Sagas do país das gerais romances históricos de agripa vasconcelos



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SAGAS DO PAÍS DAS GERAIS

ROMANCES HISTÓRICOS DE AGRIPA VASCONCELOS

1. FOME EM CANAÃ - Romance do ciclo dos latifúndios nas Gerais.

2. SINHÁ BRABA - Dona Joaquina do Pompéu - Romance do ciclo agropecuário nas Gerais.

3. A VIDA EM FLOR DE DONA BÊJA - Romance do ciclo do povoamento nas Gerais.

4. GONGO-SÔCO - Romance do ciclo do ouro nas Gerais.

5. CHICA QUE MANDA - Chica da Silva - Romance do ciclo dos diamantes nas Gerais.

6. CHICO REI - Romance do ciclo da escravidão nas Gerais.

CHICO REI

SAGAS DO PAÍS DAS GERAIS, 6

AGRIPA VASCONCELOS

CHICO REI

Romance do Ciclo da Escravidão nas Gerais

ILUSTRAÇÕES DE YARA TUPINAMBÁ

EDITORA ITATIAIA LIMITADA, BELO HORIZONTE

Copyright by Editora Itatiaia Limitada

1966

Direitos de propriedade artística e literária da presente edição reservados Editora ITATIAIA Limitada - Belo Horizonte



IMPRESSO NOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL PRINTED IN THE UNITED STATES OF BRAZIL

A Editora Itatiaia Limitada agradece ao Sr. Eduardo de Magalhães Pinto a colaboração financeira do Banco Nacional de Minas Gerais, S.A, que possibilitou a publicação deste importante livro dentro dos mais altos padrões gráficos e editoriais.

A meus irmãos

Ulisses Gabriel Aulus Sevinius Júlio César e Gabriel Ulisses

Os salteadores apreendiam ou compravam na África tribos e nações inteiras, gente em vários graus de sociabilidade, embora rudimentária; e além de muitos exemplos para prová-lo, tivemos o que deu lugar à legenda tão bizarra quão verdadeiramente poética do Chico Rei, que dominou Vila Rica. Esta figura nobre de um preto, cuja vida acidentada aqui finalizou, imensa luz derrama aos painéis daquela sombria época.

DIOGO DE VASCONCELOS, História Antiga das Minas Gerais,

Imp. Nac., Rio, 1948.

Francisco, rei africano, foi aprisionado e vendido para escravo com toda a sua tribo. A mulher e todos os filhos, menos um, morreram na travessia do Atlântico. Os sobreviventes foram encaminhados às minas de Ouro Preto. Homem, inteligente e enérgico, Chico Rei trabalhou e forrou o filho; em seguida os dois trabalharam para forrar um patrício e assim sucessivamente se forrou toda a tribo, que passou a forrar outros vizinhos da mesma nação.

MANUEL BANDEIRA, Guia do Ouro Preto, Rio, 1952.

Oh. os santos pretos! seriam eles os intercessores pela nossa infeliz terra, que regaram com, seu sangue, mas abençoaram com seu amor!

JOAQUIM NABUCO, Minha Formação, 1900.

I - A GERAÇÃO MALDITA DE CHAM

18 Eram pois os três filhos de Noé, Sem, Cham e Jafeth. Cham porém é o pai de Canaã.

19 ... por estes se propagou todo o gênero humano, sobre toda a terra.

20 Noé, aplicando-se à agricultura, começou a trabalhar a terra, e plantou uma vinha.

21 E tendo bebido do vinho, se embebedou e apareceu nu na sua tenda.

22 O que tendo visto Cham, pai de Canaã, a saber, a vergonhosa nudez em que estava seu pai, veio fora dizê-lo a seus dois irmãos.

23 Mas Sem e Jafeth tendo posto uma capa sobre seus ombros cobriram com ela a nudez de seu pai.

24 Noé porém despertando da bebedice, como se soubesse o que lhe tinha feito o seu filho menor, disse:

25 Maldito seja Canaã: ele será escravo dos escravos de seus irmãos.

26 E acrescentou: Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã seja seu escravo.

27 Dilate Deus a Jafeth, e habite Jafeth nas tendas de Sem; e Canaã seja seu escravo.

Gênesis, IX, trad. de Antônio de Figueiredo. Lisboa, 1896.

Isto aconteceu atrás da caligem das eras.

A terra ainda estava úmida do dilúvio, que extinguira a espécie humana e todos os outros animais do mundo.

Só restavam os seres vivos que o Senhor mandara abrigar na arca, encalhada agora nas altitudes da Armênia, num dos montes Ararat.

Ao sair da arca de cipreste, que Noé levara cem anos a construir, o ancião recebeu, com seus filhos, a bênção do Senhor.

E voltou-se para a agricultura, que sempre fora a profissão de Lamech, seu pai. Plantou uma vinha, fabricando vinho, de que bebeu, embriagando-se, tendo assim aparecido nu em sua tenda. Não demorou

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a cair no solo, dormindo bêbedo. Ora, Nóé, que era um dos dez patriarcas antigos, jamais bebera vinho e ficara tonto involuntariamente.



Cham, seu filho mais moço, ao encontrá-lo ébrio, fez pilhérias, chamando os irmãos para gozarem o pai embriagado. Sem e Jafeth, penalizados, buscaram um manto para comporem o ancião, sem ver sua nudez, pois o cobriram com o maior respeito, de rostos voltados para outro ponto.

Ao acordar da bebedeira, Noé teve a intuição divina do que se dera, e abençoou a Sem e Jafeth com suas gerações, amaldiçoando a Canaã, filho de Cham.

Noé amaldiçoara o neto e a toda a sua descendência para sempre, até o fim das idades.

Por que amaldiçoara o neto e não a Cham, o que se rira dele? Porque Cham fora abençoado pelo Senhor quando a família dos eleitos descia da arca. Quem era abençoado por Deus estava livre de qualquer maldição direta, e Canaã, o primogênito de Cham, sofreu, com sua progénie atual e futura, o terrível castigo da maldição pelo erro paterno. Era vigorante o anátema bíblico atingindo filhos e todos os seus herdeiros carnais. No caso, o neto sofria o pavoroso estigma que estava para sempre indelével em toda a sua raça. Os justos pagavam pelos pecadores.

Quando Noé deixou a arca, na hora da bênção da família, Deus disse-lhes:

- Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra...

Os filhos de Cham eram Cos, Mezrain, Futh e Togarma.

Depois da excomunhão, Cham tomou seu cajado, abandonando as tendas paternas. E à frente da esposa, dos filhos, mulheres e herdeiros destes, partiu para assombrosa viagem à procura de plagas longínquas, onde cumprisse a palavra de Deus: Multipilcar e encher a terra, que ficara despovoada. A terra enxugava do dilúvio, que durara cento e cinqüenta dias. Os morros apareciam sem vegetação, as águas acomodavam-se nos leitos primitivos. A desolação do mundo era formidável. Toda a carne que se move sobre a terra foi consumida; todas as aves, todos os animais, todas as bestas e tudo que anda de rastros sobre a terra. E todos os homens morreram; e geralmente tudo que tem vida e respira debaixo do Céu. Todas as criaturas que havia sobre a terra, desde os homens até as bestas; tanto o que anda de rastros, como os que voam pelo ar, tudo pereceu na terra... Só restaram Noé e os que Deus permitiu ficarem na arca.

Deus parecia arrependido diante do aspecto desolador do mundo, arrependido do castigo que impusera aos seres vivos, homens, bestas e plantas, pois, sentindo o cheiro suave da terra molhada, falou para todo o sempre:

- Não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens. Porque o sentido e o pensamento do coração dos homens são inclinados para

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o mal, desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum, como fiz. Ver-se-ão sempre as sementes e as searas, o frio e o verão, o estio e o inverno, o dia e a noite, sucedendo um ao outro todo o tempo que a terra durar.



No entanto, Cham, cheio de horror, caminhava com sua família execrada, pelos rumos desertos; seguia para diante, conduzindo poucos animais que arrebanhara dos salvados da arca. Palmilhava com seu clã a terra triste, tocado das tendas nativas sem a bênção dos pais, sem um adeus de despedida dos que foram seus e que ficaram nos planaltos da Armênia.

Cham partira por ser impossível ficar, amaldiçoado em todas as suas gerações, pois a maldição bíblica isolava os condenados de qualquer contato humano que não fosse também atingido. E também porque, ficando, seria para ser escravo, e seus parentes serem escravos dos irmãos mais velhos e de suas famílias.

Os amaldiçoados ficavam nos tempos primitivos como os leprosos da idade média: não tinham direito de água e fogo, nem podiam entrar nas aldeias, de onde eram escorraçados a pedras. Cham fugia sem olhar para trás...

No avançar através dos vales, planícies, morros e bocainas, sua marcha era lenta e, seguindo sem destino, já cumpria a ordem divina, pois foram nascendo filhos seus e de seus filhos. Multiplicavam-se, para povoar de novo a terra de homens condenados.

Essa marcha demorava. Deu tempo de sobra para reprodução dos animais que fugiam para os sertões africanos.

Caminhos sem destino... Sim, o grupo de retirantes dos altiplanos áridos da Armênia viajava sem roteiro, não sabendo aonde ia. Era preciso caminhar para a frente, povoar os ermos do mundo vazio...

Ao tocarem as plagas africanas, os viajantes de tantas décadas estranhavam a natureza hostil. A vegetação cobria o solo e assombrava nas florestas afrontosas. Apareciam baobás com dez metros de altura, vinte e três metros de circunferência. Seus ramos mediam vinte e cinco metros de comprimento, e tão grossos como árvores milenares das florestas americanas. O peso desses ramos é tamanho que eles vergam para o chão, formando imensa cúpula verde, fechando espaço vasto como nave de catedral. Suas raízes empurrando a terra ficam expostas, ásperas, tão grandes quanto os galhos. Pendiam dos ramos frutos de um metro de tamanho. Nos anos de maior estiagem, quando as savanas secavam, os elefantes fendiam-lhes a casca de alto a baixo com as presas brutas, para comerem-lhes a polpa. Ali estavam os crocodilos de nove metros, ancorados nos pauis, à espera de animais que chegavam para beber. Bramiam nas noites escuras leões negros saindo para caça. Seus urros dados com o focinho no chão se espalhavam até longe, assustando as impalas ariscas. Banhavam-se com delícia nos rios os hipopótamos, cavalos-d'água de quatro toneladas de peso. As

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hienas cinzentas mosqueadas de negro acompanhavam os viajantes, à espera de que alguém caísse, vencido pela caminhada. Elas só atacam as vítimas quando tombadas; são o mais covarde dos animais e, se perseguidas, encantoadas, fingem-se de mortas para fugir depois de passado o perigo.



Leopardos iam farejar, à noite, à porta das tendas.

Do céu, de bem alto, onde dominam o sol e os ventos, desciam águias-reais cor de ferrugem, com as caudas esbranquiçadas, que desafiavam os caminhantes com os vivos olhos ferozes. Assustava a corpulência repulsiva dos orangos e dos gorilas violentos que desciam das árvores colossais para ver de perto os homens invasores de sua solidão. Desfilavam, em colunas, calmos elefantes de porte maior que os da Ásia. Galopavam pela savana lotes de zebras, de gazelas, de avestruzes, de bisões. Esses animais eram descendentes dos trazidos por Cham e que se espalharam pelo continente nos séculos que já durava a viagem dos malditos.

Nos pousos noturnos perturbava a paz do sono o estrondo das cachoeiras. O calor fervia o sangue. No chão ardente que pisavam amadureciam os diamantes em milénios de cristalização do carbono puro. O ouro apurava-se, amarelava, escondido na terra adusta, requeimada pelo sol e pelos mormaços. Aqueles diamantes e o ouro seriam alegria no colo e nos dedos das mulheres brancas oriundas de Sem, que povoavam a Europa e a Ásia.

Aquilo era a África, península de um milhão, setecentos e cinqüenta mil léguas quadradas, terra em que os providos de Cham haveriam de nascer pretos, para que se cumprisse toda a maldição de Noé. As famílias cresciam, compensando a aspereza da caminhada com os oásis do amor. Os filhos de Cos riam na sombra das tendas: já eram Saba, Hevila, Sabata, Regma, Sabatacha... Nasceu-lhes mais Nemrod, o caçador valente, que fundou o Reino de Sanaar, tendo Babilónia por capital e cidades nascentes de Arach, Accad e Calame. Esse mesmo Nemrod dilatou seu Reino, fundando a Assíria e edificando Nínive, Resen e a grande cidade de Cale.

Mezraim acampava no que seria o Egito, e ganhou mais filhos, Ludim, Anamim, Leabim, Neftnim, Fetrusim e Casluim, de onde sairiam os filisteus e os captorins.

Canaã orgulhava-se de seu primogênito Cidônio e mais Heteu, Jebuseu, Amorreu, Gergeseu, Heveu, Araceu, Sineu, Samoveu, Amateu, Aradio... Deles nasceriam os cananeus, pois Canaã povoara as terras que tiveram seu nome, nas planícies do Jordão. Cuxe, outro filho de Cham, instalou-se na Etiópia.

Mas que era aquilo? Os descendentes de Cham fundavam colónias em terras devolutas, em terras sem dono, separadas por milhares de léguas? É que sua família passou a tribo, a povo, a nação, ainda em vida de Noé, que viveu 950 anos.

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A raça de Cham povoou terras abrasadas pelo sol intertropical e nascia preta ou morena acobreada, formando nações as mais diversas da África. Os que provieram dele têm pele escura ou negra, já por seu sangue, já pelo rigor do clima de calor insuportável e sol inclemente. Eram povos sem espírito de liderança, muitos sujeitos a nações miscigenadas por sangue de outros continentes. Não nasciam para mandar, mas para obedecer, escravos como predissera, com o espírito do Senhor, o patriarca Noé.. .



Toda a África estava povoada pela geração maldita de Cham. Essa raça enfrentava a natureza hostil e constituía-se de tribos, hordas, bandos selvagens ou bárbaros, pacíficos ou antropófagos.

Os povos da África originária, muitos com línguas próprias, usos particulares e mitos tribais, estavam sujeitos às leis evolutivas. Com o rolar dos milénios, seria possível que a raça ficasse livre do estigma lançado por Noé sobre seu neto Canaã. Pois isso não aconteceu. O continente negro foi invadido por muitos povos, conquistadores que ali buscavam terras para colónias, ouro, madeiras, escravos. Homens louros do Norte, os tamaus, asiáticos, fenícios e romanos pilhavam a terra negra para levar tesouros e ficar como senhores.

Buscavam ouro, madeiras, escravos.. .

Cumpriu-se desse modo a maldição do patriarca:

- Maldito seja Canaã: ele será escravo dos escravos de seus irmãos.

Cham e seus filhos fugiram de seu torrão buscando terras as mais remotas, para povoá-las e serem senhores de sua liberdade. Não conseguiram. Agora que sua geração era povo numeroso, de milhões de criaturas, esse povo continuava escravo de outras raças, outras civilizações, outros homens, provindos de seus irmãos Sem e Jafeth...

A África ficara quase desconhecida do mundo, pois era impossível desvendar-lhe o interior, habitado por aborígines agressivos. Seus grandes rios eram pouco navegáveis, o que dificultava ainda mais a penetração comercial.

Quando reinava em Portugal Dom João II, o Príncipe Perfeito, o sonho de sua nacionalidade era conhecer o Império de Prestes João, o Império Monotopata e o grande Reino do Congo antigo, de que os navegadores ouviam nos seus cruzeiros tradições alucinantes. O Infante Dom Henrique estabelecera em Sagres uma escola de náutica, destinada a projetar expedições marítimas pelo Mar Tenebroso, julgado inavegável pelos navegantes antigos.

Inspirado na sua febre de descobrimentos, Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, na costa ocidental da África. O Infante delirava por viagens pioneiras e piorou de sua monomania ao receber de seu irmão Pedro, que excursionara pela Europa, o manuscrito copiado das Viagens de

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Marco Polo pela Ásia, vedada a estrangeiros, através da Mongólia. Dom Henrique sonhava um Reino ainda em terras encobertas e, sob seu influxo meio fanático, vários capitães procuravam, costeando a África, o caminho marítimo das índias.



Descobrir o caminho das índias foi a suprema aspiração dos Monarcas portugueses. Havia ardente emulação de Portugal e Espanha na conquista de terras ignotas. Foi quando Diogo Cam descobriu a foz do Rio Congo, que dava acesso ao antigo Império do Congo.

Estabeleceu-se ligeiro comércio entre os dois povos, e mais tarde Dom João II mandava armada com embaixadores e presentes ao soberano do Congo. Morto o Rei português, seu sucessor Dom Manoel iniciou correspondência com o colega africano, chamando-o de primo.

Era o Rei africano, o bravo guerreiro ainda jovem Mobemba Muzinga, bisneto do primeiro Rei conquistador e povoador do Congo, Motinu Nimi, que fizera tremer de medo todos os povos da África Central, até a Etiópia.

Estava, pois, sentado no trono do grande Congo, fundado pelo invencível Rei Aluquene, o valente Mobemba Muzinga, Muene-Congo dos Abundos e da conquista de Pazoollumbo, Senhor de Angola, Huembo, Loango, Malembo, Benguela, Calinda, Bamba, Sundi, Tanga, Bata, Tenha, Sió, Huemba, Engói, Bengo, Benta, Colongo, Maiomba, Matamba, Ambriz, etc. Quando o Príncipe Herdeiro Mobemba Muzinga viajava pelo interior do Reino, o velho Rei, seu pai, morreu. Seu irmão natural Penzo Muzimba, adversário do herdeiro, com o apoio do Exército, usurpou-lhe o trono. Mas o Príncipe marchou resoluto para a capital, Banza-Congo, acompanhado apenas por 35 guerreiros leais. Antes da morte do Rei seu ascendente, já era respeitado no cargo oficial de Capitão da Guerra Preta, comandante do Exército nas guerras contra nações e tribos insubordinadas.

Ao chegar à capital, percebendo a indecisão das forças adversárias, provocou-as a combate. Usando tática aprendida no jungle, venceu o usurpador, recebendo a submissão das tropas escravas, ainda no campo de honra. O Exército opositor, com 3 000 homens, recuara em desordem, abatendo bandeiras diante do guerreiro invicto.

Ao terminar a batalha, que ele enaltecia combatendo na vanguarda como o primeiro, o quilolo, com flechas, cachamorra, faca, azagaia e espada, o novo Rei cortou a espada a cabeça do usurpador. Jogou então para longe o escudo de couro de hipopótamo, onde estavam desenhadas suas armas reais, e sorriu com soberbo orgulho, senhor de sua força física. Assim também fizeram seus avoengos; aquele sorriso era apanágio da raça, ao esmagar em choques brutos, de muito sangue, os inimigos.

O combate cessara...

Voltou-se então, suado e arquejante, com a espada erguida, a escorrer sangue, para seus companheiros heróicos da refrega:

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Eu sou o herdeiro do nome Do alto Rei Motinu Nimi! Hoje eu sou o Rei Mobemba Muzinga,, que mata o leão Ainda no ventre da mãe!



Subiu ao trono ainda com as mãos molhadas de sangue. O Rei pagão honrava o nome de seus antepassados, agindo com justiça e mão firme. Seus partidários percorriam as ruas, celebrando o grande feito do herói, e ventos ardentes desfraldavam as bandeiras vitoriosas na cidade real de Quibango, que era a capital negra do Congo.

O lutador destemeroso não teve paz depois de sua posse, desde que não demorou, em sua adoidada bravura, a vencer, com o troço do Exército legal de 3 000 homens, a Dembo Ambufla, Rei tributário do Congo, à frente de 100 000 guerreiros curtidos por muitos encontros. Dembo Ambufla avançava para Quibango, a disputar o trono tão dignamente ocupado pelo moço herói.

Por esse tempo, já estavam na sua Corte muitos missionários dominicanos portugueses, que iniciavam a catequese dos idólatras congueses, a serviço do Mechino Ria Puto, nome indígena do Rei de Portugal, Dom Manoel I, o Venturoso.

Mas parece que o que estava em jogo não eram as almas pagãs e sim a expansão mercantil, como faziam a França, a Holanda e a Grã-Bretanha. A salvação das almas idólatras começava a preocupar os Reis católicos da Lusitânia. Dom Manoel, espelho da cristandade, não podia deixar sem luz divina as nações que erguiam templos suntuosos ao ídolo preto Zâmbi-Apungo, o deus dos congoleses...

Os sacerdotes ilustres fizeram trabalho de sapa na montanha da crença de El-Rei Mobemba, de modo que em pouco tempo o bravo pelejador, ex-Capitão da Guerra Preta, abjurou a religião de seus antepassados idólatras e recebeu o batismo cristão. Imitando servilmente o Soberano, alguns de sua Real Casa o acompanharam. Acontece que o batismo não foi geral. Muitos resistiram à mudança e conservaram-se dedicados a seus velhos ídolos.

Mas os sacerdotes exigiram que o Rei esquecesse o próprio nome, substituindo-o pelo de Afonso. Passou a chamar-se Dom Afonso, não se importando com os olhares duros de seus companheiros, veteranos de guerra do tempo do Rei Mutinu Nimi.

Parte de seu Exército se ressentiu com o que acontecia na cidade de Quibango, que os bondosos missionários mudaram também de nome. Chamava-se agora São Salvador do Congo...

Amiudavam-se as cartas do muito alto e muito poderoso Dom Afonso a Dom Manoel, que ele não chamava mais primo, consoante usança nas Famílias Reais, mas irmão. Em outros tempos, pedia ao Rei português

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físicos, cirurgiões e boticários, para ajudar o povo a viver forte. Agora pedia padres, cinqüenta padres, para varrer do antigo Congo tradicional a idolatria que o envergonhava... Numa dessas cartas, tira de si todo o valor na batalha contra o meio-irmão usurpador. Revela que, no ardor do combate, viu no Céu uma cruz alva e apareceu, vestido de branco, o bem-aventurado São Tiago, à frente de cavalaria aérea que desbaratou seus inimigos. Chama à prova testemunhas que viram o milagre. Eis porque vencera! O pobre ex-Mueni-Congo, assombro dos invasores de seu Reino em dias passados, cuja simples pronúncia de seu nome levava os homens a se levantarem com respeito devocional, passava a mentecapto fanático, em êxtase com visões beatíficas...



Passara a ser místico aquele que, outrora, fora o guerreiro valoroso que, com um golpe de espada, decepara uma cabeça e matara o leão no ventre da mãe...

Hoje eu sou o Rei Mobamba

Muzinga, que mata o leão

Ainda no ventre da mãe!

Impôs o culto católico em todos os seus vastíssimos domínios, e ele mesmo passou a freqüentar os catecismos cristãos. Escreveu a Sua Santidade o Papa, mendigando bênção apostólica. Recebeu-a. Pouco lhe importava o vazio aberto entre ele e o Exército conservador do Congo, onde estava a fina flor dos guerreiros endurecidos ao sol das guerras. Pouco lhe importava o povo obediente a Zâmbi-Apungo. O certo é que os missionários venceram a campanha contra a idolatria racial, conquistando o próprio Rei.

O Reino milenar do Congo, fundado pelo legendário Aluquene a custa de- muito sangue, era agora, para todos os efeitos, pacífico tributário do Império Lusitano.

Aconteceu que o universo foi banhado por luz maravilhosa.

Colombo descobrira a América. O Almirante acariciara aquele sonho durante 30 anos e agora, a serviço da Espanha, sob o Rei Fernando, tinha-o diante dos olhos cansados das miragens do oceano.

Para colonizar o Nôvo-Mundo, Dom Fernando V, o Católico, despachou o energúmeno Nicolau Ovando como governador da Hispaniola. O Rei da Espanha ansiava por ouro imediato, montanhas de ouro, para saldar suas dívidas e armar navios para novas conquistas. Sonhava arrecadar na América muito mais que Portugal nas índias Orientais recém-descobertas por Vasco da Gama, e muito mais que o pau-brasil da Colónia de Vera-Cruz, alcançada por acidente pelo Almirante Cabral.

Mas a Hispaniola não revelou ouro. O Rei Católico apertava Colombo, humilhava-o para arrancar das novas terras tesouros mais preciosos que os de Ormuz, Sofala e Pegu. A Hispaniola mostrava-se apta à cultura de cana-de-açúcar, ao áspero labor agrícola...

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O Governador, sem braços para tal empresa, lançou mão dos índios americanos, criados e vivendo na ociosidade mais deliciosa. E como agiu! Escravizando milhares deles com a sanha malaia de desvairado algoz. A colónia espanhola tornou-se o inferno de seus filhos. Quando os encurralava em extenuantes escavações inúteis, à cata de minérios preciosos, aos que reclamavam estar com fome, quebravam os dentes com o punho das espadas. Um desses miseráveis chefes espanhóis, por não ter o que dar a seus cães, tomou uma criança que mamava no seio materno, cortando-a em pedaços com a catana, e jogou os nacos sangrantes para a matilha. Alimentava os cães de estima com as crianças recém-nascidas dos índios, donos milenares da terra...



Um comboio de soldados atravessava um pântano, ao escurecer. O tenente deixou cair seu punhal na lama. Como não o encontrasse, tomou o filho pequeno de uma índia que acompanhava os soldados, atirando-o no brejo, para marcar o ponto em que a arma caíra. Iria procurá-la no dia seguinte, quando clareasse o dia.

Era em vão que os padres dominicanos protestavam contra a barbárie, procurando o próprio Rei para reclamar. Os frades franciscanos apoiavam a matança, e o Papa reuniu seus cardeais para uma providência. Mas acabaram resolvendo que a escravidão era legal e divina...

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