Quarta-feira, 25 de novembro de 2009 Ser tão quase Manoel, Rosa, Couto e tantos



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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ser tão quase...: Manoel, Rosa, Couto e tantos.



Outros. Nos próximos dias vamos falar em torno da palavra SERTÃO. E teremos por eixo o encontro Manoel de Barros/Guimarães Rosa.

“Nossa conversa era desse feitio. Ele inventava coisas de Cordisburgo. Eu inventava coisas do pantanal”. (Manoel de Barros, 1990)



“Os versos são coisas rupestres. Não podem ser explicados. São pinturas primitivas da nossa voz. Não tenho nenhuma estima pelas verdades. Gosto mais das semelhanças, as verossimilhanças. A verdade poética vem da harmonia, da letra, da sílaba etc. As verdades costumam vir da idéias, dos conceitos e coisas assim. Eu prezo a verdade poética, que de ser mágica e irreal.” (...)

“Acho que a poesia é a arte de nascer as palavras; é mais que o nascimento de um tema. Qualquer tema, até mesmo escatológico, tratado com vontade estética serve para a poesia. O nosso Guimarães Rosa, no meu entender, é imortal não tanto pelas histórias que construiu, mas pelas frases que desconstruiu”. (...)

“O poeta é um ser ‘letral’ mais que local. Posso ter chegado a outras geografias, mas gostaria de pensar que o motivo é lingüístico, não paisagístico. Acho que o fato de ser pantaneiro tem muito peso, mas passa pelo que o Pantanal tem de exótico, pelo que representa de lugar adônico”.

(Manoel de Barros: in entrevista originalmente publicada em Riba del dessemblat, publicado pela Editora Lleonard Muntaner, em 2005. Trata-se de uma antologia de poemas de Manoel de Barros, traduzidos por alguns poetas catalães, e reproduzida no Suplemento Literário de Minas Gerais, de abril/2009, dedicado à literatura brasileira na Espanha)

Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá MT, 1916). Publicou seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. Formou-se bacharel em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1941. Nas décadas seguintes publicou Face Imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Gramática Expositiva do Chão (1969), Matéria de Poesia (1974), O Guardador de Águas (1989), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), O Fazedor de Amanhecer (2001), entre outros. A partir de 1960 passou trabalhar como fazendeiro e criador de gado em Campo Grande MS. Ao longo das décadas de 1980 e 1990 veio sua consagração como poeta. Em 1990 recebeu o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Manoel de Barros é um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Em sua obra, segundo a crítica Berta Waldman, "a eleição da pobreza, dos objetos que não têm valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais".

Do Livro das Ignorãnças – de Manoel de Barros

I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:


a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV


No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para Dálias.
É quando ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

(desenho de Karmo)



19/12/2007 00:41:00
Parabéns, Manoel!

Por Tânia Du Bois

 

"Uma hora


uma folha ao vento
em cada palpitação
uma busca."

(Carmen Presotto, A Rosa)


Digo algumas palavras de encantamento. Manoel de Barros aniversaria no dia 19 de dezembro, completando 91 anos. Parabéns!


Peço licença para homenagear o grande mestre, nessa data tão especial. Peço licença, sim, porque sou uma mera amante da poesia e, entre os meus escritores, Manoel de Barros é um dos preferidos. E em tudo o que se escrever sobre ele, estaremos nos repetindo, mas a repetição sempre será permitida por sua grandeza pessoal e pela grandiosidade da sua obra. É um prazer poder reler, rever e reviver o poeta dos "desacontecimentos", do "poeta do pantanal", do "lírico da ecologia", do "virtuoso do realismo mágico", "o grande poeta de pequenas coisas". O que me permite repassar alguns fatos significativos da sua vida.

"...
Escrevo histórias
recontadas em outros dias
de mesmas palavras."
(Pedro Du Bois, Escrever)

Como diz Orides Fontela, em Teia: "a luz está em nós: iluminamos." - podemos dizer que a luz está em Manoel de Barros: iluminando-nos.


Resumo a seguir textos de diversos autores, sobre o poeta e sua obra.


Fabrício Carpinejar, em "Manoel de Barros: poesia para reciclar", dezembro de 2006, conta que o poeta está casado há 58 anos com Stella, seu grande amor. Ela é a primeira e única leitora de seus originais. É bem crítica. Se ela não gosta, diz: "Sobe e vai trabalhar mais". Ele só dá por terminado o trabalho quando ela define que está bom, pois, conhece o seu estilo.

Manoel de Barros editava as suas obras em tiragens artesanais e de escassa circulação. Teve o reconhecimento na década de 80, por críticos e personalidades, como o dicionarista Antônio Houaiss, o escritor Millôr Fernandes e o editor Ênio Silveira.


Poeta do simples e da delicadeza, adota a autenticidade dos defeitos. Tem estima pelas coisas e homens jogados fora pela sociedade. Seu universo é do cisco, dos gravetos, dos "inutensílios" e dos "nadifúndios". O escritor atua no espaço "faz de conta". Interessa-se pelos hábitos das lagartixas, lesmas e animais rastejantes. O poeta faz brinquedos verbais com osso de arara, canzil de carretas, potes furados, sabugos. A singularidade de sua poética reside em combinar a aguda percepção urbana com um repertório primitivo e rural. Para Barros, o que é descartado é jogado dentro do poema. E afirma que o verdadeiro conhecimento está na leitura do mundo.


"Poesia é voar fora de casa" (O Livro das Ignorãnças).


O editor Ênio Silveira, no prefácio do "Livro das Ignoranças", mostra como o poeta nos toca pela magia dos seus versos que nos leva a comparar na tentativa de defini-lo como: "grande poeta de pequenas coisas", "o lírico da ecologia", "poeta do pantanal", "o virtuoso do realismo mágico...". Deixamo-nos envolver pela sua poesia, em que nos encantamos, pela sua constante redescoberta das palavras.

Adélia Menegazzo, sobre "Concerto a Céu Aberto", aponta que a leitura de seus poemas vem preencher os vazios e descobrir que o poeta entrega ao leitor um concerto de sons... audíveis apenas no silêncio entre uns e outros. Porque, antes de tudo, MÚSICA! Cada verso seduz pelo desvio, pelas dissonâncias e revela a revolução das palavras. "Do canto das aves está posto o concerto em pauta" (Concerto a Céu Aberto).


Paulinho Assunção, sobre "Poemas Rupestres", apresenta este menino que "pegou um olhar de pássaro" e que "contraiu visão fontana", este menino, sábio dos "desacontecimentos", este é um menino-manoel. É um menino "com olhar - furado - das nascentes", que gosta de "atrelar" palavras de rebanhos diferentes, com o intuito de "causar distúrbios no idioma...". É preciso dizer: todos nós nos desabrimos em outras pessoas diante da sua poesia, Manoel.


Adalberto Müller Júnior, a respeito de "Matéria e Poesia", traz que a originalidade do poeta consiste em elaborar liricamente, com as coisas menores, verdadeiras relíquias de linguagem. Manoel de Barros é capaz de transformar a matéria mais desimportante em poesia.


E, Pedro Du Bois, em "As Pessoas Nominadas", de 2005, presta homenagem ao poeta:



Palavras

Um, santo de barro


outro, Manoel de Barros
de comum,
andor
ardor
com que santificam
palavras
ditas
escritas
jogadas ao vento
que as reproduz.

Não poderia deixar de expressar a minha gratidão pela sua existência. Manoel de Barros é uma palpitação nas nossas vidas. O seu conhecimento vem pelos sentidos. Ele descreve os sons, dando-nos condições de, ao lê-lo, poder ao mesmo tempo ouvi-lo e senti-lo. O poeta humaniza as coisas, o tempo e o vento. E ele gosta das músicas de Chico Buarque e de Paulinho da Viola!


Ao completar 90 anos, recebeu o prêmio Nestlé de literatura, pelo livro "Poemas Rupestres". Também conquistou outros dois prêmios: Jabuti e da Associação Paulista dos Críticos de Artes. Mas, o seu maior prêmio é ter a sua obra distribuída em todo o país. Manoel de Barros se considera um "songo", como fez constar em seu poema inédito de mesmo nome:

"Aquele homem falava com as árvores e com as águas


ao jeito que namorasse
...
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros
A gente acreditava por alto
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra
...
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Até pedra criava rabo!
A natureza era inocente."

Discordo quando o poeta, em seu auto-retrato falado, em 1994, disse: "estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis...". Prefiro quando ele diz que a "Poesia tem que ter palavras, uma feira de idéias."

Querido Poeta, feliz aniversário!!

 

 



 

 

 



 

Pequena seleta de Manoel de Barros

[seleção de Edson Cruz]

 

 

 



 

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