Saindo de paumanok



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Walt Whitman. Folhas de Relva. Tr. Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2005.


SAINDO DE PAUMANOK
1
Saindo de Paumanok com sua forma de peixe, onde nasci,

Bem concebido e educado por uma mãe perfeita,

Depois de vagar por muitas terras, amante de populosos pavimentos,

Vivendo em Mannahatta, minha cidade, ou nas savanas do sul,

Ou como soldado acampado, ou carregando minha mochila e minha arma, ou mineiro na Califórnia,

Ou rude em minha casa nas florestas de Dakota, fazendo minha dieta de carne, sorvendo minha bebida diretamente da fonte,

Ou retirado para a musa e absorto em algum recesso profundo,

Longe do estrépito das massas, vivendo a intervalos, enlevado e feliz,

Consciente do frescor desse Missouri livremente dadivoso, consciente do poderoso Niagara,

Consciente dos rebanhos de búfalos que pastam pelas planícies, o touro de peito forte e cabeludo,

Ó terra, pedras, a experiência das flores com cinco meses, estrelas, chuva, neve, o meu espanto,

Tendo estudado os tons do zombeteiro passarinho e o vôo do falcão montanhês,

E tendo ouvido, na alvorada, aquele sem rival, o tordo ermitão do pântano de cedro,

Solitário, cantando no Oeste, eu me lanço para um Novo Mundo.



5
Poetas mortos, filósofos, sacerdotes,

Mártires, artistas, filósofos, inventores, governantes de há muito,

Escultores das línguas de além-mar,

Nações que um dia foram poderosas, agora reduzidas, retraídas ou desoladas,

Eu não ouso prosseguir até que respeitavelmente reconheça o que vós deixastes deste lado.

Eu já o li, confesso o quanto é admirável (movendo-me um instante em meio dele),

Penso que nada pode ser maior, nada pode jamais merecer mais do que ele merece,

Referindo-me a todo ele atenta e demoradamente, e após deixando-o passar,

Eu permaneço em meu posto no meu tempo e lugar.
Aqui as terras, fêmeas e machos,

Aqui os herdeiros e herdeiras do mundo, aqui a chama dos materiais,

Aqui as tradutoras da espiritualidade, abertamente declaradas,

As que tendem para sempre, o final das formas visíveis,

As que satisfazem, após uma longa espera do que agora avança,

Sim, aqui vem minha amante: a alma.



6
A alma,

Para sempre e pela eternidade — por mais tempo do que o solo é pardo e sólido, mais tempo do que a água fluindo e refluindo.

Quero fazer os poemas da materialidade, pois penso que serão entre todos os mais espirituais,

E farei os poemas do meu corpo e do que há de mortal,

Pois creio assim estar a mim mesmo concedendo os poemas de minha alma e da imortalidade.
Tecerei um cântico a estes Estados para que Estado algum, em circunstância alguma, esteja sujeito a outro Estado,

E entoarei uma canção para que exista polidez noite e dia entre todos os Estados e entre dois deles quaisquer.

E farei uma canção para os ouvidos do Presidente, cheio de armas com pontas ameaçadoras,

E, por trás das armas, incontáveis faces insatisfeitas;

E a canção que eu teço é do Um que é feito do amálgama de todos,

Esse Um cintilante e armado cuja cabeça se eleva sobre todos,

Resoluto e guerreiro Um inclusivo e acima de todos,

(Por mais alto que se eleve qualquer cabeça, aquela cabeça permanecerá por cima).


Reconhecerei as terras hodiernas,

Palmilharei a inteira geografia da terra e saudarei cordialmente cada cidade grande ou pequena,

E os empregos! Porei em meus poemas que em vós está o heroísmo sobre a terra e sobre o mar,

E contarei o heroísmo sob o ponto de vista americano.


Cantarei a canção do companheirismo,

Quero mostrar o que sozinho deve enfim unir-se a estes,

Creio que estes hão de encontrar seu ideal de humano amor indicando-o em mim,

E eu, assim, permitirei que flamejem em mim os fogos abrasadores que ameaçavam consumir-me,

Erguerei o que por muito tempo manteve tíbio esse fogo que queima sem ter chamas,

Eu lhes darei completa liberdade,

Escreverei o poema, evangelho de camaradas e de amor,

Pois quem, senão eu, deveria entender o amor com toda a sua aflição e alegria?

E quem, senão eu mesmo, deveria ser o poeta dos camaradas?
19
Ó camarada que estás próximo! Ó tu e eu finalmente, e nós dois apenas.

Ó uma palavra para abrir o caminho de alguém que possa ir em frente sem limites!

Ó algo extático e inexprimível! Ó música selvagem!

Ó agora eu triunfo — e tu também;

Ó de mãos dadas — Ó prazer saudável — Ó mais um amante cheio de desejos!

Ó apressa-te neste abraço firme — apressa-te, apressa-te comigo.

CANÇÃO DE MIM MESMO
1
Eu celebro o eu, num canto de mim mesmo,

E aquilo que eu presumir também presumirás,

Pois cada átomo que há em mim igualmente habita em ti.
Descanso e convido a minha alma,

Deito-me e descanso tranquilamente, observando uma haste da relva de verão.


Minha língua, todo átomo do meu sangue formado deste solo, deste ar,

Nascido aqui de pais nascidos aqui de pais o mesmo e seus pais também o mesmo,

Eu agora com trinta e sete anos de idade, com saúde perfeita, dou início,

Com a esperança de não cessar até morrer.


Crenças e escolas quedam-se dormentes,

Retraindo-se por hora na suficiência do que são, mas nunca esquecidas,

Eu me refugio pelo bem e pelo mal, eu permito que se fale em qualquer casualidade,

A natureza sem estorvo, com energia original.



2
Casas e cômodos cheios de perfumes, prateleiras apinhadas de perfumes,

Eu mesmo respiro a fragrância, a reconheço e com ela me deleito,

A essência bem poderia inebriar-me, mas não permitirei.
A atmosfera não é um perfume, não tem o gosto da essência, não tem odor,

Existe para a minha boca, eternamente; estou por ela apaixonado,

Irei até à colina próxima da floresta, despir-me-ei de meu disfarce e ficarei nu,

Estou louco para que ela entre em contato comigo.


A fumaça da minha própria respiração,

Ecos, sussurros, murmúrios vagos, amor de raiz, fio de seda, forquilha e vinha,

Minha expiração e inspiração, a batida do meu coração, a passagem de sangue e de ar através de meus pulmões,

O odor das folhas verdes e de folhas ressecadas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,

O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,

A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,

O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,

O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-me da cama e encontrando o sol.
Achaste que mil acres são demais? Achaste a terra grande demais?

Praticaste tanto para aprender a ler?

Sentiste tanto orgulho por entenderes o sentido dos poemas?
Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas,

Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis por encontrar),

Não possuirás coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através dos olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros.

Do mesmo modo não verás mais através de meus olhos, nem tampouco receberás coisa alguma de mim,

Ouvirás o que vem de todos os lados e saberás filtrar tudo por ti mesmo.

11
Vinte e oito rapazes banham-se na praia,

Vinte e oito rapazes, e todos tão amigos;

Vinte e oito anos de vida feminina e todos tão solitários.
Ela é a proprietária daquela bela casa na subida da margem,

Ela se esconde bela e bem vestida por trás das persianas da janela.


Qual dos rapazes ela mais ama?

Ah! até o mais simplório entre eles lhe parece lindo.


Aonde vais, senhora? Pois te vejo,

Brincas lá na água e ainda assim estás imóvel no teu quarto.


Dançando e rindo pela praia veio a vigésima nona banhista,

Os outros não a viram, mas ela os viu e os amou.


As barbas dos rapazes cintilavam porque estavam molhadas, com a água escorrida de seus cabelos longos.
Pequenos riachos passaram pelos corpos deles.
Uma mão invisível também passou pelos seus corpos,

Descendo trêmula de suas frontes e costelas.


Os rapazes boiam de costas, suas barrigas brancas salientes estão voltadas para o sol, eles não perguntam quem os segura com tanta rapidez,

Não sabem quem sopra e se debruça como um arco pendente que se curva,

Eles não imaginam a quem encharcam quando borrifam a água.

13
O negro segura firme as rédeas dos seus quatro cavalos, o bloco cambaleia embaixo da corrente bem atada,

O negro dirige a longa carreta no pátio de pedra; impassível e alto ele se ergue tendo uma perna sobre a longarina,

Sua camisa azul expõe seus vastos pescoço e tórax e se afrouxa sobre os quadris,

Seu olhar de relance é calmo e imperativo, ele afasta da testa a aba do chapéu,

O sol cai sobre os seus crespos cabelos e bigode, cai sobre os seus membros polidos e perfeitos.

Contemplo o gigante pitoresco e o amo, e não paro por lá,

Sigo com a equipe também.
Em mim aquele que faz carícias na vida para onde quer que se mova, voltando-se para frente ou para trás,

Debruçado sobre nichos laterais e novos, não perco qualquer pessoa ou objeto,

Absorvo tudo para mim mesmo e para esta canção.
Bois sacudindo ruidosamente o jugo e as correntes ou parando sob a sombra das folhas, o que é que expressais em vossos olhos?

Isso me parece mais do que todo impresso que já li em minha vida.


Meus passos assustam o pato selvagem e sua fêmea nesse passeio distante que dura o dia inteiro,

Eles se erguem juntos, eles voam em círculos com lentidão.


Eu creio nesses propósitos alados,

Reconheço o vermelho, o amarelo, o branco, brincando comigo,

E considero o verde e o violeta e a coroa plumada intencional,

E não desprezo o valor da tartaruga porque ela é algo mais,

E o gaio na floresta nunca estudou a escala musical, e ainda assim gorjeia belamente em meu conceito,

E o olhar da égua baia revela a vergonha de minha estupidez.


21
Sou o poeta do Corpo e sou o poeta da Alma,

Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão comigo,

O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua.
Eu sou o poeta da mulher tanto quanto o do homem,

E digo que é tão grandioso ser uma mulher como ser um homem,

E digo que não há nada maior do que ser a mãe dos homens.
Canto o canto da expansão ou do orgulho,

Já tivemos fuga e censura o suficiente,

Revelo que o tamanho é apenas o desenvolvimento.
Ultrapassaste os demais? És o Presidente?

Isso é ninharia, eles irão além desse teu feito.


Eu sou aquele que caminha com a noite que cresce brandamente,

Clamo à terra e ao mar, em parte abraçados pela noite.


Estampa-te em mim, noite de seio nu — estampa-te em mim, noite magnética e nutritiva!

Noite do vento sul — noite de estrelas grandes e escassas!

Noite imóvel e ondulante — noite de verão louca e desnuda.
Sorri, ó voluptuosa terra de hálito fresco!

Terra das árvores sonolentas e líquidas!

Terra do crepúsculo finado — terra das montanhas dos topos de neblina!

Terra da vertente vítrea da lua cheia, subtilmente tingida de azul!

Terra do brilho e da escuridão que mosqueiam a maré do rio!

Terra do cinza límpido, das nuvens que são mais brilhantes e mais claras em meu nome!

Terra angulada dos grandes precipícios — terra rica em flores de macieira!

Sorria, teu amante está chegando.


Pródiga, tu me deste amor — assim sendo eu também te dou amor!

Ó amor apaixonado e indizível.



52
O gavião pintado mergulha e me acusa, ele reclama de minha tagarelice e de minha vadiagem.
Eu também não sou muito domado, eu também sou intraduzível,

Lanço no ar o meu urro bárbaro sobre os telhados do mundo.


A última sombra do dia espera por mim,

Ela arremessa minha imagem atrás das outras e, tão verdadeira quanto qualquer coisa no agreste sombrio,

Me arrasta para o vapor e para o crepúsculo.
Eu parto como o ar, agito minhas mechas brancas sob o sol fugitivo,

Derramo minha carne em remoinhos e deixo-a à deriva em saliências rendilhadas.


Lego-me ao pó para crescer da relva que amo,

Se queres me ver novamente, procura-me grudado à sola de tuas botas.


Dificilmente saberás quem sou ou o que significo,

Mas hei de ser para ti boa saúde assim mesmo,

E filtrarei e darei fibra ao teu sangue.
Se não puderes me encontrar na primeira vez, mantém a esperança,

Não me achando em certo lugar, procura em outro,

Fico em alguma parte à tua espera.

EU CANTO O CORPO ELÉTRICO


1
Eu canto o corpo elétrico,

Os exércitos daqueles que amo estão em minha volta e estou em torno deles,

Eles não me deixarão partir até que eu vá com eles, até que lhes dê uma resposta,

E os descarregue e os carregue a todos com a carga da alma.


Foi posto em dúvida se aqueles que corrompem seus próprios corpos se disfarçam?
E se aqueles que desafiam os vivos são tão maus quanto os que desafiam os mortos?

E se o corpo não faz o mesmo tanto quanto a alma faz?

E se o corpo não for a própria alma, o que é a alma?

5
Esta é a forma da fêmea,

Ela exala uma auréola divina da cabeça aos pés,

Ela atrai com inegável e arrebatadora atração,

Sou arrastado pelo seu hálito, como se eu não fosse mais que um vapor indefeso, tudo que há em volta se esvaece exceto ela e eu,

Letras, arte, religião, as eras, a terra visível e sólida, e do que era esperado do céu e temido do inferno, agora está tudo acabado:

Loucos filamentos e renovos saltam para fora dela, com uma reação também desgovernada,

Cabelos, seios, quadris, pernas dobradas, negligentes mãos caídas, todas difusas, as minhas também difusas,

Refluxo tocado pela correnteza e correnteza tocada pelo refluxo, carne de amor dilatando e doendo deliciosamente,

Ilimitados e límpidos jatos de amor quentes e enormes, geleia trêmula de amor, explosão branca e suco delirante,

Noite de amor de noivo tecendo certa e maviosamente até se prostrar no amanhecer,


Ondulando dentro do produtivo dia de desejos,

Perdido na divisão do dia de carne doce e envolvente.


Eis o núcleo — depois é a vez da criança nascer da mulher, o homem nasce da mulher,

Eis o banho da origem, eis o batismo do pequeno e do grande e a saída de novo.

Não vos envergonheis, mulheres, vosso é o privilégio de conter os outros e de dar a eles a saída,

Vós sois os portões do corpo, e sois o portão da alma.

A fêmea contém todas as qualidades e as tempera,

Ela ocupa seu posto e se move com em perfeito equilíbrio,

Ela é todas as coisas devidamente veladas, ela é ambos, o passivo e o ativo,

Ela existe para conceber tanto filhas como filhos, e filhos como filhas.

Assim como na Natureza, vejo minha alma refletida,

Assim como vejo através de um nevoeiro, Uma de inexprimível plenitude, saúde e beleza,

Vejo sua cabeça inclinada e seus braços cruzados sobre seus seios, a Fêmea eu vejo.

6
O macho não é menos nem mais do que a alma, ocupa também o seu posto,

Ele possui as mesmas qualidades, sendo a ação e o poder,

O fluxo do universo conhecido está nele,

O escárnio cai-lhe bem, e o apetite e a rebeldia caem-lhe bem,

As maiores paixões, as mais selvagens, a felicidade em seu limite extremo caem-lhe bem, o orgulho cai-lhe bem,

O orgulho em sua máxima potência no homem é calmante e excelente para a alma,

O conhecimento é próprio dele, ele sempre o aprecia, tudo ele aproxima de si para experimentar,

Qualquer tipo de pesquisa, qualquer que seja o mar e o veleiro é aqui, finalmente, que ele faz as sondagens

(Onde mais ele poderia fazer as sondagens além de aqui mesmo?)



O corpo do homem é sagrado e o corpo da mulher é sagrado,

Não importa quem ele seja, é um ser sagrado — é ele o pior de um grupo de operários?

É um dos imigrantes que, com expressão melancólica no rosto, acaba de desembarcar no cais?

Cada um deles pertence a esta terra, ou a qualquer outra parte, tanto quanto os bem-nascidos, tanto quanto vós,

Cada um tem seu lugar na procissão.


(Tudo é uma procissão,

O universo é uma procissão que se move em medida perfeita.)


Sabeis tanto que podeis chamar o menos preparado de ignorante?

Supondes que tendes direito a uma boa compreensão das coisas, e ele e ela não têm direito algum?

Pensais que a matéria se fez una e coesa a partir de seu movimento difuso e que o solo está na superfície e as águas correm e a vegetação brota

Apenas para vós? E não para ele ou para ela?



9
Ó meu corpo! Não ouso abandonar as tuas semelhanças em outros homens e mulheres, nem as semelhanças das tuas partes,

Creio que as tuas semelhanças hão de se manter ou terminar com as semelhanças da alma (e com o fato de que elas são a alma)

Creio que as tuas semelhanças devem se manter ou terminar com meus poemas e com o fato de que elas são os meus poemas,

Poemas de mulheres, de crianças, de jovens, de esposas, de maridos, de mães, de pais, de moços e moças,

Cabeça, pescoço, cabelo, ouvidos, diafragma e tímpano dos ouvidos,

Olhos, franjas dos olhos, íris dos olhos, sobrancelhas, e o abrir e fechar das pálpebras,

Boca, língua, lábios, dentes, céu da boca, maxilares, e as juntas dos maxilares,

Nariz, narinas, e a divisória das narinas,

Bochechas, têmporas, testa, queixo, garganta, nuca, entorno do pescoço,

Ombros fortes, barba masculina, omoplata, juntas dos ombros e a ampla parte lateral da caixa torácica,

Antebraço, sovaco, encaixe do cotovelo, braço, nervos dos braços, ossos dos braços,

Pulso, e juntas dos pulsos, mão, palma das mãos, nós dos dedos, dedão, dedos, juntas dos dedos, unhas das mãos,

Ampla frente do tórax, pêlos enrolados do peito, osso do peito, parte lateral do peito,

Costelas, barriga, espinha, juntas da espinha,

Quadris, encaixe dos quadris, força dos quadris, movimentos rotatórios dos quadris para dentro e para fora, testículos do homem, pênis,

Força dos fêmures que tão bem suporta o tronco acima,

Fibras das pernas, joelhos, cavidade do joelho, perna,

Tornozelos, peito do pé, bola do pé, dedões, juntas do dedão;

Tudo o que pertence ao meu ou ao teu corpo, ou o corpo de qualquer pessoa, seja um corpo feminino ou masculino,

Os filamentos do pulmão, o saco do estômago, os intestinos doces e limpos,

As dobras cerebrais dentro dos ossos do crânio,



Conexões, válvulas do coração, válvulas do palato, sexualidade, maternidade,

Feminilidade, e tudo o que é uma mulher, e o homem que vem da mulher,

O útero, os seios, os mamilos, leite materno, lágrimas, risada, lamentos, olhares amorosos, perturbações amorosas e ereções,

A voz, a articulação, a linguagem, o sussurro, o grito,

Comida, bebida, pulso, digestão, suor, sono, o ato de andar, de nadar,

O equilíbrio sobre os quadris, os saltos, a reclinação, o abraço, a envergadura do braço e o aperto,

As alterações contínuas do molejo da boca, e em torno dos olhos,

A pele, a queimadura do sol, sardas, cabelo,

A curiosa sensação de quem toca a carne nua do corpo com sua mão,

O ciclo da respiração, a inspiração e a expiração,

A beleza da cintura, descendo aos quadris, e desse ponto descendo para os joelhos,

As geleias finas e vermelhas dentro de ti ou de mim, os ossos e o tutano que há nos ossos,

A estranha consciência da saúde;

Ó eu digo que esse não é apenas o poema das partes do corpo, mas também o da alma,

Ó eu digo que estas partes são a alma!



Canção da estrada aberta
1
A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda marrom em minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.
A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes, bibliotecas, críticas conflituosas,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.


A Terra, ela é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que vivem por lá.


(Ainda assim, por aqui eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.)



5
Desde agora ordeno que meu eu esteja livre de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com uma vontade inegável, dispo-me das amarras que me limitariam.
Inalo grandes correntes de ar espaciais,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.


Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade.

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim e eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

8
A emanação da alma é a felicidade, aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados certamente.
Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós,

O fluido e o caráter que se prende a nós dão o frescor e a doçura do homem e da mulher

(As ervas da manhã não germinam mais frescas e doces todos os dias, a partir de suas raízes, do que eles germinam frescos e doces continuamente de si mesmos.)
Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós, aparece o suor do amor dos jovens e dos idosos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Na direção deles as náuseas fazem estremecer com saudades do contato.

11
Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos,

Estes são os dias que devem ocorrer para ti:

Não deverás acumular aquilo que é chamado de riqueza,

Terás de distribuir com mãos pródigas tudo o que ganhar ou alcançar,

Quando acabares de chegar à cidade para a qual estavas destinado, e tiveres mal te assentado com satisfação, logo serás chamado irresistivelmente para partir,

Serás tratado com sorrisos irônicos e deboche por aqueles que estiverem atrás de ti,

Aos acenos de amor que receberes terás de responder apenas com os beijos apaixonados da partida,

Não deverás permitir o abraço daqueles que estenderem suas mãos para alcançar-te.

15
Allons! A estrada está adiante de nós!

Ela é segura — eu já a provei — com meus próprios pés eu a experimentei bastante — não te detenhas!


Deixa que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, e o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no seu púlpito! Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.


Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te o meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?


QUANDO OS LILASES FLORESCIDOS DURARAM NA VARANDA

1
Quando os lilases florescidos duraram na varanda,

E vi a grande estrela caída bem cedo na noite do céu ocidental,

Chorei e ainda hei de chorar no retorno de cada primavera.
Primavera recorrente, trazes uma tríade para mim, certamente,

Lilases florescendo perenes e estrelas cadentes no ocidente,

E o pensamento nele, a quem amo.


3
No jardim, à porta de entrada de uma velha casa de fazenda, perto das cercas branquinhas,

Está o arbusto de lilases crescendo alto com folhas de um verde rico, em forma de coração,

Em muitos deles desponta um botão delicado, com o perfume forte que amo,

Com cada folha, um milagre — e deste arbusto no jardim da porta de entrada,

Com botões delicados e coloridos e folhas de um verde rico, com o formato de coração,
Anuncio uma primavera com suas flores.

4
No brejo, num recanto isolado,

Um pássaro escondido está gorjeando uma canção.


Solitário, o tordo,

O eremita absorto em si mesmo, evitando as civilizações,

Canta sozinho uma canção.
Canção da garganta ensanguentada,

Canção de vida que é escoadouro da morte (pois bem sei, querido irmão,

Ainda que cantar não fosse concedido, certamente morrerias).

5
Sobre o seio da primavera, a terra, em meio às cidades,

Em meio às pistas e através de velhas florestas, onde recentemente as violetas despontaram no chão, borrando os escombros cinzentos,

Em meio à relva nos campos, em cada lado das pistas, passando pela relva infinita,

Passando entre as hastes amareladas do trigo, cada grão em seu abrigo, erguidos nos campos marrons escuros,

Passando por entre o branco e rosa das macieiras nos pomares,

Carregando um corpo para o local em que deve descansar no túmulo,

Dia e noite viaja um esquife.

6
Esquife que passa por pistas e cidades,

Através do dia e da noite enquanto a grande nuvem escurece a terra,

Com a pompa das bandeiras enlaçadas, com as cidades drapejadas de preto,

Com o espetáculo dos próprios Estados, como se fora uma mulher de pé com seu véu de crepe,

Com uma longa e tortuosa procissão e os flambeaus da noite,

Com as incontáveis tochas acesas, com o silencioso mar de faces e cabeças descobertas,

Com o depósito que aguarda e o esquife que chega e as faces melancólicas,

Com hinos fúnebres através da noite, com mil vozes que se erguem fortes e solenes,

Com todas as vozes chorosas dos hinos fúnebres derramadas em torno do esquife,

As igrejas à meia luz e os órgãos estremecidos — em meio aos quais viajas,

Com o perpétuo tinido do dobre incessante dos sinos,

Aqui, esquife que passa vagarosamente,

Dou-te o meu ramo de lilases.

7
(Não por ti, por um apenas,

Botões e galhos verdes para todos os esquifes trago,

Pois fresca como a manhã, cantaria, então, uma canção por ti, ó morte sana e sagrada.
Por toda parte buquês de rosas,

Ó morte, cubro-te com rosas e lírios da manhã,

Mas, principalmente, e agora com o lilás que primeiro despontou,

Copioso eu tiro, tiro os galhos novos dos arbustos,

Com braços repletos venho, derramando por ti,

Por ti e por todos os esquifes teus, ó morte.)



8
Ó estrela ocidental navegando pelo céu,

Agora sei o que deves ter procurado me dizer há cerca de um mês, quando passei,

Quando andei em silêncio na noite sombria e transparente,

Quando te vi tinhas algo para contar-me, quando te curvaste em minha direção, noite após noite,

Quando caíste do céu bem abaixo, como se viesses para o meu lado (enquanto todas as demais estrelas observavam),

Quando perambulamos juntos pela noite solene (pois algo que não conheço impediu-me de dormir),

Quando a noite avançava e vi na borda do ocidente quão repleta de pesar tu estavas,

Quando fiquei de pé no chão saliente, na brisa, na noite fria e transparente,

Quando vi que tinhas algo a me dizer, quando te inclinaste em minha direção, noite após noite,

Quando minha alma atormentada afundou na insatisfação, e tal como tu, triste orbe,

Findou, caiu na noite, e se foi.


10
Ó como devo gorjear pelo que está morto lá e a quem amei?

E como devo toldar minha canção para essa alma grande e doce que se foi?

E qual deve ser o meu perfume para o túmulo de quem amo?
Ventos marítimos soprados do leste e do oeste,

Soprados do mar do leste e do mar do oeste, até que se encontrem em meio às pradarias,

Esses e com esses e o sopro de meu canto,

Vou perfumar o túmulo daquele que amo.


15
Para a elevação de minha alma,

Alto e forte manteve-se o pássaro cinza e marrom,

Espalhando deliberadamente notas puras e enchendo a noite.

Alto nos pinheiros e cedros pálidos,

Claro no frescor úmido e no perfume do brejo,

E eu, com meus companheiros, lá, na noite.


Enquanto minha visão ficou atada aos meus olhos abertos,

Como que para longínquos panoramas.


E vi de soslaio os exércitos,

Vi, como em sonhos sem rumor, centenas de estandartes de batalha,

Sustentados através da fumaça das batalhas e perfurados por mísseis que enxerguei,

E carregados aqui e acolá através da fumaça, e rasgados e ensanguentados,

E, finalmente, apenas alguns fragmentos sobraram nas hastes (e todos em silêncio)

E as hastes todas lascadas e quebradas.


Vi os corpos das batalhas, miríades deles,

E os esqueletos brancos de jovens rapazes vi,

Vi os escombros de todos os soldados assassinados na guerra,

Mas vi que não eram como eu pensava,

Eles estavam inteiramente em repouso, não sofriam,

Os sobreviventes sofriam, as mães dos mortos sofriam,

As esposas e filhos, e os companheiros reflexivos sofriam,

E os exércitos que sobreviveram sofriam.



16
Passadas as visões, passada a noite,

Passado o tempo em que estava segurando as mãos de meus companheiros,

Passada a canção do pássaro eremita e a canção para a elevação de minha alma,

Canção dos vitoriosos, canção de saída da morte, canção, contudo, variada e sempre alternada,

Tão baixa quanto gemida, porém de notas claras, subindo e descendo, inundando a noite,

Tristemente naufragando e esmaecendo, como que emitindo e emitindo um alerta e, contudo, estourando de alegria,

Cobrindo a terra e enchendo a amplitude do céu,

Como aquele poderoso salmo da noite, que ouvi vindo de lugar ermo,





Passando, deixo-te, lilás, com folhas no formato de um coração,

Deixo-te lá no jardim do pátio de entrada, retornando com a primavera.
Cesso a minha canção por ti,

O meu olhar fixo em ti no oeste, de frente para o oeste, comungando contigo,

Na noite, ó lustrosa companheira de face argêntea.
Contudo para que cada um guarde consigo, retirada na escuridão,

A canção, o assombroso canto do pássaro cinza e marrom,

E a canção que eleva, o eco ergueu-se em minha alma,

Com a estrela lustrosa e cadente, com o semblante cheio de pesar,

Com aqueles que seguram minha mão, se aproximando do chamado do pássaro,

Meus companheiros e eu no meio deles, e a memória deles para guardar para sempre, pelos mortos que amei tão bem,

Pela alma mais doce e mais sábia de todos os meus dias na terra — e isso em seu nome querido,

O lilás e a estrela e o pássaro entrelaçados pelo canto de minha alma,

Lá nos pinheiros perfumosos e nos cedros robustos e pálidos.

Os que dormem
1
Vagueio a noite inteira em minha visão,

Andando com pisadas leves, ligeiramente e sem ruídos, andando e parando,

Inclinando-me com olhos abertos sobre os olhos cerrados dos que dormem,

Vagueando e confuso, perdido em mim mesmo, com infortúnios diversos, contraditório,

Pausando, contemplando, inclinando-me e parando.
Quão solenes parecem eles ali, espichados e quietos,

Quão silenciosos respiram, os pequenos infantes em seus berços.


As deploráveis fisionomias do tédio, as brancas fisionomias dos corpos, as faces lívidas dos bêbados, os rostos doentios e macilentos dos onanistas,

Os corpos esquartejados nos campos de batalha, os insanos em suas celas de segurança, os sagrados idiotas, os recém-nascidos emergindo dos portais e os moribundos emergindo dos portais,

A noite que os penetra e envolve.

O casal dorme calmamente em sua cama, o marido tem a palma da mão no quadril da esposa, e ela tem a palma da mão no quadril do marido,

As irmãs dormem amorosamente, lado a lado em sua cama,

Os meninos dormem amorosamente, lado a lado em sua cama,

E a mãe dorme com a sua criancinha cuidadosamente embrulhada.
O cego dorme, e o surdo-mudo dorme,

O prisioneiro dorme bem na prisão, o filho fugitivo dorme,

O assassino que será executado no dia seguinte, como ele consegue dormir?

E a pessoa por ele assassinada, como ela dorme?


A fêmea que ama sem ser correspondida dorme,

E o macho que ama sem ser correspondido dorme,

A mente do ganhador de dinheiro que tramou o dia inteiro dorme,

E as disposições enfurecidas e desleais, todas, todas dormem.


Ergo-me no escuro com olhos abatidos, por amor aos piores sofredores e os mais insones,

Passo minha mão ternamente, para lá e para cá, bem próximo a eles,

E os insones caem em suas camas e dormem adequadamente.
Agora perfuro a escuridão, novos seres aparecem,

A terra foge de mim dentro da noite,

Vi que ela era linda e vi que aquilo que não é a terra é lindo também.
Vou de leito em leito, durmo próximo aos outros que dormem, cada um de uma vez,

Sonho em meu sonho todos os sonhos dos outros sonhadores,

E me torno o sonhador dos outros.
Sou uma dança — toca aí em cima — o par me faz girar rapidamente!



Sou aquele que sempre sorri — é lua nova e crepúsculo.

Vejo as gratificações sendo escondidas, vejo ágeis fantasmas para qualquer lado que me torno,

Esconderijo e esconderijo novamente nas profundezas do solo e do mar e no lugar em que não é solo nem é mar.


Cumprem bem os seus deveres aqueles viajantes divinos,

Somente de mim nada podem esconder e nada esconderiam se pudessem,

Concluo que sou o seu patrão e eles me fazem um afago também,

E cercam-me e lideram-me e correm à minha frente quando ando,

Para erguer seus ardilosos disfarces, para me representar com braços estirados, e retomar o caminho;

Para sempre nos movemos, um grupo de alegres patifes! Com música hilariante e flâmulas amplamente agitadas de prazer!


Sou o ator, a atriz, o eleitor, o político,

O emigrante e o exilado, o criminoso que estava na cela,

Aquele que foi famoso e aquele que há de ser famoso mais tarde,

O tartamudo, a pessoa bem formada, a pessoa desgastada ou débil.


Eu sou aquela que se adornou e arrumou o cabelo esperançosamente,

Meu indolente amante veio e está escuro.


Intensifica-te e recebe-me, escuridão,

Recebe-me, e meu amante também, ele não me deixará partir sozinho,


Rolo sobre ti como sobre uma cama, entrego-me à poeira.
Aquele a quem chamo responde e toma o lugar de meu amante,

Ele se ergue comigo, silencioso, da cama.

Escuridão, tu és mais gentil que o meu amor, sua carne era suada e arquejante,

Sinto a umidade quente que ele deixou comigo.


Minhas mãos estão estendidas, passo-as em todas as direções,

Eu iria aperfeiçoar o litoral sombrio para o qual estás viajando.


Sê cuidadosa, escuridão! Aquilo que ele era já me tocou?

Pensei que meu amante havia partido, pois, além disso, a escuridão e ele são um,

Ouço o bater do coração, sigo, desvaneço.
8
Os que dormem são muito belos quando se deitam sem roupa,

Circulam de mãos dadas sobre a Terra inteira, do leste ao oeste, quando deitam-se sem roupa,

Os asiáticos e os africanos estão de mãos dadas,

Cultos e incultos estão de mãos dadas, e os machos e as fêmeas estão de mãos dadas,

O braço despido da moça atravessa o peito despido de seu amante, eles unem seus corpos sem lascívia, o lábio dele pressiona o pescoço dela,

O pai abraça seu filho crescido ou não crescido em seus braços, com

amor desmedido, e o filho abraça o pai com amor desmedido,

Os cabelos brancos da mãe brilham no punho branco da filha,

A respiração do menino acompanha a respiração do homem, o amigo é estreitado pelo amigo,

O acadêmico beija o professor e o professor beija o acadêmico, o incorreto é feito correto,

O chamado do escravo se unifica ao chamado de seu mestre, e o mestre saúda o escravo,

O condenado dá um passo fora da prisão, o insano se torna são, o sofrimento das pessoas doentes é aliviado,

O suor e as febres cessam, a garganta que não estava saudável está saudável, os pulmões do definhado se recuperam, a cabeça do pobre estressado está livre,

As juntas do reumático se movimentam suavemente como costumavam ser, e mais suaves do que nunca,

Asfixiantes passagens abertas, o paralisado se torna maleável,

Os inchados e os convulsionados e congestionados despertam em boas condições,

Eles passam pelo revigoramento e pela química da noite e acordam.

Eu também vou além da noite,

Permaneço um momento longe de ti, ó noite, mas retorno a ti novamente e te amo.

Por que deveria temer confiar-me a ti?

Não tenho medo, tenho sido bem conduzido por ti,

Amo o dia rico que corre, mas não abandono aquela com que me deito por tanto tempo,

Não sei como vim de ti e não sei para onde irei contigo, mas sei que vim bem e hei de ir bem.

Só estarei um tempo com a noite e levantar-me-ei bem cedo,



Viverei o dia devidamente, ó minha mãe, e devidamente retornarei para ti.


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