Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



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- Você não vem? - perguntou Keiko.

- Não, eu a espero.

Por timidez, Taichiro hesitava em se mostrar ao lado de Keiko, cuja beleza atraía tantos olhares.

- É mesmo? Vou dar um mergulho rápido. É a primeira vez que entro na água este ano e quero ver como me saio - disse Keiko.

Cerejeiras e chorões erguiam-se, a espaços regulares, no gramado que beirava o lago.

Taichiro sentou-se num banco, à sombra de uma velha árvore, e olhou a piscina. A princípio, não conseguiu encontrar Keiko, até que a vislumbrou sobre o trampolim.

Embora o trampolim não fosse muito alto, a silhueta tensa da jovem se preparando para o salto recortava-se contra a superfície do lago Biwa, atrás dela, e sobre

as altas montanhas mais além.

À distância, as montanhas estavam envoltas na bruma. Um rosa pálido evanescente flutuava sobre as águas sombrias do lago. As velas dos barcos refletiam agora as

cores calmas do crepúsculo. Keiko mergulhou, lançando ao ar um jato de água.

Quando saiu da piscina, Keiko alugou uma lancha e convidou Taichiro a acompanhá-la.

- Vai escurecer logo - ele disse. - Por que não deixamos para amanhã?

- Amanhã...? Você disse mesmo amanhã!? - exclamou Keiko com os olhos brilhantes. - Então, você vai ficar? Está pensando mesmo em ficar até amanhã...? Mas como ter

certeza? Cumpra ao menos uma de suas promessas... Não iremos muito longe e voltaremos logo. Por um instante, quero estar longe da margem com você. Adoraria que fôssemos

ao encontro de nosso destino e flutuássemos com as ondas. O amanhã nos escapa sempre... Vamos hoje! - insistiu Keiko, puxando Taichiro pela mão. -Veja quantos barcos

ainda estão no lago!

Três horas mais tarde, ao ouvir o rádio, Ueno Otoko soube do acidente de barco que ocorrera no lago Biwa. Precipitou-se de carro até o hotel, onde encontrou Keiko

acamada.

Soubera pelo rádio que uma jovem cujo primeiro nome era Keiko fora salva por um veleiro. Ao entrar no quarto, Otoko indagou à camareira que parecia estar encarregada

de cuidar da moça:

- Ela ainda está inconsciente? Ou está dormindo? O que aconteceu?

- Deram-lhe um sedativo para que dormisse - disse a camareira.

- Um sedativo...? Então ela está fora de perigo?

- Está. O médico disse que não havia nenhuma razão para se inquietar. Ela parecia morta quando a trouxeram para terra, mas voltou a si quando lhe fizeram respiração

artificial e vomitou toda a água. Então ela começou a se debater como louca, gritando o nome do homem que a acompanhava...

- E ele, como está?

- Ainda não o encontraram, apesar de todos os esforços.

- Não o encontraram...? - repetiu Otoko, com a voz trêmula. Voltou para o outro quarto, aproximou-se da janela que dava para o lago e olhou para fora. As lanchas,

com as luzes acesas, esquadrinhavam sem cessar a superfície negra das águas à esquerda do hotel.

- Todas as lanchas da região estão lá fora, e não só as do hotel. Há também as da polícia. Até acenderam fogueiras nas margens - disse a camareira. - Mas temo que

seja tarde demais para salvá-lo...

Otoko agarrou-se à cortina da janela.

Alheio ao vaivém das lanchas e de suas luzes irrequietas, um barco de turistas, enfeitado com lanternas vermelhas, aproximava-se lentamente do ancoradouro do hotel.

Na margem oposta, fogos de artifício clareavam o céu.

Quando percebeu que seus joelhos estavam tremendo, Otoko foi logo tomada por calafrios e as luzes do barco de turistas pareceram oscilar à sua frente. Com esforço,

ela se afastou da janela. A porta do quarto de dormir estava aberta.

A cama de Keiko atraiu seu olhar e ela voltou rapidamente para a cabeceira da moça como se tivesse esquecido de que já havia estado naquele quarto.

Keiko dormia tranqüilamente. Sua respiração era normal. A angústia de Otoko aumentou:

- Podemos deixá-la assim?

- Sim - aquiesceu a camareira.

- Quando ela vai acordar?

- Não sei.

Otoko pôs a mão na testa de Keiko. A pele fria e ligeiramente úmida da jovem pareceu aderir à palma de sua mão. As cores haviam abandonado o rosto pálido de Keiko.

Apenas um débil vermelho persistia em suas bochechas.

Seus cabelos jaziam esparramados em desordem sobre o travesseiro. Eram tão negros que pareciam ainda molhados. Entre os lábios levemente separados entreviam-se seus

lindos dentes. Os dois braços estendiam-se ao longo do corpo, sob o cobertor. Enquanto repousava, a cabeça voltada para cima, a pureza e a inocência de sua face

adormecida confundiram Otoko. Seu rosto parecia estar dizendo adeus a Otoko e à vida.

No momento em que esticava o braço a fim de sacudir Keiko e despertá-la, Otoko ouviu baterem à porta do quarto ao lado.

A camareira foi abrir a porta.

Oki Toshio e sua esposa entraram no quarto. Mal seu olhar deparou-se com o de Otoko, Oki imobilizou-se.

- Você é a srta. Ueno, não? - disse Fumiko. - Então é você.

Era a primeira vez que as duas mulheres se encontravam.

- Então é por sua causa que Taichiro está morto! - A voz de Fumiko soava fria e isenta de qualquer emoção.

Otoko abriu a boca, mas nenhum som saiu. Apoiou-se na cama de Keiko com uma das mãos. Fumiko veio em sua direção. Otoko encolheu-se como que para escapar.

Fumiko agarrou Keiko com as duas mãos e a sacudiu, gritando:

- Acorde! Acorde, já!

À medida que seus movimentos se tornavam mais violentos, a cabeça da jovem rolava sobre o travesseiro.

- Acorde! Por que não acorda?

- Não adianta. Ela não acordará. Deram-lhe um sedativo para dormir... - disse Otoko.

- Tenho que lhe perguntar uma coisa. É a vida de meu filho que está em jogo! - disse Fumiko, sacudindo Keiko sem parar.

- Você lhe perguntará mais tarde. Todas as pessoas no lago estão buscando Taichiro - disse Oki. Então pôs os braços em volta dos ombros da esposa, e os dois deixaram

o quarto.

Com um fundo suspiro, Otoko deixou-se cair na cama, observando a face adormecida de Keiko. Fios de lágrimas afloravam bem nos cantos de seus olhos.

- Keiko!

Keiko abriu os olhos. As lágrimas brilhavam quando ela os ergueu em direção a Otoko.

***

POSFÁCIO


CALIGRAFIAS DA AUSÊNCIA

Ao FINAL DA LEITURA de Beleza e tristeza, o leitor pode experimentar um certo desconforto, como já apontado no prefácio. A obra deixa um retrogosto indeterminado,

entre a leve amargura do chá verde e a doce acidez do arroz do sushi. O próprio desenlace do romance é revelador - afinal, nem desenlace se revela: trata-se de mais

um laço, ou melhor, de uma faixa enlaçada firmado por um nó, como o obi que fecha o kimono.

O obi aperta, o kimono restringe, o chá verde e o sushi - como a fruta caqui - adstringem. Eis alguns exemplos da chave estética de Kawabata, que perpassa o romance

e é atualizado da tradição artística nipônica: o que é denominado shibumi.

Como muitos termos japoneses, shibumi é intraduzível. Mesmo em japonês, sua significação é indeterminada, vaga e imprecisa; pode ser explicado por analogia ou por

negação, jamais em sua positividade. O significado de shibumi escapa, é evasivo, no limite, é ausente. E é precisamente essa ausência, esse vazio de significação,

que constitui a qualidade estética shibui, atribuída às grandes obras e aos grandes artistas, independentemente do âmbito artístico. Uma poesia e uma pintura podem

ser considerados - e aclamados -shibui, mas também um jardim, uma roupa, uma cerâmica, um prato, uma bebida... Mas esses objetos são apenas símbolos de uma complexa

- e silenciosa - relação envolvendo artistas, atores, personagens e espectadores; o shibumi tem de ser cultivado e desempenhado por todos, e só assim é possível

a sua apreciação e reconhecimento.

Em resumo, shibumi não se restringe ao âmbito artístico, faz parte de uma cultura mais ampla, que envolve gestos, atitudes, condutas, implica valores éticos e mesmo

religiosos. Por aproximação simplista, shibumi é associado, por um lado, a valores como refinamento e sofisticação; por outro lado, a despojamento e simplicidade.

Valores que devem - para o japonês cultivado - se traduzir em sua conduta cotidiana, no relacionamento doméstico ou social, mas também em sua apreciação estética

desde os objetos mais simples do cotidiano até da paisagem "natural" ou da obra de arte. O verbo dever, em sua ambigüidade, aqui não é fortuito. Primeiro, shibumi

é mais que um ideal estético, pode ser uma regra moral, quase um imperativo silencioso, traduzido em rígido padrão de etiqueta social; numa palavra, uma restrição.

Nada demais nos gestos, palavras, tons de voz; nada de exorbitar as emoções. Segundo, o dever como o estar em falta, por não ter correspondido à ação esperada, não

ter cumprido a reciprocidade exigida, estar em débito; numa palavra, o constrangimento. Se ao primeiro se espera, ao segundo se desespera. O ideal estético é síntese

e símbolo do rígido padrão ético, que em japonês se denomina giri.

Restrição e constrangimento constituem o travo, o amargor do shibumi. Ainda que vaga e indeterminada, eis aqui uma especificidade do que é positivado como "identidade

japonesa". Todavia, o próprio shibumi não se positiva...

Como em uma bola de seda japonesa, Kawabata enlaça o romance em torno dessa idéia evasiva, que permeia personagens, situações, cenários e objetos.

As personagens principais gravitam em torno do mundo da Arte, mas de uma arte japonesa evanescente, vinculada a uma tradição sobressaltada pelo processo de modernização,

imposta no pós-guerra. Oki Toshio, escritor reconhecido, busca a reconciliação com sua antiga amante, Ueno Otoko, renomada pintora. Numa primeira leitura, pode se

dizer que suas capacidades artísticas afloram devido às amargas circunstâncias de sua separação. Oki faz sucesso com o romance que descreve a intensa relação clandestina

mantida com Otoko, então adolescente, assim como a trágica sina da jovem após o rompimento. Dilacerada pelo relacionamento rompido e pelos constrangimentos sociais,

Otoko se transfere a Kyoto e, após difícil recuperação, constitui bem sucedida carreira como pintora de temas tradicionais. No romance de Oki, como na pintura de

Otoko, há a referência nostálgica - mesmo que indireta e simbólica - à separação, não apenas de um amor irresolvido, mas de todo um mundo dolorosamente desfeito.

A seu modo, ambos estão irremediavelmente vinculados por um sofrimento que os transcende. Porquanto artistas tradicionalistas, ambos são artesãos calígrafos em suas

artes; Oki manuscreve os textos, Otoko maneja os pincéis. Mesmo com o recurso da máquina de escrever, Oki insiste em se afastar da tipografia mecânica. Mesmo com

a existência da máquina fotográfica, Otoko persiste em pintar retratos, paisagens e flores. Escrita e pintura, são caligrafias de uma vida e de um mundo em desaparecimento.

A reconciliação de Oki e Otoko é impossível, a despeito de seus desejos; o mundo que os unia, inexiste. Todavia, foi o distanciamento e o desaparecimento deste mundo

que propiciou sua arte.

As personagens secundárias intensificam o sentimento do aparte. Fumiko, esposa de Oki, representa o giri social, se ressente da traição do marido e impede a paixão

dos amantes. Padece com as revelações biográficas de Oki, desnudados pela publicação do romance. Mas também é a mediação do marido com o mundo editorial moderno,

enquanto sua datilografa e representante. Taichiro, filho de Oki e Fumiko, também se ressente do passado do pai, mas mantém vinculação indireta com a história -

e com seu pai - enquanto pesquisador da tradição literária japonesa. A personagem mais destacada é Sakami Keiko, jovem pintora, figura de rara beleza e aprendiz

de Otoko, com quem mantém ambíguo relacionamento amoroso. Keiko é a responsável pelas principais situações de conflito da trama, em suas relações - diretas ou mediadas

- com Otoko, Oki, Sakami e Taichiro. Em caracterização típica, Keiko se avoca o direito de vingar sua mestra e amante, na tentativa de solucionar o dilema sentimental

de Otoko. Curiosamente, são as personagens secundárias, em maior ou menor grau, que constituem o núcleo ativo do drama, enquanto os personagens principais, Oki e

Otoko, demonstram um caráter muito mais reativo ou passivo, isto é, caracterizam-se mais pela omissão, pela indecisão, pela inércia: pela ausência de ação. Paradoxalmente,

a tensão dramática se intensifica pela inação dos protagonistas, enquanto os coadjuvantes, na tentativa de resolução, desesperadamente agem, mas em vão. O romance

não se desenrola em torno do drama, isto é, da ação dramática, mas se amarra principalmente no que não é dito, no que não é feito, no que não pode ser dito, no que

não pode ser feito. Não há solução ou desenlace possíveis; apenas mais um enlace, mais um nó. Desse modo, prevalecem o indizível, o impossível, o silêncio, a ausência.

Cenários e objetos apresentados não apenas situam a ação, mas caracterizam especialmente a inação, mais precisamente, a contemplação da situação. Kawabata dá preferência

a ambientes esvaziados, silenciosos, em momentos inertes. Quando figura situações movimentadas, sugere que são desagradáveis, ruidosas, perturbadoras. Assim, desde

a primeira cena no trem vazio, o solitário Oki contempla a paisagem do Monte Fuji, interrompido pela presença ruidosa de turistas americanos. Templos e santuários

budistas de Kyoto, contemplados por Otoko, são delicadamente descritos, e o silêncio de sua arquitetura e jardins ressoa nas pedras e plantas. Paisagens e vistas

panorâmicas são como que pintadas no texto, sempre em momentos vazios, ao entardecer ou após a chuva, quando as pessoas partiram, ou evitam sair. Das caminhadas

de Oki por Kamakura, do pequeno jardim doméstico de Otoko, até a paisagem monumental do monte Ogura e a vista do lago Biwa, o mesmo sentimento de esvaziamento, o

mesmo impulso evasivo. Se o cenário interessa, é pelo simbolismo da ausência, seja do passado histórico que assombra os monumentos, seja da melancolia da contemplação

solitária, seja da catástrofe anunciada ao futuro.

Se personagens, situações, objetos e cenários gravitam o shibumi, o seu caráter perturbador não consiste no fato de que simbolizem a amargura, o ressentimento, a

melancolia, numa palavra, a tristeza associada ao vazio. O desconfortável - e o constrangedor - é que esses sentimentos possam ser transfigurados em beleza, ou ainda,

que possam ser apreciados como beleza. Como é possível este aparente contra-senso?

Alguns exemplos de Kawabata, cuja escrita é, com o perdão do pleonasmo, sensorial e sensual. O pescoço de Keiko é belo porquanto emoldurado pelo kimono, sutil e

provocantemente revelado. O kimomo é belo enquanto delicadamente tingido e bordado, mas firmemente atado pelo obi. Obi e kimono oprimem, apertam os seios, restringem

o movimento, quase tudo ocultam: mas são lindamente atados; onde se ausentam, resplandece a sensualidade. Um haicai de Basho é belo porque sutil, simples e espontaneamente

evocativo: evoca porque lacônico; o poema não diz, imaginamos; todavia, sua métrica e caligrafia exigem um rigoroso treinamento artístico e espiritual. O jardim

de Saiho-ji é belo, uma serena paisagem pétrea representando cascatas e rios, emoldurada por musgos, como se fora bela natureza; mas foi resultado de disciplina

monástica e árduo trabalho manual, mesmo na suave disposição das pedras. A crença, a religião podem se esvaziar, nada mais pode restar; resta o peso das pedras frente

à maciez do musgo.

O pescoço, o kimono, o haicai, o jardim, por associação, o romance de Oki, a pintura de Otoko - o próprio livro de Kawabata - para que existissem como objetos belos

foi exigido mais que labor, sofrimento. Todas essas obras exigem a contraparte daquele que delas se apropria, que delas escreve, que a elas contemple. Que à sua

beleza e delicadeza aparentes sejam reconhecidas a restrição e a dureza que as tornou possíveis. Mais, ainda. Que, depois de tanto esforço, de tanta dor, se saiba

que tanta beleza se desvaneça, ou já se desvaneceu. Em vão.

Caligrafias da ausência: escrever, pintar o vazio.

É belo. É triste.

Shibumi.


ROBERTO KAZUO YOKOTA

Fim do posfácio.



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