Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



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- Sim, até que eu complete minha vingança.

- Já lhe disse não sei quantas vezes que não quero mais ouvir falar de vingança!

- Eu entendo. O que não posso entender bem é esta raiva, esta obstinação bem feminina que sinto em mim. Este ciúme também...

- Este ciúme... - repetiu Otoko com a voz baixa e trêmula, agarrando os dedos de Keiko.

- Otoko, no fundo do seu coração, você ainda ama o sr. Oki. E ele também a ama secretamente. Compreendi isso naquela noite em que ouvimos os sinos.

Otoko não respondeu.

- Eu me pergunto se no próprio ódio que uma mulher sente não há também um pouco de amor.

- Keiko, como você pode dizer uma coisa dessas, ainda mais num lugar como este?

- Talvez porque eu seja muito jovem. Quando vejo essas pedras, imagino os homens que as dispuseram antigamente nesta ordem. No entanto, ainda não consigo ler seus

corações. Foram necessários séculos para que as pedras adquirissem essa pátina, mas eu me pergunto: que aspecto elas teriam quando novas?

- Acho que ficaria desapontada.

- Se eu fosse pintá-las, empregaria as formas e as cores que me agradassem e mostraria essas pedras como se elas tivessem acabado de ser dispostas assim.

- Talvez você chegue a pintá-las.

- Otoko, este jardim de pedras vai durar muito mais tempo do que você e eu.

- Certamente. Contudo, ele não durará eternamente... - A essas palavras, Otoko estremeceu repentinamente.

- Pouco me importa que minhas pinturas tenham vida breve ou sejam destruídas imediatamente... desde que eu esteja ao seu lado...

- Você diz isso porque é jovem...

- Quase chego a gostar que a esposa de Oki destrua meu quadro. Aí eu saberia que foi a violência de sua emoção que a levou a agir assim. - Keiko fez uma pausa. -

Minhas pinturas não merecem mesmo ser levadas a sério.

- Você não deveria dizer isso.

- Não possuo dom algum e não faço questão de deixar nenhuma de minhas obras para a posteridade. Tudo o que desejo é ficar com você. Eu estava feliz só em cuidar

de você, me encarregar das tarefas domésticas... Daí você quis dar as minhas primeiras lições de pintura... Otoko estava perplexa.

- É isto o que você pensa, Keiko?

- É o que sinto no mais fundo do meu coração...

- Mas, Keiko, estou convencida do seu talento. Você já chegou a pintar coisas surpreendentes!

- Como desenhos de criança? Quando pequena, eles eram sempre pendurados na sala de aula!

- O que você faz é muito mais original do que aquilo que eu faço. Algumas vezes, chego até a sentir inveja de você. Por isso, pare de dizer bobagens!

- Está bem - Keiko concordou de bom humor. - Enquanto eu puder ficar ao seu lado, darei o melhor de mim. Otoko, e se falássemos de outra coisa?

- Você compreendeu bem?

- Sim - Keiko aquiesceu novamente. - Se você não me abandonar...

- Como poderia? - retrucou Otoko. - No entanto...

- No entanto o quê?

- Uma mulher deve se casar, ter filhos...

- Ah, quanto a isso... - Keiko riu abertamente - ...é muito pouco para mim!

- Tudo isso é culpa minha. Perdoe-me. - Otoko afastou-se cabisbaixa e arrancou a folha de uma árvore. Durante algum tempo, caminhou em silêncio.

- Otoko, as mulheres são criaturas das quais se deve ter pena. Um rapaz não se apaixonaria jamais por uma mulher de sessenta anos, enquanto uma adolescente pode

ficar verdadeiramente apaixonada por um homem de cinqüenta ou sessenta anos, sem estar agindo por interesse... Não acha, Otoko?

Otoko não soube o que responder a essas palavras inesperadas.

- Realmente, um homem como o sr. Oki é um caso sem esperança. Ele me toma por uma prostituta!

Otoko empalideceu.

- E isso não é tudo. No momento crítico, eu gritei seu nome, sem querer. E ele foi incapaz de continuar! De fato, é como se, por sua causa, ele tivesse me insultado.

Otoko tornou-se ainda mais pálida. Seus joelhos fraquejaram.

- Em Enoshima? - indagou finalmente.

- Sim.


Otoko foi incapaz de protestar. O táxi as deixara em casa.

- Talvez tenha sido isso que me salvou... - Keiko não conseguiu impedir que o rubor lhe subisse às faces. - Otoko, e se eu tivesse esta criança por você?

Num ímpeto, Otoko esbofeteou a jovem. As lágrimas brotaram em seus olhos.

- Ah, é bom! - disse Keiko. - Bata de novo, Otoko!

Otoko tremia.

- Bata de novo - repetiu Keiko.

- Keiko, pare com isso! - Otoko balbuciou.

- Não seria meu bebê. Quero que seja seu. Eu o carregaria e, depois, o daria de presente a você. Por você eu roubaria esse bebê do sr. Oki...

De novo, Otoko a esbofeteou violentamente. Keiko começou a soluçar.

- Otoko, por mais que você ame o sr. Oki, não pode mais ter um filho dele. Não pode mais! Para mim, é possível. Seria um pouco como se você tivesse colocado essa

criança no mundo...

- Keiko! - Otoko foi até a varanda e, descalça, deu um pontapé numa gaiola cheia de pirilampos, fazendo-a rolar para o jardim.

Nesse instante, os pirilampos emitiram um brilho fosco. O céu desse longo dia de verão começava a se encobrir e uma névoa quase imperceptível pairava sobre o jardim.

Porém ainda era claro como de dia. Parecia quase impossível que os pirilampos tivessem espalhado esse brilho esbranquiçado; talvez Otoko tivesse sonhado. Ela permaneceu

de pé, as pernas tensas a olhar fixamente a gaiola de pirilampos revirada sobre a relva.

Keiko parou de soluçar. Retendo a respiração, estudou Otoko silenciosamente. Ela não tentara se esquivar da bofetada. Ajoelhada na esteira do chão, apoiava-se sobre

a mão direita, permanecendo nessa posição sem fazer um gesto. Por um instante, foi como se a rigidez de Otoko tivesse se transmitido ao corpo da jovem.

- Ah, srta. Ueno! A senhora já chegou? - disse Omiyo. - Eu lhe preparei um banho.

- Ah, obrigada. - A voz de Otoko custou a sair. Ela sentia, sob o obi, seu quimono encharcado de suor colando-se desagradavelmente em seu corpo. Seu peito estava

igualmente coberto de suor frio. - Não está tão quente e, no entanto, este tempo é terrível! Essa umidade... Pelo jeito, a estação das chuvas ainda não terminou.

Ou então está de volta - Otoko prosseguia, sem fitar Omiyo. - Obrigada pelo banho!

Omiyo trabalhava como empregada no monastério e também prestava alguns serviços a Otoko. Ela arrumava a casa, lavava as roupas, as louças, punha a cozinha em ordem

e, às vezes, preparava as refeições. Embora Otoko gostasse de cozinhar e o fizesse até muito bem, estava por demais absorvida em sua pintura, e cuidar da cozinha

tornara-se para ela uma tarefa entediante. Keiko, ao contrário das aparências, era bastante bem-dotada para preparar algumas delicadas especialidades de Kyoto, mas

não se podia contar com ela. Dessa maneira, as duas mulheres normalmente se contentavam, no almoço e no jantar, com os pratos simples de Omiyo.

Omiyo, que devia estar com 53 ou 54 anos, trabalhava havia seis no monastério e não permanecia nunca ociosa. Como duas outras mulheres viviam no monastério - a mãe

e a jovem esposa do mestre -, Omiyo podia consagrar muito de seu tempo a Otoko. Ela era uma mulher de baixa estatura, com punhos e tornozelos tão inchados que pareciam

estar amarrados com cordas.

Corpulenta e de rosto radiante, Omiyo observou a gaiola de pirilampos sobre a relva.

- A senhorita vai deixar os pirilampos assim no sereno? - indagou ela, pisando nas pedras e aproximando-se da gaiola revirada no chão. Abaixou-se e a endireitou,

mas não a tirou dali, como se achasse que seu lugar fosse ali no jardim.

Otoko desaparecera no banheiro, e Omiyo encontrou-se frente a frente com Keiko. Os olhos úmidos da jovem tinham um brilho penetrante. Omiyo abaixou a cabeça. Parecia

ter-se passado alguma coisa, pois, apesar da palidez de seu rosto, uma das faces de Keiko estava totalmente vermelha.

- O que há, senhorita? - perguntou Omiyo, sem querer.

Keiko não respondeu e levantou-se, a expressão dos olhos inalterada. Ouviu o ruído da água no banheiro. Otoko devia ter aberto a água fria para temperar o banho.

A banheira já devia ter transbordado e, no entanto, a água continuava a correr.

Keiko aproximou-se do espelho na parede do estúdio, tirou de sua bolsa um estojo com o qual retocou a maquiagem e, em seguida, penteou os cabelos com um pequeno

pente de prata. No quarto de vestir, diante do banheiro, havia um espelho de corpo inteiro e uma penteadeira.

Keiko hesitou em entrar nesse quarto em que Otoko se despira. Pegou o primeiro quimono que encontrou na gaveta de cima de um armário, mudou as roupas de baixo e

vestiu o quimono, enfiando as longas mangas de baixo por entre as outras mangas, tentando acertar a gola. Seus gestos, porém, eram desajeitados.

Nesse momento o nome de Otoko brotou em seus lábios. Abaixando a cabeça, Keiko enxergou Otoko nos motivos impressos sobre as mangas e na parte inferior de seu quimono.

Fora Otoko que os criara para ela. As flores de verão ali representadas eram tão audaciosamente abstratas que mal se podia acreditar que fosse ela quem as tivesse

desenhado. Pareciam ipoméias, mas eram na verdade flores imaginárias com um colorido cheio de matizes, conforme a moda reinante. Do conjunto emanava uma impressão

de frescor e jovialidade. Otoko desenhara essas flores na época em que ela e Keiko eram inseparáveis.

- Srta. Sakami, vai sair? - perguntou Omiyo do quarto ao lado.

- Por que está me olhando assim? - tornou Keiko, sem se voltar. - Venha aqui.

Keiko notara que Omiyo examinava, com ar desconfiado, os seus esforços para ajustar as golas e dar um nó na cintura.

- Vai sair? - repetiu Omiyo.

- Não, não vou.

Suspendendo a beirada de seu quimono com a mão direita e levando o seu obi por sobre o braço esquerdo, Keiko se encaminhou para o quarto de vestir logo em frente

ao banheiro.

- Omiyo, eu me esqueci dos talai (Espécie de meia de algodão que mal ultrapassa o tornozelo, amarrada pelo lado de dentro, e na qual o dedão fica separado dos outros

dedos (N do T.)). Traga-me um outro par, sim? - ela disse bruscamente.

Ouvindo os passos de Keiko, Otoko pensou que esta viesse ao seu encontro no banheiro e chamou-a:

- Keiko, a água está uma delícia!

Mas Keiko se demorava diante do espelho, amarrando a fita ao redor da cintura. Apertou-a tanto que esta quase penetrou em sua carne.

Omiyo trouxe os tabi e, sem dizer uma palavra, os depôs aos pés de Keiko. Em seguida, saiu.

- Venha logo! - gritou Otoko novamente.

Sentada na banheira com água até o peito, Otoko observava a porta de madeira, esperando que Keiko entrasse a qualquer instante. Mas Keiko não a abriu. Nenhum som

atravessava a porta, nem mesmo o rumor de roupas sendo despidas.

Uma dúvida apoderou-se de Otoko: e se Keiko relutasse em tomar banho com ela? Sentindo-se, de súbito, oprimida, Otoko agarrou-se à borda da banheira e saiu da água.

Será que Keiko não queria mais se mostrar nua à sua frente, depois daquela noite em Enoshima?

Já haviam se passado mais de duas semanas desde que Keiko voltara de Tóquio. Ela aproveitara sua estada na capital para visitar Oki e ele a levara a Enoshima. Depois

de seu regresso a Kyoto, Keiko se banhara muitas vezes com Otoko e ficara nua diante dela sem demonstrar nenhum constrangimento. No entanto, fora somente hoje que,

diante da paisagem de pedras do Saiho-ji, ela confessara bruscamente à sua amiga ter passado a noite com Oki, em Enoshima. Para Otoko, essa confissão era ainda mais

extraordinária e incompreensível.

Com o passar dos anos, Otoko aprendera a conhecer, dia após dia, a espécie de moça que era Keiko, por quem se sentira atraída e fascinada. Otoko, certamente, tinha

alguma responsabilidade no comportamento ambíguo da jovem e, embora não houvesse nenhuma dúvida de que ela havia, de alguma maneira, atiçado o fogo, não podia se

considerar a única responsável.

Enquanto esperava no banheiro, gotas frias de suor escorriam de sua testa.

- Keiko, você não vem? - perguntou.

- Não.


- Não vai tomar banho?

- Não.


- Mas você deve estar toda suada...

- Não estou. - Depois de uma pausa, Keiko continuou: - Otoko, estou arrependida. Peço que me perdoe... - Sua voz soava límpida.

- Que me perdoe... - Otoko ecoou as palavras da jovem. - Fui eu que me equivoquei. Eu é que devo pedir desculpas.

Keiko não disse nada.

- O que está fazendo aí de pé?

- Dando o nó no meu obi.

- Como? Seu obi...? - Desconfiada, Otoko enxugou-se rapidamente e abriu a porta de madeira. Keiko estava deslumbrante em seu quimono.

- Vai sair?

- Vou.

- Aonde vai?



- Não sei - respondeu Keiko. Seus olhos, normalmente tão brilhantes, estavam enevoados pela tristeza.

Como se envergonhada com sua própria nudez, Otoko cobriu-se com um leve quimono de algodão.

- Vou com você.

- Está bem.

- Isso a aborrece?

- Claro que não, Otoko - respondeu Keiko, voltando-lhe as costas. Seu perfil refletia-se na penteadeira. - Estou esperando por você.

- Está bem. Não vou demorar. Pode me deixar passar um instante? - Ela passou por Keiko e sentou-se diante da penteadeira. Seus olhares se encontraram no espelho.

- Que tal irmos a Kiyamachi? No Ofusa... Telefone. Se não houver uma mesa no terraço, então que nos reservem uma pequena salinha no primeiro andar ou não importa

onde, desde que tenhamos a vista do rio... Se isso não for possível, iremos a outro lugar.

- Muito bem - concordou Keiko. - Otoko, você quer um copo de água com gelo?

- Estou com cara de estar sentindo tanto calor?

- Está.


- Não se preocupe, não vou atirar um pedaço de gelo em seu rosto... - disse Otoko, derramando algumas gotas de loção na palma da mão esquerda.

Ao beber o copo de água, Otoko sentiu o líquido cair fresco em seu estômago.

Para telefonar, era necessário ir até o prédio principal do monastério. Quando Keiko retornou, Otoko ainda se vestia apressadamente.

- Poderemos ter uma mesa no terraço, desde que cheguemos antes das oito e meia.

- Antes das oito e meia? - resmungou Otoko. - Está bem. Se nos apressarmos um pouco, conseguiremos jantar tranqüilamente. - Puxando para perto de si os dois espelhos

laterais da penteadeira, Otoko se examinou. - Meus cabelos ficam bem assim, não? - Keiko concordou. Em seguida aproximou-se de Otoko e ajustou suavemente as pregas

da costura nas costas de seu quimono.

***


O LÓTUS ENTRE AS CHAMAS

Nas Cenas Ilustres da Capital, há um trecho que é com freqüência citado e evoca a frescura das noites nas margens do rio Kamo:

Os terraços das casas de prazer, a leste e a oeste, dominam as margens do rio, e suas luzes se refletem como estrelas na água enquanto as pessoas festejam, instaladas

em cadeiras baixas. As toucas roxas dos atores de Kabuki flutuam na brisa do rio - intimidados pelo brilho do luar, esses lindos jovens se abanam com tal graça que

ninguém pensa em desviar deles o olhar. As cortesãs estão no auge de sua beleza, mais delicadas do que as rosas da China, e, enquanto passeiam de lá para cá, delas

emana um perfume de orquídeas e de almíscar...

Então aparecem os contadores de histórias cômicas e os mímicos:

Havia macacos que interpretavam farsas, cachorros que lutavam entre si, cavalos de circo, malabaristas que equilibravam travesseiros e ainda outros que se balançavam

sobre as cordas. Ouviam-se os gritos de um vendedor ambulante, os ruídos de água vindo das lojas de tokoroten (Gelatina de agar-agar. (N. do T.)), o tinir dos copos

como um brinde à brisa da noite. Estranhos pássaros da China e do Japão, animais selvagens vindos do fundo das montanhas ficavam expostos a todos os olhares, enquanto

gente de todas as condições se reunia para beber e festejar nas margens do rio...

Em 1690, o poeta Basho (Matsuo Basho (1643-1694) poeta célebre do gênero haikai. (N. do T.)) também esteve nesses lugares e escreveu:

É do pôr-do-sol até o último brilho da Lua ao amanhecer, instalado nas margens do rio comendo e bebendo saque, que se deve gozar o frescor da noite de verão. As

mulheres atam seus obi de modo majestoso, os homens vestem seus haori (Peça ampla e bem curta que se usa por cima do quimono. (N. do T.)), monges e anciães misturam-se

à multidão e mesmo os jovens aprendizes tanoeiros e ferreiros cantam a plenos pulmões. Uma verdadeira cena da capital!

Brisa do rio

Nos ombros leve quimono

Frescor de verão

Nas margens do rio há toda espécie de curiosidades, pequenos teatros iluminados por lanternas de papel, lâmpadas a óleo e fogueirinhas que brilham como de dia.

No fim da Era Meiji (1868-1912. (N. do T.)) o leito do rio foi alargado, e no princípio da Era Taisho (1912-1926. (N. do T.)), os primeiros trens em direção de Osaka

começaram a correr na margem oriental do rio Kamo.

Hoje, somente os terraços de Kami-Kiyamachi, de Pontocho ou de Shimo-Kiyamachi perpetuavam, aos olhos de Otoko, a lembrança das cenas que ali haviam se desenrolado

antigamente e que os livros evocavam:

As toucas roxas dos atores do Kabuki flutuam na brisa do rio - intimidados pelo brilho do luar, esses lindos jovens se abanam com tal graça que...

A imagem desses jovens atores ao luar, suas silhuetas deslumbrantes mesclando-se à multidão, retornava com freqüência ao espírito de Otoko.

Quando viu Keiko pela primeira vez, Otoko achou que havia uma certa semelhança entre a jovem e esses belos atores de Kabuki.

Ainda agora, sentada no terraço da casa de chá de Ofusa, Otoko lembrou-se desses tempos antigos. Provavelmente tais atores de Kabuki deviam ser mais femininos e

graciosos do que aquela Keiko, com ar de menino, com que se deparara no seu primeiro encontro. Uma vez mais, Otoko se deu conta de que fora graças a ela que Keiko

se tornara finalmente a moça deslumbrante que era hoje.

- Keiko, lembra-se do dia em que você veio pela primeira vez à minha casa? - perguntou ela.

- Não vamos mais falar disso, Otoko.

- Pensei estar vendo um fantasma!

Keiko pegou a mão de Otoko, levou o dedo mindinho à boca, mordeu-o e fitou furtivamente a amiga. Daí murmurou:

- Era uma noite de primavera e uma leve bruma azulada pairava sobre o jardim... Você parecia flutuar na bruma...

Eram as próprias palavras de Otoko. Ela lhe revelara que, por causa da bruma que envolvia o jardim, pensara ter visto um fantasma. Keiko não esquecera essas palavras

e agora, por sua vez, as repetia.

Inúmeras vezes as duas já haviam se lembrado dessas frases. Keiko sabia perfeitamente que elas atormentavam Otoko, faziam-na recriminar o apego que existia entre

ambas, e, no entanto, isto só reforçava o fascínio que esse apego produzia sobre ela.

Na casa de chá vizinha, nos quatro cantos do terraço, haviam sido montadas lanternas de papel. Uma gueixa e duas maiko faziam companhia a um cliente corpulento e

já calvo, apesar de não ser tão idoso. O homem olhava o rio e concordava, distante, com a conversa das duas jovens maiko. Estaria à espera de um amigo ou do cair

da noite? As lanternas haviam sido acesas ainda cedo, o céu estava claro e elas pareciam inúteis.

O terraço vizinho era tão próximo daquele onde estavam Otoko e Keiko que lhes bastaria esticar o braço para poderem tocá-lo. Os terraços que dominavam o rio tinham

sido construídos como grandes sacadas salientes, sem teto e sem cortinas a separá-los uns dos outros. As duas amigas podiam ver não só o que se passava ao lado delas,

mas também abaixo. Essa sucessão de terraços acentuava a sensação de frescor à beira do rio.

Sem a mínima preocupação de estar sendo vista pelos clientes, Keiko mordeu ferozmente o dedo mínimo de Otoko. A dor percorreu-lhe o corpo, mas ela não retirou o

dedo, nem disse nada. A língua de Keiko brincou com a ponta do dedinho. Daí Keiko o tirou de sua boca e disse:

- Não está nem um pouco salgado. É porque você tomou banho...

O vasto panorama que abarcava o rio Kamo e as Colinas do Leste do outro lado da cidade apaziguou a cólera de Otoko. À medida que se acalmava, começou a pensar que

talvez fosse culpa sua Keiko ter passado a noite nesse hotel de Enoshima com Oki.

Keiko tinha acabado de concluir seus estudos secundários quando se apresentara em casa de Otoko. Afirmara, então, ter visto seus quadros numa exposição em Tóquio

e sua fotografia numa revista e se sentira imediatamente enamorada.

Nesse ano, uma das obras de Otoko obtivera um prêmio numa exposição em Kyoto e fizera, em parte devido ao tema, um grande sucesso junto ao público.

Otoko se inspirara numa fotografia de 1877 da famosa cortesã de Gion, Okayo, para pintar duas jovens maiko jogando ken (Jogo no qual os parceiros fazem gestos específicos

que representam elementos como pedra, tesoura, papel. (N. do T.)). Era uma foto trucada, mostrando uma imagem dupla de Okayo. As duas moças estavam vestidas de modo

idêntico. Uma delas, os dedos das mãos bem separados, estava quase de frente, enquanto a outra, os punhos cerrados, era vista de perfil. Otoko achara interessante

a posição das mãos, a postura contrastante dos corpos e a expressão dos rostos. A jovem maiko da direita tinha o polegar exageradamente separado do indicador e os

outros dedos dobrados para trás. Otoko gostara também da roupa de Okayo, estampada à moda antiga (embora fosse impossível distinguir suas cores, pois a foto era

em branco-e-preto). As duas jovens estavam sentadas uma de cada lado de um braseiro de madeira quadrado, em cima do qual se pendurava uma chaleira de ferro. Havia

também uma garrafa de saque, mas Otoko, julgando esses objetos vulgares e supérfluos, os omitira de sua composição.

O quadro de Otoko representava a mesma cortesã, desdobrada e jogando ken. Ela procurara criar a impressão singular de que as duas maiko eram na realidade uma só

e mesma pessoa ou, ainda, que não eram nem uma nem duas. Era esse também o efeito almejado na velha fotografia trucada. Para evitar que sua pintura resultasse insignificante,

Otoko havia trabalhado profundamente a expressão dos rostos. As roupas que, na foto, pareciam muito volumosas, constituíram na verdade uma ajuda preciosa, fazendo

sobressair vivamente as quatro mãos. Otoko não tinha reproduzido a foto de maneira realista; no entanto, muitas pessoas em Kyoto devem ter reconhecido, logo à primeira

vista, que se tratava de uma obra inspirada na fotografia de uma famosa cortesã dos princípios da Era Meiji.

Um marchand de Tóquio, que se interessava por pintura de cortesãs, veio visitar Otoko e propôs exibir algumas de suas obras de menor tamanho em Tóquio. Foi nessa

época que Keiko viu as telas de Otoko, de quem ela nunca ouvira falar até então.

Foi sem dúvida por causa da repercussão da pintura das duas jovens maiko que uma revista havia se interessado por Otoko. Ou talvez isso se devesse também à beleza

da jovem artista. Um fotógrafo e um jornalista dessa revista levaram-na por toda parte em Kyoto e fotografaram-na sem parar. Na verdade, fora Otoko que os conduzira

aos lugares aonde gostava de ir. Assim, um artigo que cobria três grandes páginas lhe foi consagrado. Havia uma reprodução da pintura das cortesãs e uma foto de

Otoko em primeiro plano, mas quase todas as ilustrações eram cenas de Kyoto, às quais a presença de Otoko dava um sentido especial. Talvez os jornalistas tivessem

escolhido ser guiados por uma artista que vivia em Kyoto para assim fotografar lugares originais e fora dos itinerários conhecidos. Otoko sentiu-se levemente magoada

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