Quando a fronteira é notícia na fronteira: uma análise da representaçÃo cultural da populaçÃo fronteiriça nos principais jornais virtuais de ponta porã



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QUANDO A FRONTEIRA É NOTÍCIA NA FRONTEIRA: UMA ANÁLISE DA REPRESENTAÇÃO CULTURAL DA POPULAÇÃO FRONTEIRIÇA NOS PRINCIPAIS JORNAIS VIRTUAIS DE PONTA PORÃ (BR) E PEDRO JUAN CABALLERO (PY)

Clarissa Josgrilberg Pereira*

RESUMO: O presente artigo visa a investigar como é a representação cultural da população fronteiriça nos dois principais jornais virtuais da fronteira de Ponta Porã (BR) e Pedro Juan Caballero (PY) e, dessa forma, como está sendo construída a identidade local. Por meio de uma análise de conteúdo analisamos as capas e as matérias principais dos dois veículos durante uma semana construída. Tal estudo torna-se necessário, uma vez que diz respeito a uma localidade cheia de particularidades em que as relações são complexas e dinâmicas, principalmente por envolver duas culturas diferentes. Afinal a fronteira é um espaço que foi determinado pelo ser humano, mas que vai além de uma simples linha geográfica; ela envolve diferentes leis, espaços naturais em comum e questões educacionais diferenciadas, entre outros. Maria Helena Martins (2002), Daniela Ota (2006) e Stuart Hall (2006) estão entre as nossas principais bases teóricas.

PALAVRAS- CHAVE: Identidade cultural. Representação midiática. Fronteira.

ABSTRACT: This article aims to investigate the cultural representation of border population in the two most important online newspapers in Ponta Porã (BR) and Pedro Juan Caballero (PY), thus, how the local identity is built up. Through a content analysis we analyzed the covers and the main articles from the newspapers for a week. This study is necessary, since it is about a place full of peculiarities with complex and dynamic relations, mostly for involving two different cultures. After all, the Ponta Porã-Pedro Juan Caballero border is a place that has been defined by the humans, but it goes beyond a simple geographic line; it involves different laws, natural spaces in common and different educational issues, among other subjects. Maria Helena Martins (2002), Dianela Ota (2006) and Stuart Hall (2006) are some of the main authors used as theoretical basis.

KEYWORDS: Cultural identity. Media representation. Border.

INTRODUÇÃO

Levando-se em conta as particularidades da fronteira, principalmente, por envolver diversas culturas, procuramos entender como se dá parte do processo midiático da fronteira seca localizada entre Ponta Porã, cidade brasileira do interior de Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, município do Departamento de Amabay, Paraguai.

Por meio de uma análise de conteúdo feita nos dois principais jornais digitais da região procuramos descobrir: como esses veículos representam o local e o país vizinho? Partimos da percepção de que ao analisar como as questões da fronteira são tratadas pelos dois jornais seria possível avaliar se eles servem, ou não, de aproximação cultural entre as “duas” comunidades. Dessa forma, o modo pelo qual um país representa o outro pode demonstrar a maneira pela qual a identidade local está sendo construída.

Optamos pela análise de conteúdo uma vez que ela visa a “obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição de conteúdo das mensagens, indicadores quantitativos (ou não) que permitam a inferência de conhecimentos” (BARDIN, 1977, p.42). Na presente proposta analisamos as capas dos dois veículos e o conteúdo da matéria principal; para escolher os conteúdos analisados, utilizamos o método da semana construída, que se resume “em iniciar o trabalho de análise de notícias num determinado dia da semana e, na semana seguinte, dar-lhe sequência utilizando o dia posterior, e assim por diante até que todos os dias fossem analisados” (FRANCO, 2010, p. 16).

Tal estudo torna-se necessário, pois sabemos que a mídia pode interferir positivamente ou negativamente na vida das pessoas. Entretanto, quando se trata de uma área fronteiriça o impacto torna-se ainda maior, uma vez que diz respeito a duas culturas diferentes que vivem em uma linha tênue. Além disso, esse estudo também serve de reforço à lembrança de que existe essa área no Brasil, a qual não é pequena, são 16.886 quilômetros de faixa fronteiriça, segundo Cancio (2011, p.28), que ainda carecem de muitas pesquisas.

Trabalhamos com a hipótese de que os jornais em análise não enxergam o outro como parte de si, a fim de construir uma identidade unificada da fronteira, ao contrário, se há uma identidade sendo construída, esta, provavelmente, se dá sob a violência. Durante a análise notamos que essa questão é muito complexa e que o próprio não falar sobre a fronteira também pode significar muito.

Para desenvolver tal estudo necessitamos da contribuição de vários pesquisadores, mas, principalmente, de Maria Helena Martins (2002) e Daniela Ota (2006) para o entendimento do que é a fronteira e de Stuart Hall (2006), que nos auxilia a compreender questões sobre a identidade. Passamos, agora, às discussões teóricas.



  1. IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO CULTURAL

A identidade é um conceito complexo que permite diferentes olhares. Ao tratar sobre essa terminologia partimos de uma concepção sociológica, ou seja, acreditamos que é pela interação do sujeito com a sociedade que a identidade dele será formada. Cada sujeito não possui, portanto, uma identidade própria e fixa, ela vai moldando-se de acordo com as experiências dele com o mundo; como explica Hall (2006, p.11) “o sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o ‘eu real’, mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais ‘exteriores’ e as identidades que esses mundos oferecem”.

Sabemos que não existe uma identidade única, os sujeitos são constituídos de identidades múltiplas, conforme explica Hall (2006, p.12) “o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas”.

Dessa forma, a raça, o gênero, a religião, a classe social e diversos outros fatores podem predominar, ou não, na hora da interpretação de determinado assunto ou na reação a determinada situação. Outro aspecto de grande relevância, no mundo moderno, conforme aponta Hall (2006, p.47), é o fato de que “as culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes de identidade cultural”.

O filósofo Roger Scruton (apud HAAL, 2006, p.48) fala sobre a questão da nacionalidade para o ser humano. Segundo ele,

a condição do homem exige que o indivíduo, embora exista e aja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar.

Essas identidades nacionais são construídas e reconstruídas ao longo do tempo e é na representação que elas ganham força. João Freire Filho explica que “de forma análoga, o termo designa, também, o uso dos variados sistemas significantes disponíveis (textos, imagens, sons) para ‘falar por’ ou ‘falar sobre’ categorias ou grupos sociais, no campo de batalha simbólico das artes e das indústrias da cultura” (2005, p.18).

Os estudos sobre as representações culturais em relação às preocupações em delimitar o que é identidade e como ela é produzida começaram a surgir na década de 1960. João Freire Filho (2005, p.5), aponta que as representações culturais, principalmente na mídia de massa podem criar estereótipos, o que é destacado “[...] como um sensível problema para o processo democrático, cujo desenvolvimento demanda a opinião esclarecida de cada cidadão a respeito de questões capitais da vida política e social”. A construção dessa imagem negativa pode ser vista como racismo, é por essa perspectiva que Paul Giroy argumenta que

enfrentamos, de forma crescente, um racismo que evita ser reconhecido como tal, por que é capaz de alinhar ‘raça’ com nacionalidade, patriotismo e nacionalismo. Um racismo que tomou uma distancia necessária das grosseiras ideias de inferioridade e superioridade biológica busca, agora, apresentar uma definição imaginária da nação como uma comunidade cultural unificada [...] (apud HALL, 2006, p.64).

Esse racismo implícito que pode estar representado na mídia pode causar grandes danos na construção da identidade de um local, principalmente se esse local for fronteiriço e envolver duas culturas diferentes; é sobre este aspecto que discorremos a seguir.





  1. A IDENTIDADE FRONTEIRIÇA E O JORNALISMO

Para que se possa realizar um estudo sobre o jornalismo na fronteira, faz-se necessário, primeiramente, compreender o que se entende por fronteira. Esse espaço não é apenas uma linha geográfica divisória. Para o autor Marcelo Soares ([s/d], p.7), a fronteira “representa um quadro mais complexo onde, em um espaço demarcado, se misturam questões econômicas, sociais, políticas, geopolíticas, históricas, ambientais, urbanísticas e também comunicacionais”.

De acordo com Santos (2004), esse lugar chamado “fronteira” é um dos espaços em que se tece o complexo cultural e identitário do Mato Grosso do Sul em sua interface com o Mato Grosso, em consequência da divisão do estado e, sobretudo, com o Paraguai e com a Bolívia. É nesse espaço que convivem e se entrecruzam o local, o regional, o internacional e o global.

A mídia torna-se, então, espaço fértil para a coexistência do local e do global, conforme esclarece Hall (2002, p.75), e, quanto mais estreita é essa parceria, mais “as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos [...] somos confrontados por uma gama de diferentes identidades”.

Em um lugar tão peculiar a mídia, em especial o jornalismo, tem a grande função de integrar as diferentes culturas, de não criar estereótipos e, até, a de permitir uma imagem conjunta do local fronteiriço que, como aponta Sandra Pesavento (2002, p.37), é um outro, um terceiro. A autora Maria Helena Martins (2002, p.62) complementa nossa discussão ao dizer que “no caso específico de nossas fronteiras culturais, o ponto de partida é reconhecer que temos identidades coletivas complexas, conflitivas, diferentes – pois a busca de nossa identidade parte do reconhecimento de nosso pluralismo”.

Daniela Ota (2006, p.128) é uma das autoras que discorrem sobre a importância da comunicação fronteiriça, que age como meio de materialização da identidade dos povos envolvidos e “atua como consolidação das relações sociais e dos espaços social, econômico e cultural, deixando de ser meramente um meio técnico para se consolidar em uma dimensão da sociabilidade atual”. José Luis Prado (2003, p.3) contribui ao dizer que “trata-se, portanto, não de abordar o jornalismo como atividade exclusivamente representadora da realidade, mas como conformadora, criadora, que põe e repõe as identidades do leitor”.

Entretanto é importante reforçamos que essa ação não é fixa, uma vez que as identidades “são relacionais, situacionais e instáveis, visto que são sempre redefinidas conforme os jogos de interesses e de visões de mundo acionados em cada circunstância histórica” (HALL apud ALBURQUERQUE, 2005, p.202). É por essa perspectiva que Albuquerque exemplifica com as fronteiras entre os países aqui estudados, e afirma que

não existe um ‘Paraguai eterno’ ou um ‘Brasil definitivo’. As noções são móveis e mutáveis e as identidades nacionais estão constantemente sendo modificadas nas narrativas dos intelectuais, nas expressões populares e nos discursos cotidianos dos políticos, jornalistas, religiosos, empresários, camponeses e outras categorias e classes sociais

Desta forma, além de as identidades serem múltiplas e dinâmicas, na fronteira elas são necessariamente híbridas, uma vez que o local contempla um fluxo muito grande de trocas. Entendemos híbrido aqui pela mesma perspectiva que García Canclini, o qual considera três aspectos para conceituar o termo “cultura híbrida”, são eles: “[...] a quebra e a mescla das coleções organizadas pelos sistemas culturais, a desterritorialização dos processos simbólicos e a expansão dos gêneros impuros” (CANCLINI, 1987, p.283).

Como pudemos ver, a desterritorialização é um dos fatores que contribuem para o atual hibridismo cultural e na fronteira não há nada mais intenso do que a questão territorial, pois ela é um espaço que politicamente pertence a um país, culturalmente a dois e socialmente a nenhum. Fazer jornalismo nesse local é um grande desafio, primeiro, porque o jornalista é também um sujeito envolvido na relação complexa que é a fronteira e, segundo, porque ele deveria ter o conhecimento de um jornalista internacional e a proteção de um comunicador de rede nacional, entretanto, a realidade do veículo em que atua é a dos meios de comunicação interioranos. No próximo tópico exporemos um panorama sobre a mídia local para depois focarmos em nosso objeto de estudo.





  1. MÍDIA DA FRONTEIRA E O OBJETO DE ESTUDO

A mídia da fronteira estudada tem toda a realidade da mídia do interior da maior parte de nosso país, ou seja, não possui grandes recursos, é dependente da política e tem falta de material humano, o que resulta em pouca produção de conteúdo. Do lado brasileiro há quatro jornais impressos, mas nenhum diário. O Jornal da Praça é o mais antigo da cidade e circula de terça a sábado, já o Jornal Regional foi fundado em 2008 e é bissemanal. Há ainda dois semanais, o Jornal de Notícias, fundado em 2005 e o Jornal do Bairro, criado em 2007. Em 2012 esse cenário mudou, o proprietário do Jornal da Praça foi assassinado, com isso, o veículo saiu temporariamente de circulação e atualmente é produzido semanalmente. Com essa mudança, o jornal Regional passou a circular seis vezes por semana. Tais informações indiciam que a fronteira é também um lugar volátil.

Além dos veículos impressos, a cidade conta com uma filial da Rede Globo, a TV Morena, e com três sites, o Notícias da Fronteira, o Mercosul News e o Conesul News. Na área da radiodifusão há três emissoras: Rádio Nova FM, Rádio Fronteira AM e Rádio Líder FM.

Já do lado da fronteira paraguaia não há nenhuma rede de televisão com sinal aberto, mas o sinal das emissoras de Assunção, capital paraguaia, chega com qualidade. Na mídia impressa o jornal com maior representatividade é o ABC Color, produzido em Assunção e divulgado em Pedro Juan Caballero, quanto às rádios, segundo uma pesquisa feita por Daniela Ota (2006, p.65), existem cinco.

No Paraguai há alguns sites jornalísticos como o PJ-Aldia e o ABC Digital, entretanto o mais acessado é o Pedro Juan Digital conforme informa o site Alexia que mede o acesso às plataformas da web; esse jornal virtual surgiu em 2010. Segundo o mesmo medidor de acessos, no lado brasileiro o Conesul News é o jornal virtual mais visitado, ele foi o primeiro da cidade (2004) e por sete anos foi o único do município. A escolha dos veículos analisados se deu, portanto, pelo índice de acesso que possuem. Passemos, agora, a análise do material.



  1. ANÁLISES

Antes de analisarmos os conteúdos encontrados nos sites fronteiriços, sentimos a necessidade de expormos um pouco mais sobre a metodologia. Primeiramente temos ciência de que o método escolhido é alvo de muitas críticas. João Freire Filho (2005, p. 26), por exemplo, aponta que as análises de conteúdos são “limitadas, em geral, a levantamentos amplos, objetivos e sistemáticos, as abordagens deste tipo se concentram em definir categorias de análises e estabelecer a frequência, os papéis e outras características da representação dos grupos oprimidos”.

Se por um lado a ênfase quantitativa deste tipo de análise é alvo de crítica, por outro é preciso lembrar que Bardin (1970, p.142) inclui no método da análise de conteúdo as inferências, as quais dão ao estudo o caráter qualitativo, pelo fato de “- sempre que é realizada – ser fundada na presença do índice (tema, palavra, personagem, etc) e não sobre a frequência da sua aparição, em cada comunicação individual”.

Para desenvolvermos a análise optamos pela semana construída, como já foi explicitado aqui. O “quadro 1” mostra, em negrito, os dias selecionados para a análise, os quais abrangeram os meses de novembro e dezembro de 2011 e janeiro de 2012. A única exceção é o dia 21 de dezembro, quando não foi possível analisar o site Conesul News, uma vez que ele saiu do ar por problemas não especificados ao leitor.

Quadro 1

Domingo

Segunda-feira

Terça-feira

Quarta-feira

Quinta-feira

Sexta-feira

Sábado

27/11

28/11

29/11

30/11

01/12

02/12

03/012

04/12

05/12

06/12

07/12

08/12

09/12

10/12

11/12

12/12

13/12

14/12

15/12

16/12

17/12

18/12

19/12

20/12

21/12

22/12

23/12

24/12

25/12

26/12

27/12

28/12

29/12

30/12

31/12

01/01

02/01

03/01

04/01

05/01

06/01

07/01

08/01

09/01

10/01

11/01

12/01

13/01

14/01

Fonte: Levantamento da pesquisadora

Com esse cronograma foram encontradas 72 matérias no site jornalístico do Paraguai, Pedro Juan Digital. Percebemos que o veículo dá grande ênfase à questão policial, da quantidade total de matérias 39 eram desta editoria, ou seja, 54%. Os outros textos enquadraram-se quase que equitativamente nas editorias de Política, Esporte, Entretenimento e Geral.

Um dado importante é sobre o direcionamento espacial das matérias, 43 delas eram de cunho local, seis eram regionais, 14 nacionais e apenas nove internacionais. Acreditamos que em outro período as matérias internacionais apareceriam com menos incidência ainda, uma vez que nos dias analisados aconteceu o naufrágio do navio Costa Concórdia que transportava mais de quatro mil passageiros, fato que pautou a mídia do mundo inteiro.

Quanto à questão da localidade das matérias um dado que nos chamou a atenção foi o de que as matérias referentes à cidade vizinha são tratadas de diferentes formas. Percebemos que quando o Paraguai é o foco principal da matéria o assunto geralmente é relacionado ao termo fronteira. Entretanto, quando o foco principal é a cidade brasileira o assunto entra na editoria de Internacionais. Conforme já dissemos, para Hall (2006, p.47) uma grande fonte para a identidade cultural é as características de uma nação; com tal postura tomada pelo veículo de comunicação paraguaio consideramos que para os jornalistas que lá trabalham a questão fronteiriça não interfere na compreensão de nação que possuem.

Se para a fronteira se desenvolver é preciso que ela se torne um lugar único, não é pelo veículo de comunicação em análise que tal perspectiva tem sido trabalhada. Nas matérias de capa analisadas apenas três eram locais, todas elas estavam inseridas na editoria de polícia. A matéria de capa que mais nos chamou a atenção e mais tem relevância para nosso estudo é a que trata sobre a operação de fim de ano realizada pela polícia federal brasileira em toda faixa fronteiriça. Na matéria diz que a ação tem como propósito perseguir os turistas da zona fronteiriça, apontando que a ação é um erro do governo brasileiro, o qual não é cometido pelo país paraguaio. É necessário lembrarmos que Paul Giroy (2006) relaciona à questão da nacionalidade com um racismo disfarçado, o qual pode ser criado para se fortalecer diante o outro.

Na mesma perspectiva da matéria anterior, há uma que não faz parte de nossa semana construída, mas que é o desdobramento da matéria citada anteriormente e, por isso, achamos relevante abordá-la. Intitulada “Presente de fim de ano ‘dos irmãos brasileiros’ para os brasileiros e paraguaiosi”, a matéria diz que a operação do exército brasileiro na faixa fronteiriça tem como principal objetivo evitar que os brasileiros façam compras no Paraguai, que oferece produtos a preços mais baixos.

Embora a matéria tente apontar que o prejuízo acontece para os dois lados e que apenas o governo brasileiro sai lucrando com tal ação, o texto não contribui para o esclarecimento da população fronteiriça. Informações como as dos reais objetivos da ação, como a de impedir o tráfico de drogas e armas, deixando claro que são os brasileiros quem trazem tais produtos ilegais para o próprio país e dados sobre importação, cota e legalização de produtos seriam muito mais bem aproveitados pelos leitores e contribuiriam muito mais para a relação entre os dois países.

Outro dado importante de mencionarmos é que o site tem todos os textos em espanhol, exceto algumas matérias que falam sobre a cidade de Ponta Porã. As matérias encontradas em português geralmente abordam política ou benfeitorias do município brasileiro, embora esses textos não sejam assinados como de assessoria, esse fato fica claro de se perceber. A cidade vizinha a Pedro Juan Caballero também aparece no site em alguns anúncios publicitários.

Assim como o site paraguaio, o brasileiro também dá bastante ênfase às matérias policiais; da semana analisada 34,3% eram dessa editoria. Entretanto, diferentemente do Pedro Juan Digital, o Conesul News não foca a violência da fronteira, a maior parte das matérias são de crimes ocorridos nas cidades vizinhas, das 105 matérias encontradas no período analisado apenas 15 eram locais, 44 regionais, 39 nacionais e sete internacionais. Além disso, nenhuma falava sobre os paraguaios, apenas 7 matérias abordaram os dois países, as quais estavam, em sua maioria, nas editorias de entretenimento e esporte. É importante lembrarmos que quando João Freire Filho (2005, p.21) fala sobre os estereótipos, ele acrescenta que “tanto a condenação silenciosa quanto a estigmatização ostensiva” podem desvalorizar uma raça, um gênero, um outro.

Uma questão que nos chamou bastante a atenção no site Conesul News é a de que das matérias de capa, as que possuem maior destaque nos veículos, nenhuma abordou um assunto local, duas eram de abrangência regional e quatro eram nacionais. Além disso, nenhuma delas foram produzidas pelo próprio veículo, todas eram reprodução de outros sites. Tais dados nos mostram que se a representação cultural, como afirmado por João Freire Filho (2005), auxilia na criação tanto de estereótipos, quanto da identidade cultural, o não falar em nada contribui para a população e para o desenvolvimento local.

Seguindo as contribuições dadas por Hall (2006) e Daniela Ota (2006) pudemos saber que a identidade não é fixa e que, de fato, não existe um Brasil ou um Paraguai “eterno”, como bem disse Albuquerque (2005). Entretanto, a representação cultural na mídia contribui para a construção de uma imagem, de uma identidade, e por parte do veículo brasileiro isso não tem sido feito.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Primeiramente o que de fato conseguimos alcançar com este estudo são alguns apontamentos. Para especificarmos melhor a realidade da mídia fronteiriça de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero e como se dá a representação e o processo de construção das identidades seria necessário um estudo muito mais completo, que envolvesse todas as partes do processo comunicacional de todos os veículos locais. Mesmo ao tentarmos identificar a contribuição ou a interferência nesse processo apenas dos sites em análise seria necessário sabermos qual é a rotina produtiva desses veículos e como os leitores e os produtores desses veículos veem essa questão da fronteira, o que, dados os objetivos do trabalho em curso, não cabe em nosso estudo, mas certamente será alvo de novas pesquisas para os pesquisadores da área.

Especificado a questão da abrangência de nosso estudo, é preciso pontuar também que há dados colhidos que nos permitem algumas considerações mais pontuais. Os dois jornais cumprem papéis bem distintos na sociedade em que estão inseridos. O site brasileiro perde o foco que deveria ter no local e se rende aos grandes veículos de comunicação de massa, passando, assim, conteúdos hegemônicos aos seus leitores.

Além disso, ignora a situação particular da região em que está inserido. Tal fator pode ser considerado como um grande prejuízo para a população local que deixa de ser representada; como bem disse Maria Helena (2002), “o universal só pode ser compreendido na medida em que o particular permanece”. Com tanta especificidade local, a comunicação de mão única, homogeneizada e produzida fora desse ambiente não pode contribuir para o desenvolvimento da comunidade fronteiriça.

Na contramão das ações do site brasileiro, o jornal paraguaio possui um posicionamento mais crítico e firme quanto a não inserção dos conteúdos nacionais e internacionais. O veículo tem mais produção própria e dá maior atenção aos assuntos da região fronteiriça, não se rendendo, assim, aos conteúdos da grande mídia. Entretanto o que é mais valorizado por ele é a questão da violência.

Estudar a mídia dessa região é fundamental para o desenvolvimento e relacionamento local, primeiramente porque a região possui poucos veículos de comunicação e é neles que a população fronteiriça terá sua cultura representada. Além disso, não há veículos alternativos no local para possibilitar um olhar diferenciado da mídia comercial sobre a região.


Lembramos que nossa questão principal era descobrir se os dois veículos contribuem para a criação de uma identidade fronteiriça e pelos conteúdos encontrados fica muito claro que não há essa ação, uma vez que não foi localizado nenhum conteúdo sobre o local fronteiriço na mídia brasileira analisada, enquanto que na paraguaia há alguns materiais sobre o local, mas que focam a violência.

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i Matéria disponível no endereço eletrônico http://www.pedrojuandigital.com/3553-v-internacionales3-u-presente-de-fin-de-a-o-dos-irm-os-brasileiros-para-los-brasileros-y-paraguayos.html

* Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, sob orientação do professor Doutor Marques de Melo. Bolsista Capes. Graduada em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, pelo Centro Universitário da Grande Dourados (Unigran). E-mail: clarissa_jpereira@hotmail.com.




Interletras, volume 3, Edição número 17,abril 2013/ setembro.2013 - p




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