Quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome



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Sinopse

Beleza e tristeza, último romance de Yasunari Kawabata (1899-1972), é uma obra-prima de complexidade e sutileza que, juntamente com os romances O país das neves

(1937), Nuvens de pássaros brancos (1951) e O ruído da montanha (1954), o tornou conhecido no Ocidente e lhe valeu o Prémio Nobel de 1968.

Nesta história de paixão, ao mesmo tempo lírica e aterradora, narrada com a mais desconcertante serenidade, Oki Toshio, um escritor de meia-idade, faz uma viagem

nostálgica a Kyoto para ouvir os sinos dos templos soarem na noite do Ano Novo. É movido também por outro desejo: reencontrar Otoko, que fora sua amante vinte e

quatro anos antes e que agora é uma pintora de renome.

Ainda muito bonita, ela vive num monastério com sua pupila Keiko, jovem de temperamento intensamente amoral e apaixonado. À medida que a vida dos três se entrelaça

irremediavelmente, Keiko torna-se a principal agente de destruição deste vasto e inquietante drama de vingança.

Mesclam-se aqui penetrantes observações psicológicas e um questionamento profundo sobre o sentido da arte e da literatura, bem como evocações surpreendentemente

poéticas dos jardins e monastérios do velho Japão. Beleza e tristeza é uma meditação sutil sobre temas caros ao autor: a solidão e a morte, o amor e o erotismo.

NOVA EDIÇÃO, REVISTA

Fim da sinopse

Outras obras do autor em inglês. THE IZU DANCER (l925) / OF BIRDS AND BEASTS (1933) / YUKIGUNI (PAÍS DAS NEVES)(1937) / SNOW COUNTRY (1948) / LUOMI (1950) / THOUSAND

CRANES (1949-52) / SENBAZURU (NUVENS DE PÁSSAROS BRANCOS) (1951) / THE SOUND OF THE MOUNTAINS (1954) / THE LAKE (1954) / HOUSE OF SLEEPING BEAUTIES AND OTHERS STORIES

(1961) / KYOTO (1961-62) / ONE ARM (1964) / JAPAN THE BEAUTIFUL AND MYSELF (1969) / THE EXISTENCE AND DISCOVERY OF BEAUTY (1969) / THE MASTER OF GO (1972) / THE

OLD CAPITAL (1987) / PALM OF THE HAND STORIES (1988)

***

YASUNARY KAWABATA nasceu em Osaka, no Japão, em 1899. Órfão de pai e mãe ainda muito pequeno, foi criado pelos avós. Com a morte deles, continua os estudos em regime



de internato. Alguns críticos acham que esses traumas de infância deram subsídios para o senso de perda e de arrependimento presente em sua literatura.

Em 1920, ingressa na Universidade Imperial de Tóquio para estudar literatura. Em 1921, funda a revista Xin-Xicho [Pensamento Novo]; posteriormente colabora na criação

da revista Bunguei Xunju [Anais Literários], que lança o movimento Xinkankakuha [Sensações literárias], o qual se opõe à escola realista e interessava-se pelas vanguardas

literárias européias. Iniciou sua carreira de escritor com narrativas breves, mais tarde denominadas Tanagohoro no shôsetsu [Contos que cabem na palma da mão], hoje

considerado um gênero típico de Kawabata. O romance The Izu Dancer, de 1925, foi seu primeiro sucesso.

Em 1931, já casado, Kawabata muda-se para Kamakura, antiga capital dos samurais, ao norte de Tóquio. Em 1954, lança o que talvez seja seu mais famoso romance: The

Sound of the Mountains, que descreve uma série de crises familiares. Apesar de ter permanecido neutro durante a Segunda Guerra Mundial, no fim dos anos 1960 engajou-se

em manifestações políticas, participou de campanhas de candidatos conservadores e condenou a Revolução Cultural chinesa. Além disso foi presidente do PEN Club japonês,

sendo bastante prestativo com escritores iniciantes.

Em seus trabalhos iniciais, Kawabata fez experimentações com técnicas surrealistas, mas seu estilo naturalista tornou-se cada vez mais impressionista, combinando

a estética japonesa com narrativas psicológicas e erotismo. Tornou-se conhecido no Ocidente com os romances Yukiguni [País das neves] (1937) e Senbazuru [Nuvens

de pássaros brancos] (1951).

Ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1968 e, em seu discurso, condenou o suicídio, lembrando vários amigos escritores que haviam morrido dessa forma. Em 1972,

no entanto, após longo sofrimento devido à saúde precária, Kawabata suicidou-se.

ALBERTO ALEXANDRE MARTINS nasceu em Santos, em 1958. Poeta e artista plástico, ganhou o prêmio Jabuti por seu livro Goeldi - História de horizonte, em 1996. Publicou

Poemas (1990), Charbonneau - Ensaio e retrato (1997) e A floresta e o estrangeiro (2001).

JOSÉ TEIXEIRA COELHO NETTO é autor, entre outros livros, de Niemeyer: um romance e Fliperama sem creme, Moderno pós moderno, Artaud: posições da carne e Arte e utopia.

Colaborador do suplemento Mais! e da revista Bravo!, é coordenador do Observatório de Políticas Culturais e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade

de São Paulo. Foi diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP.

ROBERTO KAZUO YOKOTA nasceu em Bela Vista do Paraíso (PR), em 1963. Graduado em arquitetura pela USP, pela qual é mestre em filosofia, é professor de história da

arte, do design e da arquitetura na Escola de Artes, Arquitetura, Design e Moda da Universidade Anhembi Morumbi, assim como pesquisador de cultura japonesa contemporânea.

Yasunari Kawabata

Prêmio Nobel de Literatura de 1968

BELEZA E TRISTEZA

traduzido do japonês para o inglês por Howard S. Hibbett

traduzido do inglês por Alberto Alexandre Martins

prefácio: Teixeira Coelho

posfácio: Roberto Kazuo Yokota

3ª edição

Editora Globo

Copyright(c) 1961, 1962, 1963, 1964, 1965 by

The Heirs of Yasunari Kawabata

Copyright da tradução (c) 1988 by Editora Globo S.A.

Este livro foi traduzido a partir da edição norte-americana Beauty and Sadness de Howard S. Hibbett e cotejado com a edição francesa Tristesse et beauté de Amina

Okada, ambas traduzidas diretamente do japonês.

Título original: Ustukushisa to kanashimi to

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação

etc. - nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados, sem a expressa autorização da editora.

Revisão: Beatriz de Freitas Moreira, Eugênio Vinci de Moraes e Denise Padilha Lotito

Capa: Rita da Costa Aguiar

Imagens de capa: Gravura da série Cem famosas passagens de Edo, de Hiroshige (c) Brooklyn Museum / CORBIS

Gravura de Yoshitoshi (c) Asian Art & Archeology, Inc. / CORBIS

Foto de contracapa: Yasunari Kawabata (c. 1960) (c) Bethmann / CORBIS

1ª edição, 1988 / 2ª edição, revista, 2004 / 3ª edição, 2008

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Kawabata, Yasunari, 1899-1972.

Beleza e tristeza / Yasunari Kawabata ; tradução do japonês para o inglês por Howard S. Hibbett; tradução do inglês por Alberto Alexandre Martins; prefácio Teixeira

Coelho; posfácio Roberto Kazuo Yokota. - 3. ed. rev. e ampl. - São Paulo : Globo, 2008.

Título original: Utsukushisa to kanashimi to "Prêmio Nobel de Literatura de 1968"

ISBN 978-85-250-4539-3

1. Romance japonês I. Coelho, Teixeira. II. Yokota, Roberto Kazuo. III. Título

08-04408


CDD-895.635

índice para catálogo sistemático:

1. Romances : Literatura japonesa 895.635

Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil adquiridos por Editora Globo S. A.

Av. Jaguaré, 1485 - 05346-902 - São Paulo - SP

www.globolivros.com.br

***

PREFÁCIO


NA ÚLTIMA EXTREMIDADE

"Mas um romance tem de ser necessariamente uma coisa bela?", pergunta uma personagem ainda no início de Beleza e tristeza. A pergunta fica suspensa no ar, ninguém

lhe responde. Nem o autor, Kawabata, o faz, como narrador. A resposta seria: talvez não. Ou talvez sim, um romance se torna necessariamente uma coisa bela ainda

que feito de coisas "feias". O que um romance não tem necessariamente de ser é incômodo. Quem sabe apenas os grandes romances incomodem.

Pode ser inadequado iniciar um prefácio dizendo ao leitor, prestes a entrar num romance, que este provavelmente o incomodará. Se assim for, será preciso então lembrar,

num momento em que a cultura está sendo domesticada ou outra vez domesticada, que o incômodo em uma obra de arte é um dos sinais seguros de que se está diante de

uma obra de valor. Seria o caso de lembrar, numa palavra, que o incômodo é uma positividade da obra de arte. Num momento em que os filmes de sucesso não devem incomodar

ninguém - nenhuma minoria, nenhuma religião, nenhum partido, nenhum político, nenhuma comunidade - e quando a literatura, ou "literatura", deve ser a mais digestiva

possível para atenuar o desconforto de uma sala de espera de aeroporto ou da própria e atroz viagem de avião, ou para amenizar o desassossego de um dramático corredor

de hospital onde se espera uma notícia sobre a vida ou a morte, nesse momento a grande literatura não pode esquecer que não existe para reafirmar as pessoas em seus

costumes cotidianos mas, exatamente, para arrancá-las de seu torpor conformista e fazê-las sentir alguma coisa, senão pensar alguma coisa. Não se trata do incômodo

da brutalidade e da violência, como é costume hoje e que quase não mais incomoda: isso é fácil de conseguir-se. Trata-se do incômodo da normalidade aparente, o incômodo

do que não se consegue evitar, embora a causa do incômodo seja a mais comum possível, o incômodo da singeleza (ou da enormidade) que é ser humano; o incômodo, mesmo,

do esforço de exercer a delicadeza, o incômodo das coisas belas; o incômodo de lidar com o real e o concreto e com o simbólico e o abstrato. O incômodo, enfim, provocado

por este romance, incômodo que principia sorrateiro até se instalar no leitor com uma intensidade que é melhor, agora, não qualificar.

Provocar o incômodo como recurso de estilo (estilo é bem a palavra, não técnica): questão central e um dos principais atrativos deste romance que recorre ao simbólico

e ao abstrato para tocar mais fundo no concreto e no real, como diz que procurava fazer, desde jovem, o escritor representado nestas páginas. E recurso que consiste

em aprofundar essa "qualidade de expressão", armada sobre o concreto e o real, para, inversamente, alcançar o simbólico e a abstração. Aqui se aninha, para o leitor

atento, um outro fator de interesse de Beleza e tristeza: a busca do modo contemporâneo de expressar alguma coisa que de contemporâneo nada tem: o amor e o amor

difícil ou indevido ou não assumido ou abandonado, e o ciúme e a vingança, e a indecisão e o sexo e a perversão ou aquilo que a normalidade chama de perversão. Kawabata

escreve este romance em meados dos anos 60 do século passado - o vigésimo, na contagem costumeira -, quando uma das linguagens da arte que então fazia furor, embora

dividindo a cena com outras, era exatamente a do abstracionismo, em especial a do abstracionismo informal. A busca de um modo contemporâneo de expressão literária,

e de um modo que se proponha na literatura como o equivalente daquele abstracionismo, não é uma suposição atrevida ou indevida por parte do crítico, mas tema demasiado

explícito nesta história com duas personagens pintoras e na qual há mais de uma referência a artistas plásticos (modernos, senão contemporâneos) largamente conhecidos.

É verdade que os artistas citados expressamente por Kawabata - Rodin, Chagall, Odilon Redon - são antes expoentes de um certo simbolismo (os dois últimos, até mesmo

de um certo surrealismo) que do abstracionismo, em especial do abstracionismo informal, também chamado de expressionismo abstrato, que agitou aqueles anos 60. A

aproximação entre abstracionismo e simbolismo que faz Kawabata não é, no entanto, indevida: há entre os dois uma vinculação certa, ainda que nem sempre aparente.

E isso tanto na arte ocidental, à qual Kawabata se refere de modo direto neste livro, quanto na arte japonesa "clássica" à qual ele também alude e na qual essas

duas linguagens igualmente se fundem sob mais de um aspecto (nesse sentido, são eloqüentes as hesitações das duas pintoras do romance em relação às telas que produzem,

que ora lhes parecem abstratas, ora não tanto, ou ora parecem abstratas a uma delas e não tanto à outra). Não sempre para ser simbólico um desenho ou pintura precisa

mostrar-se abstrato; mas o processo de abstração a que se submete uma imagem realista e concreta é um caminho seguro para dar-lhe um significado simbólico, se a

abstração não chegar às últimas conseqüências. Em que ponto deter-se para que a obra consiga um efeito ou outro, é a questão - para o artista plástico e para aquele

que opera com as palavras. Kawabata pergunta-se claramente a si mesmo, pela voz da personagem do escritor e ao lado dela, se ele próprio conseguirá ser um escritor

de seu tempo e assim propor uma literatura abstrata até o ponto em que uma literatura pode ser abstrata. Ele quer testar uma hipótese, quer experimentar uma linguagem.

(Talvez apenas para descobrir, ao final, que aquilo que fazia antes já era suficientemente abstrato e suficientemente de seu tempo, embora sendo também de outro

tempo.) A crítica costuma falar da influência que o realismo e o naturalismo ocidentais exerceram sobre Kawabata; mas se pelo menos o realismo é visível, em seus

traços centrais, nas páginas de Beleza e tristeza, fica igualmente visível que eles ali não surgem na versão padronizada do ocidente mas, sim, na transcriação própria

não só à literatura de Kawabata como à literatura japonesa de sua época e de épocas anteriores. E nisso Kawabata, inspirando-se em formas tradicionais de sua cultura,

é simultaneamente um homem de seu tempo, do tempo do mundo mais largo que o envolve e a seu país de origem. Não conheço suficientemente a biografia cotidiana de

Kawabata para saber se ele era um freqüentador do mundo flutuante japonês - os bares, cafés literários, galerias e salões variados -, feito das discussões artísticas,

estéticas e filosóficas e que às vezes recebe o nome curioso de boêmia. Mesmo que não comparecesse aos ambientes menos ou mais existencialistas onde esses tópicos

corriam então soltos à época em que escrevia este livro, é inegável que também ele, embora na solidão eventual de algum estúdio como o do escritor descrito no romance,

flutuava nesse mundo, não estava imune a ele e quer saber a resposta a esta pergunta atormentadora: escrevo como meu tempo me permite e pede, pinto como meu tempo

me permite e pede?, questão tão ou mais central para um criador que aquela outra mais conhecida: escrevo de um modo meu, pinto de um modo que é só meu, tenho uma

voz própria?

Se Beleza e tristeza tivesse sido escrito hoje, é provável que a questão a atormentar suas personagens, e o autor dessas personagens, fosse a que já sabemos: escrevo,

pinto de um modo pós-moderno ou "apenas" moderno? Não poderei ou deverei operar com o instrumental pós-moderno (o equivalente, digamos, em carga provocadora, ao

abstracionismo dos anos 60 quando comparado com o figurativismo moderno e mesmo modernista, como aquele, na cena brasileira, de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral)

para desse modo tocar mais fundo nas questões desta vida que vivo agora? É difícil, quase impossível imaginar Kawabata indiferente a esse debate, tivesse ele sobrevivido

aos primeiros anos da década de 70. Alimentando-se do Japão arcaico, como se pode ler em seu discurso (O Japão, a beleza e eu mesmo] de recebimento do prêmio Nobel,

Kawabata mostrou-se, como tantos outros artistas japoneses, intensamente sensível às idéias de seu próprio tempo - não só àquelas de seu país como às do mundo. O

grande artista não se encerra nas fronteiras estreitas e sufocantes de nenhum nacionalismo: o grande artista é não apenas internacional como, e aqui solta-se a palavra

que irrita as mentes que se acreditam corretas, cosmopolita. Uma cultura nacional é estreita demais para a grande arte, e os grandes artistas japoneses mostram-se

acaso mais sensíveis a essa verdade do que muitos outros do lado de cá. Isso, talvez porque o Japão, sendo tão tradicional como é ou como costuma ser representado,

é ao mesmo tempo uma das culturas mais densamente pós-modernas - e isso, paradoxalmente, desde muito tempo, desde antes do pós-modernismo. Prova-o o fato de que

quando sociólogos, antropólogos e filósofos necessitam estudar e citar fatos concretos da pós-modernidade, a referência escolhida é sempre o Japão (uma das duas

referências, em todo caso: a outra é o Brasil - mas essa é outra história). Para ficar apenas num exemplo superficial (no entanto, essa é a questão: o pós-modernismo

se desenrola todo à superfície das coisas, o que não quer dizer que seja, ele, superficial...), pense-se nas fachadas elétricas de Tóquio que deslumbram, desnorteiam,

maravilham as duas personagens recém-chegadas do no entanto super-moderno EUA no filme Lost in Translation, de Sophie Coppola (2003) - assim como deslumbram e desnorteiam

tantas outras personagens da ficção e da, como se diz, vida real, quer dizer, nós, cada um de nós. Um indício de que Kawabata não deixaria de entrar no debate e

na prática do pós-modernismo está na recorrência, em suas páginas, do tema da beleza, tema claramente pós-moderno. Por vezes, o índice dessa presença insistente

aparece já no título de suas obras: Existência e descoberta da beleza, Beleza imortal, O Japão, a beleza e eu mesmo (ensaios), A casa das belas adormecidas (ficção),

estou usando o termo beleza quando poderia ter optado por aquele que é talvez mais correto ou mais comum por aqui, belo; faço-o em simetria ao título deste romance

e para reforçar o ponto. Outras vezes, a beleza vem manifesta nas personagens ou nos motores, nos focos das narrativas (belas mulheres, mulheres que não são apenas

belas circunstanciais, belas de passagem, ocasionalmente belas, mas de fato belas, mulheres que fazem da beleza sua essência; ou as artes visuais que se colocam

a questão do belo; ou a dança, com a questão inevitável da beleza dos gestos, dos movimentos e dos corpos), caso de Escuna da planície, Histórias da palma da mão

e País das neves, obras de ficção. E, ainda e até mesmo, em A velha capital, escrito logo depois da destruição imensa acarretada pela segunda guerra mundial e que

chamou a atenção do representante da Academia Sueca destacado para apresentar Kawabata na premiação do Nobel, em 1968, por se tratar, disse ele, de um romance que,

"mesmo na onda de violenta americanização do pós-guerra, delicadamente lembrava a necessidade de salvar algo da beleza e individualidade do novo típicos do antigo

Japão". É que a beleza é uma idéia que reconquistou seu direito de presença nesta pós-modernidade depois de banida de cena por uma modernidade que se ocupava centralmente

de seu oposto, o Feio (ainda que para transformá-lo em categoria do... Belo), esse mesmo Feio visível ainda hoje nas peças dessa jovem arte britânica atual dos irmãos

Chapman (em suas bonecas de tamanho natural com pênis no lugar do nariz e ânus no lugar da boca) ou de Marc Quinn (e seu molde em cera da própria cabeça contendo

sangue verdadeiro tirado de seu próprio corpo) e que são bem mais modernos ou bem menos pós-modernos do que se crêem e do que se acredita. É desnecessário destacar

que a beleza é uma questão central da cultura japonesa, como o próprio Kawabata sublinha em O Japão, a beleza e eu mesmo - beleza da natureza (à qual pertence a

bela mulher, tanto quanto pertence ela ao mundo da cultura), beleza dos sentimentos, beleza da reflexão, beleza da vida e beleza da morte, beleza de encontrar forças

para continuar vivendo e beleza de encontrar forças para o suicídio e no suicídio; beleza da arte e beleza do erotismo e beleza do sexo, a beleza do pescoço longo

e alvo da mulher amada e a beleza da navalha que por um instante se cogita de mergulhar naquela carne sedosa por nenhuma outra razão além daquela quase exigida por

essa mesma carne ou pelo ato em si... Assim, quase sem dar nenhum passo adicional e específico nessa direção, o Japão tornou-se pós-moderno como resultado de seu

esforço moderno de aproximação com o ocidente (a partir da restauração Meiji, que significa "governo esclarecido", entre 1868 e 1912) e como resultado da paciência

que mostrou esperando que o ocidente ele mesmo se transformasse naquele pós-moderno que convinha ao Japão... Desnecessário destacar que o recurso ao abstrato ou

ao simbólico, senão como instrumento único para tanto pelo menos como um instrumento para tanto privilegiado, abre o caminho para tratar do belo, para fazer do belo

um tema central da literatura e com isso, e mesmo assim, e apesar disso, tocar nas coisas concretas e realistas... E o que, ainda, pode haver de mais pós-moderno

ou, simplesmente, contemporâneo, do que esse desejo de que a arte (talvez não só a arte) mude e desapareça, se extinga, desejo expresso pela mais jovem das personagens

de Beleza e tristeza, Keiko, ela mesma uma pintora que, defendendo esse princípio, assusta a artista mais velha, "mais moderna" ou "menos abstrata", Otoko, num postulado

estético e existencial que reaparece, em modo adequadamente simbólico, mais ao final do livro, na história do cadáver de uma princesa encontrado com uma foto evanescente

sobre uma placa de vidro segura pelas mãos inertes porém retesadas... Um desejo que talvez assombrou a arte moderna, que a arte moderna quis materializar mas não

conseguiu e que deixou então como herança inconclusa para a arte pós-moderna do conceitualismo, que se nega como objeto, ou para a arte pós-moderna da performance,

de vida curta e precária a caminho da auto-anulação, no final dos anos 60 e início dos 70... Difícil, quase impossível deixar de ver nesse romance da metade do século

passado as reverberações precursoras de uma questão estética comum ao Kawabata daquele momento e à cultura japonesa multisecular e que segue ativa agora, quando

visivelmente - e até que enfim, se pode acrescentar - perderam forças (embora não ainda de todo e não em toda parte) as estéticas modernas e modernistas de inspiração

sociológica para as quais a simples menção ao belo constituía um crime social...

O instigante incômodo que o romance provoca, e que torna impossível largá-lo antes do final, como se fora um thriller, não deriva diretamente (ou apenas) da presença,

na trama, da questão da beleza. Resulta, antes, do enfrentamento da beleza, resulta daquilo que o título apresenta quase como complemento necessário da beleza -

em todo caso, daquilo que está à altura da beleza, se justapõe a ela e com ela não entra em nenhuma síntese dialética, algo que com ela não se compõe e que só pode

permanecer a seu lado, em vibração: a tristeza. Na obra de Kawabata, isso tem também outro nome, que não é seu sinônimo perfeito mas que vai mais longe e mais fundo

que isso: o vazio, o nada, a sensação do nada que o autor insiste que não se pode confundir com o niilismo do ocidente. Muito bem, se ele diz que não se deve fazer

essa confusão, não a faremos. Diz ele em O Japão, a beleza e eu mesmo que os fundamentos espirituais do vazio japonês e do niilismo ocidental são diferentes; portanto,

supostamente, em princípio também os significados e os efeitos de um e outro são distintos. Seria interessante saber dele, se ainda fosse possível fazer-lhe a pergunta,

em que medida seu vazio, seu nada, não sendo da mesma natureza do niilismo comum que Nietzsche identificava com o pessimismo e com este rejeitava, se aproximaria

ou não do niilismo reativo que, para o autor alemão, propunha-se como a única alternativa para a mente digna. Essa resposta não mais será dada diretamente por Kawabata.

Pistas se espalham pelo seu livro, em todo caso: como não era incomum num intelectual japonês de sua época, o existencialismo (o existencialismo que se tornou personagem

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