontrarem um rapaz que se parecesse com o desenho, pois este devia ser o noivo da
prin​cesa Neckar.
       Como se passassem os dias e Neckar continuasse cada vez mais excitada e com mais fortes desejos pelo noivo, que a não deixava nas suas
visões, o rei foi procurar a bruxa Elma-Persa. Esta, depois de experimentar todos os recursos para desencantos, disse ao rei:
       —  Vossa filha está enfeitiçada com um elixir poderoso e eu não posso agir contra ele, porém posso garantir que o feiticeiro acha-se em vosso
palácio.
       Ouvindo estas palavras, o rei lembrou-se do homem que a pedira em casamento para o seu amigo.
       Voltando ao palácio, o rei queria mandar logo matá-lo, mas Cipriano exclamou:
       —  Se eu morrer, pior para ti, porque tua filha também mor​rerá.
       Diante disso, o rei que muito amava sua filha ficou aterro​rizado e disse:
       —  Pede ouro, pedras preciosas, palácios. Nada te negarei, mas cura a minha filha.
       —  Eu fiz o meu pedido e não transijo, declarou Cipriano.
       E o rei da Pérsia, homem inabalável, homem de coração de ferro, cedeu, pensando na sua filha Neckar, que estava sofrendo.
       No momento em que a comitiva do grande rei estava for​mada no imenso salão azul do castelo, para ir à Babilônia buscar o  noivo, Neckar entrou
no salão e com os braços abertos abraçou e beijou seu pai, dizendo:
       —  Da sacada da torre do castelo, vi meu noivo e o conheci. E, comovida, acrescentou:
       —  Como ele é belo. Ele vem no meio da grande comitiva amarela.
       Afinal Neckar se casou com Nabor e foram muitos felizes, pois o destino havia determinado que fossem esposos, Cipriano, desta vez, havia
praticado uma boa ação, utilizando-se dos seus conhecimentos mágicos.
        

 OUTRO CASO
 
        
       Cipriano desejou o amor de uma menina de nome Adelaide. Foi pedi-la a seus pais, mas em vão, porque estes não deram con​sentimento.
       Desesperado com a negativa dos pais da jovem, irou-se de tal maneira contra eles que mandou o seu diabinho, que trazia sempre na algibeira,
destruir sem mais perda de tempo as casas e todos os bens dos pais de Adelaide. As suas ordens foram de imediato executadas.
       Logo que Adelaide viu os seus haveres destruídos, dirigiu-se a Cipriano e invectivou:
       —  Homem, que mal te fez meu pai para que procedesses para com ele com tanta maldade? Cipriano respondeu:
       —  Não vês, Adelaide, que te amo tanto que nada vejo, senão o lugar onde moras? Disse então Adelaide:
       —  Se for verdade o que me dizes, faze de conta que de hoje em diante sou tua escrava, mas não tua mulher, pois não sou digna de ser desposada
por ti.
       —  Por que razão — respondeu Cipriano — por que razão tu dizes que não és digna de ser minha esposa?
       Esclareceu Adelaide:
       — Sendo tu um santo, como vou ser tua mulher, se sou a maior pecadora do mundo?
       Voltando-se para Adelaide, Cipriano respondeu:
       —  Menina, pois se tu adoras tanto a Deus, e ainda assim dizes que és a maior pecadora do mundo, que Deus vingativo tu admiras?
       Ouvindo estas palavras, Adelaide ficou como pasmada e duvi​dando do que tinha ouvido, disse consigo mesma:
       "Que Deus será o que adora este homem? Porventura haverá outro Deus, sem ser o meu? Não é possível!"
       Tomou coragem e disse a Cipriano:
       —  Homem, obrigo-te da parte de Deus, a quem adoro, que me digas que Deus estranho é esse, que tu adoras e que te obriga a renegar o meu!
       —  O Deus que adoro é Lúcifer dos infernos! Ouvindo isto, Adelaide benzeu-se três vezes e falou:
       —  Esconjuro-te e obrigo-te da parte de Deus, a quem adoro, a que me restituas os meus haveres, tal e qual eles estavam. Obrigado pela força de
Deus Onipotente, Cipriano restituiu os bens aos pais de Adelaide e no fim de tudo isso retirou-se sem gozar o amor de Adelaide.
       Lúcifer aparecendo falou neste tom a Cipriano:
       —   Meu amigo Cipriano, não estejas sempre a incomodar-me. Já te ensinei todos os feitiços e toda a arte mágica. Já tens todo o poder que eu
tenho, porém, como teu amigo, que sempre fui, sou e serei, vou dar-te um conselho para gozares o amor de Adelaide.
       —   Tu, meu amigo, a quem amo de todo o coração, corpo e alma, dize o que tenho de fazer neste caso.
       —   Pega na tua garrafa mágica, mete a tua fava na boca e torna-te invisível. Agora mesmo vai à casa de Adelaide. Logo que chegares lá, deita
um pouco de azeite da tua garrafa em uma das luzes que vires. Tanto Adelaide como seus pais se assustarão e tu, Cipriano, aproveita essa ocasião para
gozar o amor de Adelaide.
       Decorrido cinco minutos, Cipriano já tinha feito amor com Adelaide; estavam satisfeitos seus lúbricos desejos.
 
 

 MÁGICA DOS BICHOS            
 
        
       A mágica dos bichos é uma de que o demônio e Cipriano se utilizaram para convencer a filha única do marquês de Sória, o mais estimado pelo
rei da Pérsia.
       Vendo-a um dia passear com seus pais, Cipriano julgou que no mundo não havia uma jovem que se assemelhasse a Elvira, em beleza.
       Pôs logo em prática sua arte mágica, dando a entender ao marquês que desejava sua filha Elvira.
       Encarando bem a pessoa de Cipriano, o marquês viu que este era um homem vulgar e lhe disse:
       —   Tu, homem, dizes, que pretendes de minha filha? E Cipriano:
       —   Eu pretendo amar Elvira, mas não casar com ela.
       Ouvindo estas palavras, o marquês ficou irado, porém tudo foi inútil porque Cipriano se apressou em dizer as seguintes pa​lavras:
       —   Eu quero já, por artes diabólicas e mágicas, A.M.N.O.P:, que o marquês e a marquesa virem pedra mármore!
       Cipriano voltou-se para Elvira e lhe disse:
       Vês, menina, o que fiz a teus pais? Outro tanto te farei, se não cederes ao meu desejo.
       Assustada com o que acabara de ouvir, Elvira respondeu:
 
       —   Que queres, homem?...
        
       — Eu quero que me sigas e deixes de adorar o falso Deus que adoras e ames só minhas leis e mandados.
       Ouvindo estas palavras, Elvira prostrou-se por terra e fez a Jesus Cristo esta oração:
       "Senhor se é de vossa vontade que eu siga este homem, dizei-mo lá das alturas, que estarei pronta para seguir a vossa determinação."
       Ouvindo a súplica de Elvira, Cipriano indignou-se contra ela e encantou-a com as mesmas palavras com que tinha encantado seus pais.
       Cipriano ficou satisfeito com sua vingança, porém, antes não ficasse, pois esteve em risco de perder a vida.
       Como o rei era muito amigo do marquês de Sória, logo deu pela sua falta na corte. Admirou-se de não vê-lo e disse consigo mesmo:
       "Que será feito do marquês? Que será feito de sua filha Elvira e de toda a sua família?"
       Por mais que mandasse procurá-lo em todo o reino, todas as buscas foram inúteis.
       Daí a um mês, apareceu no palácio uma mulher, malvestida, dizendo, que queria falar com sua majestade.
       Foram dar parte ao rei que ali estava uma pobre mulher, que pretendia falar-lhe. O rei respondeu ao pajem:
       —   Diga a essa mulher que entre.
       A mulher entrou e não se prostrou por terra, como era de costume.
       O rei, vendo que a mulher era tão altiva, falou:
       —   Porventura, mulher, tu não mereces ser já degolada, neste lugar, por faltares o devido respeito ao rei?
       —   Que é que dizes, rei bárbaro? — exclamou a mulher. ​Derramar o sangue de uma mulher, quando ela vem te trazer boa notícia e aliviar o
sofrimento que trazes tão entranhado em teu peito?
       Então o rei lembrou-se de que talvez aquela mulher viesse trazer-lhe notícias do marquês e da sua família e lhe disse em voz suplicante:
       —   Mulher, desculpa-me. Bem vês que a minha amizade pelo marquês é que me faz estar zangado. Respondeu a mulher:
       —   Hoje mesmo, verás o marquês e toda a sua família, mas com a condição de que hás de mandar matar um homem de nome Ci priano.
       —  Cipriano, o feiticeiro?! — exclamou o rei,
       —  Sim, esse mesmo — disse a mulher — e vou aconselhar-vos como haveis de proceder.
       —  Sim, mulher, concordou o rei; dize como devo agir.
       —  Chamai-o ao vosso palácio e dizei-lhe que vos apresente o marquês e sua família e que, se não o fizer, pagará com a própria vida.
       Acreditando nos conselhos da mulher, o rei fez o que ela disse: mandou chamar Cipriano à sua presença; apenas chegou Cipriano o rei lhe disse:
       —  És tu o homem chamado Cipriano?
       —  Sim, majestade. O que quereis, real senhor?
       —  Quero que me apresentes aqui o marquês de Sória e sua família, sob pena de mandar cortar-te a cabeça.
       Retrucou Cipriano:
       —  Com quem cuidas estar falando?
       —  Falo com um feiticeiro — retrucou o rei — que tem pacto com Lúcifer, o príncipe dos infernos.
       Ouvindo que o rei se manifestava desse modo, Cipriano invo​cou os espíritos malignos e ordenou que todo o palácio, assim como o rei com toda
a sua família ficassem encantados.
       Então o rei lançou-se aos pés de Cipriano:
       —  Perdão, perdão, grande e poderoso Cipriano! Desencantai-me e à minha família, pois não sou culpado disto. Perguntou Cipriano, muito
zangado:
       —  Pois quem é o culpado?
       —  O culpado. .. — respondeu o rei — a culpada é uma mulher que está escondida no meu palácio. E Cipriano:
       —  Essa mulher que venha sem demora à minha presença. O rei mandou que a mulher viesse imediatamente. Vendo-a, exclamou Cipriano:
       —  Então, tu, mulher, com que prazer querias que o rei derra​masse o sangue de um homem prudente e sem crimes!
       —  Sem crimes? — retrucou a mulher. —Qual será o homem que tenha mais crimes do que tu? Tu encantaste uma família que é es​timada do rei
meu senhor, e ainda dizes que não tens crimes?! Ah! Infame! És digno de mil mortes, se possível fosse. Aqui está quem tem poder sobre todos os teus
poderes e todas as tuas astú​cias.
        
       Ouvindo o que acabava de proferir a desconhecida, Cipriano estremeceu e falou:
       —  Que poder tens contra as minhas astúcias?
       —  Tenho poder sobre tudo porque sou uma feiticeira de maior idade. Fui das primeiras que fizeram pacto com Lúcifer. Por isso tenho poder
sobre todas as feitiçarias.
       Retrucou, então, Cipriano:
       —  Como pertences à minha classe, não te quero fazer sentir as forças dos meus feitiços. Que pretendes de mim, mulher? Disse a feiticeira:

       —  Quero que restituas ao rei o marquês e toda a sua família e que traga todos já à presença do rei. Depois de pensar um momento, Cipriano
disse à feiticeira:
       —  Sim, farei tudo isso, com a condição de que Elvira seja ,mi​nha e eu a estimarei como devo. Respondeu a mulher:
       —  Traze todos aqui e Elvira será tua.
       Ingenuamente, Cipriano acreditou nas promessas daquela fei​ticeira. Muito contente, foi logo desencantar o marquês, a marque​sa e sua filha.
       Quando Cipriano se retirou, o rei e a feiticeira ficaram con​versando. Disse a mulher:
       —  Real senhor, nós temos de matar Cipriano, hoje mesmo. Mas o rei observou:
       —  Não vês que Cipriano tem o grande poder da arte mágica? Ele pode nos encantar a todos com uma só palavra!
       —  Não, real senhor! Eu também tenho poder bastante para impedir todos os seus encantos e artes diabólicas.
       Dito isto, a feiticeira foi defumar todo o palácio, mas em vão, porque Cipriano tinha grande força diabólica. Contudo, conseguiu fazer alguma
coisa contra ele.
       Pouco depois, chegaram acompanhando Cipriano, o marquês de Sória, sua esposa e sua filha Elvira, que tinham sido desencanta​dos.
       O rei ficou cheio da mais viva satisfação e alegria. Disse a Ci​priano:
       —  Retira-te já daqui, homem sem coração, que tens sobre ti o peso dos mais horrendos crimes pela tua perversidade e infâmia!
       Enfurecido pelo que acabava de ouvir, Cipriano disse arrogan​temente ao rei:
       —  Então é essa a paga que me dás por eu ter desencantado as pessoas a quem estimas? Vejo que não me conheces bem. Espera que já te arranjo.
        
       Dizendo isso, meteu a mão numa das suas algibeiras, tirou um diabinho e ordenou-lhe:
       —   Quero já dez castelos às minhas ordens!
       Foram logo cumpridas as ordens de Cipriano, que pôs fogo no palácio. Mas tudo foi inútil devido à feitiçaria da mulher, quan​do defumou o
palácio.
       Cipriano reconheceu logo que a feiticeira tinha impedido que ele realizasse o seu intento. Vendo que nada podia conseguir, deses​perou-se da
falsidade com que o rei tinha usado contra ele.
       Cipriano estava pensando tristemente na traição do rei, dizen​do consigo mesmo que devia deixar este mundo, quando lhe apa​receu Lúcifer, que
pondo a mão no seu ombro, falou:
       —   Não te entristeças, Cipriano amigo, que Elvira será tua.
       —   Não pode ser, respondeu Cipriano.
       Retrucou Lúcifer:
       Julguei que confiavas mais em mim, meu Cipriano. Sossega, que tem remédio.
       Cipriano tranquilizou-se com as palavras consoladoras de Lú​cifer, que o conduziu.a um deserto e lhe disse:
       —   Já vês, caro amigo, que o palácio foi defumado com alecrim e incenso e por isso não podemos entrar lá com as nossas ar​tes diabólicas.
Porém não será bastante para que Elvira não seja tua, hoje mesmo...
 
       Perguntou Cipriano, que parecia estourar de satisfação:
 
       —   Que é preciso fazer para possui-la?
 
       Lúcifer explicou:
       Agarra todos os bichos do mundo, de preferência sapos, ara​nhas, ratos, cobras, sardões, formigas, moscas, sardoniscas, enfim, todos os mais que
puderes e quiseres. Mete-os num grande caldei​rão instalado numa trempe, despeja um quartilho e meio de azei​te, e acende fogo debaixo, de maneira que
os bichos se derretam e virem óleo, com a condição única de que devem ser atirados vivos no caldeirão. Depois, traze-me o óleo num frasco tapado.
Não de​ves cheirar o conteúdo.
       Cipriano fez como Lúcifer ordenou e logo viu que tudo esta​va pronto para comunicar a Lúcifer.
       Lúcifer falando:
       —   Sabes o que has de fazer agora a esse óleo? Cipriano com curiosidade:
       —   Ouvirei o teu conselho.
       —   Prepara uma luz com o óleo dos bichos e depois de tudo preparado, mete a tua fava na- boca e vai ao palácio sem que sejas visto por
alguém.
        
       Antes de executar as instruções de Lúcifer, Cipriano perguntou:
       —   Que devo fazer quando lá chegar? Lúcifer explicando:
       —   Logo que entrares no palácio, acende a luz mágica; ficarão assustados todos quantos se acharem no palácio. Tu, Cipriano, me te uma fava na
boca da feiticeira, que ainda deve estar lá, e outra na de Elvira e diz: "Favas, acompanhai-me". Assim que tiveres eleva​do a grande altura a feiticeira,
deixa-a cair, porque foi ela quem te meteu nesta encrenca.
       Cipriano agiu conforme Lúcifer indicou. Depois de haver pre​cipitado a feiticeira de uma grande altura, levou Elvira para um de​serto e lhe disse:
       —   Que queres, Elvira, que eu faça?
       Escusado será dizer o que fez Cipriano, porque os leitores cer​tamente já compreenderam.
       Só com o óleo dos bichos é que Cipriano pôde roubar e con​vencer Elvira. Preparou-lhe um palácio muito rico para que nele entrasse tão formosa
pomba como era aquela formosa mulher.
       Como veem, o diabo depois de começar a enredar uma criatu​ra não a deixa sem antes ter conseguido o que deseja. Por isso, re​comenda-se a
todos que é bom diariamente fazer 3 vezes o sinal da cruz.
       Voltando S. Cipriano de uma festa de Natal e não podendo atravessar os campos, devido a grande cheia no rio por onde tinha de passar, teve de
se abrigar num túnel formado pela natureza, pa​ra ali passar a noite.
       Embrulhou-se no seu grosseiro manto e foi encostar-se no re​cesso mais seguro da furna.
       Perto da meia-noite, ouviu passos e divisou uma luz. Temen​do que fossem malfeitores, encolheu-se atrás da ponta de uma grossa pedra. Pouco
depois, soou naquele covão uma voz caverno​sa que dizia:
       "O mágico Cipriano, rei dos feiticeiros, por ti aqui venho com quatro fogachos e peço-te que ajudes a ganhar o prêmio à mi​nha apaixonada
cliente."

       Cipriano ia levantar-se para perguntar quem assim falava, mas teve de recuar a estas palavras:
        
        
        
        
 
      
 
        
 
        
 
        
 
        
 
        
 
      
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
       


Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   19


©bemvin.org 2019
enviar mensagem

    Página principal