Área 3 – Economia do Trabalho, Economia Social e Demografia



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Área 3 – Economia do Trabalho, Economia Social e Demografia.



A Qualidade do Ambiente Urbano afeta o Desempenho Escolar? Uma Análise do Caso das Favelas da Cidade do Recife


Julia Rocha Araujo

Doutora em Economia pelo PIMES/UFPE.

Professora Adjunta I da Puc-Minas.

Graduada em Economia pela Puc-Minas(2005). Mestre em Economia pela UFRGS (2010), Doutorado em Economia pela UFPE, Brasil (2017).

Endereço Postal: ICEG - Av Dom José Gaspar, 500. Coração Eucarístico. Belo Horizonte - MG .CEP 30535-901

E-mail: araujorjulia@gmail.com. Telefone: (31)98743-5890



Raul da Mota Silveira Neto

Pós Doutorado em Economia pela UIUC.

Professor do PIMES/UFPE.

Professor associado do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco.

Possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (1989), mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo (1995) e doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo (2000).

Endereço Postal: Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Departamento de Ciências Econômicas. Br 101 - Cidade Universitária Cidade Universitária 50000000 - Recife, PE - Brasil

E-mail: rau.silveira@uol.com.br

Área 3 – Economia do Trabalho, Economia Social e Demografia.



A Qualidade do Ambiente Urbano afeta o Desempenho Escolar? Uma Análise do Caso das Favelas da Cidade do Recife


Resumo: O presente estudo tem como objetivo analisar empiricamente a existência da influência das favelas sobre o desempenho escolar dos alunos da rede pública do Recife. Para tanto, utilizamos a base de dados oriunda da pesquisa realizada pela Fundaj em 2013, em que entrevistou diretores, professores, responsáveis e alunos do 6° ano das escolas públicas dessa cidade. Essa é a primeira base a oferecer informações georreferenciadas dos alunos e das escolas do Recife, o que permitiu distinguir os alunos entre moradores ou não das favelas. A partir da identificação dos moradores da favela foi possível empregar as técnicas de Propensity score matching, os métodos de reponderação e o estimador de Oaxaca-Blinder para tentar contornar os problemas ocasionados pela distribuição não aleatória dos alunos ao longo do tecido urbano. Os resultados encontrados sugerem a influência negativa das favelas sobre o desempenho escolar.

Palavras chaves: Efeito vizinhança, desempenho escolar, favelas.

Abstract: The aim of this paper is to empirically analyse the influence of living in slums on scholar performance of public system students of Recife, Brazil. For that, we use Fundaj's data stem from a research that interviewed principals, teachers, parents and 6th grade students. These data are the first one to offer geocoded addresses of the students and schools of Recife, and we identify, for the first time, the students of Recife that live in slums. Then, we use Propensity Score Matching technique, reweighting methods and Oaxaca-Blinder's estimator to deal with the problems due to the non random distribution of the students over the city. The results suggest the negative influence of the slums on the scholar performance.

Keywords: Neighborhood effect, school performance, slums.

Código JEL: I24, R23.


  1. Introdução

Existe um consenso na literatura de que as diferenças nas características socioeconômicas entre os indivíduos contribuem para a reprodução da desigualdade educacional (Paes de Barros et al., 2006 Gonçalves e França, 2008). Mais especificamente, o perfil social de uma família tende a ser reproduzido entre as gerações que se seguem: filhos de pais pobres e pouco escolarizados tendem a apresentar essas mesmas características. Constitui-se, assim, um ciclo que dificulta a mobilidade social dos mais pobres.

Se o espaço social exercer um importante papel sobre a trajetória e o desempenho individual, então o ciclo da pobreza pode ser agravado dentro de um contexto de economia urbana na qual as classes sociais são territorialmente segregadas. O problema surge quando o isolamento territorial se transforma no isolamento sociocultural da população mais carente, o que conduziria “à formação de conjunto de valores e visões de mundo muitas vezes desconectado da cultura dominante” (Sant’Anna, 2009, p. 2). Dentro desse enfoque, a segregação residencial pode potencializar diversos problemas socais, tais como a atividades criminosas (Case e Katz, 1991; Bursik Jr e Grasmic, 1999; Kline et al., 2005), gravidez na adolescência (Anderson, 1991; Crane, 1991; Evans et al., 1992), status de emprego e diferencial de rendimentos (Elliot, 1999; Vartanian, 1999; Bolster et al. 2007; Garcia e Nicodemo, 2013), e baixo desempenho escolar (Case e Katz, 1991, Rosenbaum, 1995; Goux e Maurin , 2007, Gibbons et al., 2013a). Essa influência do contexto ao redor do domicílio de um indivíduo (sua vizinhança) sobre diferentes aspectos da sua vida tem sido denominada na literatura por efeito vizinhança (Wilson, 1987).

Devido à relevância do tema, uma vasta literatura internacional sobre efeito vizinhança se desenvolveu nas últimas décadas. Tais estudos procuraram investigar, por um lado, se, de fato, esse efeito é significativo, e, por outro lado, quais os potenciais mecanismos pelos quais a vizinhança influenciaria os resultados individuais. Mayer e Jencks (1989), Ellen e Turner (1997), Durlauf (2004) e, mais recentemente, Sharkey e Faber (2014) realizaram uma revisão detalhada desses estudos.

As pesquisas têm sugerido três canais principais pelos quais a vizinhança afetaria o desempenho individual, quais sejam: a influência dos pares (“modelo epidêmico”), a influência dos adultos (role model ou papel social) e a influência das instituições (modelo institucional ou de socialização institucional). O “modelo epidêmico” prevê que uma criança é fortemente influenciada pelo comportamento dos seus pares da vizinhança. O modelo role model, por sua vez, parte do pressuposto que os adultos de uma determinada vizinhança serviriam de exemplos para os mais novos. Por fim, o modelo institucional sugere que resultados individuais podem ser afetados pela qualidade do serviço de infraestrutura de uma vizinhança (Jencks e Mayer, 1990; Ainsworth, 2002; Ribeiro e Koslinski, 2009). Em comum, os três mecanismos supõem que as chances de um morador de uma determinada vizinhança ascender socialmente são tão menores quanto pior for o nível socioeconômico da população ali residente (Jencks e Mayer, 1990; Ainsworth, 2002).

Apesar do aumento do número de pesquisas, algumas questões empíricas sobre o tema em tela ainda são controvérsias. A primeira questão se refere à definição geográfica da vizinhança (Jencks e Mayer, 1990; Gibbons et al., 2013 Sharkey e Faber, 2014). Devido à inexistência de uma barreira natural que demarque territorialmente os vizinhos, não há um consenso sobre qual recorte geográfico que se deve considerar para definir a vizinhança (Gibbons et al., 2013). Note-se que isso é especialmente crítico para os estudos que adotam metodologias que controlam pelo efeito fixo da vizinhança como, por exemplo, em Becker et al. (2008) e Helmers e Patnam (2014).

Outra dificuldade que os estudiosos quase sempre se deparam é com a indisponibilidade de bancos de dados que forneça informações suficientes tanto dos indivíduos, quanto do local de residência que permitam a análise da relação causal entre o contexto espacial e os resultados individuais (para mais detalhes, veja-se Durlauf, 2004).

A relação causal dificilmente é garantida em um trabalho empírico nessa temática devido ao viés de seleção espacial. Conforme Gibbons et al. (2013), os resultados similares obtidos por crianças que vivem em uma determinada vizinhança podem ser decorrência da semelhança em termos de background familiar. As características das crianças são estritamente relacionadas com as dos seus pais, e essas, por sua vez, estão relacionadas com as características dos seus vizinhos através de fatores comuns na escolha residencial. Goux e Maurin (2007), no mesmo sentido, ainda afirmam que as crianças e famílias que vivem na mesma vizinhança tendem a ter resultados semelhantes, no entanto, não sendo claro se isso é porque eles influenciam uns aos outros ou porque eles compartilham das mesmas características não observáveis.

Ainda que esforços tenham sido feitos para separar a contribuição do contexto da vizinhança da contribuição das características socioeconômicas das famílias para explicar o desempenho individual a partir de diferentes estratégias empíricas, tais como efeito fixo da família com base na comparação de resultados obtidos por irmãs (Plotnick e Hoffman, 1996), propensity score (Harding, 2003), variável instrumental (Goux e Maurin, 2007), experimentos (Ludwig et al. 2010; Chetty et al, 2015) e econometria espacial (Helmers e Patnam, 2014), essa questão dificilmente é tratada de forma incontestável. Isso porque as características das famílias também estão sujeitas às influências da vizinhança (Sharkey e Faber, 2014). Pode-se argumentar, por exemplo, que a estrutura familiar e o status do emprego dos pais das crianças que influenciam o desempenho escolar também são afetados pelo do local de moradia (Jencks e Mayer, 1990).

Mesmo quando os trabalhos conseguem utilizar dados e metodologias adequadas, como já exposto, surge outra dificuldade que é referente à definição das variáveis de vizinhança que realmente importam. Não existe um consenso sobre quais variáveis da vizinhança devem ser consideradas em um estudo empírico. O trabalho recente de Gibbons et al. (2013), por exemplo, conseguiu lidar com problema ocasionado pelo sorting das famílias ao empregar uma metodologia denominada como “engenharia reversa”. Intuitivamente, os autores analisaram o efeito da alteração da composição da vizinhança (a partir do fluxo migratório dos estudantes em um dado período de tempo) sobre os alunos que não migraram, não encontrando evidências de que exista uma relação causal entre os pares e o desempenho escolar. Embora os autores tivessem acesso a um rico banco de dados e a uma metodologia robusta, as variáveis adotadas para refletir a qualidade da vizinhança (percentual de alunos homens, portadores de necessidade especiais e beneficiários de programas sociais) podem ser questionáveis. Pode-ser argumentar que os resultados obtidos pelos autores poderiam ser decorrentes da escolha das proxys para a qualidade da vizinhança que não conseguiram representar de forma satisfatória as características da vizinhança que realmente são importantes para explicar o desempenho escolar.

Diferentemente do cenário internacional, no Brasil poucos estudos analisaram a relação entre o contexto espacial e a trajetória individual, o que indica que as discussões são mais embrionárias nesse país. Especificamente no caso da educação, a escassez de dados que identificam a localização exata dos alunos e das escolas serve como um entrave para as pesquisas. Temos conhecimento de apenas duas bases de dados que ofereceram recentemente informações georreferenciadas dos alunos, a Prova Rio para a cidade do Rio de Janeiro e a Fundaj (2013) para o caso do Recife. Acreditamos que explorar as informações desses bancos seja importante para fomentar e impulsionar a discussão nacional, ainda que não seja possível mitigar todos os problemas mencionados anteriormente.

O presente estudo, então, utilizará dos dados da Fundaj (2013) para analisar empiricamente a relação existente entre as favelas, onde a segregação residencial se expressa da forma mais determinada, e o desempenho escolar das escolas públicas do Recife no ano de 2013. Nessa perspectiva, o presente artigo se insere na literatura que investiga a influência da moradia em uma vizinhança desfavorecida sobre o processo cognitivo dos alunos. Como documentado por Cira (2002), as favelas são fenômenos muito presentes nas cidades brasileiras e latino-americanas e são caracterizadas por reunir uma população pobre e pouco qualificada dentro de um território desorganizado que, em geral, é marcado pela violência associada ao tráfico de drogas.

Conforme Pasternak e D’Ottaviano (2015), apesar de o Brasil testemunhar uma diminuição da pobreza na primeira década dos anos 2000, as condições de moradia nas áreas urbanas são ainda bastante preocupantes. Por exemplo, em 2010, 5,61% da população brasileira viviam em favelas, percentual maior que aquele observado em 2000, quando registrou 3,04%1. Em Recife, esse percentual é ainda mais representativo, atingindo o patamar de 22,8%, ficando atrás apenas de Belém, Salvador e São Luis no ranking das capitais brasileiras com maior proporção de pessoas residindo nas áreas urbanas irregulares em 2010 (IBGE, 2010).

Para atingir o objetivo, adotamos a técnica de propensity score matching (PSM) e análise de sensibilidade proposta por Ichino et al (2008). Adicionalmente, utilizamos dois métodos de reponderação e o coeficiente de Oaxaca-Blinder com o intuito de verificar se o efeito tratamento (isto é, morar na favela) é sensível a diferentes ponderações e ao método utilizado na estimação. Os resultados encontrados apontam para a influência negativa das favelas sobre o desempenho escolar, dado pela nota de matemática. Em média, 50% da diferença das médias incondicionais da nota de matemática entre os dois grupos de alunos pode ser atribuída às favelas. Isto é, a média incondicional dos alunos favelados é 2,3 pontos a menos que a dos demais alunos no teste de matemática2, após controlarmos pelas características observáveis, essa diferença diminui para aproximadamente 1,2 pontos. Tais evidências sugerem que os alunos que moram na favela têm um desempenho acadêmico inferior ao obtido pelos estudantes com características similares, mas que moram fora da favela.

Além dessa introdução, esse estudo está organizado em mais quatro seções. A segunda seção tem por objetivo relacionar os fatores que explicariam o efeito adverso das favelas sobre o aprendizado de um aluno. Já a terceira seção realiza uma breve análise das favelas do Recife. A quarta seção, por sua vez, elucida a estratégia empírica e a base de dados adotada. Os resultados encontrados das estimações econométricas são apresentados na quinta seção. Na sexta e última seção, serão oferecidas as considerações finais.


  1. Favela e desempenho escolar

Os estudos internacionais que se preocupam em analisar a relação entre segregação residencial e os resultados individuais têm documentando os efeitos adversos de se crescer nos guetos, cuja formação é orientada por questões de raça e etnias. Por exemplo, Crane (1991) e Cutler e Glaeser (1997) encontraram evidências de que essas áreas mais segregadas podem acarretar em menores níveis escolaridade, maiores riscos de gerar filhos fora do casamento e piores condições de empregos para a população que vive nas áreas urbanas mais isoladas.

No Brasil, o conceito que mais se aproxima dos guetos é o da favela. Todavia, as favelas se diferenciam dos guetos por ter suas origens guiadas por questões de classes sociais, em vez de raças e etnias (Wacquant, 2004; Costa, 2013). Sob a luz da teoria sobre o efeito vizinhança (Wilson, 1987; Jencks e Mayer, 1990), podemos investigar se os efeitos negativos de se crescer nas áreas urbanas mais segregadas também se repetem no Brasil. Para tanto, levantamos a hipótese da existência do “efeito-favela” que comprometeria a ascensão social dos moradores das áreas urbanas mais precárias. Tal efeito explicaria as diferenças dos resultados obtidos entre moradores e não moradores de favelas que possuiriam características produtivas idênticas.

O “efeito-favela” pode operar através dos três mecanismos potenciais citados na introdução (influência da qualidade das infraestruturas, influência dos adultos, influência dos colegas) e dificilmente são identificados isoladamente em uma análise empírica. As consequências dessa segregação urbana sobre o indivíduo podem se manifestar ainda na fase escolar, quando crianças e adolescentes começam a ser capacitados para ingressar no mercado de trabalho na idade adulta (Pero et al., 2005). Como resumido por Torres, Ferreira e Gomes (2004), a segregação espacial pode ter reflexos negativos sobre os resultados escolares das crianças e adolescentes que residem nas favelas, sendo essas penalizadas pelo seu baixo nível socioeconômico, por não conviver com colegas de nível mais elevado e pela interação entre seu baixo nível socioeconômico e do meio que ele vive.

Pela própria definição, as favelas possuem infraestrutura urbana inadequada, com vielas estreitas e irregulares, que geram dificuldades legais, ambientais, de engenharia e de alocação de profissionais, que acabam por influenciar diretamente a oferta de serviços públicos básicos, como educação, saúde e segurança pública para a população que ali reside (Rodrigues, 2005).

No caso específico da educação, isso é particularmente verdade na medida em que a qualidade da escola está estritamente relacionada com a qualidade da vizinhança (Jencks e Mayer, 1990; Ainsworth, 2002; Ribeiro e Koslinski, 2009), de tal forma que os problemas como a carências de profissionais capacitados da educação, superlotação das salas de aula, infraestrutura física precária das escolas se tornam especialmente mais graves nas favelas do que nas demais áreas urbanas (Paiva, 2009).

Adicionalmente, a pouca cultura escolar dos pais pode potencializar os problemas vivenciados nessas escolas por esses estarem alheios ao cotidiano escolar dos filhos. Trata-se, então, da primeira evidência de que os adultos também poderiam influenciar negativamente o desempenho escolar dos mais novos por não exercerem o papel de monitoramento e supervisão, como sugerido pelo modelo do papel social (Ainsworth, 2002). O modelo do papel social ainda prevê que as crianças aprendem sobre quais comportamentos são considerados adequados por meio da interação com os adultos de sua vizinhança, de tal modo que os resultados obtidos pelos adultos em suas vidas profissionais serviriam de motivação para os mais novos (Jencks e Mayer, 1990; Ainsworth, 2002; Ribeiro e Koslinski, 2009).

Essa questão fica evidente no âmbito das favelas em um estudo realizado por Paiva e Burgos (2009), que subsidiados por entrevistas realizadas com professores e diretores de escolas na favela do Rio de Janeiro, verificaram que existe uma descrença por parte dos alunos favelados em relação à promessa de um futuro promissor através da escola, em que o sistema educacional não seria capaz de assegurar um lugar no mercado de trabalho e, por consequência, a ascensão social, o que acaba tornando a escola desinteressante aos alunos.

Ainda sobre o mercado de trabalho, uma possível discriminação sofrida pelos trabalhadores moradores das favelas pode ainda ser um fator que desmotive as crianças a se dedicarem aos estudos. Nesse contexto, os residentes na favela teriam maior dificuldade de obter um emprego formal e/ou receberiam salários menores quando comparados com outros trabalhadores com habilidades similares que moram nas áreas urbanas regulares (Pero et al., 2005; Rocha et al., 2011; Westhphal, 2014).

Outro canal pelo qual a favela influenciaria o desempenho escolar seria através dos pares, quando o estudante tende a reproduzir os comportamentos dos seus colegas. Nesse aspecto, o desempenho do aluno seria influenciado pelas condições socioeconômicas desfavoráveis dos seus vizinhos de idade similar. De fato, os estudos empíricos que analisaram o caso das favelas do Rio de Janeiro encontraram indícios de um significativo peer effect sobre a decisão individual de frequentar a escola (Vasconcellos e Rocha, 2006) e sobre a distorção idade-série (Alves et al., 2008).

Esse comportamento pode ser reforçado pelo ambiente escolar devido à homogeneidade socioeconômica das escolas localizadas nas áreas mais carentes que dificultaria a interação dos mais pobres com colegas que possuem características socioeconômicas diferentes das suas (Jencks e Mayer, 1990; Ribeiro e Koslinski, 2009; Soares et al. 2008). Dificilmente, os alunos que moram fora da favela frequentariam uma unidade escolar dentro da favela.

A conjuntura das favelas pode também facilitar a presença de grupos armados organizados, sobretudo, derivados do tráfico de drogas. Como documentado por Rocha e Monteiro (2013) e Ribeiro (2013a, 2013b), as atividades ligadas ao tráfico de drogas e o bom desempenho escolar caminham em direções opostas. Isso porque, diante de um cenário de pobreza, presença precária do Estado, ausência de exemplos de sucesso profissional via escolaridade, as crianças podem ser sentir atraídas pelas atividades do tráfico e passar a ter comportamentos indesejados perante a escola que vão desde eventos que envolvem indisciplina e o não reconhecimento da autoridade e das hierarquias escolares até mesmo a evasão escolar (Rodrigues, 2005; Ribeiro, 2013a).

Além disso, junto com o tráfico vem a banalização da violência urbana. Nas favelas não são raros os casos em que os moradores testemunham conflitos envolvendo facções criminosas e polícia. Esses conflitos podem impactar no aprendizado dos alunos na medida em que se cria um clima de insegurança na população, força o fechamento das escolas em dias letivos e influencia a contratação e a rotatividade dos professores e diretores das escolas (Rocha e Monteiro, 2013; Ribeiro 2013a, 2013b).

Ressalte-se, contudo, que, além dos poucos trabalhos existentes citados acima, que tem como foco principalmente para cidade do Rio de Janeiro, de acordo com nosso melhor conhecimento, ainda não foram realizados estudos que procuram mensurar o impacto da moradia em favela sobre os resultados sociais de seus residentes no caso da Cidade do Recife. Ou seja, pouco ou nada é conhecido, particularmente, sobre a potencial influência que a moradia localizada na favela tem sobre o desempenho escolar das crianças ou adolescentes na referida cidade. A presente investigação pretende iniciar o preenchimento desta lacuna.


  1. As favelas do Recife

No presente estudo, são considerados como favelas os aglomerados subnormais definidos pelo IBGE (2010), o que corresponde as áreas constituídas de, no mínimo, 51 unidades habitacionais carentes, em sua maioria, de serviços públicos essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em geral, de forma desordenada e/ou densa. O mapa a seguir mostra a localização das favelas do Recife em 2010, quando essas abrigavam 22,8% da população recifense.

Como se pode observar na figura 1, as favelas estão espalhadas por todo o Recife, sendo muito difícil encontrar raios de um quilômetro que não contenha nenhuma porção de favela em seu interior (Souza, 2003). Assim, podemos encontrar exemplos de favelas tanto nas áreas localizadas em morros, quanto nas áreas planas. Essa configuração espacial é resultante do processo de urbanização associado às características geográficas tão peculiares da cidade3.



Inicialmente, o desenvolvimento urbano foi orientado pela economia açucareira, em que as famílias mais abastadas, donas de engenhos, ocuparam as áreas mais planas e pouco alagáveis às margens do Rio Capibaribe, restando aos mais pobres abrigarem-se em construções de palafitas nas várzeas inundáveis, dando origens aos mocambos, que mais tarde passaria a ser reconhecidos como favelas (Neta, 2005; Cavalcanti et al., 2010). Ao longo do desenvolvimento da cidade, a atividade açucareira entrou em declínio, aumentou o fluxo de imigrantes dos meios rurais e escravos recém-libertos, quase sempre trabalhadores braçais e pouco qualificados. Diante de um mercado imobiliário formal excludente, esse fato culminou no aumento da demanda por habitações mais precárias. Os mocambos, então, passaram a abrigar uma parcela significativa da população recifense (Souza, 2003).



Figura1: Aglomerados Subnormais de Recife em 2010

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do IBGE (2010)
Entre as décadas de 1930 e 1970, sob o argumento das péssimas condições higiene e insalubridade, várias intervenções políticas foram feitas com o objetivo remover os mocambos e deslocar seus habitantes para as áreas mais periféricas e próximas às encostas dos morros, dando início à ocupação das áreas de relevo mais elevado. Todavia, essas ações não foram suficientes para extinguir as favelas das áreas centrais. Por essa razão, as políticas de demolição das habitações precárias foram gradualmente substituídas pela discussão da necessidade de urbanização das favelas (Cavalcanti et al., 2010).

É nesse contexto que se introduz, em 1983, o conceito das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) na Lei de Uso e Ocupação do Solo do Recife com o intuito de incluir as áreas populares no planejamento urbano (Souza, 2003; Neta, 2005; Cavalcanti et al., 2010). Deve-se destacar, entretanto, que as ZEIS não foram capazes em promover mudanças estruturais no que se refere às condições das habitações mais precárias (Cavalcanti et al., 2010). Após 30 anos implementação das ZEIS, Recife ainda conta com áreas densas que não possuem acesso às infraestruturas urbanas.


Tabela 1: Características dos setores censitários do Recife (2010)



 

Favela

Não favela

Diferença

Características dos domicílios

% com renda domiciliar per capita até 1/2 salário mínimo

0,569

0,342

0,227***

% com banheiro de uso exclusivo

0,287

0,479

-0,192***

% energia elétrica e medidor de uso exclusivo

0,758

0,895

-0,137***

% mulher responsável

0,479

0,454

0,025***

Características das pessoas

% de homens

0,477

0,463

0,0139***

% de alfabetizados de 7 a 14 anos

0,89

0,943

-0,053***

% de alfabetizados com 25 anos ou mais

0,842

0,915

-0,073***

% com idade entre 5 e 14 anos

0,185

0,143

0,0416***

% de brancos

0,296

0,425

-0,129***

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do Censo/IBGE(2010)
Para ilustrar a precariedade das condições urbanas das áreas mais segregadas, a Tabela 1 trás o perfil dos setores censitários do Recife no ano de 2010, diferenciando-os por favela ou não favela. Note-se que, em média, apenas 28% (76%) dos domicílios localizados na favela possuem acesso à rede geral de esgoto (energia com medidor de uso exclusivo), percentual muito inferior que aquele observado para domicílios nas áreas regulares. Ademais, os dados confirmam que a população residente na favela é mais pobre e menos escolarizada.


  1. Metodologia
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