Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



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hoje em dia, em versão manuscrita, romances que eram feitos para ser impressos, e não para ser decifrados na fastidiosa grafia de seu autor.

Na ocasião de seu casamento com Fumiko, não havia mais um fosso entre os manuscritos de Oki e sua versão impressa, e, sendo Fumiko datilógrafa, Oki confiava-lhe

o trabalho de copiá-los à máquina. Os textos, datilografados numa máquina de escrever japonesa, aproximavam-se muito mais de uma página impressa do que os manuscritos.

Oki também sabia que os manuscritos dos escritores ocidentais eram ou diretamente redigidos à máquina ou datilografados depois. Seus romances datilografados, porém,

sem dúvida porque não estava acostumado com isso, pareciam-lhe mais insípidos e mais frios do que em sua versão manuscrita ou impressa. Assim, via os defeitos mais

claramente e era-lhe mais fácil proceder à correção. Criara assim o hábito de entregar todos os seus manuscritos a Fumiko.

Mas poderia agir da mesma maneira com o manuscrito de Uma garota de dezesseis anos? Deixando que sua mulher o copiasse, ele a faria sofrer e a humilharia. Seria

crueldade de sua parte. Quando conheceu Otoko, sua mulher tinha 22 anos e seu filho acabara de nascer. Naturalmente, ela desconfiou da relação de seu marido com

Otoko, e, às vezes, à noite, perambulava com seu bebê sem destino, ao longo da via férrea. Um dia, depois de uma ausência de duas horas, Oki encontrou-a apoiada

contra a velha ameixeira do jardim, recusando-se a entrar em casa. Ao sair para procurá-la, ele ouvira seus soluços junto ao portão do jardim.

- Que diabo está fazendo aí? O bebê vai apanhar frio! Era em meados de março e a temperatura ainda era baixa.

O bebê apanhou frio e foi hospitalizado com início de pneumonia. Fumiko permaneceu no hospital para cuidar dele.

- Seria melhor para você se ele morresse. Assim seria mais fácil me deixar - dissera Fumiko a Oki. Até mesmo nessa ocasião, Oki se aproveitara da ausência de sua

mulher para rever Otoko. O bebê foi salvo.

No ano seguinte, quando Otoko teve seu parto prematuro, Fumiko ficou sabendo ao abrir uma carta da mãe dela, vinda do hospital. Que uma jovem de dezessete anos tivesse

um filho não era em si nada de extraordinário, mas era algo que Fumiko nunca tinha imaginado, nem mesmo em sonho. Enfurecida ao pensar em tudo o que seu marido fizera

àquela jovem, Fumiko cobriu-o de injúrias e depois mordeu a língua até sangrar. Quando Oki viu o sangue escorrer dos lábios de sua mulher, tentou abrir-lhe a boca

à força, com a mão. Fumiko começou a sufocar, foi tomada por náuseas e acabou perdendo as forças. Oki tirou a mão. Seus dedos traziam a marca dos dentes de sua mulher

e pingavam sangue. Ao vê-los, Fumiko acalmou-se um pouco, lavou a mão de Oki, passou-lhe um remédio e pôs uma atadura.

Fumiko também sabia que Otoko abandonara Oki e que fora morar em Kyoto com sua mãe. Sua partida se deu antes de Oki terminar Uma garota de dezesseis anos. Deixar

sua mulher copiar o manuscrito seria remexer na ferida com um punhal, voltando a provocar sua dor e seu ciúme. Porém, mantendo-a à distância, Oki tinha a sensação

de lhe esconder alguma coisa. Não sabendo o que fazer, acabou por dar o manuscrito a Fumiko. Ele queria, antes de mais nada, confessar-lhe tudo. E antes mesmo de

datilografá-lo, Fumiko leu o manuscrito do começo ao fim.

- Eu devia ter deixado você partir. Não sei por que não o fiz - disse Fumiko, empalidecendo. - Todos os que lerem estas páginas terão simpatia por Otoko.

- Não queria escrever sobre você.

- Sei que não posso me comparar à sua mulher ideal.

- Não é isso que eu quis dizer.

- Eu estava louca de ciúme.

- Otoko partiu. E é com você que vou viver por muitos, muitos anos. Além disso, muito do que pus neste livro é pura ficção de escritor e não se parece em nada com

a verdadeira Otoko. Por exemplo, eu não tenho idéia do que aconteceu quando ela esteve internada.

- Essa ficção nasce de seu amor por ela.

- Eu não poderia ter escrito este livro se não a tivesse amado - disse Oki de maneira explícita. - Você vai datilografá-lo para mim? Me custa muito pedir isso...

- Vou. Afinal de contas, uma máquina de escrever é apenas um instrumento. Serei, eu também, apenas um instrumento.

Mas, apesar do que dissera, Fumiko não podia se comportar como uma máquina. Ela parecia errar freqüentemente, e Oki ouviu muitas vezes o ruído de folhas de papel

sendo rasgadas. Quando ela interrompia o trabalho para descansar, Oki ouvia-a soluçando baixinho. Como a casa era pequena e a máquina de escrever se encontrava num

canto da exígua ala de quatro tatamis (No Japão, a área dos aposentos é calculada pelo número de tatamis que recobrem o assoalho. (N. do T.)) e pegada ao modesto

quarto de seis tatamis que lhe servia de lugar de trabalho, Oki estava muito consciente da presença de sua mulher. Era-lhe difícil permanecer sentado tranqüilamente

à sua escrivaninha.

Fumiko, no entanto, não fez nenhum comentário a respeito de Uma garota de dezesseis anos. Talvez pensasse que como instrumento não deveria falar. O romance tinha

cerca de 350 páginas e mesmo para uma datilógrafa experiente eram necessários muitos dias para terminar de copiá-lo. Fumiko estava pálida e tinha o rosto encovado.

Muitas vezes ficava sentada, o olhar perdido no vazio, de repente recomeçava a bater a máquina com fúria. Uma noite, antes do jantar, vomitou um líquido amarelado

e desabou. Oki aproximou-se dela para esfregar-lhe as costas.

- Água, água, por favor - pediu Fumiko, sem fôlego. As lágrimas brotavam nos cantos de seus olhos avermelhados.

- Eu fiz mal. Não devia ter pedido a você que copiasse este romance - disse Oki. - Mas o fato de manter você afastada de tudo isso... Mesmo se uma tal dissimulação

não fosse suficiente para causar a ruína de seu casamento, ela também teria deixado, por muito tempo, uma ferida aberta.

- Ao contrário. Apesar de ser uma experiência terrível, estou contente que você tenha me confiado - disse Fumiko, tentando esboçar um pálido sorriso. - É a primeira

vez que copio um romance tão longo e isso me deixa esgotada.

- Quanto mais longo o romance, mais longa sua tortura. Talvez seja esse o destino da mulher de um escritor.

- Graças ao seu romance, pude compreender melhor Otoko. Apesar de todo o mal que isso me fez, senti que esse encontro foi bom para você.

- Eu não lhe disse que a idealizei?

- Sei disso. Na realidade não existem jovens como ela. No entanto, gostaria que você tivesse falado mais de mim; mesmo se tivesse me descrito como uma horrível megera

devorada pelo ciúme, eu não lhe quereria mal.

Oki custou a responder:

- Você nunca foi assim.

- Você nunca soube o que havia em meu coração.

- Eu não queria contar todos os nossos segredos.

- É mentira. Você estava tão envolvido com sua pequena Otoko que só queria escrever sobre ela. Talvez pensasse que, falando de mim, mancharia sua beleza e aviltaria

sua obra. Mas um romance tem de ser necessariamente uma coisa bela?

O simples fato de não ter mencionado os ciúmes terríveis de sua mulher havia provocado uma nova crise de ciúme nela. Oki, porém, não se omitira totalmente. Ao contrário,

seu próprio laconismo não lhe dera assim mais força? Fumiko, no entanto, parecia frustrada por ele não ter entrado em detalhes. Oki não conseguia compreender o estado

de espírito de sua mulher. Teria se sentido negligenciada, desdenhada em benefício de Otoko? Mas, como o romance estava centrado em sua trágica relação com a jovem,

era inevitável que o papel atribuído a Fumiko fosse menor que o de Otoko. Além disso, Oki tinha acrescentado muitos detalhes que até o momento escondera de sua mulher.

Isso era o que o preocupava mais: no entanto, ela parecia magoada principalmente pelo pouco espaço dedicado a ela no livro.

- Eu não queria me servir de seus ciúmes no meu romance, isso é tudo! - disse Oki.

- É porque você não consegue falar de alguém por quem não sente amor... e nem mesmo ódio. Enquanto copio seu manuscrito, não paro de me perguntar por que não o deixei

ir embora.

- Vai começar a falar bobagens novamente.

- Estou falando sério. Foi um crime da minha parte não tê-lo deixado partir. Vou sentir remorsos até o fim da minha vida.

- O que é que está dizendo? - disse Oki, agarrando Fumiko pelos ombros e sacudindo-a com força. Ela estremeceu da cabeça aos pés e, outra vez, vomitou um líquido

amarelado. Oki a largou.

- Não é nada. Acho... acho que estou grávida.

- Como?

Oki estremeceu. Fumiko cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a soluçar.



- Você precisa tomar mais cuidado agora. E vai parar de copiar esse manuscrito.

- Não, quero continuar. Deixe-me copiar, por favor. Está quase acabado e, além disso, são só meus dedos que trabalham.

Fumiko recusou-se a ouvir Oki. Pouco depois de ter terminado de copiar o manuscrito, ela abortou. Mais que o esforço físico, parecia ter sido o conteúdo do manuscrito

que lhe causara um verdadeiro choque. Ela permaneceu alguns dias na cama. Seus cabelos, que eram macios, espessos e caíam em tranças, pareciam mais finos do que

antes. A pele de seu rosto, sem sangue e sem pintura, parecia aveludada. Apenas os lábios estavam levemente cobertos de batom. Por ser tão jovem, Fumiko se recuperou

bastante bem de seu aborto.

Oki guardou o texto datilografado num arquivo. Não o rasgou, não o queimou, mas também não o releu. Considerando o parto prematuro de Otoko e o aborto de Fumiko,

não havia nestas páginas alguma coisa de funesto? Durante algum tempo Oki e Fumiko evitaram tocar no assunto. Fumiko foi a primeira a traze-lo à tona.

- Por que não o publica? Tem medo de me magoar? Esse tipo de coisa é inevitável quando uma mulher é casada com um escritor, e se você tem medo de ferir alguém, esse

alguém é Otoko, ao que parece.

Durante a convalescença, a pele de Fumiko tinha recuperado a beleza e o brilho. Era esse o milagre da juventude? O desejo que sentia por seu marido também se aguçara.

Na época em que foi publicado Uma garota de dezesseis anos, Fumiko se encontrava novamente grávida.

O romance foi elogiado pela crítica. Além do mais, foi apreciado por um grande número de leitores. A dor e o ciúme não tinham abandonado Fumiko, mas, sem deixar

que gestos ou palavras traíssem sua amargura, ela se alegrava com o sucesso do marido. Foi esse romance - considerado a obra da juventude mais representativa de

Oki - que alcançou a maior vendagem entre todos os seus livros. Esse sucesso permitiu a Oki e à sua família melhorar de vida, melhora que se traduziu para Fumiko

em roupas e jóias, além de dinheiro para cobrir as despesas escolares de seu filho e sua filha. Teria Fumiko se esquecido de que tudo aquilo se devia a uma jovem

adolescente e à relação que seu marido tivera com ela? Consideraria esse dinheiro uma renda normal de seu marido? Será que, pelo menos a seus olhos, a aventura entre

Oki e Otoko não se revestia mais de um caráter trágico?

Oki não tinha nada contra esse estado de coisas, mas se surpreendia às vezes a pensar que Otoko, que servira de modelo para sua personagem, nada recebera em troca.

Nem ela nem sua mãe expressaram uma palavra de reprovação sequer a seu respeito. Diversamente de um pintor ou escultor realista, Oki, enquanto escritor, podia penetrar

nos pensamentos de Otoko, modelar seus traços como quisesse, dar livre curso à sua imaginação e fantasiar e idealizar a jovem, sem que, no entanto, ela deixasse

de ser ela mesma. Oki tinha permitido que seu amor se expressasse com todo o seu ímpeto e toda a sua juventude, e não se preocupara um instante com a inconveniência

que isso representaria para Otoko, nem com as dificuldades que poderia trazer para uma jovem solteira. Fora isso, sem dúvida, que seduzira seus leitores, mas podia

também se tornar um obstáculo ao casamento de Otoko. O romance lhe trouxera fama e dinheiro. Fumiko parecia ter esquecido seus ciúmes, e a ferida talvez estivesse

cicatrizada. Não havia também uma diferença entre a criança prematura de Otoko e o aborto de Fumiko? Fumiko continuava a ser sua mulher. Depois de uma convalescença

normal, sem complicações, ela dera à luz uma menina. Os meses e os anos passavam, e a única pessoa que não mudava era a jovem heroína das páginas de seu romance.

De um ponto de vista pessoal e mesquinho, e embora isso constituísse uma das debilidades do livro, Oki preferira não insistir muito nos ciúmes ferozes de sua mulher.

Era isso, sem dúvida, que tornava a leitura da obra tão agradável, e a heroína tão benquista.

Ainda hoje, mais de vinte anos depois, as pessoas continuavam a citar Uma garota de dezesseis anos como sua melhor obra. Mas Oki, como escritor, achava esse julgamento

angustiante e se sentia deprimido. No entanto, pesando bem as coisas, não havia nesse livro todo o frescor da juventude? Os protestos do autor não conseguiam dobrar

a preferência do público, tampouco uma reputação já consolidada. A obra passara a ter vida própria, sem vínculo nenhum com seu autor. Mas Oki, às vezes, se perguntava:

"O que acontecera à jovem Otoko?". A única coisa que sabia é que mudara com a mãe para Kyoto. Sem dúvida era essa vida contínua do romance que o levava a se indagar

sobre o destino de Otoko.

Somente nos últimos anos Otoko se tornara um nome conhecido na pintura. Até então, ele permanecera sem nenhuma notícia sobre ela. Oki imaginava que Otoko, como todo

mundo, se casara e levava uma vida normal: era isso, ao menos, o que esperava. Contudo, não acreditava que Otoko tivesse temperamento para se contentar com uma existência

comum. Às vezes, ele se perguntava se isso não queria dizer que o amor que sentira por ela ainda não estava totalmente morto.

E, por essa razão, seu choque foi imenso quando soube que Otoko se tornara pintora.

Oki ignorava os sofrimentos pelos quais Otoko havia passado, as dificuldades que havia superado até chegar àquele ponto, mas a notícia de seu sucesso lhe causou

uma viva alegria. Quando viu, por acaso, uma de suas obras numa galeria, Oki vibrou de emoção. A exposição não era unicamente de Otoko, apenas uma pintura sua, em

seda, representando uma peônia, estava exposta entre as obras de vários artistas. Na parte superior do quadro, Otoko pintara uma única peônia vermelha. A flor era

vista inteiramente de frente, maior do que o normal, com poucas folhas e, isolado, um único botão branco despontava na haste. Oki reconheceu, nessa flor deliberadamente

aumentada, o orgulho de Otoko, assim como toda a sua nobreza. Comprou o quadro imediatamente, mas como tinha o carimbo e a assinatura de Otoko preferiu não levá-lo

para casa e o doou ao clube de escritores do qual era membro. Assim, pendurada a uma boa altura na parede do clube, a pintura causou-lhe uma impressão um pouco diferente

da que produzira na galeria repleta de pessoas. Algo de fantástico emanava dessa enorme peônia vermelha, o seu interior parecia irradiar uma profunda solidão. Foi

na mesma época que Oki viu, numa revista feminina, uma fotografia de Otoko em seu estúdio.

Havia muitos anos ele desejava ir a Kyoto para escutar os sinos de fim de ano, mas foi essa pintura que lhe deu ensejo de ouvi-los em companhia de Otoko.

_Em Yamanouchi, ao norte de Kamakura, uma estrada corria entre as colinas repletas de árvores em flor. Logo, ao longo dessa estrada, as flores anunciariam a chegada

da primavera. Oki costumava passear nas Colinas do Sul e era de cima de uma delas que ele agora contemplava o crepúsculo.

O sol poente perdeu em breve seu tom púrpura e se transformou num azul frio e sombrio, manchado de cinza. Como se a primavera, recém-chegada, cedesse novamente seu

lugar ao inverno. O sol, que em alguns lugares dava à bruma uma coloração rosada, caíra.

O frio chegou rapidamente. Oki desceu até o vale e voltou para casa, nas Colinas do Norte.

- Uma jovem chamada Sakami veio de Kyoto - anunciou-lhe Fumiko. - Ela trouxe dois quadros e uns doces.

- E já foi embora?

- Taichiro a acompanhou até a estação. Talvez estejam procurando por você.

- Ah, sim?

- Ela é de uma beleza assustadora. Quem é? - indagou Fumiko, os olhos fixos em Oki como para ler a resposta em seu rosto. Oki se esforçou em parecer à vontade, mas

a intuição feminina de Fumiko deve ter-lhe feito adivinhar que a jovem tinha alguma ligação com Ueno Otoko.

- Onde estão as telas? - perguntou Oki.

- No seu escritório. Ainda estão embrulhadas, não mexi nelas.

Sakami Keiko parecia ter mantido a promessa feita a Oki na estação de Kyoto e ter vindo visitá-lo com algumas de suas obras. Oki foi logo ao seu escritório e abriu

o pacote. As duas telas estavam emolduradas de maneira simples. Uma se chamava Ameixeira, mas não tinha tronco nem galhos; apenas uma flor, tão grande como a cabeça

de uma criança, estava representada. Além disso, essa única flor tinha tanto pétalas vermelhas como brancas. Cada uma das pétalas vermelhas fora pintada com uma

estranha combinação de tons claros e escuros de vermelho.

Essa flor imensa não estava particularmente distorcida, tampouco dava a impressão de ser apenas decorativa. Uma espécie de vida misteriosa palpitava ali dentro e

ela parecia realmente se mover. Talvez isso se devesse ao fundo que Oki, a princípio, tomara por um amontoado de espessos fragmentos de gelo, mas que em seguida

reconhecera como uma cadeia de montanhas nevadas. Nessa pintura, que não queria ser um reflexo da realidade, somente as montanhas recobertas de neve podiam criar

um efeito de tamanha vastidão. Mas, evidentemente, as montanhas verdadeiras não eram tão recortadas, nem tão pontiagudas, nem se encolhiam assim em suas bases; esse

era o estilo abstrato próprio de Keiko. Mais do que montanhas nevadas ou fragmentos de gelo, não era essa a paisagem interior da pintora? Mesmo que se admitisse

ver ali uma cadeia de montanhas, não havia nela a brancura fria da neve. Uma espécie de música nascia do encontro entre a neve glacial e sua cor ardente. A neve

não era de um branco uniforme, diversas cores se compunham numa canção, lembrando as variações de branco e vermelho das pétalas da flor da ameixeira. Quer fosse

considerada fria ou não, essa pintura não deixava de revelar a juventude e o estado de espírito da artista. Sem dúvida Keiko a tinha pintado para Oki, para estar

de acordo com a estação. Pelo menos, a flor da ameixeira era reconhecível.

Enquanto contemplava a pintura, Oki pôs-se a pensar na velha ameixeira de seu jardim. Apesar das deformidades e da má formação da árvore, Oki jamais questionara

as vagas noções de botânica de seu jardineiro. A velha árvore dava flores brancas e vermelhas. O jardineiro não havia feito nenhum enxerto e as flores vermelhas

e brancas brotavam no mesmo galho. Mas nem todos os galhos da árvore eram assim; nuns só nasciam flores brancas, noutros, apenas flores vermelhas. No entanto, quase

sempre as flores vermelhas se misturavam às brancas e floriam cada ano em galhos diferentes. Oki amava essa velha ameixeira cujos botões começariam a desabrochar

em breve.

Keiko, sem a menor dúvida, tinha simbolizado essa estranha ameixeira por apenas uma de suas flores. Otoko devia ter lhe falado dessa árvore. Apesar de nunca ter

ido à casa de Oki, que já era casado com Fumiko, ela sabia de sua existência. Lembrara-se da árvore e, por sua vez, contara à sua aluna.

Teria Otoko feito alguma alusão a seu trágico amor de outrora ao evocar essa ameixeira?

- É de Otoko...?

- Como? -voltou-se Oki. Absorto na contemplação da tela, ele não percebera a presença de sua mulher.

- É um quadro de Otoko?

- É claro que não! Ela nunca faria algo tão jovem. Foi pintado pela moça que esteve aqui há pouco. Você pode ver que está assinado "Keiko"!

- Que pintura estranha! - observou Fumiko com voz dura.

- Estranha, realmente! - respondeu Oki, esforçando-se para falar com doçura. - Os jovens pintores de hoje, mesmo no estilo japonês...

- É isso que chamam de "arte abstrata"?

- Bem, talvez não se possa realmente falar de arte abstrata...

- O outro quadro é ainda mais estranho. Não saberia dizer se é um peixe ou uma nuvem, com todas essas cores espalhadas de qualquer jeito! - disse Fumiko, sentando-se

atrás de Oki.

- Hum! Não tem muito a ver com um peixe ou uma nuvem. Talvez não seja nem um nem outro.

- Nesse caso, o que é que isso pode representar?

- Você pode achar que é um peixe ou uma nuvem, isso não tem nenhuma importância.

Pousou o olhar na pintura. Aproximou-se da parede contra a qual a tela estava apoiada e examinou o dorso do quadro.

- Não tem título.

Nenhuma forma podia ser identificada nessa tela e as cores empregadas eram ainda mais violentas e variadas do que na Ameixeira. Fora sem dúvida por causa da multiplicidade

de linhas horizontais que Fumiko supôs reconhecer ali um peixe ou uma nuvem. À primeira vista, parecia não haver harmonia alguma entre as cores. Todavia, uma estranha

paixão emanava dessa obra executada no estilo tradicional japonês. Naturalmente, nada ali era acidental. O fato de não ter título deixava o campo aberto a todas

as interpretações. Podia ser que a subjetividade da artista, que parecia se dissimular na obra, ali estivesse, ao contrário, revelada. Oki tentava descobrir o coração

da pintura quando sua mulher lhe perguntou:

- Essa moça, afinal, o que ela é de Otoko?

- Uma aluna que vive com ela - respondeu Oki.

- Mesmo? Você me deixa rasgar essas telas ou pô-las no fogo?

- Pare de dizer bobagens! Por que essa raiva...?

- Ela pôs todo o seu coração nestas pinturas! Tudo aí fala de Otoko! Não são coisas para se ter em casa.

Espantado por esse súbito acesso de ciúme, Oki perguntou calmamente:

- Por que você diz que tudo aí fala de Otoko?

- Então você não está vendo?

- Mas isso é fruto da sua imaginação. Você está começando a ver fantasmas!

Porém, ao mesmo tempo em que falava, uma pequena chama acendeu-se em seu coração e pôs-se a brilhar com intensidade.

Era claro que a Ameixeira expressava o amor que Otoko sentia por Oki. Quanto à tela sem título, ela dizia sem dúvida a mesma coisa. Nessa última, Keiko empregara

pigmentos minerais, sobre os quais aplicara várias camadas de cor, desde o centro da composição até a parte inferior, à esquerda. Oki acreditou enxergar a alma dessa

tela nesse espaço estranho e claro que parecia formar uma janela. Podia ver até o sinal de que o amor de Otoko continuava vivo.

- Afinal, não é obra de Otoko, mas de sua aluna - disse ele.

Fumiko parecia suspeitar que Oki se encontrara com Otoko em sua ida a Kyoto. Mas ela nada tinha dito no momento, talvez porque o dia em que seu marido retornara

fosse também um dia de festa.

- O que quer que seja, eu detesto estas telas! - disse Fumiko, as pálpebras frementes de raiva. - Elas não ficarão aqui!

- Quer você goste ou não, elas pertencem a quem as pintou. Mesmo que a pintora em questão seja apenas uma menina, como pode pensar em destruí-las assim, a seu bel-prazer?

E, antes de tudo, você tem certeza de que elas nos foram oferecidas, ou a jovem veio simplesmente para mostrá-las?

Fumiko ficou silenciosa por um instante.

- Foi Taichiro quem a recebeu na entrada... Depois ele a conduziu até a estação e já faz um bom tempo que ele saiu.

Essa demora também atormentava Fumiko? A estação era perto da casa e havia trens a cada quarto de hora.

- Agora é a vez de Taichiro ser seduzido. Uma jovem tão bela e de uma beleza quase maligna.

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