Psicanálise e práxis joão Fernando Calsavara



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PSICANÁLISE E PRÁXIS

João Fernando Calsavara1

Introdução

Antônio Vieira, considerado imperador da língua portuguesa, diz que Cristo não falou em Semeador, mas no que semeia. Entre Semeador e o que semeia há uma grande diferença. Uma coisa é o Soldado, outra é o que combate. Uma coisa é o Governador, outra é o que governa2. Uma coisa é o Analista, outra é o que analisa. Analista é nome, função. O que analisa é fruto da experiência de alguém, que tornou didática sua análise e a coloca em função de outrem.

Experiência vem do latim, experiens, experimento, acontecimento. E entis, do ser, genitivo de ens3. Experiência significa, pois, acontecimento do ser (experiens entis). Pode ser descrita na ótica da Ontologia (estado do ser) e na ótica da Psicanálise (ser do sujeito do inconsciente).

A correlação entre existência e pensamento não se realiza de forma abstrata, a-histórica, no vácuo, em desvinculação com a experiência. A teoria se origina da experiência, encontro do homem com os acontecimentos do mundo externo e interno. Não há verdade ou falsidade absoluta, mas significados históricos de acontecimentos.

A práxis resulta de um olhar novo sobre o acontecido (a experiência), que amplia a compreensão do mundo e do homem. Por outro lado, modificar o mundo e o homem implica em reformular teorias, realimentar a experiência. A práxis se estabelece, portanto, a partir da experiência reinventada e reformulada pela teoria.4

A relação entre teoria e experiência na Psicanálise é a práxis. A teoria sem a clínica se transforma em mera elucubração de conceitos abstratos. A experiência clínica sem a teoria torna-se pragmatismo, repetitivo e engessado.

Na ótica do sujeito do inconsciente, Freud foi claro ao afirmar que a compreensão do inconsciente só se alcança em análise. Não se apreende sua dimensão ética em universidades e seminários, mas na experiência de analisante, suporte da passagem para analista.

Experiência é diferente de experimento. O experimento é repetição buscada em laboratório para explicar fatos naturais. No experimento se busca expressamente um resultado. Na experiência, o encontro se dá espontaneamente, ao acaso.

Em Psicanálise, experiência não é repetição, mas elaboração por meio da associação livre na transferência. O analista em sua experiência é surpreendido com a emergência do sujeito do inconsciente de forma inesperada, que requer do analista disponibilidade para se surpreender, para escutar como na primeira vez, abdicando da idéia de saber alguma coisa do inconsciente do analisante, na busca de um saber que advém na fala do analisante.

Portanto, essa experiência fundante para a Psicanálise não é experimento, não é o vivido, nem o sensível. É experiência que se inscreve. Achado de um saber inconsciente. Esse saber do inconsciente é estranho ao discurso da Ciência. A Ciência está mais voltada para a verdade da existência do ser, enquanto a Psicanálise, para a verdade do sujeito do inconsciente, que se revela de forma evanescente na fala.5 Lacan diz, no seminário Le Sinthôme, que o inconsciente é um saber falado, diferente de saber pensado.6 No saber falado há um gozo, um objeto, a voz que chega ao outro e modifica a economia do gozo com este outro.7 O saber falado organiza o vivido em experiência, diferente do gozo místico no êxtase e do gozo da certeza científica.

Psicanálise e Ciência

As circunstâncias históricas vividas por Lacan no IPA culminaram com um acontecimento específico, em 1963, quando ministrava seminário no Hospital Sainte Anne sobre o Nome-do-Pai. Proibido de se envolver com a formação de analistas e pressionado a mudar sua práxis, para poder exercer a análise didática e continuar membro da Societé Française de Psychanalyse, recusou-se. A discrepância dos discursos do IPA com o de Lacan reflete-se nas concepções sobre Psicanálise, Ciência e Psicanálise e práxis em Psicanálise. No artigo Ciência e Verdade (1965) diz: A psicanálise quer seja ou não digna de se inscrever no registro da ciência ou religião pode nos esclarecer sobre ciência e religião.

Lacan situa a Psicanálise numa posição capaz de nos ajudar a conceber o que seja Ciência e Religião. Ela não busca somente a verdade do sujeito, mas a dúvida e inquietação dele. Não o sentido das coisas, mas o não sentido. Cita Picasso que dizia: Eu não procuro, eu acho. Para ele, procurar e achar são atividades que em certo sentido separam a não-Ciência da Ciência. Caracteriza a Religião com a famosa frase: Não me procurarias se já não me tivesses achado, indicando que a atividade principal aqui é a procura, já que o ter achado é de certa forma esquecido.

Portanto, a Psicanálise não investiga o que existiu um dia, mas aquilo que nunca foi encontrado, o vazio, a falta, causa do desejo. Seu objeto, pois, é este sujeito do inconsciente que de seu só tem o desejo, e, por sua vez, não tem objeto próprio.

Richard de Saint Victor, teólogo escocês, diz que a moderna Ontologia poderia ser a origem inspiradora da elaboração de Lacan sobre o sujeito. Segundo ele, o termo ex-sistere significa ser de alguém, provir de, já que sujeito vem de sub-objectum. Nesse sentido, a existência está articulada a algo que está fora, sustentada por um outro. A teoria lacaniana nos revela que o sujeito da Psicanálise não é o ser ontológico substancial. Ele só existe a partir dos significantes, sobredeterminado pela cadeia simbólica que o constitui, estrutura-o e habita-o, apontando para o seu assujeitamento radical.

No Seminário 11, Lacan se preocupa em estabelecer o estatuto do saber psicanalítico e o tipo de verdade em jogo na práxis, uma vez que práxis é reflexo da teoria e a reflexão da práxis aperfeiçoa e amplia a teoria. Práxis, segundo Lacan, é um termo mais amplo para designar uma ação realizada pelo homem, qualquer que ela seja, que o põe em condição de tratar o real pelo simbólico. Que nisto ele encontre menos ou mais imaginário tem aqui valor apenas secundário.8

Não há Ciência que derive cem por cento dos fenômenos e das considerações empíricas. Todo sistema teórico é construído parcialmente com base em conceitos já existentes na mente do pesquisador, seu contexto social e cultural. Uma Ciência começa pelas ideias intuitivas do pensador, vindas da cultura e da linguagem.9 Não existe objetividade, descrição exata de fenômenos e acontecimentos, sem traços de subjetividade.

Para Lacan, a Psicanálise é radicalmente diferente de qualquer ciência, seja ela Linguística, Astronomia, Antropologia. Ao contrário, a Psicanálise estaria na condição de comentar e avaliar a estrutura dessas disciplinas, reconhecidamente científicas.

Os limites entre Ciência e Psicanálise se expressam na discrepância entre o que é verdade para a Ciência e o que é verdade para a Psicanálise. A afirmação cartesiana do Penso, logo sou se contrapõe ao axioma da Psicanálise: Sou naquilo que não penso.

A Psicanálise não trata da verdade dos fatos, mas dos fatos transformados em verdades ou mentiras, em função do sujeito que vê, escuta e fala. Ela deve ser levada a sério, mesmo não sendo uma Ciência, diz Lacan em Momento de Concluir. Em tom de ironia, confronta o prestígio da Ciência com a charlatanaria ligada à Psicanálise: A psicanálise é uma prática, uma prática de charlatanaria. E acrescenta, imediatamente, que nenhuma charlatanaria carece de riscos, referindo-se ao fato de que o falar tem consequências. É desse sujeito, que a ciência forclui, que se ocupa a Psicanálise. Charlatanaria significa que o existir são palavras, nada mais que palavras. Sem elas, as coisas, o Real, nunca seriam apreciadas ou rejeitadas, louvadas ou condenadas. Ou seja, proposições que implicam consequências são palavras também.

Não se trata aí de oposição entre Ciência e Psicanálise, porque a Psicanálise nasceu e desenvolveu-se a partir do suporte da Ciência moderna.

Aprende-se a falar e isso deixa marcas e consequências nos seres falantes e se manifesta nos sintomas.

O homem moderno chega à noite em casa, estressado pelo barulho ensurdecedor, pelos estímulos visuais em toda parte, pelo movimento frenético, pela velocidade da informação, frutos do avanço da modernidade. É desse sujeito angustiado que a Psicanálise se ocupa, por isso precisa estar para além desse frenesi científico, para, de fora, analisar seus efeitos no humano, feito não só de razão, mas também de angústias, vazios e de uma razão Outra.

Lacan, em Ciência e Verdade, diz que há uma tendência em se suturar o sujeito da Ciência. Mas nisso a Ciência fracassa, pois o sujeito em questão continua sendo o correlato da Ciência, mas um correlato antinômico, porque a Ciência não tem êxito nesse esforço para suturá-lo.10

A Psicanálise é uma resposta da resistência do sujeito à sua própria perda, uma vez que a prática da Psicanálise dá lugar para que ele fale e realize sua experiência, que sempre é uma experiência singular e histórica. Pela análise, o sujeito recupera suas marcas, reconhecendo onde está enredado e o que fazer para desembaraçar-se da rede significante, sem destruí-la. Isso é saber o que fazer com seus sintomas.

Não há um saber universal que dê conta da singularidade de cada sujeito. A Psicanálise se interessa pelo saber do inconsciente.

Experiência de Analisante

A busca de análise é diferente da curiosidade científica, filosófica ou religiosa. Está mais ligada à decepção com as explicações científicas, as certezas dogmáticas e os argumentos ontológicos sobre a vida.

A procura de análise é a inquietação da pessoa diante do não saber sobre si mesma, a dificuldade de nomear o que quer, de suportar o vazio, o não sentido. Daí a procura de alguém que saiba, um sujeito suposto saber, instaurando-se uma transferência.

J. buscava respostas filosóficas para a sua existência, mas não era feliz. A verdade científica não preenchia seu vazio, não aliviava sua angústia. Por três anos, durante o curso, viveu seu deserto interior. Nada frutificava. Entrou em depressão. Calado, sozinho, sem nada saber da angústia, sentia-se um heterônimo, ao sabor das circunstâncias. Queria respostas sobre si mesmo, que a Filosofia não dava. Foi assim que procurou o analista.

L., uma jovem de 18 anos, chega, cumprimenta-me. Mal dá tempo de lhe responder. Começa a falar numa verdadeira diarréia, verborreica, agoniada, sem ponto, só vírgula. Depois de quarenta e cinco minutos, interrompo-a, dizendo: --Terminou a hora. Ela ainda diz: -Dr. deu pra saber porque vim aqui. Falo demais. Não consigo ouvir eco da minha voz, refletir sobre o que falo, o que sou, tomada por esta angústia de falar... falar...

O motor da análise é a transferência, presentificação do inconsciente colocado em ato. A transferência é uma falsa conexão. Um saber verdadeiro, deslocado por uma falsa atribuição. Investimentos representativos de acontecimentos dinâmicos, protótipos aos quais o analisante recorre na transferência ao analista, para repetir, rememorar e reelaborar imagos, impulsos e fantasias.

A transferência acontece por meio da fala, pela associação livre, porém nada é menos livre que a livre associação. O analisante reluta e retarda em praticá-la, pois o eu (moi), sempre vigilante, seleciona e recalca manifestações inconscientes que irrompem mediante a associação livre.

P. , senhor de mais de 30 anos, passou quatro meses vindo regularmente às sessões, sem dizer uma palavra. Eu, que já não aguentava seu silêncio, numa das sessões, disse-lhe: - P., tente descrever algumas imagens que lhe vieram à mente nestes quatro meses. Ele ficou mais uns minutos calado e depois começou timidamente a falar: - ---Uma imagem me impressionou. Estava numa caverna, só, calado, no escuro. Tinha medo, sabia que podia me virar, ver a luz na entrada e sair. Mas uma força maior me impelia para escuridão. Chorando, continua: Agora me lembrei, minha mãe conta que na infância, de repente, parei de falar. Passei dois anos num total mutismo. Agora me veio uma luz. Acho que queria voltar ao útero. A vida não me atrai. Não acho graça em nada.

Lacan ampliou a concepção de Freud sobre a transferência, ao afirmar que falsa conexão é transferência, deslocamento, substituição de um significante por outro significante, de uma significação para outra significação, elo intersubjetivo entre analista e analisante.11

Ambos, Lacan, em A Direção da Cura e os Princípios do seu Poder, e Freud, na 27ª Conferência Introdutória, enfatizam a importância da transferência do analisante para o processo analítico. No dizer de Freud, ela é o verdadeiro objeto da Psicanálise que a distingue de outros métodos terapêuticos. Faz sentido, porque o objeto da Psicanálise é o inconsciente e a transferência é o inconsciente colocado em ato.12 O paciente, diz Freud, relata-nos a história íntima de sua vida, reproduzindo-a de maneira tangível, como se estivesse acontecendo, em vez de simplesmente lembrá-la. Não se trata apenas de lembrar, repetir, mas de reelaborar distorções de julgamento e percepções da realidade. Analista e analisante estão no mesmo barco da transferência. Ela é via de mão dupla, embora só o inconsciente do analisante esteja em causa.

F., depois de alguns anos de análise, numa das sessões, expressa seu desejo de ler Freud, fazer formação analítica... Passa algumas sessões voltando ao mesmo tema. E eu, calado, pois ele buscava minha aprovação. Ele se exasperou com meu silêncio, dizendo: - Você é um analista de merda. Não sabe das coisas. Fica calado porque não sabe o que dizer. Acho que você deveria vir para o divã e eu me sentar na sua poltrona. Faria melhor que você.

Ao perceber que ele, no processo transferencial, queria ocupar o lugar do pai, em vez de ser como o pai, disse-lhe: -Nesta cadeira sento eu. Um dia você terá sua cadeira como eu e vai poder se sentar nela como analista.

Lacan fala de retificação subjetiva. A transferência é um ato de retificação, uma maneira de buscar os motivos das falsas conexões, nas quais o analista é envolvido. Isso não significa que o analista contradiga o analisante com suas verdades.

O amor de transferência está ligado ao não saber como dimensão. Como em toda neurose, o sintoma é tentativa de responder ao que não se sabe. A procura de análise se baseia nisso. A angústia proveniente da impossibilidade de nomear o que se quer leva à demanda. Colocando o analista no lugar do que sabe, o amor surge e por isso se diz que amar ignorando não é amar, é não saber. Na demanda, o sujeito faz uma exigência amorosa, não importa de quê, pois ele mesmo não sabe. A.L. não se cansava de dizer: - Você só vai se lembrar de mim depois que eu morrer. Um dia lhe disse: - Você só pode ser amada morta? Minha pergunta provocou então estas lembranças: -Nasci quando mainha estava de luto pela morte da mãe dela, minha avó, e de dois irmãos, meus tios. Nos primeiros anos de vida só ouvia elogios à vovó morta, lamentos pela sua falta. Acho que quis morrer para ser lembrada e amada. Por isso minha vida se tornou uma queixa só, sem cor, sem sentido. Vontade de dormir, morrer, me apagar. Ao se dar conta na análise que se identificara com a avó morta, para ser vista e lembrada pela mãe, começou a reagir, a querer ser outra pessoa. A vida começou a desabrochar para ela.

O analista deve sustentar sua posição de não atender à demanda, até porque é impossível satisfazê-la, uma vez que a demanda é constituída de palavras e as palavras jamais são idênticas a elas mesmas; representam um outro significante, um para além, um escorregamento da demanda no objeto do desejo. É justamente ao dirigir sua demanda - de cura, de alívio de sofrimento, de conhecer-se - que o analisante faz deslizar o desejo. Desejo disfarçado, situado naquilo que na fala corresponde à enunciação e não ao enunciado: nas pausas, nos intervalos, nos atos falhos.

Cabe ao analista permitir a emergência do desejo do sujeito que lhe demanda amor. A regra é associar livremente. Não atender a demanda preserva o espaço do desejo no processo analítico, permitindo aflorar o inconsciente, os significantes que marcaram o sujeito. Significantes da demanda do Outro ao qual se é assujeitado.



M. demonstrava incômodo em não ser uma boa profissional. Estava parada há muito tempo em relação a estudos e concursos. Separada há dois anos, com dois filhos pequenos, assume toda a responsabilidade de sustentar, cuidar e educar os filhos. Muito solicitada por eles, não consegue se concentrar para estudar. Não pode sair para se divertir. Fica em casa presa pelos filhos. Insatisfeita se queixa o tempo todo:

-Estou desperdiçando minha vida, me sinto vazia, sem assunto. Tive um sonho sem importância, que não entendi. Estou num prédio, pela janela vejo minhas duas irmãs, pulando da varanda para um prédio mais alto. Elas sobem com facilidade. Me convidam a fazer o mesmo. Tenho medo. Tento, mas estou presa por fios de nylon. Fico paralisada. Inerte. Sinto-me impotente para subir outro patamar, presa aos fios.

- Continuo sem achar nada no sonho. Ando repetindo minha mãe. Ela também foi deixada pelo marido. Criou sozinha nove filhos. Enclausurada em casa, cuidando de nós. E a gente tinha que ouvir a choradeira dela o dia todo. Não só se prendeu, mas nos prendeu a ela, com medo da gente se perder na vida. (Sai) Saí dessa teia quando resolvi fazer vestibular e morar só. Me formei e consegui um emprego. Não sei por (que) quê, mas ainda me sinto infeliz. Sensação de vazio, presa e amordaçada. Presa aos fios de nylon. Tão finos que não consigo me livrar deles. -- Presa pelos fios? Pontuo.



-Minha mãe é do interior. Ouvi-a dizer repetidamente: Pelos meus fios [filhos] eu deixei tudo na vida. Como se a gente fosse culpada da sua infelicidade. Ela devia cobrar do safado do meu pai, que nos abandonou. Ela não quis receber nada dele. Criou a gente sozinha. Ora merda! Eu estou falando dela ou de mim? Estou repetindo esta bosta de vida! Abandonada pelo marido, presa em casa pelos filhos [fios], sem progredir na vida. Minhas duas irmãs que não têm filhos estão numa boa, progredindo. Eu estou aqui, presa por essas duas criaturinhas que amo e odeio. Isso não vai ficar assim. Vou atrás daquele cabra safado de meu marido. Vou exigir dele o que eu e meus filhos temos direito. Contratar uma boa babá. Organizar minhas manhãs para estudar. Preparar-me para um concurso e melhorar de vida. E ainda vou achar tempo para namorar.

Nessa narrativa a expressão presa por fios de nylon, acionou a cadeia significante, que permitiu M. entender o quanto na sua vida repetia a história da mãe, numa identificação inconsciente, ficando, semelhante a ela, presa aos filhos [fios], deixando de ter vida própria.

Numa abordagem mais comportamental ou cognitiva poder-se-ia aconselhar: Procure seu marido e negocie com ele uma maior participação financeira e de tempo na educação dos filhos. Assim você poderá ter mais condições de realizar seus projetos. M. até poderia obter algum resultado, mas os significantes, presos por fios invisíveis não elaborados, iriam eclodir em outros espaços.

Se o analista responde à demanda fornece ao sujeito elementos especulares aos quais poderia identificar-se. As imagens fornecidas pelo analista vão prover o sujeito de um material para retocar o retrato, iludindo-o, invólucro para ele se sustentar por algum tempo. A alternativa do analista é redirecionar a demanda ao analisante, permitindo-lhe buscar o seu saber em vez de endereçá-lo ao analista. Não atender à demanda implica numa renúncia para o analista: calar para fazer falar o desejo do analisante. Para sustentar tal posição, é necessário o analista saber, a partir da experiência de sua própria análise, deste ponto de encontro com um vazio onde se esperava uma resposta, ou mesmo um significante que pudesse representá-lo totalmente.



G., há algum tempo, vinha se queixando do desamparo provocado pelo meu silêncio, questionando se valia a pena continuar a análise diante de minha presença ausente, diante de um morto vivo. O sonho foi a forma visual e figurativa que G. encontrou para expressar sua orfandade:

- Estava no campo e me deparo com um pavão imenso, colorido, majestoso, a me olhar de cima.

Associações:



- Nada de especial, só um pavão. Era bonito. Chamava minha atenção seu olhar soberano. Quem me olhava de cima era meu pai. Morreu quando eu era pequeno. Estou deitado neste divã, porque ele se foi e me deixou só com minha mãe.

Depois de um longo silêncio, pontuo a palavra pavão.

- Pavão... Pai vão. Tive um pai em vão e hoje tenho um analista em vão, calado como múmia paralítica.

A não satisfação da demanda leva o analisante a um estado de desamparo, que representa a única forma de confrontá-lo com o seu próprio desejo. Desejo que, na sua radicalidade, é impossível de ser satisfeito, desejo de nada, dor de existir, segundo Lacan.

O silêncio é muito mais que um simples calar-se do analista, pois lança o sujeito num lugar onde ele não tem outra saída a não ser deparar-se com o vazio, com a falta. Falta do objeto do seu desejo, irremediavelmente perdido.

A experiência do Analista

Freud propõe, em princípio, a quem vai dedicar-se à prática da Psicanálise, passar pela experiência analítica. Nisso a Psicanálise se diferencia da Ciência, porque é preciso, para alcançar o desejo do analista, realizar primeiro a experiência de análise. Ele só vai saber o que é análise pela experiência. Para Lacan, um analista surge em uma análise.

Lacan, em suas elaborações sobre análise didática, diz que toda análise é didática e acrescenta: Todo aquele que se analisou é analista, faça-o disso profissão (ofício) deverá recorrer aos textos.13 Existe, portanto, uma condição: que o psicanalista de ofício estabeleça uma teoria e uma prática continuada aplicável e testável em extensão na Instituição, por meio de uma interlocução da práxis.

A experiência que se exige do analista não é vivência (erlebnis), mas acontecimento verbalizável (erfharung). É uma experiência que se passa entre analista e analisante, que não concerne ao saber adquirido, muito menos acumulável que se pode dispor no depois. É uma experiência única, singular. Essa experiência só é possível na análise, atrelada a um novo dizer, para o qual o analista nunca está pronto e acabado. É experiência do impossível de fazer experiência, pois, durante a experiência mesma, não se sabe o que se diz, e só se saberá depois do acontecido, se houve ato analítico ou não.

K. deita-se no divã e começa a se queixar de uma tremenda prisão de ventre, que dura dias:

- Na ultima sessão me contive para não urinar no seu divã. Sou uma pessoa contida na vida, nas palavras, nas ações. Cerceado pela brabeza de minha mãe no passado e agora pela implicância de minha mulher. Vontade de esculhambar com todo mundo... Silêncio... vontade de dizer palavrões os mais cabeludos.

- Diga o que lhe vem à cabeça... E ele desaguou seus impropérios com todos os nomes feios a que tinha direito... Depois se cala... E eu digo: - Finalmente você cagou... Ele levou um susto, pulou do divã e olhou para ver se tinha cagado, de fato, como fazia em criança. Pulava da cama e olhava perplexo seu mijo no colchão.

Os efeitos de uma análise resultam, portanto, de uma experiência singular, vivida a partir da transferência, na qual o inconsciente do analista e do analisante estão colocados em ato.

O analista guia o tratamento, mas não a vida do analisante. Guiar o tratamento é saber fazer advir o saber do analisante, fazer emergir esse saber inconsciente, que ambos, analisante e analista, ignoram. O analista precisa reconhecer o seu não saber da particularidade do desejo do analisante, posição que remete à castração, supostamente vivida na análise do analista.

O que aprendemos com Lacan é que o fio condutor da análise é o dizer do analisante. O analista rompe o pacto da significação, da compreensão suposta. Seu campo de atuação é o da fala e da linguagem, e os efeitos das articulações significantes que irrompem na fala do analisante.

Trata-se de privilegiar o literal, os tropeços da fala, os esquecimentos, atos falhos e os sonhos. No erro e na dissonância se presentificam ditos novos ainda não verbalizados. Esse saber, revelado pelas formações do inconsciente, se, por um lado, conduz a um saber, por outro, coloca-nos na impossibilidade de, através do Simbólico, dar conta do Real.

Na análise o que conta é o desejo do analisante e não o do analista. O analista tem desejo, mas não é o seu desejo singular que está em causa, e sim o desejo de ser analista. Desejo que a análise aconteça. Que o analisante fale. V., após algum tempo de análise, começa a ter dificuldades em prosseguir. Diz: - Não tenho mais o que falar, já falei tudo o que sabia. Sugiro então que ele passe a falar do que não sabe. A associar livremente.

O fim da análise é saber o que fazer com o sintoma. Transformar sintomas em sinthômes.14

Y., ao iniciar sua análise, diz: - Quando parava para pensar em que se transformara minha vida, imaginava a morte como a única saída. M., amiga a quem era mais ligada, suicidou-se, ateando fogo às vestes. Quando seu corpo começou a arder e do bueiro sair fumaça, alguém disse: - Olha gente, M. virou nuvem. Antes dela, outras duas haviam feito o mesmo. Todas jovens. –“Entrei em parafuso” e comecei a alimentar a ideia de segui-las. Datam daí as queimaduras de cigarro que fazia em minhas mãos e braços.

Como último recurso, procurou a análise. Queria se ver livre sem precisar se destruir. Queria ter um objetivo, ter vontade de viver.

Após algum tempo de análise, começou a tecer tapetes em casa. A cabeça remoía: terapia, solidão, morte. Registrou um avanço: sentiu fome de madrugada e fez umas panquecas que comeu com gosto. Em lugar do vinho, tomou leite. Tentou escrever um pouco, mas não conseguiu se concentrar. Tomou um comprimido para dormir. Pensou então que a morte já não estava tão perto.

No início eram trabalhos pequenos, com retalhos. Depois, investiu em cursos, já com o pensamento voltado para uma escolinha de arte.

Sozinha, sentiu o quanto reagia a deixar-se ajudar. Só se defendia acusando os outros. O tratamento conseguira fazê-la pensar numa série de coisas: -Deixar de lado os tapetes, com a justificativa de que não haverá mais exposição? Ficar outra vez à toa? Nada disso. Voltaria a fazer tapetes.

Escolheu, para morar, um lugar de ladeiras, coqueiros, sol e mar, colorido como os tapetes que saíam de suas mãos. Reencontrou amigos. Construiu novas amizades. Não tem mais vontade de morrer.

Não basta conhecer os sintomas. É preciso apropriar-se da imagem corporal, colocar-se diante das próprias idéias e pensamentos, sair da posição objeto de desejo para a de sujeito desejante; quebrar os laços que faz cada um prisioneiro e repetidor do discurso do Outro; assumir idéias e pensamentos próprios. Enfim, a análise representa a passagem de analisante a analista. Como diz Mariel Wescamp:

Na passagem de analisante a analista há uma porta, que tem um resto, que faz sua divisão, a dobradiça. Esta divisão não é outra que a ruptura do sujeito, da qual é resto e causa.15 O sujeito vai abdicar da segurança que tomava do fantasma, janelas para o real e perceber que o desejo não é mais que um dizer, atravessamento do fantasma.


D.C., concluindo sua análise, diz:

-Começo vida nova. Iniciei a análise de controle. Sinto-me realizado. Gosto das conversas com K. sobre os analisantes. Diminuem as distâncias entre nós. Sonho atravessando o mar num barquinho. Sigo as orientações pelo rádio, vindas de um navio que me seguia ao longe. Navego no meu barco, fazendo sozinho a travessia. Algo de novo começa acontecer. Sinto-me responsável pelo trabalho de analista e professor. Ganho meu dinheiro, me aprimoro na arte de falar. A embarcação que me segue ao longe significa a presença do supervisor, ora confortante, ora perturbadora. Torna-se cada vez mais tranquila, porém distante a presença dele. Navegar é preciso, viver não é preciso. O porto seguro vai ficando distante. Remo sozinho em novos mares.

D.F. continua:

-Hoje longe de tudo e de todos, aprecio o silêncio. Estou só, com o ar que respiro. Sinto a respiração sem palavras, sem gestos, sem barulho, presença de um retrato de família dentro de mim.

Este retrato de família

Está um tanto empoeirado.

Já não se vê no rosto do pai

Quanto dinheiro ele ganhou.

............................................

A moldura deste retrato

Em vão prende suas personagens.

Estão ali voluntariamente,

Saberiam – se preciso – voar.

............................................

O retrato não me responde,

Ele me fita e se contempla

Nos meus olhos empoeirados.

E no cristal se multiplicam.

(A Rosa do Povo, 1945)

No fim da análise o analisante se torna analista de ofício ou não e, se for analista de ofício, será demandado a se tornar semblante para outros analisantes que virão e a análise continua em extensão na Instituição.

O paradoxal dessa práxis só tem referência no singular da clínica, ela aponta para o aperfeiçoamento da teoria e não pode ser relatada cabalmente pelo analista, senão como experiência de uma falta. Trata-se do impossível da transmissão, tanto pelos limites da linguagem para nomear a emergência do sujeito, quanto pelo incalculável do ato analítico.

Há uma impossibilidade lógica de nomear analista de experiência, pois em cada análise se reinventa a Psicanálise, também de dar conta da análise na transmissão. Quem termina a análise não pode testemunhar cabalmente o acontecido ali.

Fim de análise não é uma festa. É elaboração e luto. Depois de retirar as máscaras das identificações e ilusões e despossuindo-se de si mesmo, cabe até se perguntar: Cheguei a existir um dia? Constatação de ter ocupado um lugar designado pelo Outro, antes mesmo de nascer, numa trama significante que envolveu gerações. Consciência de um vazio que nunca será preenchido.

A análise em extensão na Instituição nos permite continuar falando dessa falta na interlocução da práxis com outros.




1 Psicanalista, é Analista Membro da Escola –AME - do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise.

2 Pais, Amélia Pinto. Padre Antônio Vieira – O Imperador da Lingua Portuguesa. Editora Âmbar, Lisboa, 2008.

3 Vocabulário etimológico da língua portuguesa. Cunha, A.G e outros – Lexicon Editora Digital, 2007-RJ.

4 Klimke, F. História de La Filosofia. Editorial Labor, Madrid, 1947.

5 Lacan, J. Seminário 16 – De um outro a Outro.Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 1968.

6 Lacan, J. Seminário 23 – Le Sinthome. Jorge Zahar Editora. Rio de Janeiro.

7 Zubermann, J.Â. El Psicoanalises como Experiencia.. Editora Letra Viva. Buenos Aires, 2004.

8 Lacan, J. Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar Editora. Rio de Janeiro, 1964.

9 Lacan. J. Ciência e Verdade.- Escritos.Jorge Zahar Editor. Rio, 1965.

10 Lacan, J. Ciência e Verdade – Escritos. Jorge Zahar Editor. Rio, 1965.

11 Lacan, J. A carta roubada.(1972) Escritos, Jorge Zahar Editor.

12 Freud. S. Análise Leiga.SEB. Vol XX.

13 Lacan, J. O ato psicanalítico.Seminário 15. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro.

14 Domb. B. El Psicoanalises como Experiência.Ed. Letra Viva. Buenos Aires, 2004.

15 Wescamp, Mariel. Fim de Análise. Palestra proferida em Recife. Tradução de Ana Lúcia Bastos Falcão.


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