Sangue Verde, de David Gonçalves



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Encontro20.08.2017
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Sangue Verde, de David Gonçalves

O romance é uma espécie da ficção ou da narrativa que não dita regras rígidas para a sua composição. Entretanto, a maioria gira em torno de núcleos dramáticos limitados e de assuntos mais ou menos distintos, a fim de que a narrativa não se perca em emaranhados e peque por excesso de direções temáticas que dificultem a percepção do leitor. Mesmo romances extensos, tipo Grande sertão: veredas ou A montanha mágica, possuem personagens e assuntos que se desenrolam por toda a narrativa, mesmo que carregada de densidade metafísica. Não é essa, porém, característica de Sangue verde, romance de David Gonçalves, em que a narrativa, além de envolver um elevado número de núcleos dramáticos, não possui poucas personagens sobre que recaia a atenção do narrador, como vemos em Grande sertão: veredas. Em Sangue verde, os inúmeros núcleos dramáticos se devem à complexidade dos problemas abordados, uma vez que, grosso modo, toda a vida brasileira é devassada, pois toda ela está implicada com o sangue verde.

Para mais mostrar-se grandioso na arte de narrar, fatos e personagens também ao ambientar-se no cerrado e na Amazônia, o romance aborda problemas típicos dessas regiões, ressaltando o garimpo que, embora já explorado por outros ficcionistas, como Herberto Salles e Eli Brasiliense, apresenta-se inteiramente novo, à medida que o interliga com o desmatamento e a grilagem de terras indígenas. As personagens se multiplicam em consonância com os episódios que as envolvem, exigindo do narrador verdadeira ginástica mental, a fim de que as inter-relações entre eles se mantenham, sem que padeçam de continuidade. Se interligam, com a finalidade de não se tornarem estanques. Em decorrência, determinados índices, como a transferência de Padre Miguel, a despeito de ser narrado em capítulos próprios, são entrevistos em diálogo entre o fazendeiro, Bambico, e sua esposa, Clarice, e entre ela e a filha Emanuela.

Dos problemas peculiares às regiões amazônica e de cerrado desprendem-se, como uma espécie de epidemia que se alastra por todo território nacional, todas as mazelas típicas desse tempo, como corrupção, pedofilia, pederastia, tendências religiosas pautadas pela exploração da boa fé do povo, desmandos provenientes das diversas faces dos poderes legislativo, judiciário, executivo. Em decorrência da multiplicidade de aspectos abordados, a técnica narrativa também se desenvolve em células que se multiplicam e se interligam, em uma espécie de teia de aranha, em que os fios carregam a seiva, venosa e venenosa, por toda extensão do narrado. Desse modo, acontecimentos suspeitos, como o assassinato do senador Justino, são retomados, en passant, na eleição de Bambico, sem que o episódio se esclareça, como se fosse apenas uma gota do veneno que viesse à tona, a fim de obrigar o leitor a manter-se ligado ao fio da teia dos fatos. Trata-se, sem dúvida, de uma técnica inusitada de narrar, uma vez que os núcleos dramáticos se interconectam de forma sutil, proveniente de uma relação aparentemente tênue e, às vezes, até ocasional, como ocorre no episódio em que juiz e delegado vão ao quilombo, à procura do assassino do ribeirinho, que se parecia resolvida; mas que reaparece, a fim de mostrar a morosidade e, sobretudo, a ineficiência da justiça, e, notadamente, o fio narrativo, que se mantém ativo.

A estética do romance, além de centrar-se sobre essa técnica singular de narrar, ainda se erige sobre todas as formas do riso, caminhando desde o sutil humor, que tem sua origem em Stern, e adotado e refinado por Machado de Assis, passando pela ironia, pela sátira, até chegar ao sarcasmo, verificado, por exemplo, na concepção que Rossmac tem dos chamados pesquisadores de gabinete, ou nas esperanças que Bambico deposita em Juquinha como homem e futuro administrador de sua fazenda. Assim, à semelhança do que ocorre na obra de Machado de Assis, tem-se a impressão de que o narrador, ao registrar os acontecimentos nas teias do discurso, está sempre rindo e, às vezes, até gargalhando, do fato narrado, mormente quando se refere ao desmatamento e ao sonho de enriquecimento fácil e, notadamente, quando se relaciona com os poderes legislativo, judiciário e executivo. A sutileza com que desvenda a vida de Justino, após seu assassinato, mediante a presença da Constituição, da Bíblia e de um crucifixo em sua bagagem, torna o relato verdadeiramente cruel, uma vez que a outra bagagem, composta de fotos que comprovam o seu lado depravado, pautado pela pedofilia, demonstra a sua completa devassidão e sua inteira hipocrisia. Quer ironia maior que a descoberta feita por Bambico de que o verdadeiro ouro se encontra em Brasília e, não, nos garimpos, o que o leva a aceitar candidatar-se, sem qualquer experiência política, a senador da república?

Mas, há uma ironia intrigante, ao falar do judiciário e colocar como personagem o juiz Rodolfo, que, em meio a tantos desmandos e conluios, faz cumprir a lei. O cumprimento da lei, dadas as circunstâncias do espaço em que ele ocorre e, sobretudo, dados os acontecimentos nacionais, pode figurar como uma alegoria de um certo juiz do STF ou como refinada ironia, à medida que todos os fatos relacionados com a violência estampados no romance, inclusive a violência urbana, ocorrida com a família de Doca, deixam entrever que as leis existem apenas no papel e que fazê-las cumprirem-se é, muitas vezes, um suicídio. Esse é, sem dúvida, um dos golpes de mestre desse singular narrador que, inclusive, se duplica, ao ponto de se poder ler e ouvir sua voz conectada à voz de determinadas personagens, como ao narrar os sentimentos de Doca em relação a Matildes, à página 339.

Ademais, a narrativa de Sangue verde procede a uma inusitada união entre o real e o imaginário, a fim de que o imaginado se sobreponha à realidade, ou com ela se equilibre, objetivando a instauração do ficcional e do estético, cristalizados mediante o caráter metafísico da linguagem que, por mais próxima que esteja do real, transubstancia-o e converte-o em objeto de imaginário. É exatamente por isso que o narrador não se furta, quando necessário, ao uso de expressões populares, de modo especial as cristalizadas pela cultura, como provérbios e ditados. Esse procedimento visa a mostrar a verdadeira identidade das personagens, em sua maioria voltadas para a matéria, uma vez que pensam apenas o lucro, o enriquecimento ilícito, como se verifica pela exploração do garimpo por parte do Pastor e, nomeadamente, pelo fato de ele espoliar os garimpeiros que bamburram, ou pela verdadeira escravidão instalada por Bambico em sua fazenda.

Portanto, segundo nossa leitura crítica de Sangue verde, podemos afirmar que se trata de um romance ímpar, que não encontra similar na literatura brasileira, uma vez que encerra, em sua construção, um momento histórico da vida brasileira que, de outra forma, não seria devidamente cristalizada em linguagem e em discurso ficcional. Além disso, é um romance ímpar, inusitado em nossas letras, pela forma singular de narrar, em que os fios narrativos ramificam-se ao extremo, sem, entretanto, perderem-se no subsolo do discurso narrativo, uma vez que, ao final, todas as pontas se esclarecem, clara ou sutilmente, como o requer uma grande obra de arte narrativa.

A grandiosidade estética de Sangue verde, todavia, só pode ser sorvida pelo leitor que proceder a uma leitura atenta, que se fará somente pela história ou que a aliará ao lado estético que ela encerra e que, certamente, será responsável pelo imensurável prazer do ler.

(Prof. Dr. José Fernandes)
Trecho do romance para análise
É COM CERTA SABEDORIA que se diz: pelos olhos se conhece uma pessoa. Bem, há olhares de todos os tipos – dos dissimulados aos da cobiça, seja pelo vil metal ou pelo sexo.

Garimpeiro se conhece pelos olhos. Olhos de febre, que flamejam e reluzem. Há, em suas pupilas, o ouro. O brilho dourado tatua a íris. Trata-se apenas de um reflexo de sua alma e daquilo que corre em suas veias. É um vírus. A princípio, um sonho distante, mas, ao correr dos dias, torna-se uma angustiante busca. Na primeira vez que o ouro fagulha na sua frente, na bateia, toda a alma se contamina e o vírus se transforma em doença incurável.

Todos, no garimpo, têm histórias semelhantes. Têm família, filhos, empregos em suas cidades, nos distantes Estados, mas, de repente, espalha-se a notícia do ouro. Então, largam tudo, vendem a roupa do corpo e lá se vão. Caçar o rastro do ouro é a sina. Nos olhos, a febre – um brilho dourado doentio. Sim, é fácil conhecer um garimpeiro...

Todos sabem que, no garimpo, não é lugar para se viver. Mas ninguém abandona o seu posto. Suor, lama, pedregulhos, pepitas douradas, cansaço – é a vida que até o diabo rejeita.

Por onde passam, o rastro da destruição. A Amazônia é nossa. Tratores e retroescavadeiras derrubam e limpam a floresta; as dragas chegam, os rios se contaminam rapidamente de mercúrio. Quem pode mais, chora menos. Na trilha do brilho dourado, nada se preserva. Ai daqueles que levantarem alguma voz... No dia seguinte, o corpo é encontrado no meio da selva, um bom prato aos bichos.

Tal lugar tem ouro – a notícia se espalha. De planícies e montanhas, mar e sertão, de Norte a Sul, Leste a Oeste, mais de dez mil almas atendem ao chamado. Surgem do nada, como mágica: de barco, ônibus, avião, moto, calhambeques estropiados, até a pé. Mas atendem ao chamado. De repente, a floresta se transforma em um formigueiro. E lá se vai a Amazônia...(p.5)


Da noite para o dia, a corrutela está pronta. Ali se pode comprar de tudo: balas de revólver, picaretas, pás, tecido, carne de paca e de veado, e, naturalmente, o amor de uma fêmea.

Não se sabe quem ganha mais: se os garimpeiros, os comerciantes ou os marreteiros. Muitos carregam a fortuna dos imprudentes sem precisar chafurdar o corpo na lama.

Tudo se agita pela fúria da alma que clama pelo ouro. E as noites são consumidas pelas paixões da carne.

DOCA LEVANTOU-SE DA REDE e arredou a cortina da janela da construção rústica, um madeirame serrado desigual, e deu com a cortina de plástico salpicada de gotículas em formas geométricas estranhas. Era uma chuvinha teimosa, do tipo molha-bobo. O céu estava pardo-escuro, carregado de nuvens negras. Na rua enlameada, viu um bando de cachorros molhados perseguindo uma cadela magra no cio.

Chovia há três dias. E, pelo jeito, não daria trégua. Os garimpeiros estavam entediados. Todos jogos de baralho já haviam esgotados. As histórias já haviam sido reviradas e acrescidas de novos detalhes. Quando o corpo de um garimpeiro fica parado, as paixões da carne o consomem. Ele fica impaciente, nervoso, anda de um lado para outro, por qualquer palha voando é capaz de arrumar um pé-de-briga. Ele gosta mesmo é do chão de lama, chafurdado no buraco, misturando o seu suor com a terra encharcada. Por isso, quando a chuva vem, e ninguém pode trabalhar, o espírito fica inquieto, as angústias explodem.

No barraco, oito garimpeiros acampam. Cada um de uma região distante. Mas, no fundo, o mesmo drama. Doca conhece a história de cada um. Todos trazem a febre na íris. Os olhos expelem uma flama dourada. Damião veio do Acre. Afonso, de Pernambuco. Marcão, de Brasília. Ele, Doca, que importância tinha? Mulheres e filhos foram deixados para trás. Amigos, também. Todos procuravam deixar sua história no alforge do esquecimento.

Damião fala muito. Abre bem a boca para exibir seis diamantes incrustados na dentadura estragada. Perdera os dentes quando jovem, mas tivera a sorte de garimpar algum ouro e, agora, exibe a todos um sorriso brilhante. De todo o tempo que estivera em Serra Pelada, do ouro que garimpara a granel, pois fora um dos primeiros a chegar lá, sobrara somente os dentes. Carrega na boca o seu patrimônio. E sua história.

— A vida é uma ilusão, mas gosto dela! – exclama, olhando a chuva, e relembrando suas façanhas.

Doca está aborrecido. Damião fala demais. Arre, como aguentar tanta conversa! E a boca cheia de diamantes! Aquilo o incomoda. (p.6)
— Cão que ladra!

Damião não gosta da observação. Rebate.

— Pois fique sabendo: esse punhal – e aponta o punhal de cabo de osso junto à mala onde guarda os seus pertences – ,já despachou algumas almas para o outro mundo. Por besteira! Eu não levo desaforos comigo.

Sabe-se que a metade do que fala é verdade e a outra não passa de invenções. Mas ninguém duvida. Para quê? Crie corvos e um dia eles te arrancarão os olhos. Doca não gosta de encrencas. Prefere ficar quieto. No garimpo, boca fechada dá direito a viver o dia seguinte. Para que criar corvos?

— Sabem da novidade? – atiça o Marcão, baforando um cigarro barato.

Todos se calam à espera.

— Oito novilhas na praça!

Os ânimos voltam aos olhos dos garimpeiros.

— O que está dizendo?

— É isso mesmo! Oito novilhas! Madame Teresa acabou de recebê-las. Aportaram pelo meio-dia, debaixo de chuva.

— Vieram de onde?

— De Santarém, Sorriso, Cuiabá... Lá é um ninho de mulheres bonitas.

— Quem quiser me achar hoje à noite, vá na casa de Madame Teresa. Quero carne nova! – conclui Damião mostrando os diamantes na dentadura.

Os garimpeiros sonham acordados. A chuva cai, o tempo se arrasta.


LÁ ESTÁ O HOMEM. Sempre sério, compenetrado, costeletas abaixo das orelhas. Não sorri por nada. Não se mistura com a turba. Os olhos bem abertos, raramente piscam.

Tem a fortuna sem nunca ter colocado suas botas na lama. Ele não usa os braços, ele não sua, ele não precisa pagar as contas do armazém e ainda tem as melhores mulheres. Por onde vai, é respeitado e onde está as pessoas se calam.

Usa um chapéu de feltro escuro, comprado em Santarém, camisa pólo vermelha e calças jeans surradas. Na cinta grossa, duas capangas, uma de cada lado. Numa, o ouro comprado; na outra, sabe-se lá o quê! Rosário de reza que não é. Uma arma, talvez, do tamanho de uma mão pequena.

O cara não é louco de sair no meio do garimpo sem proteção. É o gato, o comerciante que compra os frutos da lama e, de avião, numa fazenda próxima, despacha para lugares distantes e desconhecidos. Ele fica o dia todo numa tenda, protegido por alguns homens taludos.

O garimpeiro acha as pedras e logo está dentro da tenda, sentado numa cadeira de palhinha, oferecendo-as por algum dinheiro. O homem olha as pedras, usa de uma lente grande, observa, deixa as pedras de lado, desconversa, fala sobre qualquer assunto, depois se queixa, os tempos estão ruins, o dólar desvalorizou e, em seguida, volta a mirar as pedras sobre a mesa, agora com mais atenção. (p.7)
— São ruins... Vale pouca coisa. Estão com várias manchas e rachaduras. Até parece que alguém as esmigalhou com a picareta!

O garimpeiro fica surpreso.

— Como?! Umas pedras graúdas, tão bonitas, isso deve valer um dinheirão! Não tem defeito nenhum nelas.

Mas o homem tem experiência. Levanta-se. Caminha pela tenda de chão batido. Observa a multidão de garimpeiros sob o sol escaldante. Com as mãos, espanta os mosquitos.

— Quero deixar claro: eu não o procurei. Venda pra outros. Eles, talvez, possam oferecer mais.

Existe outro comprador. O garimpeiro sai da tenda. Seus olhos brilham. Ele não quer desfazer de sua pequena fortuna. Mas tem que pagar as contas no armazém da mina. O fornecimento já está ameaçado de corte.

— É uma pena desfazer dessas pedras...

O outro comprador age do mesmo jeito. Farinha do mesmo saco. Não há concorrência. Talvez eles comprem para as mesmas firmas.

Quando volta ao primeiro, com intenção de fechar o negócio, o preço cai mais um pouco. O garimpeiro sua frio. Mas fecha o negócio. Sai da tenda com raiva, apertando o dinheiro no bolso. O que fará com tão pouco? Apenas pagar o armazém. E depois? Bem, só Deus sabe... Começam novas dívidas e novos sonhos. E os dias vão rolando e as desilusões chegando.

— Essa gente não sua nem sangra – solta um desabafo, com vontade de cuspir. – Vence nos camarotes!

— QUER UM TRAGO, GRINGO?

Doca se mexe na cadeira. O que o estranho lhe propõe? Sua mente divaga. Está longe. Do que se lembra? Dos casos de amor? Dos tropeços impostos pelo destino? Atrás do balcão, um aparelho três-em-um expele uma música dolorida. Ele ouve e remexe os seus sentimentos. Sente falta de uma fêmea. O homem não vive sem mulher. Enquanto está no trabalho, nada o perturba. A febre do ouro o domina. Mas, quando a noite chega, as paixões se afloram.


Hoje eu te vi

Toda marcada pela vida.

Triste, abatida

Caminhando devagar. (p.8)
Um trago? Por que não? Olha o estranho vagarosamente e firme. Nunca vira aquela criatura. Seus olhos se apresentavam fundos e febris, as faces murchas e cavernosas. Uma parte da cabeça, bem no topo, perdera os cabelos. O bigode e o cavanhaque eram ralos.

— Aceito.

Depois perguntou:

— Perdão, não o conheço. É novo neste garimpo?

O estranho entortou a cabeça para o lado, como se o gesto mantivesse o seu equilíbrio.

— Cheguei há poucos dias. Vim de Cuiabá. Prazer, Antonio Russo.

— Doca.

Ambos ergueram os copos de aguardente. Depois, estalaram a língua. Só duas lâmpadas iluminavam o recinto. Mulheres gastas abordavam os garimpeiros sequiosos. Todas ávidas por dinheiro. Eram feias, havia banhas sobrando nos quadris, e o perfume barato grudava na pele.



— Que mulherio desengonçado! – comentou Doca.

— Quem não tem a mulher ideal, deve-se contentar com a que está por perto – afirmou Antonio Russo. – Na necessidade, a bruxa se transforma em princesa.


O que é feito daqueles beijos

Que eu te dei?

Daquele amor

Cheio de ilusão

Que foi a razão

Do nosso querer?
Outros copos foram servidos.

Doca pensou: “Ah, se pelo menos a fortuna me rondasse! Com dinheiro, teria os melhores amores. Todo beijo se compra com moeda.” Bem, a esperança... sim, um dia, quem sabe, encheria a bolsa de pepitas de ouro e sua estima seria recuperada. Na situação que se encontrava não podia perder sua última crença: a esperança. Se perdesse, só restaria um tiro nos miolos.

— Quem é aquele? – perguntou Antonio Russo.—Que sujeito esquisito!

— É o gato, o capanga do Pastor..

— Oh, já ouvi falar desse animal. Diz que, para cada pepita que ele compra, há muitos mortos. É verdade?

Doca deu de ombros. A cachaça o deixava mais animado. Mas a música o empurrava para um matadouro.

— Sei lá. Não tenho olhos pra essas coisas. Aprendi a não reparar nos assuntos alheios.

— É uma boa escola. (p.9)


— Sim, se a gente quiser prolongar a vida. Do contrário, viramos um bom prato aos bichos.

Antonio Russo tirou do bolso das calças um embrulho de retalho de camurça. Estendeu sobre suas mãos grandes.

— Veja! Essa pedra me acompanha há anos. Não venderei a um porco.

Doca olhou-a, admirado. Era de bom tamanho e perfeita.

— Por que não vende? Se alguém a rouba? Ter bens e não usufruí-los é o mesmo que não ter.

— Eis minha proteção – mostrou-lhe o revólver debaixo da cinta, junto à barriga. – Está para nascer o atrevido.

Pediu outra cachaça.

— Já ofereceram por ela algum dinheiro. E poderão oferecer mais. Mas não me desfaço. É um talismã!

Damião se aproximou. Estava meio bêbado. Ria muito e mostrava os diamantes na dentadura estragada.

— Aí, meu herói, já descarregou os testículos? Os meus ainda estão pesados!

— Não tenho pressa – respondeu Doca, sorvendo mais um gole de cachaça. – Ainda não vi as novilhas que chegaram.

— Elas são exibidas! Sequer apareceram. Devem estar escondendo as perebas com grossa maquiagem.

—Quem é esse? – perguntou Antonio Russo, ao mesmo tempo que mirava os diamantes na dentadura estragada de Damião.

— Somos parceiros no barraco. É boa gente.

— Mas é maluco. Onde se viu andar com diamantes na boca? Qualquer dia acaba com o corpo picado de balas.

— Maluco como você, que anda com uma pedra de ouro no bolso. Cada qual com suas manias...

— Qual é a sua?

— Sonhar...

— Com o quê? Com essas vagabundas – apontou as mulheres. – Saiba que elas não irão se transformar em princesas!

— A maior pedra!

— Não me espanta – deu de ombros e torceu de novo o pescoço como para equilibrar a cabeça. – É o sonho de todos.

— Pode ser. Mas, na minha cabeça, ela ocupa um grande espaço. Sonho com ela dormindo e acordado.


Num saco de estopa

Com embira amarrado

Eu tenho guardado

A minha paixão. (p.10)
Neste momento, madame Teresa, já trespassando os sessenta anos, num vestido vermelho e longo, debaixo do foco de luz alaranjada, anuncia a grande novidade da noite.

— Senhoras e senhores, boa-noite! Sejam bem-vindos a minha casa! É o grande momento de apresentar as novas princesas. Elas, com certeza, nos trarão muitas alegrias. Pedimos respeito e bebidas. Ei-las!

Oito moças desfilaram no salão pobre. Exibiram seus seios fartos em longos decotes e suas pernas descobertas. Nos rostos, grossas camadas de maquiagem; nos olhos, mais um capítulo de suas desilusões.

Doca mordeu os lábios. Tantas princesas! O sangue correu quente nas veias. O bolero invadiu o salão. Aplausos calorosos rebentaram por todos os lados e o soalho rústico e as paredes pareceram tremer..


Aquela colcha de retalho

Que tu fizeste

Juntando pedaço em pedaço

Foi costurada...
Os homens esfaimados saíram à caça.

NO DIA SEGUINTE, quando a chuva parou, era noite. Ficou, porém, o calor. E muitos enxames de mosquitos.

Doca passou o dia modorrando. O rangido das redes o embalava. O calor infernal dopava o corpo e o cérebro. Calor dos infernos! Passara na pele uma erva usada pelos índios, que fedia, para espantar os mosquitos sedentos.

No barraco, todos andavam jururu e suavam profusamente, respirando com dificuldade. Ali, não havia luz elétrica, que era luxo só para alguns, por causa do gerador a diesel. Só o pavio fraco da lamparina a dançar de um lado para outro criando grandes sombras nas paredes e no teto.

— Se pelo menos houvesse gelo...

— Largue de sonhar acordado – corrigiu o outro.

Reclamavam por que tinham que tomar água morna e também a cachaça, que descia

quente goela abaixo.



Doca dirigiu-se ao fogão improvisado. Destampou as duas panelas. Numa tinha feijão e na outra arroz, carne e aipim. Restos do almoço. Preferiu tampá-las de volta por causa dos mosquitos. Estava cansado daquela gororoba. O que não daria por um bom cabrito assado? (p.11)


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