Resumo crítico manguel, Alberto. Leituras proibidas



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RESUMO CRÍTICO
MANGUEL, Alberto. Leituras proibidas. In. Uma história da leitura. Tradução: Pedro Maia Soares. Companhia das Letras 2004. (p 161-167)

Rosemeri Sobrinho Gomes



Por certo a leitura tem a capacidade de influenciar nosso modo de agir, pensar, possibilitando a compreensão do mundo em que o leitor vive, transformando o leitor em protagonista de sua história. Esse poder da leitura fez com que, na história da humanidade, aqueles que detinham o poder, não permitissem o acesso a todos à leitura, ao livro. É sobre essa interdição que o capítulo “Leituras proíbas”, parte da obra “Uma história da leitura” de Alberto Manguel trata.

O autor inicia o capítulo destacando que em 1660, Carlos II, rei da Inglaterra decretou que o Conselho para as Propriedades Rurais no Exterior deveria instruir os nativos, servos e escravos das colônias britânicas nos preceitos do cristianismo. Carlos, que, como Lutero ensinara, a salvação da alma dependia da capacidade de cada um de ler a palavra de Deus por si mesmo. Mas os donos de escravos britânicos não estavam convencidos disso. Temiam a própria ideia de uma "população negra alfabetizada”, que poderia assim encontrar ideias revolucionárias perigosas nos livros, pois se os escravos pudessem ler a Bíblia, poderiam ler também panfletos abolicionistas e que mesmo nas Escrituras seriam capazes de encontrar noções incendiárias de revolta e liberdade. A oposição ao decreto de Carlos foi mais forte nas colônias americanas e mais forte ainda na Carolina do Sul, onde, um século depois, criaram-se leis rigorosas proibindo todos os negros, escravos ou livres, de aprender a ler. Essas leis permaneceram em vigência até a metade do século XIX. Durante séculos, os escravos afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente difíceis, arriscando a vida num processo que, devido às dificuldades, levava às vezes vários anos. Aprender a ler, para os escravos era uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos poderosos de seus opressores: o livro. Os donos de escravos acreditavam firmemente no poder da palavra escrita. Sabiam, muito mais do que alguns leitores, que a leitura é uma força que requer umas poucas palavras iniciais para se tornar irresistível. Quem é capaz de ler uma frase é capaz de ler todas. Como séculos de ditadores souberam, uma multidão analfabeta é mais fácil de dominar; uma vez que a arte da leitura não pode ser desaprendida, o recurso é limitar seu alcance. Portanto, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sido a maldição das ditaduras. Manguel afirma que a censura de qualquer tipo é o corolário de todo poder, e a história da leitura está iluminada por uma fileira interminável de fogueiras de censores, dos primeiros rolos de papiro aos livros de nossa época. As obras de Protágoras foram queimadas em 411 a.C., em Atenas. No ano de 213 a.C., o imperador chinês Chí Huang-Ti tentou acabar com a leitura queimando todos os livros de seu reino. Em 168 a.C., a biblioteca judaica de Jerusalém foi deliberadamente destruída durante o levante dos macabens. No primeiro século da era cristã, Augusto exilou os poetas Cornélio Calo e Ovídio e baniu suas obras. Em 10 de maio de 1933, em Berlim, diante das câmeras, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros para uma multidão entusiasmada de mais de 100 mil pessoas. Queimou os livros de Freud. Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich Mann, Jack London, Bertold Brecht, entre outros. Em 1872 Anthony Comstock fundou em Nova York a Sociedade para a Extinção do Vício, o primeiro conselho de censura efetivo dos Estados Unidos. Destruiu 160 toneladas de literatura considerada por ele de obscena. Balzac, Rabelais, Walt Whitman, Bernard Shaw e Tolstoi estavam entre suas vítimas. O fervor de Comstock foi também responsável no mínimo por quinze suicídios. "A arte não está acima da moral. A moral vem primeiro", escreveu Comstock. "A lei vem em seguida, como defensora da moral pública. A arte só entra em conflito com a lei quando sua tendência é obscena, lasciva ou indecente." Em 1981, por exemplo, a junta militar liderada pelo general Pinochet baniu Dom Quixote do Chile porque o general achava que o livro continha um apelo pela liberdade individual e um ataque à autoridade instituída. Em 1559, a Sagrada Congregação da Inquisição Romana da Igreja católica, publicara o primeiro Índice dos livros proibidos - uma lista de livros que a Igreja considerava perigosos para a fé e a moral dos católicos.

Manguel coloca que leitores autoritários que impedem outros de aprender a ler, leitores fanáticos que decidem o que pode e o que não pode ser lido, leitores estoicos que se recusam a ler por prazer e exigem somente que se recontem fatos que julgam ser verdadeiros: todos eles tentam limitar os vastos e diversificados poderes do leitor. Mas os censores também podem adotar formas diferentes em seu trabalho, sem necessidade de fogueiras ou tribunais. Podem reinterpretar livros para torná-los úteis apenas a eles mesmos, para justificar seus direitos autocráticos. O mesmo ato que pode dar vida ao texto, extrair suas revelações, multiplicar seus significados, espelhar nele o passado, o presente e as possibilidades do futuro pode também destruir ou tentar destruir a página viva.



A leitura, esse processo irreversível, supera o próprio texto e a intenção do autor, uma vez que leva o leitor a desprender diversos significados, refletir sobre si mesmo e sobre o mundo que vive. É fonte de temor por aqueles que controlam o poder, mas mesmo com tantas proibições (como aquelas destinadas aos escravos afro-americanos), censuras, com a destruição de obras, o ato de ler sempre se fará presente, uma vez que a busca do conhecimento é pertinente ao homem. Haverá sempre um leitor e um autor que, mesmo diante da censura, dará seu recado, denunciando ou levando o leitor a reflexão. Manguel, através de “Leituras proibidas” mostra como é importante a leitura e como essa é vista pelos ditadores. É um texto bem elaborado, conciso, coerente e de fácil entendimento.


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