Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



Baixar 0,62 Mb.
Página3/17
Encontro13.01.2018
Tamanho0,62 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   17

de rever Otoko, que lhe bastaria só ouvir os sinos de fim de ano e voltar para casa.

Oki despertara cedo com a movimentação nos quartos vizinhos, mas voltara a dormir assim que as duas famílias saíram. Eram quase onze horas quando ele despertou.

Dava lentamente o nó na gravata quando se recordou das palavras de Otoko: "Eu darei o nó para você. Deixe-me...".

Otoko tinha dezesseis anos e foram as primeiras palavras que ela pronunciou depois que ele a desvirginara. Oki ainda não dissera nada. Não havia encontrado nada

para dizer. Ele a havia atraído ternamente para seus braços, havia acariciado seus cabelos, mas não conseguira pronunciar uma palavra. Então, Otoko se desvencilhou

de seus braços e começou a se vestir. Ele se levantou, enfiou a camisa e, no momento de dar o nó na gravata, surpreendeu o olhar de Otoko fixo sobre si. Ela não

chorava, mas seus olhos estavam úmidos e brilhantes. Oki evitou seu olhar. Alguns minutos antes, enquanto ele a abraçava, Otoko mantivera os olhos abertos até que

ele os fechasse com um beijo.

Havia qualquer coisa de infantil e carinhoso em sua voz quando Otoko lhe propôs dar o nó em sua gravata. Oki sentiu uma onda de alívio. O oferecimento era inteiramente

inesperado! Mais que uma maneira de lhe perdoar, o gesto da moça significava antes de tudo um jeito de fugir de si mesma, e suas mãos tinham toques delicados enquanto

ajeitava a gravata, embora parecesse ter alguma dificuldade em dar o nó.

- Você sabe como dar o nó? - perguntou Oki.

- Acho que sim. Vi meu pai fazer.

O pai de Otoko havia morrido quando ela tinha doze anos.

Oki sentou-se numa cadeira, pôs Otoko sobre seus joelhos e ergueu o queixo a fim de lhe facilitar a tarefa. Otoko curvou-se ligeiramente e, em duas ou três tentativas,

desfez e refez o nó que acabara de começar. Em seguida desceu dos joelhos de Oki, deslizou os dedos por seu ombro direito e observou a gravata, dizendo-lhe:

- Aí está, menino. Será que ficou bom assim?

Oki se levantou e foi até o espelho. O nó de sua gravata estava impecável. Com a palma da mão, enxugou de forma enérgica o rosto suado e ligeiramente engordurado.

Depois de haver violado esta criança, não podia suportar a visão de seu próprio rosto. Viu no espelho a face da jovem que avançava em sua direção. Estupefato com

seu frescor e sua beleza profunda, Oki virou-se. Otoko pôs a mão sobre seu ombro e, encostando docemente a cabeça no seu peito, disse-lhe:

- Eu te amo.

Oki achara curioso que uma criança de dezesseis anos chamasse de "menino" um homem de 31.

Vinte e quatro anos haviam se passado desde então. Oki tinha hoje 55 anos e Otoko devia ter quarenta.

Oki saiu do banho e quando ligou o rádio que havia em seu quarto soube que uma fina camada de gelo recobria Kyoto naquela manhã. Mas, segundo as previsões meteorológicas,

o inverno continuaria a ser ameno durante as festas de fim de ano.

No desjejum, Oki se contentou com café e torradas servidos no quarto, em seguida saiu de carro. Incapaz de se decidir a ver Otoko, e não sabendo mais o que fazer,

resolveu ir ao monte Arashi. Do carro, viu que certas montanhas que se estendiam ao norte e ao oeste estavam banhadas de sol, enquanto outras estavam invadidas pela

sombra e que alguma coisa em suas silhuetas arredondadas deixava transparecer o frio dos invernos de Kyoto. O brilho do sol sobre as montanhas empalidecia, parecendo

que a noite cairia em breve. Oki desceu do carro diante da ponte de Togetsu, mas, em vez de atravessá-la, dirigiu-se ao parque de Kameyama tomando o caminho que

margeia o rio.

Nesse 30 de dezembro, o monte Arashi, que pencas de turistas costumam invadir da primavera ao outono, estava deserto e tinha um aspecto inteiramente diferente. Diante

de Oki, no mais profundo silêncio, erguia-se a antiga montanha em toda a sua nudez. A seus pés, o rio formava um espelho límpido e verde. Ao longe ressoavam os estrondos

de troncos de madeira sendo transportados em canoas pelo rio e carregados nos caminhões. Com certeza era para ver o monte Arashi erguer-se assim frente ao rio que

as pessoas vinham até aqui, mas a montanha estava, no momento, mergulhada na sombra e o sol iluminava apenas um de seus flancos que descia em declive acompanhando

o curso do rio.

Oki planejara almoçar sozinho num lugar tranqüilo perto da montanha. Em suas visitas anteriores havia conhecido dois restaurantes, mas a porta do primeiro, situado

não muito longe da ponte, encontrava-se fechada. Parecia pouco provável que, quase no fim do ano, as pessoas se dessem ao trabalho de vir a um lugar tão desolado.

Oki seguia seu caminho lentamente, perguntando-se se o pequeno e antigo restaurante, rio acima, estaria também fechado. Nada, no entanto, o obrigava a almoçar no

monte Arashi. Enquanto subia os gastos degraus de pedra, uma jovem mandou-o embora, dizendo-lhe que todo o pessoal do restaurante partira para Kyoto. Quantos anos

haviam se passado desde que comera, nesse mesmo restaurante, grandes rodelas de brotos de bambu - era a estação - cozidas com postas de bonito defumado? Enquanto

descia o caminho ao longo do rio, Oki surpreendeu, sobre os degraus de pedra que conduziam docemente ao restaurante vizinho, uma velha mulher varrendo folhas secas

de falsos plátanos. À sua pergunta, a velha respondeu que acreditava que o restaurante estivesse aberto. Oki parou por um instante ao lado dela e observou como o

lugar era calmo.

- Sim, pode-se ouvir distintamente as pessoas falarem do outro lado do rio - disse-lhe a velha.

Escondido sob algumas árvores, o restaurante tinha um velho teto de palha, espesso e úmido, e uma entrada sombria que não possuía nenhum aspecto de entrada, diante

da qual crescia um bosque de bambus. Os troncos de quatro ou cinco esplêndidos pinheiros vermelhos erguiam-se do outro lado do teto de palha. Oki foi conduzido a

uma sala em estilo japonês. O restaurante parecia vazio. Diante das portas de vidro corrediças viam-se somente as manchas vermelhas das bagas de aoki (Aucuba, gênero

de plantas rutáceas. (N do T.)). Oki descobriu uma azaléia florindo fora de estação. As bagas de aoki, os bambus e os pinhos vermelhos obstruíam-lhe a visão, mas,

pelas frestas das folhagens, ele podia distinguir uma superfície de água cor de jade claro, profunda, límpida e imóvel. Em sua imobilidade, o monte Arashi era semelhante

a essa superfície de água.

Oki debruçou-se sobre o kotatsu (Pequeno fogareiro encravado no chão e sobre o qual se coloca uma grelha recoberta por uma espessa cobertura. (N. do T.), no qual

ardia um fogo de lenha. Ouviu um pássaro cantar. Os estrondos dos troncos de madeira sendo carregados nos caminhões ressoavam através do vale. Discerniu, vindo das

Montanhas do Oeste, o apito de um trem que entrava ou saía de um túnel deixando atrás de si um eco taciturno. Esse eco o fez pensar no grito débil de um recém-nascido...

Com dezessete anos, no oitavo mês de gravidez, Otoko dera à luz uma criança prematura.

O bebê era uma menina.

A recém-nascida não pôde ser salva e Otoko não pôde ter sua filha a seu lado. Quando a criança morreu, o médico dissera a Oki:

- Na minha opinião, seria preferível esperar até que ela esteja um pouco mais restabelecida para lhe dar a notícia.

- Sr. Oki - dissera-lhe a mãe de Otoko -, conte à minha filha, eu lhe imploro. Não posso conter as lágrimas quando penso em tudo o que ela teve de suportar, quando

é ainda uma criança.

A raiva e o ressentimento da mãe de Otoko para com Oki tinham sido esquecidos nesse momento. Ela se sentira assim por Oki ter engravidado Otoko sendo casado e pai

de família, mas, como sua filha única era tudo que lhe restava, sua raiva acabara por se dissipar. E esta mulher, cuja determinação era ainda maior do que a de Otoko,

parecia ter cedido repentinamente. Não tivera, afinal de contas, de se reconciliar com Oki para assegurar o nascimento secreto da criança e os cuidados que ela deveria

receber após o parto? Além disso, a gravidez tornara Otoko muito nervosa e ela ameaçara se matar se alguma vez sua mãe falasse mal de Oki.

Assim que Oki voltou à cabeceira de sua cama, Otoko fitou-o com seu olhar claro, afetuoso e sereno de jovem mãe, depois, de repente, grossas lágrimas formaram-se

no canto de seus olhos e rolaram sobre o travesseiro.

"Ela compreendeu", pensou Oki.

Otoko chorava, sem conseguir se conter. Oki via as lágrimas formarem sulcos em suas faces e descerem até as orelhas. Apressou-se em enxugá-las. A jovem agarrou sua

mão e, pela primeira vez, deixou escapar soluços audíveis. Suas lágrimas e soluços tinham a violência de uma barragem que se rompe.

- Ele está morto? O bebê está morto, não é verdade? Ele está morto!

Ela se contorcia de dor, o corpo deformado pelo sofrimento. Oki tentou controlá-la, apertando-a inteiramente contra si. Ele podia sentir seus diminutos seios de

criança, miúdos, mas inchados de leite, roçando levemente no seu braço.

A mãe de Otoko, que devia estar observando do outro lado da porta, entrou chamando a filha.

Sem lhe dar a menor atenção, Oki continuou a apertar Otoko em seus braços.

- Não consigo respirar. Solte-me... - pediu Otoko.

- Você vai ficar calma? Não vai se mexer mais?

- Ficarei calma.

Oki afrouxou o aperto e os ombros de Otoko despencaram. Novamente, as lágrimas rolaram de suas pálpebras fechadas.

- Mãe, vão incinerá-lo?

Não houve resposta.

- Um bebê tão pequeno...?

Sua mãe não respondia.

- Você não disse, mãe, que quando nasci eu tinha os cabelos todos pretos?

- Sim, bem pretos.

- Meu bebê também tem os cabelos pretos? Mãe, você não poderia guardar uma mecha de seus cabelos para mim?

- Não sei, Otoko... - disse sua mãe com embaraço, e acrescentou num ímpeto: - Otoko, você poderá ter outra criança.

Depois, como se se arrependesse de suas palavras, franziu as sobrancelhas e desviou a cabeça.

Não tinham, a mãe de Otoko e o próprio Oki, desejado secretamente que essa criança não visse a luz do dia? Otoko tivera seu bebê numa clínica sórdida dos subúrbios

de Tóquio. Oki se encheu de remorsos ao pensar que a criança poderia ter sido salva se tivesse sido cuidada em um bom hospital. Oki conduzira Otoko à clínica sozinho.

Sua mãe não se resolvera a ir. O médico era um homem de rosto avermelhado pelo álcool, beirando a velhice. A jovem enfermeira fitava Oki com os olhos repletos de

reprovação. Otoko vestia um quimono vermelho de seda ordinária e corte infantil.

Vinte e três anos mais tarde, sobre o monte Arashi, Oki reviu nitidamente a imagem de um bebê de cabelos cor de azeviche, nascido prematuramente, que parecia se

esconder entre os bosques invernais ou imergir na superfície de água verde. Bateu palmas para chamar a servente. Compreendera, desde o começo, que nenhum cliente

era esperado hoje e que seria preciso aguardar pacientemente até que sua refeição estivesse pronta. A servente veio à sala de estilo japonês e, certamente para entretê-lo,

serviu-lhe uma xícara de chá, antes de sentar a seu lado.

Na sua conversação descosida, a servente contou-lhe a história de um homem que fora enfeitiçado por um texugo (Nos contos e lendas japoneses, o texugo, assim como

a raposa, é freqüentemente considerado como um espírito malfeitor que tem o poder de enganar os homens. (N. do T.)). Descobriram-no ao amanhecer chafurdando no rio

e gritando:

"'Eu vou morrer! Socorro! Eu vou morrer, ajudem-me!' Ele estava a se debater embaixo da ponte de Togetsu, num lugar onde o rio é pouco profundo e pode-se subir facilmente

pela margem. Quando vieram em seu auxílio e ele já tinha voltado a si, contou então que tinha errado pela montanha como sonâmbulo desde as dez horas da noite anterior

e que acabara por se encontrar dentro do rio sem compreender o que havia acontecido."

Da cozinha, uma servente trouxe a refeição. Oki havia escolhido, como entrada, um prato com tiras de carpa crua. Bebeu, em pequenos goles, um pouco de saque.

Ao sair, lançou novamente um olhar sobre o grosso teto de palha. Havia um certo encanto naquele teto coberto de musgo e quase em ruínas, mas a dona do restaurante

explicou-lhe que aquele teto não conseguia se secar nunca, pois estava sob as árvores. Não fazia sequer dez anos que tinham trocado toda a palha e já há oito que

ele estava assim. No céu, à direita do teto, brilhava uma meia-lua branca. Eram três e meia. Como ele descia o caminho ao longo do rio, Oki observou os martins-pescadores

que voavam rasantes à água. Distinguia claramente a cor de sua plumagem.

Perto da ponte de Togetsu, subiu novamente no carro com a intenção de dirigir-se ao cemitério de Adashino. Nesta tarde de inverno, diante de uma infinidade de pedras

sepulcrais e de efígies de Jizo (Deus da compaixão, patrono das crianças, dos viajantes e das mulheres grávidas. É geralmente representado sob os traços de um monge

com a cabeça raspada, tendo em uma das mãos uma pedra preciosa e na outra um bastão com anéis de metal. (N. do T.)), ele teria como que um antegosto da precariedade

das coisas humanas. Mas quando viu a penumbra dos bosques de bambu à entrada do monastério de Gio, ordenou ao motorista que desse meia-volta. Resolveu parar no Templo

dos Musgos antes de retornar ao hotel. O jardim do monastério estava vazio, com exceção de um jovem casal que parecia em viagem de núpcias. O musgo estava juncado

de folhas de pinhos secos, e as sombras das árvores que se refletiam no lago moviam-se à medida que ele caminhava. Oki retornou ao hotel pelas Colinas do Leste,

às quais os raios do sol poente davam uma coloração alaranjada.

Depois de ter tomado um banho para se aquecer, procurou na lista o número do telefone de Ueno Otoko. A voz de uma jovem - provavelmente a aluna de Otoko - respondeu

e passou em seguida para Otoko.

- Alô!

- É Oki quem está falando.



- É Oki, Oki Toshio.

- Sim. Já faz tanto tempo... - Otoko falava com a pronúncia de Kyoto.

Oki não sabia o que dizer; assim, a fim de evitar frases embaraçosas e para dar a impressão de que agira por impulso, falou com volubilidade, sem sequer escutar

sua interlocutora.

- Vim a Kyoto para ouvir aqui os sinos de fim de ano.

- Os sinos...?

- Por que não ouvi-los juntos?

Durante um longo momento, Otoko permaneceu sem responder. Surpresa, ela provavelmente não sabia o que dizer.

- Alô! Alô!... - chamou Oki.

- Você veio sozinho?

- Sim. Sim, estou sozinho. Otoko calou-se novamente.

- Vou voltar no dia 1° de janeiro pela manhã, depois de ter ouvido os sinos. Vim porque tive vontade de ouvir a seu lado os sinos que marcam a passagem de um ano

a outro. Já não sou tão jovem. Há quantos anos não nos vemos? Já faz tanto tempo que jamais teria ousado fazer-lhe esse convite, se não fosse por essa ocasião.

- Posso passar amanhã para apanhá-la?

- Não - precipitou-se Otoko. - Eu passarei para apanhá-lo. Às oito horas... Talvez seja um pouco cedo, marquemos então por volta das nove, no seu hotel. Eu me encarrego

das reservas.

Oki pensara em jantar tranqüilamente com Otoko, mas às nove horas ela já teria jantado. Pelo menos ela havia consentido em vê-lo. A imagem que guardava dela em suas

longínquas recordações retornou à vida pouco a pouco.

No dia seguinte, ficou o dia inteiro no hotel, até as nove horas da noite. Por ser o último dia do ano, o tempo parecia se escoar com uma lentidão ainda maior. Oki

nada tinha para fazer. Apesar de ter alguns amigos em Kyoto, nesta véspera de Ano-Novo, à espera de Otoko, ele não sentia vontade de ver ninguém. Embora não faltassem

restaurantes que ofereciam especialidades de Kyoto, ele se contentou com um jantar simples no hotel. Assim, o último dia do ano foi repleto de recordações de Otoko.

À medida que as lembranças afluíam ao seu espírito, elas adquiriam força e frescor. Fatos ocorridos há vinte anos possuíam mais vida do que eventos ocorridos na

véspera.

Oki estava afastado demais da janela para ver a rua do hotel, mas podia ver, além dos tetos da cidade, as Colinas do Oeste. Comparada com Tóquio, Kyoto era uma cidadezinha

tranqüila, na qual até as Colinas do Oeste pareciam ao alcance da mão. Enquanto mirava na direção das colinas, uma tênue nuvem transparente e dourada adquiriu um

tom cinza e frio e a noite caiu.

Quais eram suas lembranças? Que passado era esse que ele recordava tão claramente? Quando Otoko viera se instalar em Kyoto com sua mãe, Oki havia pensado que essa

partida assinalaria a separação entre ambos, mas haviam eles realmente se separado? Ele não podia banir de seu coração o remorso de ter transtornado a existência

de Otoko, de tê-la impedido de se desabrochar enquanto esposa e mãe, e se perguntava o que essa jovem mulher que nunca havia se casado podia estar pensando dele

depois de tantos anos. Em suas recordações, Otoko era a mulher mais apaixonada que já conhecera. E se a lembrança que tinha dela era, ainda hoje, assim tão viva,

isso não significava que não houvera nenhuma separação entre eles? Apesar de não ter nascido em Kyoto, as luzes da cidade ao cair da noite pareceram familiares a

Oki. Talvez Kyoto fosse de alguma maneira o berço de todo japonês, mas para Oki era também a cidade onde morava Otoko. Sem conseguir ficar tranqüilo, ele tomou um

banho, trocou inteiramente de roupa e andou de um lado para outro do quarto, mirando-se algumas vezes no espelho, enquanto esperava Otoko.

Eram nove e vinte quando telefonaram da recepção anunciando que a srta. Ueno havia chegado.

- Diga a ela para me esperar no saguão, descerei agora mesmo - respondeu Oki.

Em seguida indagou-se se não teria sido melhor convidá-la a subir.

Não avistou Otoko no vasto saguão. Uma jovem se aproximou e perguntou polidamente:

- É o sr. Oki?

- Sim.

- A srta. Ueno encarregou-me de vir procurá-lo.



- É mesmo? - Oki esforçou-se por parecer à vontade. - É muito gentil de sua parte...

Oki esperava que Otoko viesse buscá-lo sozinha, mas ela havia se esquivado. As imagens vivas que povoaram seu dia pareceram se dissipar subitamente.

Quando entrou no carro que os esperava, Oki permaneceu em silêncio um momento. Depois perguntou:

- Você é a aluna da srta. Ueno?

- Sou.

- A srta. Ueno e você moram juntas?



- Sim, há uma empregada que também vive conosco.

- Você é de Kyoto?

- Não, de Tóquio, mas como fiquei apaixonada pelas obras da srta. Ueno, eu a segui até aqui e ela me acolheu em sua casa.

Oki voltou a cabeça e observou a jovem. Desde o momento em que ela lhe dirigira a palavra no hotel, ele havia notado o quanto ela era bela. Agora podia ver seu perfil

encantador, com o pescoço longo e delgado, e o formato gracioso de suas orelhas. A beleza de seus traços não podia deixá-lo indiferente. Além disso, ela falava pausadamente,

mas com evidente reserva para com ele. Oki se perguntava se esta jovem estava a par do que havia se passado entre ele e Otoko, dessa relação que existira antes que

ela houvesse nascido. De repente perguntou-lhe de uma maneira um tanto incongruente:

- Você sempre usa quimono?

- Não. Em casa, como ando de um lado para o outro, uso calça, embora essa seja uma conduta desleixada. Mas como o Ano-Novo chegará enquanto estivermos ouvindo os

sinos, a srta. Ueno sugeriu-me que vestisse um quimono para a ocasião - disse a jovem, mais à vontade.

Ela não apenas viera buscá-lo no hotel, como ia, ao que parece, ouvir os sinos em sua companhia. Oki compreendeu nesse momento que Otoko procurava evitar encontrar-se

a sós com ele.

O carro atravessou o parque de Maruyama e dirigiu-se para o monastério de Chion. Oki avistou, esperando por eles num aposento em estilo tradicional de uma velha

e elegante casa de chá, alugado para a noite, Otoko acompanhada de duas maiko (Jovem dançarina profissional. (N. do T.)). De novo, ficou estupefato. Apenas Otoko

estava sentada perto do kotatsu, os joelhos sob a sua cobertura. As duas maiko sentavam-se frente a frente, uma de cada lado de um braseiro. A jovem que o trouxera

ajoelhou-se na entrada e disse, inclinando-se:

- Aqui estamos.

Otoko retirou os joelhos de sob a cobertura do kotatsu para saudá-lo.

- Já faz tanto tempo... - disse ela. - Pensei que você gostaria de ouvir os sinos deste monastério e é por isso que escolhi este lugar. Mas tudo por aqui já está

fechado e não sei se o acolhimento não deixará algo a desejar...

- Eu agradeço. Desculpe-me por ter lhe causado tanto incômodo - foi tudo o que Oki encontrou para dizer.

Otoko fizera-se acompanhar não apenas por sua aluna, mas também por duas jovens gueixas. Ele não podia, portanto, se permitir nenhuma alusão ao seu passado comum,

nem permitir que seu rosto traísse os sentimentos que experimentava. Na véspera, depois de ter recebido seu telefonema, Otoko devia ter se sentido num tal embaraço

e tão ameaçada que lhe viera à mente a idéia de convidar duas gueixas. Seria possível que a desconfiança que ela sentia ante a perspectiva de se encontrar a sós

com Oki fosse reveladora de seus sentimentos para com ele? Oki tivera essa impressão assim que entrara no aposento e se encontrara face a face com ela. Desde o primeiro

olhar, percebera que representava ainda alguma coisa para Otoko. Talvez os outros não houvessem notado. Ou talvez a jovem que vivia com Otoko tivesse percebido,

bem como as duas gueixas que, apesar de serem ainda bem jovens, possuíam a experiência das casas de prazer. Nenhuma delas, porém, deixou transparecer coisa alguma.

Otoko fez sinal a Oki para que se sentasse, em seguida indicou à jovem o seu lugar. Esta ficou de frente para Oki, do outro lado do kotatsu. Otoko lhe cedera o seu

lugar e colocara-se ao lado, não longe das duas gueixas. Parecia estar evitando Oki novamente.

- Srta. Sakami, já se apresentou ao sr. Oki? - perguntou Otoko docemente à jovem, depois fez as apresentações:

- Esta é a srta. Sakami, que mora comigo. Embora não pareça, ela é um pouco louca, você sabe!

- Oh! Srta. Ueno!

- Ela pinta quadros abstratos num estilo que lhe é bastante próprio. Sua pintura é tão apaixonada que parece obra de um cérebro doentio, mas suas telas me agradam

e, às vezes, eu a invejo. Enquanto pinta, ela entra em transe.

Uma moça trouxe saque e aperitivos. As gueixas serviram o saque.

- Eu não podia imaginar que ouviria os sinos do fim de ano em semelhante companhia - disse Oki.

- Pensei que seria mais agradável ouvi-los com essas jovens. É triste quando soam os sinos e ficamos um ano mais velhos - disse Otoko mantendo os olhos baixos. -

Muitas vezes eu me pergunto por que vivi até hoje...

Oki lembrou-se de que dois meses depois da morte de seu bebê, Otoko tentara suicídio engolindo uma grande dose de sonífero. Teria Otoko igualmente se lembrado? Ele

se lançara à sua cabeceira assim que a mãe de Otoko lhe dera a notícia. De tanto pedir à filha que o abandonasse, sua mãe a levara ao suicídio. Ainda assim, ela

chamara Oki, que permaneceu alguns dias na casa delas para cuidar de Otoko. Minuto a minuto, ele massageava suas coxas, enrijecidas por uma enorme quantidade de

injeções. A mãe de Otoko ia e vinha da cozinha trazendo toalhas quentes. Otoko estava nua sob o quimono. Com dezessete anos suas coxas eram muito finas e as injeções

haviam-nas feito inchar de maneira grotesca. Às vezes, quando a pressão se tornava muito forte, as mãos de Oki escorregavam por entre as coxas de Otoko. Quando sua

1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   17


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal