Schopenhauer dores do mundo



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SCHOPENHAUER

DORES DO MUNDO

O Amor — A Morte — A Arte — A Moral — A Religião — A Política — O Homem e a Sociedade

EDICÖES DE OURO

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I

NDICE

Introdução

Dores do mundo

O amor


I — Metafísica do amor

II — Esboço acerca das mulheres

A Morte


A Arte 

A Moral 


— O egoísmo

II — A piedade



III — Resignação, renúncia, ascetismo e libertação

Pensamentos diversos



A religião

A política

O Homem e a sociedade

INTRODUÇÃO

Schopenhauer nasceu em Dantzig, no dia 22 de fevereiro de 1788. Seu pai era um negociante  

conhecido por sua habilidade, gênio forte, independência de caráter e amor à liberdade. Mudou-se  

para Hamburgo quando Artur tinha cinco anos, porque Dantzig perdera sua liberdade na anexação  

da Polônia em 1793. O jovem Schopenhauer, conseqüentemente, cresceu num ambiente de negócios e 

finanças e apesar de cedo ter abandonado a carreira mercantil para o qual seu pai o empurrara ela  

deixou nele sua marca nos modos um tanto bruscos, na atitude mental realista e no conhecimento do 

mundo e dos homens; ela fez dele o antípoda daquele tipo de filósofo acadêmico de quatro paredes a  

quem ele tanto desprezava. O pai morreu, aparentemente por suas próprias mãos, em 1805. A avó  

por parte de pai morrera louca.

“O caráter ou vontade”, diz Schopenhauer, "é herdado do pai; o intelecto da mãe”.(

1

) A mãe 

possuía inteligência — tornou-se uma das mais populares escritoras de seu tempo — mas tinha  

também muito temperamento e mau gênio. Tivera uma vida infeliz com seu prosaico marido e quando 

ele morreu entregou-se ao amor livre e mudou-se para Weimar por ser um ambiente mais apropriado  

para   este   tipo   de   vida.   Artur   Schopenhauer   reagiu   contra   isso   como   Hamlet   contra   o   segundo 

casamento de sua mãe; e suas brigas com sua mãe ensinaram-lhe uma grande parte daquelas meias-

verdades sobre as mulheres  com as quais iria permear sua filosofia. Uma das cartas dela ao filho 

revela o estado de coisas entre os dois: "Você é insuportável e opressivo e muito difícil de se convi-

ver; todas suas boas qualidades são obscurecidas por seu convencimento e tornadas inúteis para o 

mundo porque você não vode conter sua tendência de criticar as outras pessoas”(

2

). Então decidiram 

morar separados; ele deveria ir vê-la apenas nos dias em que estava em casa para receber os amigos  

e ser uma visita entre outras; dessa forma podiam se mostrar polidos um com o outro como estranhos 

em vez de se detestarem como parentes. Goethe, que gostava de Madame Schopenhauer porque ela o 

deixava trazer consigo sua Cristiane, tornou pior a situação ao dizer à mãe que o filho se tornaria  

um homem muito famoso; a mãe nunca ouvira falar em dois gênios na mesma família. Finalmente, 

numa briga mais séria, a mãe empurrou escada abaixo o filho e rival, sendo que diante daquilo nosso 

filósofo   cheio   de   amargor   informou-a   que   a   posteridade   a   conheceria   somente   através   dele. 

Schopenhauer deixou Weimar pouco depois e apesar de sua mãe ter vivido mais vinte e quatro anos, 

ele nunca mais a viu. Byron, nascido também em 1788, parece ter passado por situação semelhante 

com sua mãe. Esses homens foram destinados ao pessimismo quase que pelas circunstâncias: um 

homem aue não conheceu o amor da mãe e o que é ainda pior, sofreu o ódio de sua mãe, não tem  

motivos para ficar encantado com o mundo.

Enquanto isso Schopenhauer passara pelo ginásio e pela universidade e aprendera mais do 

que o oferecido pelos currículos. Saiu de lá com uma infecção venérea que afetou seu caráter e sua 

filosofia.(

3

) Tornou-se sombrio, cínico e desconfiado; era obcecado por temores e visões sinistras; 

mantinha os cachimbos trancados a cadeado, nunca entregou o pescoço à navalha de um barbeiro e 

dormia   com   pistolas   carregadas   ao   lado   da   cama   —   presumivelmente   para   conveniência   do 

assaltante. Não suportava barulho: "Tenho de há muito a opinião", escreve ele, "que a quantidade de 

ruído que alguém pode suportar sem se perturbar está na proporção inversa de sua capacidade 

mental e conseqüentemente pode ser tomada como medida razoavelmente justa da mesma... O ruído é  

uma torturava para todas pessoas intelectuais... Essa superabundante demonstração de vitalidade 

que toma a forma de bater as coisas, dar marteladas e atirar objetos de um lado para outro, tem sido 

para   mim   um   tormento   diário   durante   toda   minha   vida"(

4

).   Ele   possuía   um   sentido   quase   que 

paranóico de grandeza não reconhecida; não alcançando a fama e o sucesso, voltou-se para dentro 

de si mesmo e roía sua própria alma.

Não tinha mãe, nem esposa, nem filhos, nem país. “Estava inteiramente sozinho, sem um 

único amigo e entre um só e nenhum há uma distância infinita(

5

)”. Mais ainda do que Goethe era ele  

1

 



O Mundo Como Vontade e Representação; Londres, 1883; iii. 300.

2

 Em Wallace: Vida de SchopenhauerLondres, sem data, p. 59.



33

 Vide Wallace, 92

4

 O Mundo Como Vondade e Representação, II, 199; Ensaios "Do Ruído".



5

 Nietzsche: Schopenhauer como Educador; Londres, 1910; p. 122.



imune   as   febres   nacionalistas   de   sua   época.   Em   1813   ficou   tão   dominado   pela   influência   do 

entusiasmo de Fichte por uma guerra de liberação contra Napoleão que pensou em se apresentar  

como   voluntário   e   até   comprou   armas.   Mas   a   prudência   o   apanhou   a   tempo;   argumentou   que  

"Napoleão afinal de contas apenas dava livre expansão àquela auto-afirmação e àquele apetite de 

vida   intensa   que   os   mortais   comuns   sentem   mas   por   força   de   circunstâncias   são   obrigados   a  

disfarçar”(

1

). Em vez de partir para a guerra foi para o campo e escreveu uma tese de doutorado de 

Filosofia.

Após   essa   dissertação   sobre   A   quadrupla   razão   do   princípio   de   razão   suficiente   (1813),(

2

) 

Schopenhauer dedicou todo seu tempo e devotou todas suas forças ao livro que seria sua obra-prima  

— O Mundo Como Vontade e Representação. Enviou o manuscrito ao editor com os maiores elogios;  

ali, dizia ele, não estava uma simples reformulação de idéias velhas, mas sim uma altamente coerente 

estrutura de pensamento original, "claramente inteligível, vigorosa e não sem beleza"; um livro "que 

dali em diante seria a fonte e motivo para uma centena de outros livros".(

3

) Sendo que tudo que disse 

era atrozmente egoísta e inteiramente verdadeiro. Muitos anos depois Schopenhauer estava tão certo 

de ter dado solução aos problemas principais da Filosofia que pensou em mandar cinzelar em seu  

anel de sinete uma imagem da Esfinge atirando-se ao abismo como prometera fazer quando seus 

enigmas fossem solucionados. No entanto, o livro quase não atraiu atenção; o mundo estava pobre e 

exausto demais para ler o que se dizia sobre sua pobreza e exaustão. Dezesseis anos após sua  

publicação, Schopenhauer foi informado de que a maior parte da edição fora vendida como papel 

velho. Em seu ensaio sobre a Fama, na "Sabedoria da Vida", ele cita, numa evidente alusão à sua 

obra-prima, dois comentários de Lichtenberger: “Trabalhos como esse são como um espelho: se um 

burro se mirar nele não se pode esperar que a imagem refletida seja a de um anjo"; e "Quando uma  

cabeça  e  um   livro   têm   uma  colisão  e  um   deles  ressoa  como  oco,  será  que   é  sempre  o  livro"? 

Schopenhauer   prossegue   num   tom   de   vaidade   ferida:   "Quanto   mais   um   homem   pertence   à 

posteridade — em outras palavras, à humanidade em geral — tanto mais estranho é ele aos seus 

contemporâneos; pois não se destinando o livro a eles por essa condição como tal, mas apenas por 

fazerem parte da humanidade em geral, não é encontrado em seus trabalhos nem um pouco daquele  

colorido local familiar que lhes serviria de atrativo." E depois tornar-se tão eloqüente como a raposa  

da fábula: "Sentiria-se envaidecido um músico com os aplausos calorosos de uma platéia se soubes-

sem que eram quase todos surdos e que para ocultar sua enfermidade vira uma ou duas pessoas 

aplaudindo? E o que diria ele se descobrisse que essas uma ou duas pessoas haviam freqüentemente  

aceito subornos para garantir aplausos os mais calorosos para o pior artista?". Em alguns homens o 

egotismo é uma compensação para a ausência de fama; em outros, o egotismo presta uma generosa  

cooperação à sua presença.

Schopenhauer   colocou-se  tão   completamente   neste   livro   que   suas   obras   posteriores   não  são 

senão comentários do mesmo; tornou-se talmudista de seu próprio Torah, exegeta de suas próprias  

Jeremiadas.  Em   1836   publicou   um   ensaio,   Da   Vontade   na   Natureza,   que   até   certo   ponto   foi 

incorporado à edição aumentada de O Mundo Como Vontade e Representação que surgiu em 1844. 

Em   1841   veio   o   trabalho   Os   Dois   Problemas   Básicos   da   Ética   e   em   1851   apareceram   dois 

substanciais volumes Parerga et Paralipomena — literalmente "Acessórios e Remanescentes" que  

foram traduzidos para o inglês como "Essays". Por esse último, que é a sua obra de mais fácil leitura 

e   que   é   repleta   de   sabedoria   e   espírito,   Schopenhauer   recebeu,   como   remuneração   total,   dez 

exemplares grátis. O otimismo fica um tanto difícil nessas circunstâncias.

Apenas uma aventura perturbou a monotonia de sua laboriosa reclusão depois de haver deixado 

1

 



Wallace: Artigo "Schopenhauer" na Enciclopédia Britânica.

2

 Schopenhauer insiste, sem motivo suficiente para tanto e quase que a ponto de técnica de venda, em que esse livro tem 



que ser lido para que se possa compreender O  Mundo  como  Vontade e Representação.  O leitor no entanto poderá se 

contentar em ficar sabendo que "o princípio da razão suficiente" é a "lei da causa e efeito" de quatro formas: 1 - Lógica, 

como a determinação da conclusão pelas premissas; 2 - Física, como a determinação do efeito pela causa; 3 - Matemática, 

como a determinação da estrutura pelas leis da matemática e da mecânica; e 4 - Moral, como a determinação da contuta 

pelo caráter.

3

 



Em Wallace. Vida de Schopenhauer, p. 107.

Weimar.  Ele tinha a esperança de ter uma oportunidade de apresentar sua filosofia em uma das  

grandes universidades da Alemanha; essa oportunidade apareceu em 1822, quando foi convidado a  

ir para Berlim como docente (privat-docent). Ele de propósito escolheu para suas conferências as 

horas exatas em que o então todo-poderoso Hegel dava suas aulas. Schopenhauer confiava em que os 

estudantes encarariam a ele e a Hegel com os olhos da posteridade. Mas os estudantes não podiam se 

antecipar tanto e Schopenhauer viu-se falando diante de cadeiras vazias. Pediu então demissão e 

vingou-se com amargas diatribes contra Hegel que prejudicam as últimas edições de sua obra-prima. 

Em 1831 espalhou-se em Berlim uma epidemia de cólera; tanto Hegel como Schopenhauer fugiram,  

porém Hegel voltou prematuramente, apanhou a infecção e morreu em poucos dias. Schopenhauer 

não se deteve até chegar a Frankfurt, onde passou o restante de seus setenta e dois anos.

Sendo um pessimista sensato, ele evitou aquela armadilha de otimistas — a tentativa de ganhar a 

vida escrevendo. Ele havia herdado uma participação na firma de seu pai e vivia, com um conforto  

razoável, da renda que isso lhe dava. Investiu seu dinheiro com um tino que não ficava muito bem 

num filósofo. Quando uma companhia da qual possuía ações faliu e os outros credores concordaram 

com um acerto de 70%, Schopenhauer lutou para conseguir pagamento integral e saiu vencedor. Ele  

tinha o suficiente para alugar dois aposentos numa pensão e lá viveu os últimos trinta anos de sua  

vida, tendo por companheiro apenas um cachorro. Ele chamava o pequeno popdle de Atma (o termo  

bramânico   para   a   Alma   do   Mundo),   mas   os   brincalhões   da   cidade   o   chamavam   de   “o   jovem 

Schopenhauer”. Fazia suas refeições, normalmente, no Hotel Inglês. Antes do início de cada refeição  

colocava sempre uma moeda de ouro na mesa, diante dele, e ao fim guardava-a de volta no bolso. 

Foi certamente algum garção indignado que por fim lhe perguntou o significado daquele invariável 

cerimonial.   Schopenhauer   respondeu   que   era   uma   aposta   silenciosa   que   fazia   consigo   mesmo, 

comprometendo-se ele a depositar a moeda na caixa dos pobres no primeiro dia que os oficiais 

ingleses, também fregueses de lá, falassem de alguma coisa que não fosse cavalos, mulheres ou  

cachorros.(

1

)

As   universidades   ignoravam   a   ele   e   a  seus   livros,   como  que   para  comprovar   que   todos  

progressos em Filosofia são feitos fora dos muros acadêmicos. "Nada", diz Nietzsche, "ofendia tanto 

aos sábios alemães como Schopenhauer ser tão dissemelhante a eles. "Mas ele aprendera a ter  

paciência; estava certo de que, ainda que tardio, viria o reconhecimento. E por fim, lentamente, ele 

veio. Homens da classe média — advogados, médicos, negociantes — encontraram nele uma filosofia 

que lhes oferecia não um mero jargão de irrealidades metafísicas, mas sim um estudo inteligível dos  

fenômenos da vida real. Uma Europa desiludida com os ideais e esforços de 1848, voltou-se quase 

que com aclamações para essa filosofia que interpretara o desespero de 1815. O ataque da ciência  

sobre a teologia, a denúncia socialista da pobreza e da guerra, a tensão biológica na luta pela 

sobrevivência, — todos esses fatores foram de auxílio para que Schopenhauer atingisse finalmente a 

fama.

Ainda não estava velho demais para gozar essa popularidade: lia com avidez todos artigos 

que apareciam sobre ele; pedia a seus amigos que lhe enviassem qualquer comentário impresso que  

encontrassem — ele mesmo pagaria o porte. Em 1854, Wagner lhe mandou uma cópia do Der Ring 

des Nibelungen, com uma palavra de apreciação favorável à filosofia da música de Schopenhauer. E  

assim o grande pessimista tornou-se quase um otimista em sua velhice; tocava assiduamente a flauta 

após o jantar e agradecia ao Tempo por tê-lo libertado dos ardores da mocidade. Vinha gente do 

mundo todo para vê-lo e no seu septuagésimo aniversário, em 1858, choveram sobre ele congratula-

ções de toda parte e de todos os continentes.

O que sucedeu veio bem a tempo pois teve apenas mais dois anos de vida. Em 21 de setembro 

de 1860, sentou-se sozinho à mesa do café, aparentemente bem. Uma hora depois a dona da casa 

encontrou-o ainda sentado diante da mesa, já morto.

DORES DO MUNDO

Só a dor é positiva — Tormentos da existência — O nada preferível à vida — O fim da Filosofia não 

é consolar — O otimismo insustentável de Leionitz — Pecado original — O mundo, um lugar de 

penitência.

1

 

Wallace, 171.



Se a nossa existência não tem por fim imediato a dor, pode dizer-se que não tem razão alguma 

de ser no mundo. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim, que nasce da miséria inerente à vida e 

enche o mundo, seja apenas um puro acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça particular parece, é 

certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra.

***

Assim como um regato corre sem ímpetos, enquanto não encontra obstáculos, do mesmo modo 



na natureza humana, como na natureza animal, a vida corre incosciente e descuidosa, quando coisa 

alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu 

algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste, 

isto é, tudo que há de desagradável e de doloroso, sentimo-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não 

atentamos na saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não 

apreciamos o conjunto próspero dos nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que 

nos desgosta. — O bem-estar e a felicidade são portanto negativos, só a dor é positiva.

Não conheço nada mais absurdo que a maior parte dos sistemas metafísicos, que explicam o 

mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário, é positivo, visto que se faz sentir...  O bem, a 

felicidade, a satisfação são negativos, porque não fazem senão suprimir um desejo e terminar um 

desgosto.

Acrescente-se a isto que em geral achamos as alegrias abaixo da nossa expectativa, ao passo 

que as dores a excedem grandemente.

Se quereis num momento esclarecer-vos a este respeito, e saber se o prazer é superior ao 

desgosto, ou se apenas se compensam, comparai a impressão do animal que devora outro, com a 

impressão do que é devorado.

***

A mais eficaz consolação em toda a desgraça, em todo o sofrimento, é voltar os olhos para 



aqueles que são ainda mais desgraçados do que nós: este remédio encontra-se ao alcance de todos. 

Mas que resulta daí para o conjunto?

Semelhantes aos carneiros que saltam no prado, enquanto, com o olhar, o carniceiro faz a sua 

escolha no meio do rebanho, não sabemos, nos nossos dias felizes, que desastre o destino nos prepara 

precisamente a essa hora — doença, perseguição, ruína, mutilação, cegueira, loucura, etc.

Tudo o que procuramos colher resiste-nos; tudo tem uma vontade hostil que é preciso vencer. 

Na vida dos povos, a História só nos aponta guerras e sedições: os anos de paz não passam de curtos 

intervalos de entreatos, uma vez por acaso. E da mesma maneira a vida do homem é um combate 

perpétuo, não só contra males abstratos, a miséria ou o aborrecimento, mas também contra os outros 

homens. Em toda a parte se encontra um adversário: a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com 

as armas na mão.

***


Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo, que nos inquieta, que nos 

não deixa respirar, e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia dos forçados de chicote em 

punho. — Poupa apenas aqueles que entregou ao aborrecimento.

***


Portanto, assim como o nosso corpo rebentaria se estivesse sujeito à pressão da atmosfera, do 

mesmo modo se o peso da miséria, do desgosto, dos reveses e dos vãos esforços fosse banido da vida 

do homem, o excesso da sua arrogância seria tão desmedido, que o faria em bocados ou pelo menos o 

conduziria à insânia mais desordenada e até à loucura furiosa. — Em todo o tempo, cada um precisa 

ter um certo número de cuidados, de dores ou de miséria, do mesmo modo que o navio carece de 

lastro para se manter em equilíbrio e andar direito.

Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de 

quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, 

com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo? Coloque-se esta raça num país 

de fadas, onde tudo cresceria espontaneamente, onde as calhandras voariam já assadas ao alcance de 

todas as bocas, onde todos encontrariam sem dificuldade a sua amada e a obteriam o mais facilmente 

possível   —   ver-se-ia   então   os   homens   morrerem   de   tédio,   ou   enforcarem-se,   outros   disputarem, 



matarem-se, e causarem-se mutuamente mais sofrimentos do que a natureza agora lhes impõe. — 

Assim para semelhante raça nenhum outro teatro, nenhuma outra existência conviriam.

***

Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, 



como as crianças em frente do pano de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que 

vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que 

sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à 

vida, e que todavia não conhecem ainda o conteúdo da sua sentença. — Nem por isso todos deixam de 

ter o desejo de chegar a uma idade avançada, isto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: 

"Hoje é mau, e cada dia o será mais — até que chegue o pior de todos."

***

Quando se representa, tanto quanto é possível fazê-lo de uma maneira aproximada, a soma de 



miséria,   de   dor  e   de   sofrimentos   de   todas   as   espécies   que   o   Sol   ilumina   no   seu  curso,   deve-se 

concordar que valeria muito mais que esse astro tivesse o mesmo poder na Terra para fazer surgir o 

fenômeno da vida que tem na Lua, e seria preferível que a superfície da Terra como a da Lua se 

mantivesse ainda no estado de cristal.

Pode ainda considerar-se a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude 

e o repouso do nada. Seja como for, aquele para quem a existência é quase suportável, à medida que 

avança em idade, tem uma consciência cada vez mais  clara de que ela é em todas as coisas um 

disappointment, nay, a cheat, em outros termos que ela possui o caráter de uma grande mistificação, 

para não dizer de um logro...

Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de 

espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas 

repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única re-

presentação e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.

Perder-se-ia a cabeça, se se observasse a prodigalidade das disposições tomadas, essas estrelas 

fixas que brilham inumeráveis no espaço infinito, e não têm outro fim senão iluminar mundos, teatros 

da miséria e dos gemidos, mundos que, no mais feliz dos casos, só produzem o tédio: — pelo menos a 

apreciarmos a amostra que nos é conhecida.

Ninguém é verdadeiramente digno de inveja, e quantos são para lastimar!

A vida é uma tarefa que devemos desempenhar laboriosamente; e neste sentido, a palavra 



defunctus é uma bela expressão.

Imagine-se por um instante que o ato da geração não era nem uma necessidade nem uma 

voluptuosidade, mas um caso de pura reflexão e de razão: a espécie humana subsistiria ainda?  Não 

sentiriam todos bastante piedade pela geração futura, para lhe poupar o peso da existência, ou, pelo 

menos, não hesitariam em impor-lha a sangue-frio?

O   mundo   é   o   inferno,   e   os   homens  dividem-se   em   almas   atormentadas   e   em

diabos atormentadores.

Certamente ainda terei de ouvir dizer que a minha filosofia carece de consolação — e isso 

simplesmente porque digo a verdade, enquanto todos gostam de ouvir dizer: o Senhor Deus fez bem 

tudo quanto fez. Ide à igreja e deixai os filósofos em paz. Pelo menos não exijam que eles ajustem as 

suas doutrinas ao vosso catecismo: é o que fazem os indigentes e os filosofastros: a esses podem-se 

encomendar   doutrinas   ao   gosto   de   cada   um.   Perturbar   o   otimismo   obrigado   dos   professores   de 

Filosofia é tão fácil como agradável.

Brama produz o mundo por uma espécie de pecado ou desvario, e permanece ele próprio no 

mundo para expiar esse pecado até estar redimido. — Muito bem! — No Budismo, o mundo nasce em 

seguida a uma perturbação inexplicável, que se produz após um longo repouso nessa claridade do céu, 

nessa beatitude serena, chamada Nirvana, que será reconquistada pela penitência; é como que uma 

espécie   de   fatalidade   que   se   deve   compreender   no   fundo   de   um   sentido   moral,   ainda   que   essa 

explicação tenha uma analogia e uma imagem exatamente correspondente na natureza pela formação 

inexplicável do mundo primitivo, vasta nebulosa donde surgirá um sol. Mas os erros morais tornam 

mesmo o mundo físico gradualmente pior e sempre pior, até ter tomado a sua triste forma atual.

Para   os   gregos   o   mundo   e   os   deuses   eram   a  obra   de   uma   necessidade   insondável.  Esta 



explicação é suportável, porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd vive em guerra com Ahriman: 

— isto ainda se pode admitir. — Mas um Deus como esse Jeová, que animi causa, por seu bel-prazer 

e muito voluntariamente produz este mundo de miséria e de lamentações, e que ainda se felicita e se 

aplaude, é que é demasiado forte! Consideremos, portanto, nesse ponto de vista, a religião dos judeus 

como a última entre as doutrinas religiosas dos povos civilizados; o que concorda perfeitamente com o 

fato de ser ela também a única que não tem absolutamente nenhum vestígio de imortalidade.

Ainda mesmo que a demonstração de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que entre 

os mundos possíveis este é sempre o melhor, essa demonstração não daria ainda nenhuma teocidéia. 

Porque o criador não só criou o mundo, mas também a própria possibilidade; portanto, devia ter 

tornado possível um mundo melhor.

A miséria, que alastra por este mundo, protesta demasiado alto contra a hipótese de uma obra 

perfeita devida a um ser absolutamente sábio, absolutamente bom, e também todo-poderoso; e, de 

outra parte, a imperfeição evidente e mesmo a burlesca caricatura do mais acabado dos fenômenos da 

criação, o homem, são de uma evidência demasiado sensível. Há aí uma dissonância que se não pode 

resolver.   As   dores   e   as   misérias   são,   pelo   contrário,   outras   tantas   provas   em   apoio,   quando 

consideramos o mundo como a obra da nossa própria culpa, e portanto como uma coisa que não podia 

ser melhor. Ao passo que na primeira hipótese, a miséria do mundo se torna uma acusação amarga 

contra o criador e dá margem aos sarcasmos, no segundo caso aparece como uma acusação contra o 

nosso ser e a nossa vontade, bem própria para nos humilhar.

Conduz-nos a este profundo pensamento que viemos ao mundo já viciados como os filhos de 

pais gastos pelos desregramentos, e que se a nossa existência é de tal modo miserável, e tem por 

desenlace a morte, é porque temos continuamente essa culpa a expiar. De um modo geral não há nada 

mais certo: é a pesada culpa do mundo que causa os grandes e inúmeros sofrimentos a que somos 

votados; e entendemos esta relação no sentido metafísico e não no físico e empírico. Assim a história 

do pecado original reconcilia-me com o antigo testamento; é mesmo a meus olhos a única verdade 

metafísica   do   livro,   embora   aí   se   apresente   sob   o   véu   da   alegoria.   Porque   a   nossa   existência 

assemelha-se perfeitamente à conseqüência de uma falta e de um desejo culpado...

Quereis ter sempre ao alcance da mão uma bússola segura a fim de vos orientar na vida e de a 

encarar incessantemente sob o seu verdadeiro prisma, habituai-vos a considerar este mundo como um 

lugar de penitência, como uma colônia penitenciária, como lhe chamaram já os mais antigos filósofos 



(Clem. Alex. Strom. L. III, c. 3, p. 399) e alguns padres da Igreja. (Augustin. De civit. Dei, L. XI, 23.)

A   sabedoria   de   todos   os   tempos,   o   Branamismo,   o   Budismo,   Empédocles   e   Pitágoras 

confirmaram este modo de ver; Cicero (Fragmenta de philosophia, vol. 12, p. 316, ed. Bip.) conta que 

os   sábios   antigos   na   iniciação   dos   mistérios   ensinavam:  nos   ob   aliqua   scelera   sucepta   in   vita  



superiore, pœnarum luendarum causa natos esse.  Vanini, que acharam mais cômodo queimar que 

refutar,   exprime   essa   idéia   da   maneira   mais   enérgica,   quando   diz:  Tot,   tantisque   homo   repletus 



miseriis, ut si Christianæ religioni non repugnaret: dicere auderem, si dcemones dantur, ipsi, in  

hominum corpora transmigrantes, sceleris pænas luunt. (De admirandis naturse arcanis, dial. L. p. 

353.) Mas, mesmo no puro Cristianismo bem compreendido, a nossa existência é considerada como a 

conseqüência de uma falta, de uma queda. Se nos familiarizarmos com esta idéia, não esperaremos da 

vida senão o que ela pode dar e longe de considerarmos as suas contradições, sofrimentos, tormentos, 

misérias   grandes   ou   pequenas,   como   uma   coisa   inesperada,   contrária   às   regras,   achá-los-emos 

perfeitamente naturais, sabendo bem que na Terra cada um sofre a pena da sua existência, e cada um a 

seu modo. Entre os males de um estabelecimento penitenciário, o menor não é a sociedade que nele se 

encontra. O que a sociedade dos homens vale, sabem-no aqueles que mereceriam outra melhor, sem 

que seja necessário que eu o diga. Uma bela alma, um gênio, podem por vezes experimentar aí os 

sentimentos   de   um   nobre  prisioneiro   do  Estado   que   se  encontra   nas   galés   rodeado   de   celerados 

vulgares; e como ele procuram isolar-se. Em geral, porém, esta idéia sobre o mundo torna-nos aptos a 

ver sem surpresa, e ainda mais, sem indignação, o que se chama as imperfeições, isto é, a miserável 

constituição intelectual e moral da maior parte dos homens que a sua própria fisionomia nos revela...

A convicção de que o mundo e por conseguinte o homem são tais que não deveriam existir, é 

de molde que nos deve encher de indulgência uns pelos outros; que se pode esperar, de fato, de uma 

tal espécie de seres? — Penso às vezes que  a maneira mais convincente dos homens se cumpri-


mentarem em vez de ser Senhor, Sir etc, poderia ser: “companheiro de sofrimentos,  socî malorum

companheiro   de  misérias,  my  fellow-sufferer”.  Por  muito  original  que   isto  pareça,   a  expressão  é 

contudo fundada, lança sobre o próximo a luz mais verdadeira, e lembra a necessidade da tolerância, 

da   paciência,   da   indulgência,   do   amor   do   próximo,   sem   o   que   ninguém   pode   passar,   e   de   que, 

portanto, todos são devedores.



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