Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



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sua frente. Parecia viva, não tinha nada de fantasmagórico. Apressadamente, Otoko fez inúmeros croquis, o coração transbordando de emoção, mas, muitas vezes, seus

olhos se enchiam de lágrimas e era necessário interromper. Ela compreendeu, então, que o que estava a ponto de pintar era muito mais um auto-retrato do que o retrato

de sua mãe.

E era esse quadro que estava no momento pendurado na parede, sobre os desenhos das plantações de chá. Otoko tinha queimado todos os estudos preliminares e conservado

somente essa última versão, embora se parecesse muito com um auto-retrato. Todas as vezes que olhava esse quadro, uma imperceptível tristeza insinuava-se em seus

olhos. Otoko e o retrato de sua mãe pareciam respirar juntos. Quanto tempo lhe fora preciso para dar vida à essa obra?

Até o momento, Otoko nunca pintara outros retratos além desse. Havia se contentado em esboçar algumas silhuetas humanas em suas paisagens. Mas, esta noite, pressionada

por Keiko, essa vontade lhe voltara repentinamente. Ela nunca imaginava que A ascensão de uma criança, que desejava pintar havia tanto tempo, pudesse vir a ser um

retrato. Mas não esquecera seu antigo desejo e é por isso que se lembrara de Kobo Daishi jovem e imaginara representar Keiko sob os traços clássicos de uma Virgem.

Ela fizera o retrato de sua mãe e desejava fazer o da filha que perdera. Não deveria também fazer o de Keiko? Não eram os três seres que ela havia amado do mesmo

modo, embora fossem tão diferentes uns dos outros?

- Otoko - Keiko a chamou. - Você está olhando o retrato de sua mãe e se perguntando como pode me pintar, não é verdade? Está pensando que não é capaz de sentir tão

intenso amor por mim. - A jovem aproximou-se e sentou ao lado de Otoko.

- Tola! Não estou mais satisfeita com este retrato hoje em dia. Já fiz alguns progressos desde então, mas, mesmo assim, gosto muito dele, apesar dos defeitos. Eu

pus muito de mim mesma enquanto o pintava.

- O meu retrato não precisa ser tão doloroso assim. Faça-o de uma só vez, como quiser.

- De modo algum - respondeu Otoko com o espírito distante. Admirando o retrato de sua mãe, uma onda de recordações a envolvera.

De repente, Keiko tendo-a chamado de novo, Otoko se pusera a sonhar com as pinturas de Kobo Daishi na juventude. Em muitas dessas obras, o artista havia representado

o santo com os traços de uma bela menina ou uma adolescente deslumbrante, no estilo cheio de graça e elegância característico da arte de inspiração budista, da qual

não está ausente uma certa sensualidade. De algum modo essas pinturas expressavam o amor homossexual dos monastérios medievais - onde as mulheres não eram admitidas

- e o desejo dos monges por belos rapazes que podiam ser confundidos com lindas jovens. Teria sido esse o motivo pelo qual, logo que aceitara fazer o retrato de

Keiko, a imagem de Kobo Daishi se apresentara ao espírito de Otoko? Os cabelos do jovem Kobo Daishi não diferiam em nada do penteado à Joana d'Arc das moças de hoje.

Mas ninguém mais, hoje em dia, com exceção talvez dos atores de teatro Nô, se vestia com tão suntuosos quimonos ou hakama (Espécie de calça larga e com grandes dobras,

apertada na cintura por dois cordões que se amarram na frente. (N. do T.)) cheios de brocados; tais vestimentas pareciam fora de moda para uma moça moderna como

Keiko. Otoko lembrou-se dos retratos que o pintor Kishida Ryusei ((1891-1929): pintor educado nas técnicas ocidentais, célebre pelos numerosos retratos que fez de

Reiko, sua filha preferida. (N. do T.)) fizera de sua filha Reiko. Eram tanto pinturas a óleo como aquarelas delicadas, minuciosamente executadas, semelhantes a

obras religiosas e nas quais a influência de Dürer era visível. Um desses retratos impressionara Otoko mais do que os outros: tratava-se de um esboço em tons claros,

sobre meia folha de papel chinês e que representava Reiko sentada ereta, o busto nu e os quadris envoltos numa tanga vermelha. Não era certamente uma das melhores

obras de Ryusei, e Otoko se perguntava por que ele fizera esse retrato de sua filha num estilo tão tipicamente japonês, se já pintara obras semelhantes empregando

técnicas ocidentais.

Então, por que não pintar Keiko nua, tal como ela lhe sugerira? Algumas pinturas budistas insinuavam até mesmo as curvas dos seios femininos. Entretanto, se se inspirasse

no retrato de Kobo Daishi para pintar Keiko, como faria o penteado da jovem? Otoko vira a célebre tela de Kobayashi Kokei ((1883-1957): pintor conhecido por suas

obras executadas dentro da mais pura tradição japonesa. (N. do T.)) intitulada A cabeleira: tratava-se de uma obra de grande pureza, mas ela não conseguira imaginar

Keiko penteada daquele modo. Depois de muito pensar, Otoko confessou para si mesma que pintar sua aluna era uma tarefa acima de suas forças.

- Keiko, e se nós fôssemos dormir?

- Já? Quando a Lua está tão bonita? - Keiko virou-se para o relógio. - São só cinco para as dez.

- Estou um pouco cansada. Podemos conversar na cama.

- Está bem.

Keiko preparou as camas rapidamente enquanto Otoko tirava a maquiagem. Quando ela terminou, Keiko ocupou seu lugar diante do espelho e começou, por sua vez, a limpar

o rosto. Inclinando o pescoço longo e delgado, ela examinou seu rosto no espelho.

- Otoko, meus traços não são os de uma pintura budista.

- Pouco importa, o que conta é se o artista tem uma alma religiosa.

Keiko retirou as presilhas do cabelo e sacudiu a cabeça.

- Você está desfazendo seu cabelo?

- Sim. - Enquanto ela escovava as longas madeixas, Otoko a observava de sua cama.

- Por que o está desfazendo agora à noite?

- Estão começando a ficar sujos. Eu deveria tê-los lavado. - Keiko agarrou uma mecha de cabelo e a cheirou.

- Otoko, que idade você tinha quando seu pai morreu?

- Doze anos. Você sabe muito bem. Por que me faz sempre a mesma pergunta?

Keiko não respondeu. Fechou os shoji, puxou o fusuma (Divisória móvel recoberta de papel grosso, decorado de maneira muito refinada e bastante simples, que serve

para separar os ambientes de uma casa. (N. do T.)) que separava o quarto de dormir do estúdio e deitou-se ao lado de Otoko. As camas eram encostadas uma na outra.

Durante várias noites, elas tinham ido dormir sem fechar as portas de madeira do lado de fora. Os shoji que davam para o jardim luziam debilmente à luz da Lua.

A mãe de Otoko morrera de câncer no pulmão sem revelar à filha que ela tinha uma irmã consanguínea. Ainda hoje Otoko a ignorava.

Seu pai trabalhara no comércio de seda. Muitas pessoas compareceram ao seu enterro. Haviam se inclinado diante do caixão e queimado incenso de acordo com a tradição,

mas a mãe de Otoko percebera entre os presentes uma jovem de sangue eurasiático. Quando a moça ofereceu incensos e se inclinou diante da família do defunto, ela

notou seus olhos cheios de lágrimas. A mãe de Otoko teve um choque. Ela, com um sinal de cabeça, chamou o secretário de seu marido, que se mantinha um pouco à parte,

e sussurrou-lhe ao ouvido:

- Está vendo aquela jovem mestiça ali no canto? Gostaria de saber seu nome e seu endereço.

Mais tarde, o secretário informou-a de que a jovem em questão tinha uma avó canadense que se casara com um japonês, que ela mesma tinha nacionalidade japonesa, havia

estudado na América e trabalhava como intérprete. Ela morava numa pequena casa em Azabu.

- Suponho que ela não tem filhos.

- Parece que tem uma menina!

- Você a viu?

- Não, é o que dizem as pessoas do bairro.

A mãe de Otoko estava convencida de que seu marido era o pai da criança. Ela conhecia várias maneiras de se ter certeza, mas esperou que a jovem se manifestasse.

Ela nunca o fez. Cerca de seis meses mais tarde, o secretário do seu marido contou-lhe que a jovem se casara, levando a criança para o novo lar. As insinuações do

homem deram-lhe a certeza de que essa mulher havia sido amante de seu marido. Com o tempo, o ciúme e a indignação cederam. Começou a sonhar em adotar a criança.

Agora que sua mãe havia se casado, a menina iria crescer sem saber quem fora seu verdadeiro pai. A mãe de Otoko sentiu como se tivesse perdido qualquer coisa preciosa

e não apenas por ser Otoko sua única filha. Mas era-lhe certamente impossível revelar à filha, com a idade de doze anos, que seu pai tinha uma amante e com ela uma

filha ilegítima. Quando sua mãe morreu, Otoko já tinha atingido a idade de saber a verdade, mas mesmo em sua agonia e em seu delírio sua mãe não lhe disse uma palavra.

Assim, Otoko ignorava a existência dessa meia-irmã. Hoje, ela provavelmente já estava casada e com filhos. Mas, para Otoko, era como se não existisse...

- Otoko! Otoko! - Keiko estava sentada na cama, sacudindo-a para que acordasse. - Teve um pesadelo? Você parecia sofrer...

Otoko respirava com dificuldade. Apoiada sobre um cotovelo, Keiko debruçou-se sobre ela e massageou-lhe suavemente o peito.

- Quando tive este pesadelo, você estava me observando? - indagou Otoko.

- Sim. Por pouco tempo...

- Você é realmente impossível! Eu sonhei.

- Que tipo de sonho?

- Sonhei com uma pessoa verde. -A voz de Otoko turvou-se novamente.

- Alguém vestido de verde? - perguntou Keiko.

- Não. Não eram as suas roupas que eram verdes, mas todo o seu corpo, os seus braços e as suas pernas.

- Então, era Fudo? (Fudo (do sânscrito. Acara): divindade búdica que reina pelo terror das torturas e tem o poder de desfazer as insídias dos demônios; é representado

em meio ao fogo, tendo na mão direita um sabre com ponta triangular para golpear os demônios e, na mão esquerda, uma corda para amarrá-los. (N. do T.)).

- Não ria de mim. Ela não tinha a cara assustadora de Fudo. Era uma pessoa verde que flutuava levemente em volta da minha cama.

- Uma mulher?

Otoko não respondeu.

- Este é um sonho bom, Otoko, tenho certeza. - Keiko pôs a palma da mão sobre os olhos abertos de Otoko e os fechou. Depois, com a outra mão, pegou um dedo de Otoko,

colocou-o em sua boca e o mordeu.

- Você está me machucando - disse Otoko, arregalando os olhos.

- Otoko, você disse que faria o meu retrato, não é? Então, eu me tornei verde como as plantações de chá de Uji, eis tudo - disse a jovem, tentando dar uma interpretação

ao sonho.

- Você acha? Você estava dançando ao meu redor enquanto eu dormia? É assustador!

Keiko escorregou a mão do rosto de Otoko para seu peito e deixou escapar um riso abafado e um pouco histérico:

- Mas, é seu sonho...

No dia seguinte, elas subiram o monte Kurama, aonde chegaram no começo da noite. Os participantes já estavam reunidos no saguão do templo. Depois desse longo dia

de maio, a noite tombava sobre os picos vizinhos e as altas copas das árvores.

Acima das Colinas do Leste, além de Kyoto, a Lua cheia surgia. Fogueiras tinham sido acesas diante do prédio principal do monastério. Os monges avançaram e, em resposta

ao monge celebrante vestido com uma túnica escarlate, puseram-se a entoar em coro a leitura dos sutras com um acompanhamento de harmônio: "Dê-nos uma força gloriosa,

uma força nova...".

Cada participante segurava na mão uma vela acesa à guisa de oferenda. Diante do saguão principal fora colocada uma enorme taça de prata de saque, cheia de água,

na qual a Lua cheia se refletia. Um pouco dessa água era derramada nas mãos em concha dos participantes, que, um após o outro, se aproximavam e a bebiam. Otoko e

Keiko fizeram o mesmo.

- Otoko, quando tivermos voltado para casa, tenho certeza de que você vai encontrar as pegadas verdes de Fudo no seu quarto! - disse Keiko, exaltada com a atmosfera

da festa.

***

UM CÉU CHUVOSO



Quando estava cansado de escrever ou suas idéias começavam a se tornar confusas, Oki se esticava na espreguiçadeira do corredor. Depois do almoço acontecia-lhe muitas

vezes de cochilar ali por uma hora ou duas. Ele adquirira o hábito de fazer essas pequenas sestas nos últimos anos. Antes, Oki costumava passear, mas, depois de

tanto tempo morando em Kamakura, os mosteiros e até mesmo as colinas da região tinham-se lhe tornado demasiado familiares. Além disso, como se levantava sempre muito

cedo, Oki dava um breve passeio pela manhã. Não era de seu temperamento permanecer preguiçosamente na cama depois de ter acordado, e ele preferia fugir das espavoridas

arrumações da empregada. Antes de jantar, ele dava outro passeio um pouco mais longo.

O corredor ao lado de seu escritório era amplo, com uma mesa e uma cadeira num dos cantos. Para Oki tanto fazia escrever ali quanto instalado numa mesinha baixa,

sobre as esteiras de seu escritório. A espreguiçadeira no corredor era bastante confortável. Assim que se deitava nela, as preocupações o abandonavam. Era realmente

estranho. Em geral, quando estava escrevendo um romance, Oki tinha, mesmo durante a noite, um sono muito leve e repleto de sonhos relacionados ao que escrevia, porém,

se se deitava nessa espreguiçadeira, adormecia imediatamente e não pensava em mais nada. Em sua juventude, Oki nunca fazia a sesta por causa das inúmeras visitas

que recebia durante a tarde. Ele escrevia à noite, da meia-noite ao nascer do sol. Agora que escrevia durante o dia, fazia a sesta, mas não em horas regulares. Quando

não lhe vinham mais idéias e palavras, ele se alongava na espreguiçadeira. Às vezes, isso acontecia de manhã, outras, ao anoitecer. Desde que deixara de escrever

à noite, ele não sentia mais, exceto em raras ocasiões, que o cansaço estimulava seu espírito.

"Esses pequenos cochilos são os sinais da idade", pensava Oki. "Mas, assim mesmo, esta espreguiçadeira deve ser mágica!"

Todas as vezes que nela se deitava, Oki adormecia e despertava fresco e disposto. Não era raro que achasse então uma saída nova para as dificuldades que encontrava

em seu ofício de escritor. Uma espreguiçadeira mágica.

Agora era a estação das chuvas, aquela que Oki mais detestava. A cidade, apesar de distante do mar e protegida pelas colinas, ficava assim mesmo extremamente úmida.

O céu parecia mais baixo. Oki sentia um peso surdo na têmpora direita, como se uma espécie de bolor tivesse se formado entre as dobras de seu cérebro. Em alguns

dias, ele cochilava duas vezes na espreguiçadeira mágica, de manhã e à tarde.

- Uma certa srta. Sakami de Kyoto está aí - anunciou-lhe uma tarde a empregada.

Oki acabara de acordar, mas ainda estava deitado na espreguiçadeira. Ele não respondeu.

- Devo dizer que o senhor está descansando? - continuou a empregada.

- Não. É uma moça?

- Sim, senhor. Ela já veio aqui uma vez...

- Está bem. Faça-a entrar na sala.

Oki deixou a cabeça cair novamente contra o encosto e fechou os olhos. A sesta tinha afastado o torpor que sempre se apossava dele nesta estação do ano, e ele sentiu-se

revigorado ao saber da chegada de Keiko. Ergueu-se, lavou o rosto, passou uma toalha úmida pelo corpo e entrou na sala. Vendo-o surgir assim diante dela, Keiko levantou-se

da cadeira e enrubesceu levemente.

- Como vai você?

- Peço desculpas por esta visita repentina...

- Ao contrário. A última vez que você veio, eu tinha saído para passear nas colinas aqui perto. Você devia ter esperado um pouco mais antes de ir embora.

- Naquele dia, Taichiro me acompanhou até a estação.

- De fato, ele me disse. E ele lhe mostrou um pouco Kamakura?

- Sim.

- Para você, que é de Tóquio, não deve ter lhe parecido extraordinária. E depois, perto de cidades como Kyoto ou Nara, não há muita coisa para se ver aqui em Kamakura.



Keiko fitou seus olhos:

- Havia um pôr-do-sol belíssimo no oceano.

Oki ficou surpreso ao saber que seu filho acompanhara a jovem até a praia.

- A última vez que nos vimos foi no dia do Ano-Novo, quando você veio se despedir na estação. Desde então já se passaram seis meses.

- Sim. Acha que já faz muito tempo, sr. Oki? Esses seis meses lhe pareceram longos?

Oki não compreendeu aonde a jovem queria chegar com essa pergunta.

- Eles podem parecer longos para algumas pessoas, como podem parecer curtos para outras - respondeu ele.

Keiko permaneceu séria, como se Oki tivesse acabado de dizer alguma bobagem.

- Suponhamos que você esteja apaixonada e que não possa ver aquele que ama durante seis meses. Isto não lhe pareceria um longo tempo?

Keiko não achou necessário responder a uma pergunta tão tola. Apenas seus olhos, de reflexos esverdeados, pareciam desafiar Oki, que ficou um pouco irritado.

- Quando uma mulher traz uma criança em seu ventre, ela a sente mexer ao fim de seis meses. -A comparação escolhida por Oki de propósito não embaraçara Keiko absolutamente.

- As estações passam e o verão se segue ao inverno, apesar de estarmos agora nesta horrível estação chuvosa... Keiko continuava sem dizer nada.

- Até mesmo os filósofos, que sempre se interrogaram a respeito do tempo, não parecem ter encontrado uma resposta satisfatória. A crença popular de que o tempo resolve

todas as coisas está no íntimo de muitas pessoas, mas, de minha parte, eu duvido. Na sua opinião, Keiko, a morte é o fim de tudo?

- Não sou tão pessimista.

- Não chamo isso de pessimismo - disse Oki, que buscava a contradição. - É verdade que seis meses para uma jovem como você e para um homem de minha idade não representam

a mesma coisa. E para aquele que, sofrendo de uma doença incurável, tem apenas alguns meses de vida, este mesmo lapso de tempo poderá ter um sentido ainda mais diferente.

Mas pense que também há gente que encontra a morte num acidente de carro inesperado ou na guerra... E outros ainda que são assassinados...

- Mas o senhor, sr. Oki, não é um artista?

- Temo só ter deixado atrás de mim coisas das quais possa me envergonhar...

- Não precisa ter vergonha de nenhum de seus livros.

- Gostaria que você tivesse razão. Mas talvez minhas obras sejam todas esquecidas. Isso não me desgostaria.

- Como pode dizer isso? Por acaso não sabe que Uma garota de dezesseis anos é um livro que permanecerá?

- Esse livro de novo! - O rosto de Oki crispou-se. - Até mesmo você, sua aluna, diz isso!

- É porque vivo com ela. Peço desculpas.

- Não é nada... De resto, pouco importa...

- Sr. Oki - o olhar de Keiko animara-se subitamente -, o senhor amou outra mulher depois de Otoko?

- Sim, já me aconteceu. Porém, não foi tão trágico...

- Por que não escreveu nada a respeito?

- É que... - Oki hesitou ligeiramente. - Esse amor exigiu que eu não escrevesse nada sobre ele.

- Verdade?

- Talvez para um escritor como eu isso seja um sinal de fraqueza. A verdade é que jamais conseguiria pôr nesse segundo romance a paixão que pus no primeiro.

- De minha parte, eu não me incomodaria que o senhor falasse de mim num livro.

- Ora! - Oki ficou surpreso.

Era apenas a terceira vez que ele encontrava Keiko, se é que isso podia ser chamado de encontro. Sendo assim, como poderia ele escrever o que quer que fosse a seu

respeito? Talvez pudesse, no máximo, inspirar-se nos traços deliciosos da jovem para compor uma das personagens fictícias de seus romances. Keiko mencionara ter

ido à praia com Taichiro. O que teria acontecido então?

- Que bom! Encontrei um modelo encantador! - disse Oki, rindo para esconder a dúvida. Mas, enquanto mirava Keiko, seu riso calou sob o olhar provocante e sedutor

da jovem. Seus olhos estavam tão úmidos que pareciam em lágrimas. Oki não encontrou nada para dizer.

- A srta. Ueno prometeu pintar meu retrato - recomeçou Keiko.

- É mesmo?

- E eu trouxe um outro quadro para lhe mostrar!

- Não posso dizer que entendo muito de pintura abstrata, mas gostaria de vê-lo. Vamos para a outra sala, é mais espaçosa. Os dois quadros que você trouxe da última

vez estão pendurados no escritório de meu filho.

- Ele não está em casa hoje?

- Não. Está na universidade, e minha mulher foi assistir a uma apresentação de Ningyo Joruri (O "Teatro de bonecos" é, depois do Nô, o segundo gênero clássico do

teatro japonês. Foi elevado à categoria de autêntica arte dramática com Shikamatsu Monzaemon (nascido provavelmente em 1653 e falecido em 1724). (N. do T.)).

- Agrada-me que esteja sozinho - murmurou Keiko quase imperceptivelmente, e foi buscar o quadro que havia deixado na entrada.

A tela estava numa moldura simples de madeira clara. A cor dominante era o verde, mas Keiko ousadamente empregara outras cores, ao sabor de sua fantasia, de modo

que toda a superfície da tela parecia vibrar e ondular.

- Para mim, sr. Oki, esta é uma pintura realista. São as plantações de chá em Uji.

- Não diga! Plantações de chá...? - Oki observava a tela. - Eu diria que elas são sacudidas por vagas e transbordam de juventude. De início pensei que se tratava,

abstratamente, de um coração em chamas.

- Isso me faz tão feliz! Saber que o senhor a interpretou dessa maneira...

Keiko ajoelhou-se atrás de Oki, o queixo quase roçando seu ombro. Oki sentia a respiração doce e quente em seus cabelos.

- Sr. Oki, fico tão feliz que tenha reconhecido meu coração nesta pintura - insistiu Keiko -, embora só tenha retratado algumas desajeitadas touceiras de chá...

- Há tanta juventude nelas!

- É que estive nas plantações de chá para desenhar ao vivo, mas foi somente durante os primeiros trinta minutos mais ou menos que vi os arbustos de chá e os sulcos

na terra...

- Como assim?

- Estava tudo muito calmo, de repente umas curvas de um verde bem claro começaram a se mexer e a ondular, e eis o resultado. Não é uma tela abstrata.

- Mesmo na época dos novos brotos, sempre pensei que o verde das plantações de chá fosse mais discreto.

- Sr. Oki, desconheço a discrição, tanto na minha pintura como nos meus sentimentos...

- Mesmo nos seus sentimentos? - Ao se virar, o ombro de Oki roçou de leve os seios suaves da jovem. Seu olhar se deteve numa de suas orelhas.

- Se você continuar assim, vai acabar tendo uma dessas lindas orelhas cortada!

- Não sou um gênio como Van Gogh! Vai ser preciso que alguém a arranque de mim com seus dentes...

Surpreso com as palavras da jovem, Oki voltou-se bruscamente. Keiko perdeu o equilíbrio e agarrou-se a ele.

- Tenho horror dos sentimentos discretos - disse ela, sem alterar sua posição.

Seria suficiente uma simples pressão do braço de Oki para que Keiko caísse sobre seus joelhos, a cabeça para trás como à espera de um beijo.

Oki, porém, não fez um gesto e Keiko também não se moveu.

- Sr. Oki - murmurou Keiko, os olhos fixos nos dele.

- Suas orelhas são adoráveis - observou Oki -, mas seu perfil tem uma beleza deslumbrante!

- O que o senhor diz me dá prazer! - O longo pescoço delgado da jovem corou levemente. - Enquanto eu viver, jamais esquecerei o que o senhor acaba de me dizer. Mas

quem sabe quanto tempo poderá durar essa beleza? Para uma mulher, é um pensamento bem triste.

Oki não respondeu.

- Nada é mais embaraçoso para uma mulher do que ser observada por um homem, mas qualquer mulher ficaria feliz em parecer bela a alguém como o senhor!

Oki ficou surpreso com o calor dessas palavras. Era como se ela tivesse pronunciado um sussurro de amor.

- Eu também estou encantado - disse Oki com voz grave. - Embora haja ainda tantas coisas lindas a descobrir em você.

- O senhor acha? Eu não sei, sou apenas uma pintora, não uma modelo...

- Um pintor pode ter um modelo que pose para ele, um escritor não. Isso é algo que eu invejo.

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