RelaçÕes homo afetivas esquete teatral relações Homo afetivas!



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RELAÇÕES HOMO AFETIVAS – ESQUETE TEATRAL

Relações Homo afetivas!

Sinopse


Relações Homo Afetivas é uma experimentação cênica realizada entre jovens atores que passam por vivências poéticas, conflitos familiares, deslumbres da imaginação juvenil e pelo enfrentamento do preconceito.

Atores


Léo

Patrícia


Gustavo

Verônica


Ambientação cênica

Lanchonete e sala de ensaio de um grupo teatral

Cena I – Encontros

Léo e Verônica

Léo sentado em uma cadeira de lanchonete, toma um suco, Verônica se aproxima.

Verônica – (Surpresa e euforia) Léo! Meu Deus, não estou acreditando.... Você voltou?

Leo – (Deixa o suco sobre a mesa e levanta-se para abraçar a amiga) Verônica, sua louca!

Verônica – Você some e a louca sou eu?

Leo – É verdade amiga... Amanhã completa quatro anos...

Verônica – Parece que já tem dez... Caracas! Quanto tempo!

Leo – É muito tempo, né Vê?

Veronica – Puxa Léo, nem estou acreditando... Mas está de volta ou de passagem?

Leo – Voltei, amiga! Me dê notícias da galera.

Verônica – Senta Leo, vou falar de todo mundo...

Leo – Que bom te encontrar amiga!

Verônica – Vou começar pela Pat... Aliás, ela vem me encontrar daqui a pouco...

Leo – Jura? Patrícia é uma das pessoas mais importantes da minha vida...

Verônica – Eu sei disso, ela também tem uma imensa consideração a você...

Leo – Você entendeu a minha saída, a viagem pro exterior e todas as decisões que tomei?

Verônica – Compreendo você, amigo! Deixa eu te contar...

Leo – Antes quero te pedir uma coisa, não me fala nada sobre o meu pai, ok?

Verônica – Nada, nada?

Leo – Por favor, nada, ok Vê?

Verônica – Ok Leo! O nosso grupo de teatro continua ativo, estamos ensaiando um novo espetáculo, o texto é de Gustavo... (Leo, levanta-se desconcertado) O que foi Leo?

Leo – Gustavo está escrevendo peças de teatro?

Verônica – Ele só não escrevia antes, porque tínhamos você. Patrícia está cada vez mais linda, diz que no final do ano vai sair de casa e vai experimentar morar sozinha...

Leo – Ela vai completar vinte e um anos, né isso?

Verônica – Isso mesmo, está decidida, quer enfrentar a família, Pat amadureceu muito...

Leo – Imagino que sim... Lembro que a maior preocupação dela, era entrar na universidade...

Verônica – Já está no sétimo semestre de Artes Cênicas, sempre fala que ainda vai montar um texto seu... (Patrícia chega, fica paralisada na frente de Leo)

Cena II – Desabafo

Patrícia, Leo e Verônica.

Patrícia – (Quase chorando) Leo! Leo?

Leo – Minha Pat... (Se abraçam e ficam imóveis por alguns segundos)

Verônica – Que coisa mais linda! Eu sempre ficava pensando no dia em que vocês pudessem se encontrar... Imaginava que seria assim mesmo, desse jeito!

Patrícia – Oh Leo, sonhei com você por muitas noites...

Leo – Eu sonhei com você por muitas noites, minha Pat do meu coração!

Verônica – Fala pra ele que você vai morar sozinha, fala Patrícia...

Pat – Foi muito dolorido acordar um dia, te procurar e saber pelos outros que você tinha partido, que o monstro do seu pai tinha conseguido se livrar de você... O meu coração entrou em pânico, dezessete anos de vida não foram suficientes para me preparar...

Leo – Tinha que ser assim... Ou eu não teria outra chance...

Verônica – Ninguém pode julgar você, ninguém pode te cobrar nada!

Pat – Eu só sei que doeu muito! Depois Verônica foi me explicando as coisas, eu compreendi tudo e sei que essa foi a melhor maneira que você encontrou para superar tudo...

Leo – Foi muito difícil ter a minha vida exposta para toda a família, sofrer ameaças de morte e de humilhação perante a sociedade hipócrita da nossa cidade... Eu quero que vocês saibam que eu não fugi, fui buscar abrigo na Europa, onde dois amigos podiam me ajudar... Escrevi um texto dramático sobre aquilo que vivi...

Pat – Compreendo tudo amigo, mas foi muito difícil, era o momento em que o nosso grupo tinha recebido convite para viagem e dez apresentações, era todo um sonho se desfazendo sem respostas... No início, senti raiva, fiquei meio depressiva, depois fui superando tudo e entendi a sua decisão não compartilhada...

Verônica – Então, vamos para o ensaio? Ainda teremos bastante tempo para conversarmos... (Saem em direção a sala de ensaio)

Cena III – Solidão



Leo (Monólogo)

Leo – A vida nos oferece algumas oportunidades, umas são só representativas, não dizem nada que se pareça com os seus propósitos, outras, são instigantes, desafiadoras e promovem uma grande tensão na alma... A juventude é um prato cheio de indagações, dúvidas, festas constantes do coração... Mas é também, um mar de realizações nas descobertas, nos encontros, na amizade, nos amores... Meu Deus, como os adultos se enganam quando dizem que nós não entendemos nada sobre o amor! Sabemos, sim, não só sobre o amor, mas também sobre as nossas escolhas... A família, em muitas ocasiões, se sentem responsáveis por educar, criar, resolver e decidir sobre tudo, sobre qualquer coisa que diz respeito a vida dos seus membros mais jovens... É como se ser jovem, fosse ser incapaz... de pensar, de decidir, de escolher, de amar... Esse é o ponto. Amar! A família, as vezes pensa que sabe tudo, tudo sobre os seus entes, tudo sobre os seus direitos... Direitos? Para alguns adultos direito é obediência cega! Comigo aconteceu tudo muito de repente, quer dizer, quase tão de repente, que não tive muito tempo para pensar... Eu tinha dezenove anos, frequentava a casa de uma amiga, a Patrícia, o meu pai, resolveu entender que eu e a Pat erámos namorados... Por mais que negássemos, a coisa foi ficando muito séria. Papai se dava ao luxo de comprar presentes para eu dar à Pat... Nós dois negávamos essa relação, dizíamos que erámos apenas amigos, mas ele duvidava, chegava a insinuar que nós ainda estávamos novos para lhe dar um neto... Meu Deus, quanta insanidade... ele insistia que se eu precisasse de dinheiro para ir a um motel, pegar táxi... Essas coisas absurdas que o machismo cria... Cada vez mais, eu ia me afastando da minha própria família, me sentindo só e frustrado, porque estava sendo sufocado... O tempo passou, Patrícia ficava insegura, sem saber o que dizer, a gente se encontrava para fazer leitura de textos, as vezes na minha casa, outras vezes na casa dela, onde tudo era diferente, onde nunca me senti pressionado... Nós dois conversávamos, pensamos até em fingir ser namorados, mas decidimos que isso não seria bom, porque erámos os melhores amigos que podíamos desejar. Desses que são confidentes até a alma. Por muitas vezes, eu disse a meu pai que Pat era a minha melhor amiga, mas ele insistia (Imita a voz do pai) Você está comendo calado, né seu safado? Filho, use camisinha, mas jogue duro, essas novinhas ficam doidas... Aquilo era ultrajante, o meu pai se tornava cada vez mais insuportável... A minha mãe, não dizia nada, mas o apoiava em silêncio... Dona Almerinda, minha mãe, adoeceu, perdeu a saúde e a vida muito rapidamente. O meu pai aumentou a pressão sobre mim, tudo estava muito insuportável... Até que um domingo, fim de tarde, ele tinha ido para o futebol, foi quando um amigo veio me visitar, nos sentimos seguros sozinhos, conversamos, tomamos vinho e de repente, rolou um beijo... Isso foi tudo, mas o meu pai foi chegando, viu apenas que nós dois estávamos abraçados, não entendeu a situação, me chamou de gay, chutou o meu amigo, me deu um safanão e botou porta afora... Senti uma dor enorme no centro da minha alma, tentei conversar com ele, mas ele tinha bebido e disse-me que ia na rua e se na volta me encontrasse em casa, eu seria morto... Papai é desses homens que acredita na máxima: Antes morto ou ladrão do que gay... Não tive escolha, peguei o que pude, fugi para a casa de um amigo em outra cidade, não deu pra falar com Pat, não deu pra falar com ninguém, recebi ajuda de uma tia, encontrei dois bons amigos e fiz o que ele esperava... Desapareci!

Cena IV – Ensaio

Gustavo, Patrícia, Verônica e Leo.

Ambientação cênica – Palco, com escadas, caixas de madeira, uma banquinha de centro e duas cadeiras.

Gustavo – (Sentado no terceiro degrau de uma escada de madeira) Pô galera, demorou...

Verônica – Deixa de nervosismo viu, Gustavo?

Gustavo – Até você Verônica? Não me lembro de nenhum atraso seu esse ano...

Verônica – Pois é, você devia ser mais tolerante... Se eu e Pat estamos atrasadas foi por um bom motivo...

Gustavo – Então, vocês podem explicar, por que estão chegando com vinte e sete minutos de atraso?

Patrícia – Eu ainda estou meio sem fôlego, mas prefiro não falar nada agora, só peço desculpas...

Gustavo – Tudo bem. Trouxeram o texto?

Patrícia – É claro, né Gustavo, estamos na fase de leitura dramática... Não foi isso que combinamos?

Gustavo – Exatamente! Vamos começar, Vê?

Verônica – Vamos Gustavo, ainda estou meio trêmula, mas vamos começar por Mario Quintana, ok?

Gustavo – Ok, a colagem...

Verônica – (Como se falasse com a plateia) Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesma.



No começo eu era só certezas.
No meio eu era só dúvidas.
Agora é o final
e eu só duvido.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém. E poder ter a certeza absoluta de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, e que faço falta quando não estou por perto.

Gustavo – (Descendo os degraus e dando o texto)

Minha vida não foi um romance...
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar! 
Pobre vida que toda depende
De um sorriso.. de um gesto.. um olhar...

Pat – (Desliza sobre o palco, com um enorme véu preso na cabeça)

Amar, nunca me coube
Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou

E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,

Não possa me salvar

Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento

E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior

Leo – (Aparece, como se fizesse parte do espetáculo, Gustavo ajoelha-se e chora) Permita-se rir e conhecer outros corações. Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros, aprenda a viver sua própria vida.

Gustavo – (Aplaudindo) Meu Deus! Eu não acredito, Leo? Meu Deus, você ainda lembra o texto de Mario Quintana?

Cena V – Confissões

Leo, Gustavo, Patrícia e Verônica.

Verônica – Entendeu agora por que nos atrasamos?

Gustavo – Vocês não me contaram nada...

Pat – Você deixou?

Gustavo – Eu quase não acredito... Como foi isso de você aparecer aqui, Leo?

Verônica – Essa é uma longa história, vocês terão muito o que conversar...

Leo – Eu espero não ter atrapalhado o ensaio de vocês...

Gustavo – Você só abrilhantou o nosso ensaio, digo mais, se voltou para ficar, pode fazer parte do espetáculo. O que acha?

Verônica – Isso não é um convite, é uma intimação...

Pat – Não aceitamos recusa...

Leo – Tou dentro!

Verônica – Viu, meu amor, eu disse as que as coisas iam engrenar, não foi? (Abraça Pat e ficam com rostos colados)

Leo – Mentira! Não acredito... Vocês...

Pat – Isso mesmo Leo, nós estamos juntas e ninguém vai descolar... É por isso que quero morar só... A minha família nos apoia...

Verônica – A minha família adora a Pat, nós nos amamos e temos muito para comemorar...

Leo – E você Gustavo, casou? Ta namorando...

Gustavo – Desde aquele dia em que o seu pai me chutou e colou você pra fora de casa... Eu tomei uma decisão, esperaria você pelo resto da minha vida, mesmo que fosse para ouvir um não...

Leo – Mas eu digo sim, Gustavo, sim para a liberdade, sim para o amor, sim para a superação, sim para o respeito...

Gustavo – Eu sabia... (Se abraçam) Tem mais galera, o patrocinador ligou pra mim e confirmou as nossas apresentações, inclusive, inclusive... Já enviou a proposta para uma empresa de produção, que leu o nosso projeto e aceitou o desafio...

Todos – (Abraçados, ficam pulando e festejando. Música alegre).





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