Sinopse três estudantes adolescentes se encontram com uma professora em um pátio escolar, discutem a situação de uma menina que se isolou do grupo e demonstra sinais de tristeza



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Encontro01.09.2018
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DORES DA INFÂNCIA E DA ADOLESCÊNCIA

Chico Nascimento


SINOPSE
Três estudantes adolescentes se encontram com uma professora em um pátio escolar, discutem a situação de uma menina que se isolou do grupo e demonstra sinais de tristeza. A professora consegue estabelecer uma relação de diálogo com os adolescentes e decidem realizar um manifesto público.
PERSONAGENS

Lara – Adolescente

Carmem – Professora

Arthur – Adolescente

Dica – Adolescente

CENARIZAÇÃO

Pátio escolar, duas cadeiras e algumas almofadas estampadas no chão. Dica e Arthur entram em cena, veem Lara sentada num canto abraçando uma almofada.



CENA I - MUDANÇAS

Dica – Eu não falei com você? Agora ela fica assim, afastada de todo mundo...

Arthur – Eu já havia percebido, deve estar acontecendo alguma coisa muito séria...

Dica – Lara não era assim. Ela sempre foi muito comunicativa, brincava com todo mundo, mas agora...

Arthur – Se transformou nessa menina isolada, não quer conversar com ninguém, será que ela está doente? Será que é paixão?

Dica – Nada disso Arthur, deve ser algo mais sério, se fosse alguma dessas coisas ela teria conversado comigo...

Arthur – Dica, eu tive uma ideia, que tal a gente planejar uma festinha bem pra cima, talvez ela precise se divertir um pouco...

Dica – Acho uma boa ideia, vamos falar com ela...

Arthur – (Brincando de assustar, segue por trás de Lara e a cutuca na cintura) Peguei!

Lara – (Se assusta) Ai Arthur, sua peste abusada... Você ainda ajuda, né Dica?

Dica – A gente queria te alegrar amiga...

Arthur – Pensamos que você estava lendo alguma coisa e resolvemos te desconcentrar...

Lara – Não, eu nunca mais peguei em um livro, vai completar seis meses que li um conto...

Dica – Não me diga que a minha amiga mais leitora da escola desistiu de ler?

Lara – Não é isso... Tou meio pra baixo...

Arthur – Algum problema que a gente possa ajudar a resolver? Pode falar Lara, nós somos seus amigos!

Dica – Arthur deu a ideia da gente organizar uma festa, o que acha? Chamar a galera e fazer uma festa bem animada, pode ser lá em casa...

Arthur – E se o problema for algum carinha, pode deixar comigo que chamo logo no eixo...

Lara – Não gente, não estou com clima pra festa, nem tenho namorado, é coisa minha...

Arthur e Dica – Será? (Congelam. A professora Carmem aparece, fala como se soubesse do problema de Lara).



CENA II – ABUSO E SEUS TRAUMAS

Carmem – A violência sexual contra crianças e adolescentes apresenta causas múltiplas e complexas, muitas vezes, de difícil compreensão. Ela está relacionada com questões sociais, econômicas e culturais...



(Os adolescentes descongelam e começam a atirar as almofadas, um no outro. Lara se anima um pouco, depois vê a Professora Carmem, vai em direção a ela e a abraça chorando).

Lara – Professora Carmem, eu senti tanta saudade da senhora...

Carmem – Que bom Larinha, eu também senti muita falta de você...

Arthur – Sei professora Carmem...

Carmem – De vocês também, meus queridos, mas a s férias acabaram...

Dica – Acabaram as férias e a alegria de Lara...

Lara – (Gritando) Dica, eu não pedi pra ninguém falar em meu nome...

Arthur – Viu aí professora, ela está muito nervosa, não conversa mais com a gente... Lara está diferente!

Lara – (Nervosa) É claro que estou diferente e tenho meus motivos...

Carmem – Se você não quiser falar, tudo bem Lara, nós queremos é que você fique bem, eu e seus amigos desejamos o melhor pra você...

Lara – (Bem dramática) Eu vou falar, eu preciso falar... Não aguento mais com essa coisa ruim vivendo aqui dentro de mim... São cinco meses de sofrimento, nunca consegui falar com ninguém...

Dica – Você quer um copo com água?

Lara – Quero amiga...

Arthur – Nós não queríamos te ver assim...

Lara – Eu compreendo você, estão tentando me ajudar, mas não sabem como, eu resolvi desabafar quando abracei a professora Carmem...

Dica – Tome, beba, isso vai te fazer bem! (Lara bebe água com as mãos trêmulas segurando o copo)

Carmem – Quer sentar um pouco?

Lara – Não Pró, sentem-se vocês... (Todos sentam-se nas almofadas)

Arthur – Pronto Lara, fique a vontade!

Lara – (Com voz dramática) Foi meu padrasto, aquele monstro se aproveitou de mim... a minha mãe tinha saído para o mercado, ele percebeu que eu estava dormindo e depois disse que se eu falasse com ela, mataria nós duas, nunca tive coragem de contar, não falo com ele e sempre tranco a porta do meu quarto, a minha mãe briga comigo porque acha que ele é um santo, não sei o que fazer, resolvi me isolar de todo mundo...

Carmem – (De pé) Esse problema deve ser analisado com cuidado, mas a denúncia é a principal forma de buscar proteção para as vítimas...

Arthur – (Irritado) Vamos denunciar esse monstro, temos a obrigação!

Dica – (Abraçando Lara) Puxa amiga, nós não sabíamos o que fazer pra te ajudar...

Carmem – Existem diferentes variáveis para o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes nesse país. Existem contextos em que o problema se insere e que podem sofrer agravantes ou até mesmo dificultar o enfrentamento...

Lara – Estou muito assustada, convivo com esse drama todos os dias, tenho dificuldades para dormir, quando durmo tenho pesadelos, me assusto com qualquer barulho na porta do quarto...

Dica – Eu nunca passei por isso, mas compreendo que é muito difícil pra uma adolescente enfrentar sozinha os traumas desse flagelo...

Carmem – A violência sexual assusta e está encoberta por um manto de tabu e silêncio. Ao mesmo tempo que é difícil falar sobre o assunto, não se pode atribuir a uma causa específica. É comum escutar que a causa é a pobreza, que é por conta da pedofilia... Mas são diversas causas que precisam ser enfrentadas...

Lara – O que é que eu faço? Sinto-me perdida, não tenho coragem de falar com a minha mãe, é capaz de ela me culpar...

Dica – Ela não vai culpar você Lara, a professora Carmem vai nos orientar...

Arthur – Eu li em um artigo na internet, no de childhood, que o abuso sexual no Brasil não tem uma classe social... Em todas as camadas ele acontece e precisa ser combatido.

Carmem – Muito bem Arthur, tudo o que estou falando com vocês foi pesquisado nesse mesmo site. Por exemplo, lá aprendi que a exploração sexual pressupõe uma relação de mercantilização em que o sexo é fruto de uma troca, seja ela financeira, de favores ou presentes, podendo ser até um prato de comida... A vulnerabilidade de crianças e adolescentes no Brasil é muito grande. Essa exposição ao crime e a impunidade tem sido fatores de debates constantes...

Dica – Isso significa que precisamos de políticas públicas mais eficazes para proteger crianças e adolescentes e reverter esse quadro abominável que vivemos...

Arthur – Lara é mais uma vítima que resolveu falar, mas quantas outras fazem do silêncio um refúgio e ainda são consideradas facilitadoras das ações, muitas vezes irreversíveis. Porque não é fácil sair desse trauma psicológico. Nós precisamos fazer alguma coisa.

Dica – E aí pró Carmem, o que faremos?

Carmem – Primeiro vamos conversar com a mãe de Lara, depois denunciaremos o padrasto dela...

Arthur – (Como se estivesse discursando) Eu proponho um ato público pelas ruas da nossa cidade, onde todos devem participar, vamos fazer cartazes e ocupar as praças pedindo providências, denunciando os casos e tirando da invisibilidade as vítimas!



Lara – É isso mesmo, chega de silenciar, chega de agir como se as vítimas tivessem errado, vamos pras ruas...

Dica – Diga não ao abuso sexual e a exploração de crianças e adolescentes do Brasil! (Todos repetem e saem do palco fazendo com que a plateia repita as palavras de ordem)


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