Richard Towers, 2011



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Encontro26.01.2018
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Excerto de Reflexos
Quando levantou a cabeça, pôde mirar-se no espelho, constatando um novo estado de espírito, uma nova chama brilhando nas íris, qual renascer inspirado. Sorriu. Gotas insubmissas escorriam-lhe pela face, caindo, insonoras, na pia branca. Ficou algum tempo a observar-se. Era por vezes assustador constatar que ele era aquela pessoa. E, se olhasse com atenção, de forma profunda, podia perceber que não se reconhecia, que não se identificava com aquele ser, aquele homem, aquela máscara que transportava todos os dias. Deixou-se levar até ao limiar do desconhecido e desviou a cara irreconhecível do espelho. Usou a toalha castanha como refúgio da alma. Esfregou bem os olhos e toda a face e voltou a colocar a toalha no suporte. Lançou novo olhar para o seu reflexo, usando de uma certa abstracção para não se enredar em pensamentos metafísicos desnecessários, mas não deixou de se sentir algo preso a questões que o atormentavam, de tempos a tempos, e que voltavam a toldá-lo naquele momento. Quantas vezes se detivera, olhando para as formas que assumia diante da superfície espelhada? Quantas vezes se perdera diante de si próprio, tentando encontrar-se num estranho labirinto que se formava nos seus olhos, qual fosso profundo e infindável? Quantas vezes se questionara acerca da verdade escondida por detrás daquele olhar, por detrás da sua máscara? Por mais que se aventurasse, por mais longe que se lançasse à descoberta de si, mais questões surgiam e menos se conhecia. Era um caminho impossível. Teve de abandonar a demanda, mais uma vez.


In Reflexos, Richard Towers, 2011 (págs. 7-8)


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