Sionismo filofascista e sionismo fascista seriam casos isolados?



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Capítulo 3
FASCISMO FILO-SEMITA,
SIONISMO FILOFASCISTA E SIONISMO FASCISTA


1. Seriam casos isolados?

Reflectindo sobre a ameaçadora expansão do nacional-socialismo na Baviera, com os seus mitos e o seu irracionalismo político, o filósofo Ernst Bloch, judeu e marxista pouco ortodoxo, contou que «judeus húngaros baptizados se tornaram espiões ao serviço de Hitler», um indício entre tantos outros, numa longa série que lhe permitiu as previsões sinistras1. Seriam talvez casos isolados, exagerada a sua importância no fluxo da retórica. O certo é que dispersas pela obra de alguns autores, que estranhamente parecem não lhes prestar grande atenção, se encontram outras menções curiosas.

Os British Fascisti, a primeira organização de inspiração mussoliniana criada fora da Itália, e que «fora fundada antes de mais como uma organização anti-semita»2, contavam pelo menos com um filiado judeu3. Um extravagante, possivelmente, mas quando Sir Oswald Mosley lançou a BUF, o principal movimento fascista da Grã-Bretanha, foi um campeão de boxe judeu quem lhe treinou as primeiras milícias4, e George Orwell indicou que Mosley dispunha de outros judeus entre os seus seguidores, só aderindo tardiamente ao anti-semitismo5. Um historiador defendeu mesmo que «de início a corrente dominante da comunidade judaica não vira com maus olhos a BUF e condenara em termos vigorosos os judeus que participaram em acções contra ela»6. Também na Holanda o Movimento Nacional-Socialista, fundado por Mussert em 1931, quando a ameaça de Hitler crescia do outro lado da fronteira, contava em 1935 com uma centena e meia de filiados judeus7. E teria sido apenas a irrefreável verve da mais importante figura do fascismo belga francófono, Léon Degrelle, que o levou, numa obra em que recordou os primeiros tempos da ocupação germânica do seu país, a perguntar retoricamente se «devo dizer, para terminar, que conheci um jornalista israelita candidato à colaboração? Chamava-se Lévy»8. Entretanto na Hungria, ao proceder durante a década de 1920 à estabilização do regime fascista, o primeiro-ministro István Bethlen beneficiou do apoio da elite judaica, que viu várias das suas personalidades proeminentes serem nomeadas para a câmara alta, onde tinha igualmente assento o principal rabi, ao lado dos maiores dignitários da Igreja católica. E quando Gyula Gömbös assumiu a chefia do governo em 1932 e, renunciando ao anti-semitismo que o havia caracterizado, declarou que abria os braços a todos os judeus que aceitassem o nacionalismo húngaro, beneficiou da boa vontade dos industriais e banqueiros judaicos9. Mesmo depois de outro governo ter começado, em 1938, a promulgar uma série de leis anti-semitas, a alta burguesia judaica continuou a manifestar a sua adesão ao chefe do regime, o regente Horthy, até ao dia em que ele foi deposto e detido pelas tropas germânicas10. Será que, perante a ameaça de um Terceiro Reich fanaticamente anti-semita, os judeus magiares teriam acabado compreensivelmente por preferir a versão autóctone do fascismo?

Mas que dizer quando vemos judeus apoiarem movimentos declaradamente hostis ao judaísmo? A Liga Patriótica Argentina, fundada por ocasião da greve geral de Janeiro de 1919, armou milícias que, colocando-se sob a autoridade militar e actuando em conjunto com a polícia, se dedicavam a atacar os operários; mas as suas truculências exerceram-se igualmente nos bairros judeus de Buenos Aires e tanto destruíram sedes sindicais como instituções judaicas, espancaram judeus e invadiram-lhes as casas. A partir de então as actividades da Liga espalharam-se pelo país, ao serviço dos donos das terras para combater a agitação dos trabalhadores rurais. Em Janeiro e Fevereiro de 1921 ocorreu uma greve de assalariados na região de Villaguay, na província de Entre Rios, onde se contavam judeus tanto entre os proprietários fundiários como entre a mão-de-obra, e uma milícia da Liga, auxiliada pela polícia, envolveu-se num tiroteio com grevistas e socialistas, do qual resultou a morte de vários trabalhadores e a prisão de muitos outros. Como uma minoria dos detidos era de origem judaica, isto foi o suficiente para que não só a Liga como órgãos da grande imprensa atribuíssem o movimento reivindicativo a «revolucionários judeus», apesar de serem mais abundantes os proprietários judeus membros da Liga, e o seu número aumentou ainda após o confronto11. Estes patrões judeus não se assustavam com o anti-semitismo de uma organização que lhes protegia os interesses de classe.

Não foram eles os únicos. Na Heimwehr, as milícias de um dos fascismos austríacos, alinhavam lado a lado anti-semitas e membros da burguesia judaica12, o que talvez ajude a compreender a razão por que o judeu austríaco Stefan Zweig, romancista célebre naquela época, omitiu nas suas Memórias o facto de em Novembro de 1932 ter sido convidado pelo regime fascista italiano para participar no Congresso Volta, onde pôde sentar-se ao lado de figuras cimeiras do anti-semitismo, como Rosenberg e Göring13. Outro célebre judeu austríaco, o psicoterapeuta Sigmund Freud, autografou num dos seus livros, em Abril de 1933, uma dedicatória para Mussolini, a quem chamou «herói da cultura», e além disso mostrou simpatia pelo regime de Dollfuss, apesar de o ter reconhecido como «mais ou menos fascista», permanecendo indiferente aos quatro dias de combates em Viena, em Fevereiro de 1934, que deixaram mortos quatrocentos operários14. Também o principal rabi austríaco, o Doutor David Feuchtwang, agradeceu publicamente a Deus aquela sangrenta vitória do chanceler Dollfuss sobre o operariado vienense e sugeriu que se efectuasse uma recolha de fundos na comunidade judaica em benefício das viúvas dos agentes da repressão caídos na refrega15. Neste ambiente não espanta que se encontrassem judeus nos órgãos directivos do partido de Dollfuss, a Frente Patriótica16. Entre os adeptos de Dollfuss contava-se igualmente o barão Leopold Popper von Podhragy, de uma família judaica nobilitada pelos Habsburgos17. Afinal, resumiu um historiador, «muitos judeus austríacos» apoiaram o fascismo de Dollfuss como uma defesa contra o nacional-socialismo de Hitler18. Mas a explicação não é convincente porque situações desse tipo haviam sido já denunciadas pelo dirigente socialista austríaco Otto Bauer numa obra publicada em 1924, antes de os hitlerianos se terem tornado um perigo do outro lado da fronteira: «O anti-semitismo, que a certa altura foi a palavra de ordem da pequena burguesia na luta contra a grande burguesia, passou a servir à própria grande burguesia, sendo usado pelos partidos burgueses ao seu serviço enquanto instrumento de luta contra a social-democracia. O capitalista judeu paga de bom grado as despesas de tipografia dos panfletos eleitorais anti-semitas para enfraquecer a social-democracia»19.

Tais habilidades não foram um exclusivo austríaco, pois na Roménia a Legião do Arcanjo São Miguel e a sua Guarda de Ferro, comandadas por Corneliu Codreanu, fanaticamente anti-semitas, para quem o ódio aos judeus constituía uma das principais razões de ser, parece terem recebido apoio financeiro de vários industriais judeus20 e um antigo membro da Legião recordou que «havia sempre um ou dois judeus no Movimento, e os únicos problemas que causavam deviam-se ocasionalmente a uma exagerada devoção à causa legionária»21. Também um historiador que lhe é favorável afirmou que «a Legião tinha alguns, poucos, apoiantes judeus»22.

Mais curioso ainda é o caso de Max Naumann, fundador da Liga dos Judeus Nacional-Alemães, que ao longo da república de Weimar evoluiu da direita para a extrema-direita radical e apelou para a expulsão dos judeus oriundos do Leste, considerando-os racialmente inferiores aos seus correligionários germânicos. Em 1932 Naumann começou a apresentar Hitler como o único político capaz de promover o ressurgimento do país e nos anos iniciais do Terceiro Reich pediu, sem qualquer êxito, que o partido nacional-socialista os integrasse, a ele e à sua Liga23. Outros houve. O jovem licenciado judeu Hans Joachim Schoeps, futuro teólogo, muito próximo dos movimentos de juventude racistas de extrema-direita e radicalmente oposto à imigração dos seus correligionários do Leste, reuniu uma centena e meia de estudantes universitários e logo após a nomeação de Hitler para a Chancelaria fundou uma associação de nome esclarecedor, a Deutscher Vortrupp – Gefolgschaft deutscher Juden, com o objectivo de aproximar os judeus dos nacionais-socialistas. Acérrimo defensor da assimilação dos judeus pela restante população alemã, na qual estariam a par dos outros povos de origem germânica, Schoeps enviou a Hitler um memorando propondo que os judeus alemães fossem considerados uma entidade legal plenamente integrada no desenvolvimento do novo regime. Parece que desejava até que a Deutscher Vortrupp fosse reconhecida como o ramo judaico da Juventude Hitleriana. Aquele memorando era acompanhado por um pedido de audiência, que evidentemente nunca foi aceite, mas Schoeps não desistiu e em 1935 a revista da sua organização proclamava ainda: «O nacional-socialismo salvará a Alemanha da destruição; a Alemanha está hoje a viver a sua renovação racial». Como habitualmente, a realidade foi mais forte do que as ilusões, no final de 1935 a Gestapo dissolveu a Deutscher Vortrupp e três anos depois Schoeps acabou por se exilar24. Mas poderá tudo isto significar alguma coisa? Se se tratasse apenas de factos soltos e gente esdrúxula, bizarrias que não ilustrassem senão a conhecida norma de que existem excepções para todas as regras?

A frequência destes casos, porém, e a sua dispersão pelos vários tipos de fascismo parecem indicar razões mais profundas. Na França da década de 1930 o Movimento Francista, de Marcel Bucard, contava com alguns judeus entre os filiados25 e as ligas chefiadas por Taittinger e pelo coronel de La Rocque beneficiaram dos subsídios de conhecidos bancos judaicos, como os Rothschild, Dreyfus, Lazard e Worms26. Mas foi especialmente em torno de Gaston Bergery que os judeus se congregaram, a ponto de os anti-semitas denunciarem o jornal La Flèche como um covil da raça odiada27. Bergery foi, como vimos (no capítulo 3 da Parte 3), uma das figuras cujo percurso, na década de 1930, permitiu a convergência de uma certa esquerda tomada pelo patriotismo com uma direita percorrida por inquietações sociais, e neste meio político formou-se um fascismo francês que sob a ocupação germânica haveria de mostrar as suas limitações na legislação social e as suas capacidades na legislação racista. Parece até que a hostilidade aos judeus não era um óbice para obter apoios financeiros de judeus da extrema-direita. Quando o editor Arthème Fayard decidiu, na época do Front Populaire, desinteressar-se do Je Suis Partout, uma das mais consistentes publicações fascistas e anti-semitas, a revista subsistiu graças aos fundos de três accionistas, um dos quais era um industrial de tipografia judeu28. Ainda em França, entre os financiadores de Jacques Doriot e do seu Parti Populaire Français citam-se quatro bancos pertencentes ou ligados a famílias judaicas, e com efeito, além da casa Worms29, numa lista de patrocinadores desse partido, datando verosimilmente de 1938, vejo as firmas Rothschild, Dreyfus e Lazard30, as mesmas que encontrámos há pouco entre os benfeitores das ligas de Taittinger e do coronel de La Rocque. O exemplo difundiu-se de cima a baixo da escala social, porque foi o operário judeu Alexandre Abremski, membro do bureau político do PPF, quem dirigiu a secção sindical do partido, até à sua morte em 193831. Parece também que François de Wendel, um grande capitalista judeu que muito provavelmente teria contribuído para os cofres do PPF, se encontrou pessoalmente com Doriot no final de 1938 e o pressionou a não seguir uma orientação anti-semita32. Se este contacto vier algum dia a confirmar-se — e, mesmo que permaneça duvidoso, não deveriam os subsídios judaicos ser um poderoso argumento contra o anti-semitismo? — vemos que não era o fascismo político, mas apenas uma forma de hostilidade racial, que preocupava uma tão choruda personalidade.

Mais significativo ainda é o caso do estabelecimento bancário de Hippolyte Worms que, embora conotado com o grande capital judaico33 e estigmatizado pelos anti-semitas, manteve ligações muito estreitas com diversos quadrantes do fascismo. Antes de mais, prestou ao PPF uma ajuda económica apreciável, e Pierre Pucheu, que geriu uma das principais empresas do grupo Worms, dirigiu o Comité Financeiro central do PPF e pertenceu ao seu bureau político até se separar de Doriot em Janeiro de 193934. O facto de Pucheu se ter afastado de Doriot não implicou que Hippolyte Worms se desinteressasse do fascismo e durante a ocupação da França pelas tropas do Reich manteve-se muito próximo tanto das autoridades germânicas como do regime de Vichy35, a tal ponto que quando o almirante Darlan foi comunicar a Pétain a composição do seu ministério, o chefe da casa civil de Pétain, Henri du Moulin de Labarthète, exclamou: «Mas é o banco Worms em peso que nos traz consigo!»36. Efectivamente, muitas das principais figuras tecnocráticas que rodeavam o almirante tinham ligações directas ou indirectas com a casa Worms, e Marcel Déat estava convencido de que as pastas do governo Darlan eram atribuídas na sede do banco Worms37. Neste caso não se tratou só de uma aproximação ou de um apoio prestado pelo grande capital judaico ao fascismo, mas da plena participação de um dos primeiros grupos económicos judaicos na vida política do fascismo francês.

Será possível que tais exemplos não se limitem a anomalias ou casos singulares e revelem algo mais? Porque nem a guerra e o conhecimento do genocídio parecem ter mudado os ânimos, e assim como se encontram hoje alguns judeus entre os membros do Partido Nacional-Bolchevista russo38 também há pouco tempo se afirmou como certo que dois poderosos homens de negócios judeus financiavam os fascistas anti-semitas da Unidade Nacional Russa39. Existirá alguma regra por detrás daquilo que o apressado leitor dos nossos dias tende a considerar como excepções? Em que medida o fascismo, que passou à história como a forma mais perversa e cruel do anti-semitismo moderno, teria também sustentado com os judeus relações de outro tipo?



2. Itália: Entre o fascismo filo-semita e o fascismo anti-semita

Enquanto gozou de autonomia suficiente para conservar as características próprias, o fascismo italiano ocupou-se com uma problemática estritamente social, onde não tinha lugar a hostilidade aos judeus40. «O anti-semitismo italiano é um mero artifício», escreveu alguém que vira o anti-semitismo do outro lado dos Alpes, «uma questão de conveniência, se bem que o ex-secretário do partido, Farinacci, e Paolo Orano [...] tenham desenvolvido uma doutrina anti-semita»41. Orano desempenhou um papel de certa importância. Sofrera a influência de Georges Sorel e em 1905, junto com outros sindicalistas revolucionários, fora expulso da redacção do principal jornal diário do PSI por ter apoiado a greve geral do ano anterior, que não entusiasmara a direcção reformista do partido. Cinco anos depois, ao fundar e dirigir La Lupa, Orano assumiu um lugar de relevo na junção operada entre os sindicalistas revolucionários e os nacionalistas radicais de Corradini. No regime fascista, porém, permaneceu em segundo plano, ensinando na Faculdade Fascista de Ciências Políticas, em Perugia42. Roberto Farinacci é muitíssimo mais conhecido, chefe squadrista desde a primeira hora e secretário-geral do partido de Fevereiro de 1925 até Março do ano seguinte, um dos raros promotores do anti-semitismo nas altas esferas do regime. Mas mesmo ele oscilou nestes sentimentos. O seu jornal, Il Regime Fascista, mitigou as injúrias aos judeus, a ponto de publicar em 1930 um artigo de crítica às posições racistas manifestadas pelo nacional-socialismo alemão, e só em 1936 retomou com vigor o ataque aos judeus43. Outras figuras revelaram igualmente cedo o anti-semitismo. O futurista Piero Bolzon, por exemplo, um dos fundadores dos Fasci di Combattimento, nomeado em 1923 para o Directório do PNF, identificara socialismo e judaísmo numa mesma aversão44. Mas o anti-semitismo fanático e constante, servindo de fundamento da orientação política, singularizava em Itália Giovanni Preziosi, que durante muito tempo não conseguiu alargar o reduzido círculo de discípulos entre os seus correligionários fascistas45.



Até quando encontrava algum eco jornalístico e era defendido por personalidades com um efectivo peso no movimento, o anti-semitismo não inspirava a linha oficial do regime nem influenciava sequer as preocupações dos demais dirigentes. Numa entrevista concedida em 1932 o Duce afirmou que não existia anti-semitismo na Itália e desabonou o racismo, considerando-o uma atitude sentimental, desprovida de fundamento científico46. Foi noutro lugar e perante outras gentes que o fascismo italiano se mostrou racista, precisamente onde as grandes democracias se manifestavam também, em África, contra os negros47. Aqueles que hoje se esforçam por reduzir a história do racismo moderno ao anti-semitismo estão na realidade a absolver do racismo antinegro as metrópoles democráticas imperialistas. Conquistada a Abissínia, o governo de Roma determinou que se instaurasse na organização política e na vida quotidiana uma demarcação severa entre indígenas e colonos, recusando a cidadania italiana a todos os mestiços que viessem a nascer. Aliás, recorreu-se a um conjunto de medidas destinado a evitar contactos sexuais entre a população italiana e a nativa48. «A raça branca deve impor-se através de uma superioridade afirmada não por axioma, mas na prática», rezam as instruções que o Ministério das Colónias enviou em Agosto 1936 ao governador-geral e vice-rei da Abissínia49. E os judeus italianos não se distinguiram do resto da população no apoio entusiástico que deram à conquista da Abissínia, oferecendo-se muitos deles como voluntários50. Mesmo fora das fronteiras um dos chefes mundiais do sionismo fascista, Wolfgang von Weisl, declarou numa entrevista em 1936 que «se regozijava pela vitória da Itália fascista na Abissínia, enquanto triunfo das raças brancas sobre os negros»51.

O facto de os judeus não serem perseguidos nem sequer hostilizados em Itália relaciona-se com o seu elevadíssimo grau de integração na sociedade52, a ponto de ser o país onde se registava a maior percentagem de judeus apóstatas53. Encontravam-se judeus entre os fundadores dos primeiros Fasci di Combattimento54, bem como entre os primeiros homens de negócios e proprietários fundiários que subsidiaram o movimento fascista e as suas squadre55, e mal terminara a Marcha sobre Roma já os novos governantes tinham o cuidado de comunicar ao principal dignitário religioso judaico da capital que não apoiariam o anti-semitismo nem dentro nem fora das fronteiras56. O próprio Mussolini encontrou na judia Margherita Sarfatti uma das suas amantes mais íntimas e, apesar da concorrência, mais duráveis, que o acompanhou durante cerca de duas décadas, desde o Partido Socialista até ao fascismo, e que exerceu sobre ele uma considerável influência política e ideológica57. Um número incalculável de judeus aderiu ao regime, ascendendo alguns a posições de grande relevo no interior do partido e do governo, a tal ponto que a percentagem de judeus no movimento fascista era muito mais elevada do que na população em geral58. Parece que pelo menos um quinto dos judeus italianos se filiou no PNF59. A percentagem foi maior ainda numa das esferas de actividade mais públicas, a arquitectura fascista60. Uma tal preeminência judaica chegou a preocupar o Vaticano que, aproveitando a amenidade das suas relações com o governo na altura em que eram assinados os acordos de Latrão, procurou convencer o Duce a substituir judeus por católicos nas listas únicas apresentadas às eleições de Marco de 192961. Curiosa situação em que os judeus encontravam no fascismo uma barreira contra o fanatismo eclesiástico. Em Ferrara, por exemplo, apesar de serem em número relativamente reduzido, os judeus encabeçavam tanto o partido como a administração local e muitos deles contavam-se entre os amigos pessoais do chefe do fascismo na região, Italo Balbo62. Um dos mais próximos colaboradores de Mussolini foi um judeu, Aldo Finzi, que o acompanhou na Marcha — para eles ferroviária — sobre Roma e em seguida esteve a seu lado quando o monarca lhe entregou o governo, responsabilizando-se pelo Subsecretariado do Interior, posto crucial, sobretudo numa jovem ditadura, e obtendo assim poderes superiores aos de boa parte dos ministros e um assento no Grande Conselho63. Ao mesmo tempo, outro judeu, o prefeito Dante Almansi, foi nomeado vice-chefe da polícia64. O facto de pertencer à comunidade judaica também não impediu o importante homem de negócios Guido Jung de ser eleito deputado numa lista fascista em Abril de 1924 e de se encarregar, entre 1932 e 1935, do Ministério das Finanças65. Igualmente judeu era um fascista da primeira hora, Angelo Oliviero Olivetti, que fora um dos principais ideólogos do sindicalismo revolucionário e que, além de professor na Faculdade Fascista de Perugia e membro do Conselho Nacional das Corporações, integrou a comissão de dezoito membros nomeada pelo Duce em Janeiro de 1925 para estudar as modificações a introduzir no sistema constitucional66.

Especialmente sugestivo é o facto de ter sido atribuído a um judeu, Fulvio Suvich, o cargo de subsecretário dos Negócios Estrangeiros quando Mussolini assumiu de novo este Ministério, em 1932, e só quatro anos depois Suvich abandonaria aquelas funções67. Ao sabermos que o Duce retomou o comando directo da diplomacia para substituir uma política externa voltada para a Sociedade das Nações por uma orientação favorável à revisão dos tratados de paz e capaz de olhar com simpatia uma Alemanha onde a todo o momento se esperava que Hitler ascendesse ao poder, podemos apreciar as verdadeiras dimensões da escolha de um judeu para executar uma estratégia propícia ao nacional-socialismo68. Compreende-se, assim, que no discurso pronunciado durante a visita que fez a Roma no final de 1932 Alfred Rosenberg, apesar do seu fanatismo anti-semita, tivesse omitido cuidadosamente quaisquer ataques directos aos judeus69, o que é tanto mais curioso quanto ele se contava entre os membros do NSDAP que acusavam o fascismo italiano de ser um movimento capitalista e judaico70. Pouco depois da entrada de Hitler na Chancelaria Suvich foi enviado à Alemanha para ter conversações com os novos governantes71. O Duce não podia ter escolhido melhor, se pretendia evidenciar o plano de clivagem entre o seu modelo de fascismo e o do Führer. E como se isto não fosse suficiente, no primeiro encontro que teve com Hitler, em Junho de 1934, Mussolini fez-se acompanhar por Suvich72.

Foi essa a época em que Mussolini procurou servir de medianeiro entre Hitler e os judeus, acalentando a esperança de levá-lo a atenuar a campanha anti-semita a troco de uma suspensão dos boicotes organizados pelo judaísmo mundial73. O único protector plausível dos judeus perante a fúria nacional-socialista — era como Mussolini se apresentava e como a imprensa sionista da Palestina o reconhecia74. Em 1933 ele permitiu-se escrever ao novo chanceler alemão, ensinando-lhe que «todos os regimes têm não só o direito, mas ainda o dever de eliminar dos postos de comando os elementos que não sejam inteiramente seguros, mas para isto não é necessário, e pode mesmo ser prejudicial, colocar no campo da raça — semitismo e arianismo — aquilo que é simplesmente uma medida de defesa e de desenvolvimento de uma revolução»75. Com quem o Duce estava a gastar o latim! No final de Março desse ano ele deu instruções ao seu embaixador em Berlim para que tentasse dissuadir Hitler de levar a cabo o boicote aos judeus anunciado para o primeiro dia de Abril, e nesse mesmo mês de Abril, numa iniciativa a que a imprensa italiana conferiu um lugar de destaque, recebeu o grande rabi de Roma, que lhe manifestou enorme preocupação pela sorte dos seus correligionários na Alemanha76. Parece que ao encontrar-se com Hitler em Junho de 1934 o Duce de novo procurou convencê-lo a limitar na prática a hostilidade aos judeus77. E assim como num lado tentava conter dentro de limites aceitáveis o anti-semitismo dos nacionais-socialistas, o Duce esforçava-se no outro lado por moderar os ímpetos de muitos judeus. Em Setembro de 1933 o grande rabi de Roma compareceu como representante pessoal de Mussolini na Segunda Conferência Judaica Mundial, mas abandonou a reunião ao verificar que era impossível demover os demais congressistas de aprovarem um movimento mundial de boicote ao comércio externo do Reich sob uma direcção central unificada78. É sempre ingrato colocar-se de permeio quando uma das partes não quer, e a outra não pode, encontrar um terreno de entendimento. Apesar disto o Duce continuou a usar termos bastante rudes para assinalar publicamente as suas divergências com o Führer, como sucedeu por exemplo num discurso de Setembro de 1934 em que classificou o racismo germânico como «uma doutrina professada pelos descendentes de bárbaros»79. Entretanto os judeus fugidos do Reich encontravam acolhimento em Itália80.

Até à chegada de Hitler ao poder, coubera a Mussolini o lugar indisputado de inspirador e protector financeiro dos movimentos fascistas espalhados um pouco por toda a parte, mas após Janeiro de 1933 a importância económica e o prestígio cultural da Alemanha deram-lhe uma influência cada vez maior sobre o fascismo mundial. Os termos ideológicos desta rivalidade não ofereciam dúvidas, e enquanto o Führer patrocinava uma visão estritamente rácica, o Duce privilegiava as questões sociais e rejeitava o racismo. Em França, por exemplo, o Faisceau, fundado e dirigido por Georges Valois, um dos primeiros partidos de inspiração mussoliniana criado fora de Itália, era completamente alheio ao ódio aos judeus, defendendo a sua integração económica e social81. A influência do fascismo italiano parece-me ter sido aqui tanto mais indubitável quanto Valois fora até então notoriamente anti-semita82. Do mesmo modo, ao saber que o chanceler Dollfuss pretendia introduzir na constituição austríaca cláusulas desfavoráveis aos judeus, Mussolini escreveu-lhe a dissuadi-lo83. E se for exacto que Oswald Mosley contara judeus entre os seus mais importantes seguidores quando unificou o movimento fascista na Grã-Bretanha e só aderiu ao anti-semitismo em Setembro de 193484, a mudança correspondeu decerto à passagem da órbita de Mussolini para a de Hitler, pois na segunda metade da década de 1930 a British Union cada vez mais substituiu a invocação do fascismo pelas referências ao nacional-socialismo, a ponto de ter passado a chamar-se, em Junho de 1936, British Union of Fascists and National Socialists85. Esta evolução reproduziu em escala ampliada o que sucedera alguns anos antes com a Imperial Fascist League, um grupo de escassíssima amplitude e influência diminuta, que até 1931, enquanto se mantivera alheia ao anti-semitismo, havia seguido o modelo do fascismo italiano, copiando-lhe símbolos e denominações, e que de então em diante passou a participar nas campanhas contra os judeus e a propagar a supremacia racial dos nórdicos, colocando-se sob a égide do nacional-socialismo hitleriano86. Tratava-se, em suma, de uma oposição entre o modelo do Estado totalitário e o modelo da comunidade racial.

Quando, por iniciativa italiana e com a significativa ausência do partido nacional-socialista alemão, se realizou em Dezembro de 1934 a conferência de Montreux, na Suíça, reunindo representantes dos movimentos fascistas de quinze países europeus, o problema judaico teve de ficar em aberto. As decisões finais recusaram-se a promover o anti-semitismo numa escala mundial, declarando que «a questão judaica não pode manifestar-se numa campanha universal de ódio aos judeus». Ao considerar que «cada país [...] é o único competente para decidir a conduta que deve prosseguir no seu território quanto aos cidadãos, aos grupos, às raças e às religiões que aí residem», a conferência circunscreveu a política racial dos nacionais-socialistas ao âmbito de um caso particular. E a admissão de que «em muitos lugares alguns grupos judaicos se instalaram como em terra conquistada» implicava, na verdade, que o ataque aos judeus se justificava apenas em tais «lugares». Em suma, cada regime e cada movimento adoptaria acerca do assunto a atitude que melhor entendesse87. Na realidade, as implicações do dissídio foram mais vastas. Enquanto o fascismo italiano procurou internacionalizar a sua doutrina e o seu exemplo prático mediante os contactos e as relações com partidos e movimentos afins88, a supranacionalização prevista pelo nacional-socialismo germânico viria a ocorrer através da inclusão nos SS de todos os homens, qualquer que fosse o seu país de origem, considerados de bom sangue e susceptíveis de contribuir para a formação da raça de senhores. Eram duas perspectivas distintas, implicando modalidades de proselitismo muito diferentes também.

A liquidação política de Gregor Strasser no final de 1932 e o extermínio dos chefes da ala populista das SA em Junho e Julho de 1934 puseram cobro à influência que as doutrinas mussolinianas exerciam no Reich. Mas nenhuns obstáculos impediram o processo inverso e desde 1933 notou-se um progressivo reforço da facção anti-semita dentro do Partido Nacional Fascista89. A hegemonia adquirida pela Gestapo no interior da OVRA parece ter estimulado o racismo em Itália, e um conhecedor pretendeu que «a Gestapo infiltrou-se até às próprias raízes na organização policial fascista, procurando reorganizá-la consoante o modelo germânico. É muito possível que a influência crescente da Gestapo na Itália se tenha feito sentir na mudança súbita e inesperada que se operou na política do fascismo relativamente aos judeus»90. Apesar disso, os inimigos italianos do judaísmo mantinham-se numa posição marginal, sem interferirem nas grandes decisões políticas nem conseguirem sequer uma audiência significativa, até que em 1937 Paolo Orano desencadeou a campanha anti-semita com a publicação da sua obra Gli Ebrei in Italia.

Tive aberta a meu lado uma curiosa refutação do livro de Orano, cuja consulta devi à cultíssima bibliofilia de Maurício Tragtenberg. O autor da réplica, Abramo Levi, judeu italiano, reivindicou-se da sua qualidade de fascista para melhor rebater o anti-semitismo. Escreveu ele que «os judeus italianos são politicamente aquilo que devem ser: fascistas, sim; católicos, não... porque são judeus»91. E contra o estafado argumento que pretendia deduzir o carácter judaico do marxismo a partir da etnia do seu fundador, Levi respondeu com espírito que a dialéctica de Marx era de origem hegeliana, inserida portanto numa tradição exclusivamente alemã, assim como era pangermanista a política de Marx, semelhante nisto à do nacional-socialismo92. Todavia, o grande interesse do livro não reside nas poucas páginas redigidas por quem o assinou, mas nos depoimentos em que se sucedem as profissões de fé fascistas de numerosos judeus, grande parte dos quais ocupava cargos dirigentes nas Comunidades Israelitas formadas no quadro do regime. Aliás, a legislação que regulava o funcionamento destas Comunidades, promulgada em 1930 e 1931, fora muito bem recebida pela enorme maioria dos judeus93. Aquele erguer de braços judaicos, esticados na saudação romana, culminou a 30 de Maio de 1937 em Florença, onde, na sequência da polémica suscitada por Orano, se reuniram representantes de quase todas as Comunidades Israelitas do país e, entre outras decisões votadas por unanimidade, foi proclamado que «os italianos de religião judaica são, e declaram claramente ser, inimigos de qualquer internacional judaica ou não judaica, maçónica, subversiva ou subversora e, sobretudo, antifascista»94. Não foi só o sionismo que os chefes do judaísmo italiano repudiaram, mas negaram no mesmo gesto a solidariedade com os movimentos estrangeiros que procuravam defender das perseguições os judeus do Reich.

A decisão de hostilizar os judeus, que tivera no livro de Orano o seu balão de ensaio, culminou com o decreto-lei anti-semita promulgado em 17 de Novembro de 193895. Foi uma medida a tal ponto contrária à tradição do fascismo italiano que os autores e apoiantes de um Manifesto dos Cientistas Racistas, amplamente difundido na imprensa em Julho daquele ano, haviam preferido o anonimato e só vários dias após a publicação foram revelados os subscritores, parecendo que alguns exprimiam objecções ao texto tal como fora dado à estampa96. Aliás, a nova orientação do regime chegara a suscitar debate na reunião do Grande Conselho durante a noite de 6 para 7 de Outubro de 1938, apesar de até então o órgão supremo do fascismo ter em geral seguido obedientemente as instruções de Mussolini, e três figuras de primeiro plano destacaram-se na crítica. Uma delas, Italo Balbo, que se opunha igualmente à aliança com o Reich, esforçou-se por evitar o cumprimento das novas leis raciais em Ferrara, onde tinha uma sólida base de apoio, e conseguiu também que a sua aplicação na Líbia fosse sujeita a várias excepções, atenuando-lhes a eficácia. De Bono, a quem um judeu auxiliara na chefia da polícia, manifestou-se igualmente contrário à legislação racial, embora no mês anterior tivesse registado no seu diário que havia sempre sido anti-semita. O terceiro membro do Grande Conselho a discordar das medidas hostis aos judeus foi o presidente do Senado, Federzoni97. Entre os intelectuais, Marinetti e outros futuristas, fascistas desde antes da primeira hora, tomaram publicamente posição contra o anti-semitismo98 e também Giovanni Gentile, o mais importante filósofo do regime, não aderiu à campanha99. Numa obra publicada originariamente em 1939 uma figura tão importante da cultura fascista — ou mesmo da cultura italiana tout court — como era o historiador Gioacchino Volpe, secretário da Academia, admitiu que perante a campanha anti-semita e a adopção oficial de medidas contrárias aos judeus «houve um certo constrangimento e algumas reacções da opinião pública italiana» e acrescentou: «Chegando inesperadamente, a política da raça não encontrou o terreno bem preparado»100. Volpe, que havia pertencido ao Comité Itália-Palestina, fundado em 1927101, depois de invocar uma série de argumentos contraditórios e pouco convincentes para defender a nova orientação racista do regime, enumerou objecções de muito maior peso, nomeadamente a de que «o fascismo pudesse seguir as pisadas do nazismo em matéria de doutrina da raça e perder ainda alguns caracteres típicos da sua originalidade estritamente italiana»102, o que me leva a crer que aquele capítulo se destinasse a ser lido nas entrelinhas.

Surge assim a questão de saber por que motivo o Duce alterou tão drasticamente a sua política racial. Um historiador defendeu que a legislação anti-semita fora uma das consequências da nova fase imperial inaugurada após a conquista da Abissínia e, como prova de que os preconceitos raciais faziam parte da ideia de império inerente ao fascismo, citou várias declarações de Mussolini desde 1920103. O problema é que nestas declarações o termo «raça» ou tinha uma conotação simplesmente civilizacional, por vezes confundindo-se com a nação, ou tinha uma conotação profiláctica comum na época e não a acepção biológica que as medidas anti-semitas supunham. Segundo outros historiadores, o racismo antiafricano subsequente à conquista da Abissínia poderia ter estimulado o anti-semitismo104. Com efeito, foi isto que Mussolini afirmou no discurso de 18 de Setembro de 1938 em Trieste. «O problema racial não surgiu bruscamente», disse então o Duce. «Ele está relacionado com a nossa conquista do Império, porque a história ensina que os impérios são conquistados pelas armas, mas mantidos pelo prestígio. E o prestígio exige uma consciência rácica bem definida, baseada não apenas em diferenças, mas na mais plena afirmação de superioridade. O problema judaico não é senão um aspecto deste fenómeno»105. A mesma tese encontra-se na declaração respeitante às medidas anti-semitas aprovada pelo Grande Conselho na noite de 6 para 7 de Outubro de 1938, e era a ela que recorriam para consumo externo os diplomatas italianos106. Também Gioacchino Volpe adoptou esta explicação para justificar o recurso tardio às medidas anti-semitas107. O argumento é, todavia, muito suspeito, porque Mussolini o invocou para replicar àqueles que o acusavam de ceder às pressões do nacional-socialismo. Ora, todas as metrópoles colonialistas praticaram com abundância o racismo contra os negros, sem terem obrigatoriamente ostracizado os judeus ou mantendo-se mesmo, por vezes, estranhas a qualquer traço de anti-semitismo. Aliás, Evola observou que as medidas antinegras tomadas por Mussolini aquando da constituição do império colonial tiveram um «carácter prático e não ideológico», em nada diferindo das disposições tomadas pelas outras nações coloniais europeias, nomeadamente pela Grã-Bretanha108.

Mas o problema também não se esclarece se procurarmos deslindá-lo por outros lados. Um especialista considerou que o abandono da orientação pró-sionista adoptada anteriormente pelo governo de Roma poderia dever-se mais ao facto de o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano ensaiar uma política de aproximação à Grã-Bretanha do que a quaisquer pressões alemãs109, mas não vejo razão para admitir esta tese. Não deve confundir-se o anti-sionismo, que se difundiu em diversos meios italianos a seguir à Grande Guerra como um aspecto da hostilidade à penetração britânica na Palestina, com o anti-semitismo. A forma corrente de anti-sionismo na Itália daquela época tinha uma conotação geopolítica, sem implicações racistas, enquanto o anti-semitismo assenta na biologização de caracteres culturais. Adoptando uma perspectiva muito diferente, um autor interessado pelas questões judaicas pretendeu que a participação conjunta das tropas italianas e alemãs na guerra civil espanhola convencera Mussolini de que não podia deixar o problema dos judeus interferir nas suas relações com Hitler110, mas se assim fosse fica por explicar que não se tivessem levantado obstáculos à inclusão de judeus entre os voluntários fascistas italianos que se ofereceram para apoiar as tropas franquistas111. Um historiador admitiu que ao visitar Berlim em Setembro de 1937 o Duce ficara tão impressionado com o Terceiro Reich que decidira emular as leis raciais do Führer112, mas esta explicação psicológica parece-me pouco convincente e considero mais pesado o argumento de outro historiador, observando que só depois de o Anschluss ter selado a dependência de Roma perante Berlim, e quando a aproximação da guerra precipitou o perfil das alianças, é que o Duce, na segunda metade de 1938, tomou as primeiras medidas práticas de perseguição aos judeus e, no final do ano seguinte, criou um tribunal para as questões raciais113. Mas embora esta explicação se me afigure a mais satisfatória, também ela não resiste ao confronto com os factos.



Não me parece que os historiadores se tenham dado conta da profunda diferença de inspiração entre o anti-semitismo de Hitler e aquele que foi adoptado pelo fascismo italiano a partir de 1938114. Já no ano anterior, ao lançar a polémica acerca desta questão, Orano afirmara que os judeus, pelo mero facto de se apresentarem como tal, estavam a separar-se do corpo da nação, e concluíra que eles deviam não só recusar o sionismo como ainda renunciar a qualquer especificidade que não fosse religiosa115. Orano reclamava, portanto, a completa assimilação dos judeus pela sociedade italiana, enquanto Hitler rejeitava o racismo de vocação abrangente e, em vez de integrar os judeus, pretendia exactamente o oposto, a sua absoluta exclusão da sociedade germânica. O mesmo antagonismo entre as duas modalidades de racismo continuou a manifestar-se após a adopção oficial do anti-semitismo pelo fascismo romano. Os judeus passaram a ser acusados de não se deixarem assimilar suficientemente116, o que era contrário ao principal artigo de fé de Hitler. Numa entrevista publicada em Outubro de 1941 Mussolini declarou que, depois de expulsa uma parte substancial dos judeus, os restantes se integrariam sem problemas na população italiana através de casamentos mistos, de modo que na geração seguinte as características hebraicas já teriam desaparecido117. Uma afirmação a tal ponto oposta às leis de Nuremberga seria suficiente para levar o Duce à prisão ou pior, no Terceiro Reich. Céline foi direito ao centro da questão num livro cuja primeira edição data de 1938: «Acho o anti-semitismo italiano morno, para o meu gosto, pálido, insuficiente. Acho-o arriscado. Distinguir entre os bons judeus e os maus judeus? Isto não tem sentido». E concluiu. «Brincadeira!»118.

O carácter inconciliável destes dois tipos de racismo explica o fracasso do projecto de uma revista ítalo-germânica, Sangue e Spirito – Blot und Geist, que Julius Evola encabeçara com o acordo de Mussolini. Os sectores mais conservadores do fascismo italiano, ligados à Igreja, haviam-se sempre oposto a Evola, enquanto as autoridades do Reich receavam a discordância que ele manifestava relativamente a alguns aspectos cruciais do nacional-socialismo119. Afinal, as diferenças entre os dois anti-semitismos eram demasiado fundas para sustentar uma iniciativa redactorial comum, apesar de as ideias de Evola terem podido oferecer um certo terreno de conciliação. Por um lado, o facto de Evola se situar na proximidade política de Giuseppe Bottai, mas especialmente de Preziosi e Farinacci120, constituiria decerto uma garantia para os mais determinados anti-semitas. Por outro lado, nos termos do seu tradicionalismo de raiz esotérica, ele defendia uma noção transcendente e espiritual da raça, como de tudo o mais121, o que poderia corresponder à circularidade entre cultura e biologia que caracterizou o racismo hitleriano, embora para Evola se tratasse mais de uma hierarquia do que de uma circularidade. Com efeito, num artigo publicado em 1939 no jornal dirigido por Farinacci, ele distinguiu o racismo de primeiro grau, «limitado à esfera biológica e antropológica», o racismo de segundo grau, em que a raça é considerada «como uma realidade da alma, do carácter e do modo de vida», e o racismo de terceiro grau, a «raça enquanto visão do mundo e raça do espírito». O racismo de primeiro grau seria a base física a partir da qual se deveria ir mais alto na criação de uma «elite racial-espiritual», a verdadeira elite dirigente, como uma antiga ordem militar122. Mas quando Evola escreveu, numa obra de 1943, que «a doutrina racial fascista entende as correlações entre raça e espírito na base do princípio, já mencionado, de que o exterior é uma função do interior, a forma física é símbolo, instrumento e meio de expressão de uma forma espiritual»123, ele não se distanciou muito do que o filósofo do nacional-socialismo, Rosenberg, havia anunciado em 1930 no prefácio à primeira edição da sua obra mais conhecida: «O espírito representa a raça vista a partir de dentro. Reciprocamente, a raça é o exterior de um espírito»124. A diferença é que Evola entendia como uma expressão de sentido único aquilo que Rosenberg e os outros hitlerianos consideravam como uma circularidade. Houve ainda um ponto de encontro mais próximo e Evola sofreu a influência do espiritualismo racial de Ludwig Ferdinand Clauss125, que, embora acabasse por ser expulso do NSDAP em 1943, nunca deixaria de gozar de um considerável prestígio nas instâncias cimeiras dos SS126. Além disso, a noção de um Estado dirigido por uma Ordem, como o Terceiro Reich tendia a ser dirigido pelos SS, atraía Evola. «Inclinamo-nos para a opinião», escreveu ele em 1938, «de que podemos ver na “Milícia Negra” o núcleo de uma Ordem no mais elevado sentido da tradição»127.

Eram outras as objecções que o Reichsführer-SS Himmler e os seus próximos faziam a Evola, considerando-o afecto aos defensores da Revolução Conservadora e oposto ao plebeísmo inspirador de toda a política do fascismo italiano e do Terceiro Reich128. Com efeito, já num ensaio publicado em 1930 Evola proclamara que «para nós, os de propensão aristocrática, para nós, os firmes adversários de uma política plebeia, [...] o fascismo não é suficiente»129. Por isso me parece mais exacto definir Evola como um metafascista. Era das suas inclinações aristocráticas que as altas instância dos SS desconfiavam e não das suas noções raciais, porque alguns meios dirigentes daquela milícia o encarregaram de escrever uma História Secreta das Sociedades Secretas, permitindo-lhe o acesso a arquivos confiscados130, um projecto que o colapso militar veio interromper, como interrompeu tudo o mais. Depois da guerra Evola acusou de «democratizante» a concepção abrangente do racismo, que ao mencionar a «raça italiana» confundia uma raça com a nação. «[...] falar de “defesa da raça” nestes termos era limitar-se a dar um vago tom biologizante e étnico à posição nacionalista [...]». Afinal, o modelo proposto por Evola, que atribui o carácter de raça somente à elite da nação, excluindo o povo e opondo a «raça» à «massa», é o que melhor corresponde à personificação da doutrina hitleriana pelos SS131. A distinção entre as duas versões do racismo ajuda a explicar que a aplicação das medidas anti-semitas em Itália tivesse deixado insatisfeitos os nacionais-socialistas.



Uma reputada intelectual judia sustentou que a legislação anti-semita italiana previa um tal número de excepções que a sua eficácia prática seria diminuta132. Talvez não seja muito elucidativo saber que os judeus ricos escaparam pelas malhas da lei. Em Setembro de 1938 o governador do Banco de Itália enviou uma circular aos directores das filiais estipulando que não fosse violado o segredo bancário relativamente aos depósitos e movimentos financeiros efectuados por judeus, e acabou por não ser promulgada uma disposição que pretendia impedir os judeus de controlar mais de um terço das acções das empresas133. Casos como estes não se deveram ao facto de os beneficiários serem judeus, mas ao de serem ricos, e portanto estas excepções não se distinguem de tantas outras. Talvez pelo mesmo motivo Mussolini usou os canais diplomáticos para convencer os governantes do Reich a permitirem o exílio de Freud134.

Todavia, as conclusões são diferentes ao sabermos que, malgrado as pressões do Reich, os funcionários do Estado italiano e mesmo uma grande parte dos membros do Partido Nacional Fascista se esforçaram por não pôr em prática a nova legislação anti-semita ou por lhe moderar o rigor135. Depois de iniciadas as medidas contra os judeus estrangeiros, as autoridades italianas fecharam os olhos à sua permanência no país, e isto sucedeu até em 1940 com judeus fugidos do Reich, mesmo depois da entrada da Itália na guerra mundial136. A generalização deste tipo de atitudes fez com que um grande número de judeus procurasse guarida nos territórios detidos pela Itália. Após a derrota da França, os judeus sentiam-se mais seguros na pequena área ocupada pelas tropas italianas do que na parte do país que estava sob o controlo de Vichy, e com razão, porque o governo de Mussolini preveniu as autoridades francesas de que não lhes permitiria deportar os judeus estrangeiros refugiados na sua zona de ocupação e tomou repetidamente medidas para impor esta decisão. Ao todo, cerca de cinquenta mil judeus asilaram-se na zona italiana, sendo afinal salvos pelos ocupantes que, ao verem-se obrigados a ceder o território aos alemães, destruíram o registo da população judaica e deixaram-na escapar para outros lugares137. E a partir de 1940 os judeus que fugiam da Tunísia francesa tiveram a entrada facilitada na Líbia italiana138. O representante do Reich na França ocupada chegou até a protestar pelo facto de a Itália proteger da polícia francesa os cinco mil judeus italianos residentes na Tunísia, mas as autoridades de Roma não cederam às suas pressões139. Também a Albânia, que pouco antes do começo da guerra havia sido anexada à coroa italiana, acolheu várias centenas de judeus vindos da Bulgária e da Jugoslávia140, e só cerca de cinquenta foram entregues aos alemães141. Do mesmo modo, os judeus depararam com condições de sobrevivência mais fáceis na porção da Jugoslávia anexada pela Itália e muitos encontraram ali refúgio. Um general de impecável currículo fascista recusou-se a entregá-los, apesar dos insistentes pedidos das autoridades germânicas, e quando Mussolini se viu obrigado a desistir desta efémera conquista as tropas italianas retiraram levando consigo os judeus e deixaram-nos permanecer em Fiume. O próprio Duce interveio discretamente para aconselhar os seus chefes militares a não darem os refugiados aos nacionais-socialistas142. Os judeus beneficiaram também de uma recepção favorável na parte da Grécia ocupada pelo exército italiano, que os protegeu do anti-semitismo local e se negou a abandoná-los aos agentes do Reich, aceitando até aqueles que fugiam da zona controlada pela Wehrmacht143. Chegou-se a um ponto tal que na Galícia polaca guerrilhas formadas por grupos de judeus evadidos dos ghettos conseguiram que certas unidades militares italianas vindas da frente russa lhes dessem ou vendessem armas144. Além disso, um especialista admitiu a hipótese de as pressões italianas terem contribuído para que o governo eslovaco tratasse inicialmente os judeus de maneira menos cruel do que os nacionais-socialistas pretendiam145. Tudo somado, em Itália sobreviveram 83% dos judeus, uma taxa praticamente sem equivalente no resto da Europa dominada pelo Eixo146.

O carácter artificial da República Social, mero instrumento de colaboração com o exército germânico ocupante, torna-se claro desde início quando sabemos que após o afastamento do Duce na reunião do Grande Conselho de 24 para 25 de Julho de 1943, e enquanto ele esteve preso, foi sobretudo o grupo dos fascistas anti-semitas mais estreitamente ligados ao nacional-socialismo — Farinacci, Preziosi e alguns outros, rafeiros — quem, a partir de um temporário exílio no Reich, formou um fictício governo provisório e lançou os primeiros apelos para a reconstituição do partido147. Parece que o Führer ficou com má opinião acerca das capacidades políticas de Farinacci, dizendo os boatos da época que, pelo contrário, confiava em Preziosi148. Talvez contribuísse para isso o facto de o jornal de Preziosi ter publicado em 1922, a coberto de um pseudónimo, um artigo anti-semita de Hitler, quando este era ainda um obscuro e provinciano aspirante a vedeta149. A ser assim, mais significativas se tornam as intrigas urdidas por Preziosi junto das autoridades nacional-socialistas, logo desde Outubro de 1943, acusando os governantes de Salò e o próprio Duce de não tomarem medidas suficientemente enérgicas contra os judeus150. Perante as pressões germânicas e a ascensão da ala anti-semita, o perfil do novo fascismo italiano perdeu progressivamente as características que o haviam distinguido do nacional-socialismo. O manifesto adoptado pelo congresso fascista de Verona, em Novembro de 1943, proclamou: «Os membros da raça judaica são estrangeiros. Durante esta guerra eles pertencem a uma nacionalidade inimiga»151. Depois disso a República Social seguiu uma orientação consistentemente hostil aos judeus e participou na sua chacina152, ficando entregue ao fanático Preziosi a chefia da Direcção-Geral da Demografia e da Raça153. Contudo, a atitude adoptada por muitas autoridades permitiu a numerosos judeus escapar às novas medidas anti-semitas154, a ponto de Preziosi se queixar num artigo em La Vita Italiana de que a República Social estava nas mãos da franco-maçonaria, agente do judaísmo155. O fascismo italiano deixara de ser filo-semita, mas sem se converter integralmente ao anti-semitismo.


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