Ruy Viana Junior, fotojornalista e jornalista que passou uma boa parte de sua vida em Londres e Italia, dedicando-se ao estudo e à documentação dos mais variados aspectos da fotografia contemporânea



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Encontro06.02.2017
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Ruy Viana Junior, fotojornalista e jornalista que passou uma boa parte de sua vida em Londres e Italia, dedicando-se ao estudo e à documentação dos mais variados aspectos da fotografia contemporânea. Percorreu países da Europa se espelhando em todas as formas onde o olhar fotográfico a levava. Retornou ao Brasil em 2012, onde reside atualmente.

Saída de Iaô – Pierre Verger



a Imagem em Movimento

Ruy Viana resenha.

Pierre Verger expõe que a sua passagem pela Bahia e África, nos fez lembrar os mitos dos heróis, as histórias dos peregrinos, eremitas, xamas, pessoas que abandonam o lugar de origem e o ambiente familiar para empreender uma jornada pelo desconhecido, rumo ao totalmente oposto ou diferente. Sendo branco e europeu, Verger viveu entre negros da África e do Brasil, após conhecer boa parte dos cinco continentes. Nascido em Paris, uma família burguesa, optou por morar de forma despojada em espaços como o modesto sobradinho do morro do Corrupio em Salvador, cidade brasileira pela qual trocou a então “capital cultural” do mundo. Ele foi educado segundo a racionalidade cartesiana, envolveu-se profundamente com a espiritualidade do candomblé, religião de possessão e sacrifício ritual. Tendo abandonado o curso secundário, tornou-se doutor em Etnologia pela Sorbonne.

Verger fez das escolhas de sua vida uma odisseia em busca da liberdade de ser – na qual herói mítico enfrenta desafios propostos por si mesmo ou pelas circunstâncias - não foram, entretanto, segundo suas palavras, resultados de objetivos conscientemente perseguidos. Na história de Pierre Verger, os fios narrativos se multiplicam, pois, sua vida foi marcada por constantes rupturas e acontecimentos inesperados, deslocamentos de cenários e curiosas coincidências. Como nas várias versões de um mito, as diferentes faces de sua vida – a de estudante indisciplinado, dândi parisiense, viajante solitário, fotógrafo, babalaô, “mensageiro entre dois mundos”, etnólogo e historiador, entre outras – parecem expressar o leitimotiv do “renascimento” continuo.

Significativamente, leitmotiv é a tônica da religião na qual Verger encontrou seu porto seguro: o candomblé. Nesta religião, o “nascimento” espiritual do indivíduo acontece através da passagem por inúmeras etapas, das as quais a Saída de Iaô é exemplar. Por esta razão, os autores optaram por apresentar a trajetória de vida de Pierre Verger por meio da alusão aos diferentes momentos deste ritual iniciativo, homenageando-o, assim, com o reconhecimento de que sua vida e importância neste mundo religioso, e deste em sua vida, não se separam.

A sua iniciação na fotografia se deu por meio dos anos de 1932, em uma de suas primeiras viagens feita a pé por mil e quinhentos quilômetros da Córsega. Verger aprende fotografia com o seu amigo Pierre Boucher. A máquina fotográfica, uma Rolleiflex usada, conseguida por meio da troca de alguns objetos de família, seduziu-o pela possibilidade de registrar, tonalidades e formas com nitidez impressionante. A sedução pelo detalhe e a opção pelo close como enquadramento. Método que chamaria posteriormente de “míope”, já revelam seu desejo de distanciar-se de um olhar convencional e tecnicamente “correto”.



Pellegrini (2002) lembra que Verger fez algo inédito na fotografia e fez a escolha por objetos “não usais” (como as formas da água, das pedras, composições de texturas, a convivência e o equilíbrio de elementos da natureza diferentes etc.) seria o primeiro indício da valorização da parte sem a qual o todo não se constitui. Num segundo momento, quando suas viagens o levam a conhecer as diferentes e exuberantes formas que a humanidade assumia nos locais que visitava, sua sensibilidade para o diferente, o excluído, o recessivo, o singular, parece encontrar com estes uma perfeita comunhão.

Verger possui uma percepção do valor individual que não se perde no coletivo, mas confirma-se na viagem realizada com um grupo de turistas para a URRS, em 1932. Essa viagem foi motivada pelo desejo de opor-se de modo radical ao mundo burguês em que fora criado. Percebe, entretanto, que as virtudes estão nos homens e não nas ideologias, e que a cega oposição ao meio ainda o tornava um refém dele. Sua personalidade desapegada e individualista o leva a distanciar-se das questões políticas que não Europa ganhavam contornos maniqueístas pelo alinhamento quase obrigatório entre posições de esquerda ou direita.


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