Registros memorialistas brasileiros e portugueses: Mensagens emocionais sobre o vínculo social da relação emoção-doença1



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Registros memorialistas brasileiros e portugueses:

Mensagens emocionais sobre o vínculo social

da relação emoção-doença1

Cícero José Alves Soares Neto/UFU

ciceroalves@prove.ufu.br

Introdução

Esta comunicação oral aborda o corpo como fonte de mensagens emocionais de pessoas públicas com registros de sofrimento humano como portadores do câncer. Especificadamente, este ensaio objetiva investigar memórias pessoais publicadas destes seres que se transformaram em autores dos registros das mensagens emocionais da dor humana. Portanto, a meta desta reflexão é sistematizar o conhecimento do vínculo da relação emoção-saúde, sob a luz dos princípios da teoria taoísta, materializados na medicina tradicional chinesa, com a diretriz paradigmática do “chi”. Conceitualmente, inicialmente, foca-se nos fundamentos da polaridade Yin-Yang, na teoria dos cinco elementos, nos ciclos de criação e do controle e no paradigma energético do “chi”. Além disto, a materialização deste conjunto se configura na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), como recurso analítico de inserção interpretativa para compreender as mensagens somáticas de pessoas públicas cometidas de câncer e autoras de registros memorialistas do sofrimento humano. Portanto, a questão central desta investigação busca identificar qual a origem da mensagem somática do conflito emocional que as pessoas públicas portadoras do câncer materializam nos registros memorialistas publicados nas obras? Metodologicamente, esta pesquisa se caracteriza por ser um estudo histórico com base na fonte documental dos registros memorialistas dos autores portadores de câncer. Neste horizonte temático, em última instância, a intenção é compreender os registros emocionais do conflito social, por intermédio das mensagens somáticas e identificar nos registros memorialistas a fonte dos vínculos do adoecimento social.

E qual a lógica estruturante deste ensaio?

Estruturalmente, a reflexão encontra-se organizada em três temáticas: na primeira, a abordagem é essencialmente histórica, na qual se apresenta o encontro do autor com o assunto, construída a conscientização do fenômeno no processo de trabalho metodológico, no ensino superior, a partir de 1985, na Universidade Federal de Uberlândia, até 2015, ano da aposentadoria do docente2. Trata-se de evidenciar a emergência do processo histórico de despertar do que era o problema vinculado aos mecanismos de auto sabotagem e como ocorria o processo de adoecimento social. Na segunda, evidencia-se o percurso histórico do procedimento metodológico da investigação, com o fim de socialização da caminhada adotada neste percurso, principalmente nos congressos de cunho social que sinalização com questionamentos fundamentais para a construção desta via de investigação. Por fim, na terceira temática, privilegia-se apenas a rede conceitual que norteia esse horizonte teórico, por intermédio dos princípios da teoria taoísta, como a teoria dos cinco elementos, os ciclos da criação e do controle e a polaridade yin-yang. Além disto, apresenta-se o paradigma do “chi” para fundamentar a compreensão do assunto. Principalmente, sob o parâmetro do olhar de Medicina Tradicional Chinesa. Portanto, a proposta final é apreender o que anda acontecendo no sistema emocional de tais pessoas e, então, decodificar o que ocorreu e como a pessoa lidou com a correlação de forças sociais pontuada nos registros memorialistas preservados nas obras carregadas de mensagens subliminares do sofrimento emocional, registrado patologicamente no campo somático.

1.. Encontro com a temática “origem social do ato de adoecer”: sistema educacional

Este segundo tema apresenta como ocorreu o processo de conscientização da temática da origem social do ato de adoecer, por intermédio dos mecanismos de auto sabotagem como fonte inicial da percepção do conflito emocional vivenciado pelas pessoas, manifestado no sistema educacional no ensino superior, em geral, e na Universidade Federal de Uberlândia, em particular, no período de 1985-2015. Em seguida, procura contextualizar o movimento de reação discente à produção monográfica, por intermédio dos mecanismos de auto sabotagem. E o conjunto de resistência acadêmica contribuiu para entender como acontece o processo da origem social dos vínculos sociais da relação educacional e o adoecimento social. Portanto, um conflito educacional ajudou a percepção de um assunto contemporâneo como o vínculo da emoção-doença, manifestado principalmente na conjuntura atual da sociedade.

1.1 Processo de trabalho na graduação: UFU, 1985-2015.

Ao ingressar no sistema federal de ensino superior, no ano de 1985, por concurso público, em particular na Universidade Federal de Uberlândia, na área de metodologia científica, principalmente nas disciplinas de Métodos e Técnicas de Pesquisa (MTP) e Metodologia Científica e suas ramificações, como Técnicas de Pesquisa em Economia (TPE) e outras semelhantes, havia um modelo vigente de reprodução de conhecimento fundamentado no sistema de fichamento das leituras do corpo discente, padronizado de forma massificado na graduação, nas Ciências Humanas. Esta estrutura educacional recebeu o contraponto metodológico de um novo processo de trabalho focado na produção de conhecimento, ao invés apenas na reprodução de conhecimento do fichamento. O confronto dos modelos metodológicos, o da reprodução de conhecimento, por intermédio do fichamento das leituras, e da produção de conhecimento, por meio da monografia, provocou uma redefinição das práticas metodológicas. E o acirramento entre os dois sistemas de reprodução de conhecimento e o de produção de conhecimento tomou proporções significativas e representativas do estágio educacional no ensino superior numa unidade específica.

1.2 Inovação avaliativa: produção monográfica

E o processo de trabalho metodológico da produção de conhecimento inovou ao instalar a produção monográfica como método de conhecimento para a graduação, nas Ciências Humanas. E o detalhe da inovação toma contornos de correlação de forças no segmento docente ao se materializar o confronto se projetando do nível educacional para a esfera interpessoal, pois emergiu uma resistência tremenda contra a proposta da produção monográfica como sistema de avaliação na graduação da UFU, a partir de 1985, e localizado num professor determinado. O confronto originou-se particularmente do corpo discente, projetando-se em alguns docentes que se articulavam de forma permanente na coordenação de curso para inviabilizar a proposta nova de trabalho. Neste confronto, originariamente metodológico, o professor vinculado a proposta inovadora passava apenas um ou dois semestres num Curso de Graduação e era solicitada a sua transferência para outro curso. E o local institucional de articulação na comunidade universitária era o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CEHAR). Inclusive um diretor teve a sinceridade e coragem de manifestar institucionalmente o registro do problema, por solicitação pessoal, ao mencionar a gravidade do problema: “durante o período (1992-96), percebi uma reação negativa dos membros do Conselho à implantação da monografia como requisito obrigatório e indispensável para a conclusão dos diversos cursos ali representados”3. A representação colegiada é constituída por coordenadores de curso e chefes de departamento das unidades acadêmicas, ou seja, pelos condutores institucionais das fontes acadêmicas universitárias. Projete-se o significado da resistência assumida pela chefia contra a produção monográfica, pois iria trazer sobrecarga didática aos docentes, com a implantação da obrigatoriedade na graduação, conforme se comentava nos corredores dos blocos. O cenário do confronto estava tomando todas as dimensões institucionais: corpo discente, corpo docente, coordenação dos cursos de graduação e o Centro de Ciências Humanas. Nesta correlação de forças entre posturas conservadoras e ousadia educacional metodológica, não se pode negar para qual lado o “fiel da balança” pendeu. A identidade pessoal do professor de metodologia da pesquisa social recebia uma rejeição tremenda, inclusive transferida para o campo pessoal.

1.3 Reação discente: resistência

Diante da proposta de inovação metodológica, com a implantação do sistema de avaliação por intermédio da produção monográfica, o foco inicial da resistência originou-se, inicialmente, no segmento discente, com certeza. Todo o processo inovador recebia uma carga de rejeição tremenda ao processo monográfico por aqueles que iriam receber o papel metodológico de produtores de conhecimento. Contudo, a dimensão de pensar e repensar a escolha profissional, vinculada aos temas de pesquisa provocou uma crise pessoal profunda, que se projetou na reação discente e concretizou-se numa adversidade a proposta metodológica empreendedora. A resistência crescia ao processo produtivo planejado, pois ocorria um isolamento do professor responsável pela disciplina metodológica. Contudo, na década de 1990, o Ministério da Educação, de forma institucional, sugeriu no credenciamento dos cursos de graduação, a instalação na grade curricular a monografia para a conclusão do curso. E inovou com a sugestão de se chamar o Trabalho de Conclusão de Curso, o famoso TCC. Posteriormente, na primeira década do Século XXI, ocorreu uma massificação dos programas de mestrado na UFU, principalmente nas Ciências Humanas. Estava instalado o cenário do conflito que iria atingir principalmente o corpo discente: a produção monográfica. Além dele, o corpo docente que se via “obrigado” a desempenhar o papel de orientador de um instrumento de conhecimento, a monografia, que iria trazer problemas tremendos de sobrecarga didática, com a orientação pessoal.

1.4 Emergência dos mecanismos de auto sabotagem: fonte da percepção

Neste contexto conflituoso, emergiu um fenômeno significativo nesta correlação de forças sociais: os mecanismos de auto sabotagem, ou seja, a instalação de recursos de bloqueio e sabotagem aos desafios que a vida educacional apresenta ao nosso destino. Na convivência cotidiana com as manifestações oriundas dos alunos da disciplina metodológica, pode-se identificar como os mecanismos de auto sabotagem são postos de forma sutil para inviabilizar a trajetória de evolução pessoal de cada um. Por exemplo, de forma prática, na reta final do semestre, para justificar a não consumação da monografia, provoca-se, de modo inconsciente, claro, a quebra do punho, ou torce-se o tornozelo, como justificativa de não poder ir a faculdade. O caso extremo foi de uma aluna que argumentou que iria se afastar da disciplina. Perguntou-se por quê? “Por que fiz o exame e constatei que estou com câncer”! Por que não faz a sua monografia sobre o câncer? “Posso”? O que impede? Esta aluna não só investiu na temática da produção monográfica, acerca do câncer de mama, como periodicamente comunicava na sala de aula os seus avanços acerca do assunto. Inclusive, teve uma sobrevida de dez anos, justificado por ela pelo investimento na conscientização da temática. E assim caminhou até o seu óbito.

Portanto, diante cenário metodológico conflituoso, originado da inovação monográfica como recurso avaliativo semestral, aconteceu o surgimento da temática da origem social do ato de adoecer, pois os mecanismos de auto sabotagem instigaram a percepção do docente para a realidade como fonte de mensagens emocionais que fugiam inicialmente a percepção do metodólogo no seu início do processo de trabalho educacional. Conseguiu-se direcionar para uma “fonte temática” que nunca se havia pensado anteriormente. O conflito apresentou ao docente a origem social do ato de adoecer que se transformou numa configuração de linha de investigação contemporânea deste docente, que busca socializar em eventos na área sociológica, antropológica e humanas, campo de questionamento significativo para avançar nesta linha de pesquisa.

2.Registros memorialistas: mensagens emocionais

O terceiro tema expõe os registros memorialistas dos portadores de câncer. Inicialmente, são apresentados casos ilustrativos de pessoas públicas. Porém, numa segunda fase, define-se o estudo por autores de registros memorialistas singulares com obras das mensagens emocionais dos portadores de câncer que podem oferecer uma inserção mais significativa na temática, superando a superficialidade da proposta inicial. Diante da amplitude dos autores mencionados, privilegia-se neste momento num estudo piloto para construir um método de pesquisa apoiado no método da análise de conteúdo para a apreensão do procedimento metodológico da investigação. Posteriormente, na fase final da pesquisa documental, a aplicação integral da interpretação dos registros memorialistas.

2.1Primeira fase: casos ilustrativos

Inicialmente, a proposta de investigação da temática da origem social do ato de adoecer, em geral, e do câncer em particular, enfrentou um dilema metodológico: como enfrentar a pesquisa empírica em si, pois ocorre uma resistência imensa da orientação biomédica diante do desafio de uma interpretação analítica de um tema consolidado. Por exemplo, alguns questionamentos são postos como consolidação dessa resistência biomédica: “você é médico”? “Você não está delirando”? “Você não está viajando”?

Aqui um esclarecimento inicial: a nossa formação na graduação foi nos cursos de Direito, no ano de 1976, e Ciências Sociais, em 1979, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. No mestrado, na Unicamp, 1984, e no doutorado, na UnB, em 2003, ambos foram direcionados para a Sociologia. Estudou-se, na proposta de trabalho, a relação de dominação social, na lógica do processo eleitoral, buscando entender como ocorria entrada do homem do campo no sistema eleitoral. Esta foi a trajetória histórica de construção acadêmica do pesquisador. O conflito educacional no ensino superior reformatou a percepção do investigador para uma temática vinculada ao sistema de saúde. E, com certeza, a experiência educacional no ensino superior contribuiu para uma nova visão de mundo do fenômeno, direcionando-se para a temática da origem social do ato de adoecer, por intermédio dos mecanismos de auto sabotagem manifestados pelos recursos de resistência do corpo discente frente ao desafio da produção monográfica. No cotidiano do processo didático da sala de aula, emergiam os conflitos de forma que as máscaras sociais caiam e mostravam os vínculos sociais do conflito da resistência social. Além disto, ficavam evidentes as origens dos mecanismos de auto sabotagem manifestadas pelos discentes portadores da resistência à produção monográfica. Desta forma, ocorreu a aproximação com esta temática de investigação.

Os especialistas do campo biomédico mapeiam as causas e fontes da origem do adoecimento de câncer, de forma que os avanços representam registros significativos no campo oncológico, porém o tema do social parece um campo desprezível, sem a devida consideração de contribuição para o fenômeno de pesquisa. E isto toma contornos significativos ao se aproximar a lente para as emoções vivenciadas pelos portadores de câncer. O ser humano necessitava ser visto de forma holística, integral, com as suas peculiaridades singulares. Assim sendo, diante da adversidade crítica biomédica, ergue-se um novo desafio: como argumentar ilustrativamente para inserir os casos que iriam contribuir para evidenciar o que se interpreta. Diante disto, a saída foi justificar o argumento com pessoas públicas que tiveram conflitos que levaram ao problema do adoecimento oncológico. Inicialmente, o caso de Pedro Collor, irmão do Presidente da República do Brasil, Fernando de Collor, após denunciar o próprio irmão, que o levou a perda do mandato presidencial, manifestou um câncer no cérebro que o levou óbito. Um segundo caso, a Sandra Regina Machado, conhecida como filha do Pelé, buscou nos meios judiciais o reconhecimento da paternidade do jogador famoso, mas a resistência paterna tornou-se maior e filha rejeitada desenvolveu um câncer na mama que também a levou ao óbito. E os casos foram se sucedendo: Luís Inácio Lula da Silva, metalúrgico e líder sindicalista no Estado de São Paulo, formatou a sua identidade política na mesa de negociação sindical junto da classe patronal, discutindo verbalmente a pauta de reivindicações. Neste trajeto, chegou a presidência da República brasileira. Porém, no auge do seu mandato, ocorreu a denúncia política da Ação Penal nº 470, conhecido popularmente como “mensalão do PT”. Nas idas e vindas do conflito político, apareceu o câncer na laringe do Lula. Após a sua primeira fase, em entrevista, ele declarou: “sem voz estaria morto”4.

O Deputado Roberto Jefferson Monteiro Francisco, ligado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), foi o porta voz do escândalo político que redundou na Ação Penal nº 470. Após viver um grau de pressão emocional, apresentou um câncer no pâncreas, no ano de 2012. Outro destacado político nacional, o Luís Gushiken, ex-ministro e ex-deputado federal, ao ser denunciado no envolvimento do mensalão do PT, e posteriormente ser inocentado das acusações, teve um diagnóstico de câncer no estomago. Norma Bengel, ícone da cinematografia brasileira, ao envolver-se com o sistema financeiro para a produção artística, foi denunciada com uma prestação de contas do projeto que lhe valeu um desequilíbrio emocional que se projetou num câncer de pulmão. O ex-vice-presidente da República, parceiro de Luís Inácio Lula da Silva, homem representante dos costumes tradicionais, ao ser investigado por uma investigação de paternidade de Rosemary de Morais, teve um processo de diagnóstico de câncer de rim, posteriormente no estômago e indo a óbito em 2011.

Portanto, simbolicamente, os órgãos afetados patologicamente são representativos das emoções vivenciadas pelos portadores dos problemas somáticos registrados, segundo a arquitetura conceitual da Medicina Tradicional Chinesa. Contudo, existe o reconhecimento da superficialidade do vínculo emoção-registro somático. E se torna uma lacuna ainda não explorada a origem social do ato de adoecer. Esta linha de investigação privilegia que o contexto social tem a sua contribuição significativa para o registro somático patológico, mas que tem sido posta numa dimensão secundária de forma indevida, negligenciada de forma geral pela abordagem biomédica. Portanto, a pretensão desta reflexão é, inicialmente, a lacuna deste debate e contextualizar que a correlação de forças provoca desequilíbrios energéticos que levam aos registros somáticos patológicos, como o câncer, com certeza.

2.2Segunda fase: registros memorialistas singulares

Após reflexões e críticas do método adotado na investigação da temática polêmica, a origem social do ato de adoecer, pois a resistência a abordagem é imensa, principalmente da superficialidade do vínculo social da relação emoção e adoecer, optou-se por uma redefinição representativa e significativa para o aprofundamento da pesquisa: ilustrar os casos dos portadores de adoecimento oncológico que deixaram registros memorialistas acerca da convivência com o problema emocional. Neste sentido, o Pedro Collor de Mello publicou a Passando a Limpo: a Trajetória de um Farsante, no qual o autor descreve a origem e o desenvolvimento pessoal e familiar com o irmão Fernando Collor de Mello, até o desfecho político e familiar. Sandra Regina, na mesma linha memorialista, registrou as suas memórias emocionais de convivência com o conflito social da paternidade e deixou no livro A Filha que o Rei não quis a mensagem subliminar emocional com a busca pelo reconhecimento da paternidade do seu pai que a Justiça brasileira reconheceu, mas que a filiação paterna resistiu até o fim. João Faustino, político potiguar, ao ser envolvido num problema judiciário, registrou as suas reflexões emocionais sobre a nossa capacidade de perdoar, numa obra denominada Eu Perdoo. Oscar Schimdt, famoso jogador de basquetebol brasileiro e mundial, menciona na sua obra 14 Motivos para viver, vencer e ser feliz. Giane: vida, arte e luta5 retrata o conflito pessoal vivenciado por um ator brasileiro, envolvido num conflito que redundou inclusive no câncer e óbito do pai, além do registro patológico individual.

Num evento acadêmico de Portugal, ao procurar conhecer o mercado editorial de Lisboa, nas livrarias portuguesas, e ao efetuar um levantamento da produção temática, por intermédio de algumas palavras chaves, como linguagem corporal, câncer (lá, eles denominam de cancro), adoecimento social e psicossomática, o inventário colhido foi representativo. Diante da abundância da fonte documental descoberta e após reflexões pessoais, optou-se não só a fonte riquíssima, como provocar uma mudança de método: inserir o método comparativo de duas fontes distintas de registros memorialistas como fonte de investigação: o contexto brasileiro e o português. Retomou-se a sinalização de forma comparativa para a continuidade da investigação.

2.3Terceira fase: estudo piloto

Diante do universo documental privilegiado para a pesquisa, a bibliografia memorialista incorporada e anexa neste ensaio, e levando-se a variável tempo de produção do artigo proposto, tornou-se necessário redefinir o procedimento metodológico num estudo piloto como representativo para aquisição de um método de investigação para identificar mecanismos de análise e sistematizar a interpretação proposta em cima dos casos, principalmente por intermédio do método de análise de conteúdo, pois os registros memorialistas documentais preservados nas publicações das obras devem conter mensagens emocionais significativas do conflito social vivenciado pelo autor do registro memorialista. E qual o estudo piloto a se escolher? Quais os critérios da escolha? Por que o estudo piloto é representativo como caso de ilustração para se aplicar o método de análise de conteúdo para a investigação? Portanto, a resposta a estes questionamentos deverá responder e se canalizar para a comunicação oral no evento, como desafio de encaminhar o estudo investigativo.

2.4Fase final: aplicação integral

Após a exposição histórica desta proposta de trabalho, com as suas idas e vindas do procedimento metodológico, torna-se fundamental provocar um fechamento do método de pesquisa privilegiado por essa linha de investigação. Para isto, objetivando-se a exposição final do método. Inicialmente, a fundamentação conceitual desta reflexão apoia-se na teoria taoísta, nos seus princípios básicos: a polaridade yin-yang, a teoria dos cinco elementos, os ciclos da criação e do controle e, principalmente, no paradigma do “chi” (energia vital) como instrumental paradigmático de interpretação da análise. Além disto, na visão da medicina tradicional chinesa (MTC), ao buscar articular o sistema emocional aplicado ao corpo humano, ao registro somático vinculado as manifestações emocionais. Este é o guia teórico que ilumina o percurso empírico da investigação social. Posteriormente, na proposta documental inicial, ocorreu a busca por casos ilustrativos de pessoas públicas que todos conheceriam por serem seres identificados na sociedade e a sua trajetória de adoecer, como Pedro Collor de Mello, Sandra Regina e outros mencionados. Porém, o passo seguinte privilegiou apenas portadores de câncer que manifestaram seu sofrimento por mensagens emocionais em forma de registros memorialistas, conforme as obras analisadas e anexadas nesta. No passo seguinte, objetivou-se fazer um estudo comparativo de obras de brasileiros e portugueses que foram acometidos patologicamente do câncer. E, para finalizar, a meta derradeira será efetuar um trabalho de campo para resgatar e registrar oralmente a memória social de pessoas que não tiveram a oportunidade de registrar o seu registro pessoal. Portanto, torna-se a pesquisa documental um registro instrumental para fundamentar o trabalho de campo, visando apreender as mensagens subliminares da vida emocional dos seres humanos com vivência patológica do câncer.

3. Teoria taoísta: paradigmas

Este tema irá abordar os princípios da teoria taoísta, os fundamentos da rede conceitual que embasam este sistema teórico. Inicialmente, a polaridade yin-yang, a teoria dos cinco elementos e os ciclos de criação e de controle. Mas, como paradigma central do arcabouço teórico o “chi”, a essência em torno da qual gravita todo o esquema interpretativo da leitura taoísta. Neste conjunto, vincula-se a Medicina Tradicional Chinesa como parâmetro de efetuar a conexão entre a emoção e o registro somático. Portanto, a meta deste momento é demonstrar o arcabouço teórico dos paradigmas do sistema conceitual taoísta.



    1. Polaridade yin-yang: complementariedade

Segundo os princípios da filosofia (ou teoria) taoísta, o fundamento básico reside na natureza e, nesta, a polaridade yin-yang tem a matriz diretiva de integração dos dois elementos como constituintes de um universo integrado por tais elementos. E a mudança e o movimento articulam o movimento dinâmico de complementariedade e integração. Por exemplo, o homem (o ser humano) é o microuniverso que interage com o macrocosmo, por intermédio da energia vital, fisiologicamente integrativa entre os dois polos. Quando ocorre a ausência da circulação energética entre as duas partes, o universo e o pequeno universo (microcosmo), isto significa que deixou de ocorrer a circulação de “chi”. Então, a polaridade yin-yang provoca essa polaridade, como o exemplo do dia e da noite. Quando ocorre o entardecer, o dia se vai, e a noite começa, com uma mudança e alteração do tempo para que a escuridão da noite cresça e se vá até ocorrer o aparecimento da polaridade do dia, como uma nova integração da mudança provocada pela integração polaridade da natureza. Neste sentido, Williams (1995) afirma que “o conceito subjacente a Yin e Yang é, sem dúvida, o mais e fundamental para uma compreensão da medicina chinesa” (p. 19). E Jianping (2001) argumenta que a arquitetura da abordagem chinesa reside na matriz da natureza, apoiando-se na integração da polaridade yin-yang

3.2 Teoria dos cinco elementos: mudança

Neste sentido, a lógica taoísta apropria-se da teoria dos cinco elementos, água, fogo, madeira, metal e terra, para interpretar o funcionamento fisiológico de como ocorre o processo interativo e integrativo da natureza aplicável a sociedade humana. O detalhamento da aplicação de cada elemento mencionado aos fenômenos analisados busca caracterizar e individualizar o contexto para construir análises que sistematizem conexões representativas das ligações simbólicas dos cinco elementos. Trata-se de um código simbólico de representação que irá se encaixar aos fenômenos a serem analisados, a partir da classificação detalhada dos cinco elementos aplicados aos contextos sob interpretação. Neste enfoque, ocorre uma aplicação das relações e vínculos entre os fenômenos abordados de forma interativa, pois são desvendadas as conexões intrínsecas processuais sob a luz interpretativa da lógica teoria taoísta.

3.3 Ciclos de criação e de controle: distinção

A teoria taoísta estabelece a distinção entre dois ciclos, o da criação e o controle, para argumentar como o movimento processual interage de forma dinâmica, a partir da polaridade yin-yang, da teoria dos cinco elementos e culminando com a distinção dos mecanismos dos ciclos da criação e do controle para argumentar de como ocorrem as conexões, sob a luz de uma teoria holística. Existe uma conexão interna e externa que se processam de forma articulada que se consegue distinguir quem se justapõe inicialmente e se origina da fonte primeira. A ideia simbólica de representação interpretativa predomina na análise oriental que provoca uma arquitetura figurativa de compreender a sociedade humana, pelas configurações expostas nos argumentos apresentados. Entretanto, a chave de compreender a lógica analítica é identificar o que é o “chi” e como ele é cultivado em forma de criação e de controle, aplicado aos vínculos do sistema emociona materializados do corpo humano.

3.4 Paradigma do “chi”: energia vital

O paradigma que se vale a teoria taoísta para interpretar os fenômenos naturais e da sociedade humana é o conceito de “chi”, instrumento fundamental para a análise das conexões entre os órgãos e projetado simbolicamente ao contexto social. No mundo ocidental, o conceito de “chi” tem, inicialmente, uma tradução de “energia vital”, que é isto, mas não é só isto, vai além dialeticamente do termo de energia vital. Torna-se o arcabouço arquitetônico básico de interpretação da visão chinesa: o “chi”. Segundo a teoria taoísta, o que é aspirado pelos pulmões, pelo aparelho respiratório, não se limita apenas ao recurso fisiológico, pois ocorre uma penetração e conexão dos órgãos pela “energia vital”. Neste sentido, acontece uma ativação e aquecimento energético, provocando uma defesa e transformação dos canais, consolidando uma estrutura interna capaz de construir a penetração das funções energéticas. O “chi” origina-se da fonte hereditária, do processo alimentar, como a água e as sementes. Porém, é fundamental nesta composição a energia pura da atmosfera. O processo de comunicação entre o universo e o ser humano ocorre pelos meridianos, condutores energéticos localizados internamente no corpo humano. Nesta configuração interativa, acontece a circulação energética do “chi”, provocando as conexões entre os membros. Portanto, para entender como acontece o processo energético esboçado pelos pressupostos da teoria taoísta, torna-se fundamental a inserção do sistema das emoções ao campo energético e aplicado ao corpo humano para interpretação do que acontece nessa interação do canal somático. Principalmente para compreender o processo patológico do adoecimento humano, segundo Ervil & Ervil (2010).

3.5 Medicina Tradicional Chinesa: vínculo emoção-doença

A Medicina Tradicional Chinesa, na sua arquitetura estrutural, compõe-se da acupuntura, da fitoterapia, da alimentação, dos exercícios estáticos (chi kung) e de movimento (tai chi). A acupuntura é a técnica de inserção de agulhas nos pontos específicos dos meridianos com a intenção de restabelecer o fluxo energético do “chi”. A fitoterapia apoia-se nas ervas como recurso de restabelecer a ordem natural do corpo, interagindo com os órgãos corporais bloqueados, ou seja, o uso dos remédios à base de produtos das plantas pretende ser uma intervenção com fundamento na natureza. A alimentação naturalista torna-se um apoio para se contrapor a alimentação processada e refinada oferecida ao ser humano. Os exercícios dividem-se em duas modalidades: os estáticos (chi kung) e os dinâmicos (tai chi chuan). Ambos propiciam uma proposta de restabelecimento à saúde pela meditação, ao contribuírem para o fortalecimento do sistema imunológico. Portanto, essa visão dialética e materialista fundamenta a concepção holística da MTC que busca a interação homem-natureza. A natureza é o macrocosmo e o homem é o microcosmo. A integração do pequeno universo (o microcosmo) com a natureza (macrocosmo) ocorre pela conexão energética (a energia vital para os ocidentais) do “chi”, por intermédio do aparelho respiratório, fisiologicamente interativo do macro e microcosmo.

Entretanto, o detalhe significativo da abordagem chinesa é o foco das emoções, vinculando as mesmas aos órgãos do corpo humano. Aplica o sistema conceitual aos órgãos do sistema corporal, buscando caracterizar as relações tóxicas da sociedade humana na fonte, no canal somático. Desta forma, o diagnóstico oriental procura vincular as manifestações emocionais com órgãos principais do corpo humano: o coração, o pulmão, o fígado, o baço e o rim. O coração vincula-se a emoção da alegria e tem como elemento o fogo, o pulmão prende-se a emoção da ansiedade e o seu elemento é o metal, o baço restringe-se a emoção da preocupação e do pensar e o seu elemento é a terra, o fígado está em conexão com a emoção da raiva, com o seu elemento da madeira e, por fim, o rim, preso a emoção do medo, com o vínculo ao elemento água. Portanto, com essa formação inicial, construída historicamente na realidade oriental chinesa, percebe-se como a visão holística formata o funcionamento fisiológico da energia, mobilizada pelo sistema emocional em conexão com o corpo somático. E todo esse processo fundamenta-se no paradigma do “chi”. Segundo a MTC, a origem das doenças fundamenta-se em seis causas: os excessos climáticos, os fatores vinculados a natureza, os fatores patogênicos e epidêmicos, a fadiga, os traumas mecânicos e parasitas, a dieta imprópria e as emoções: alegria, raiva, ansiedade, medo e preocupação, foco de abordagem desta reflexão, pois busca articular o sistema emocional com os registros patológicos do câncer, por intermédio das relações tóxicas vivenciadas na sociedade humana.

Conclusão

A proposta analítica desta investigação é um processo investigativo desafiante, pois irá inicialmente se confrontar com uma estrutura analítica com registros interpretativos consolidados da teoria biomédica, avanços que não se pode desconsiderar, nem muito menos desconhecê-los, com certeza. Entretanto, pode-se identificar que existe uma lacuna analítica que torna o contexto social como inexistente ou num segundo plano para a configuração da fonte causadora do problema patológico do câncer. Existe uma busca de mencionar que o social deve ser considerado como fonte contribuinte do problema patológico e o paradigma do “chi”. Neste sentido, a proposta analítica da medicina tradicional chinesa encaixa-se na interpretação ao articular o sistema emocional com os órgãos do corpo humano para vincular a relação emoção-enfermidade pelo registro somático do patológico do adoecimento social. Contudo, a resistência é imensa, pois a nossa cultura ocidental não tem ainda a cultura oriental fundamentada na energia vital do “chi”. Porém, a inserção empírica de ilustrar o movimento histórico para configurar o argumento interpretativo com os registros de pessoas públicas evidencia a análise.

O procedimento metodológico adotado nesta investigação percorre caminhos que objetivam ter uma convalidação argumentativa para se consolidar como proposta analítica histórica e empiricamente válida. Para isto, expõe-se o processo de trabalho de investigação para que os questionamentos apresentados contribuam para uma configuração capaz de conduzir o método de forma coerente e com menos contradições, principalmente pelo fato de que a análise proposta recebe resistências e colocações polêmicas, principalmente pela temática ser de uma área temática vinculada a dimensão biomédica e estar sendo transferida pela um contexto social. Não há a menor dúvida de que são postas questões significativas e representativas do campo polêmico que o assunto propicia. Contudo, somente neste processo depurativo e socializante, consegue-se avançar na interpretação deste desafio analítico. Portanto, espera-se atingir a meta proposta por esta reflexão, com um novo público.

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FORJAZ, Manuel (2014). Nunca te distraiais da vida: poderei morrer da doença, mas a doença não me matará. 7ª ed. Lisboa: Oficina do Livro.

------ & CARVALHO, J. A. (2014). 28 minutos e 7 segundos de vida: “porque o tempo pode ser igual para um relógio, mas não um homem”. Lisboa: Oficina do Livro.

JESUS, Carla (2014). Dar luta ao cancro: os exemplos encorajadores de vinte portugueses que enfrentaram a doença. Alfragide: Oficina do Livro.

LISBOA, Sofia & PEREIRA, N. H. (2014). Nunca desistas de viver. Lisboa: Lua de papel.




1 Esta linha de investigação está sendo construída nos eventos de pesquisa social, fora dos parâmetros dos programas de doutorado. Grato pelos questionamentos críticos e sugestões direcionadoras da pesquisa.

2 Opta-se pela opção da aposentadoria, de forma prematura, com o objetivo específico de investir na linha de pesquisa da origem social do ato de adoecer, pois o desafio de compreender o vínculo emocional da relação emoção-saúde-doença é algo instigante. Portanto, troca-se a sala de aula pelos meandros da pesquisa social. Vejamos se o percurso de escolha investigativa foi correto.

3 Prof. Dr. Geraldo Inácio Filho, ex-diretor do Cehar/UFU, Uberlândia, 09 de maio de 2006.

4 Collucci, C. 7 Bergamo, M (20120. “Sem voz estaria morto”. Recuperado em 30/03/2012, de http:www1.folha.uol.com.br/poder.

5 Todos os registros memorialistas mencionados encontram-se nas referências deste ensaio.



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