Projeto de pesquisa coletiva



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Literatura Brasileira de Expressão Alemã

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PROJETO DE PESQUISA COLETIVA
Coordenação geral: Celeste Ribeiro de Sousa
ELLY HERKENHOFF
1906-2004

(Valburga Huber)

2014


A surpresa
Elly Herkenhoff*
Toda vez que Jürgens ficava pensando no passado, lá bem longe no passado, lá naquele tempo, quando ele estava descendo o Rio Elba a bordo do “Marie Loise”, coração cheio de esperança e bolsos vazios, então, era como se ele tivesse algo diferente para relatar sobre aquela época. Não que ele se sentisse meio culpado por causa da Hedwig Gerstemueller. Meu Deus, como alguém pode prometer casamento a uma moça antes de emigrar! Sim, se promete, assim, de bobeira, de modo fácil, e se tem as melhores intenções, com certeza, mas daí vem a vida no novo país, novos círculos de amizade, novos trabalhos, por fim, outras mulheres e, de repente, constata-se um certo dia que se vive por assim dizer totalmente distante daquilo de antes. O contato sincero de antigamente não existe mais, as cartas vão diminuindo e não se sabe direito o que se deve de fato escrever e, pois é, vai ficando assim e assim...
Não, culpado agora, realmente culpado, assim ele não se sente em relação a Hedwig. Mas, quando ele fica sabendo que ela se casou com um Zé Ninguém, sem sonho nenhum e virou dona de casa em Hamburg, numa pobreza imensa, com seus três filhos, aí ele fica com vontade de, de vez em quando, se disponibilizar para ajudá-la, só que não sabe direito, como ele deveria começar isso. E daí que os anos foram se passando, a fábrica na Penha ficando cada vez maior, logo se comprou um terreno contíguo, à direita, então, se construiu um puxado à esquerda e Christian Jürgens não tinha mais tempo nem para respirar. E, então, quando Lina ficou muito doente, de tal modo que os médicos recomendaram um tratamento na Alemanha, aí lhe sobreveio um embaraço total, pois que ele deveria confiar a fábrica durante doze meses aos seus empregados de muitos anos, mas mesmo assim estranhos, já que Gert e Fredy não eram adultos ainda. Ele hesitou e hesitou tanto, que nesse ínterim estourou a Segunda Guerra Mundial e nada se pôde fazer em relação à viagem de tratamento. “Por sorte” – sim, foi o que disse Christian Jürgens: “Por sorte, aconteceu nesse meio tempo a guerra...”. Ele não gostava muito de médico e dizia para si mesmo que, se sua mulher tivesse mesmo de morrer, que isso acontecesse com toda calma espiritual ali mesmo em casa no Rio de Janeiro, pois os médicos de lá da Alemanha não teriam muito que aconselhar nesse caso...
Sim e daí veio o colapso na Alemanha e tudo o mais. Certa manhã, ele tinha nas mãos uma carta de lá, na qual Eleonora lhe escrevia: “... Você deve se lembrar de Hedwig Gerstenmüller, querido irmão, com quem a gente sempre brincava quando éramos crianças e com quem eu gostava tanto de me relacionar, quando eu era mocinha? Já uma vez lhe escrevi que ela não estava muito bem. A pobrezinha teve mesmo um azar danado com seu marido. Ela, o marido e duas crianças morreram num bombardeio e só escapou da morte a filha mais velha, que agora se encontra no escritório, onde está trabalhando. Esta Hedy é realmente uma pessoa muito aguerrida e cheia de valor e, por isso, eu estou fazendo este pedido a você: se não seria possível, caro Christian, enviar oportunamente a ela uma cesta básica. Você já fez tanto por nós, desde o final da guerra...”.
Christian Jürgens recostou-se em sua cadeira junto à escrivaninha, ficou observando por alguns segundos o calendário elegante na mesa, que marcava o dia 15 de julho de 1953, e piscou, olhando pela janela aberta na sua frente a reluzente Baía de Guanabara. Ele ficou pensando em como teria sido diferente, se naquela época, há seis anos atrás, ele não tivesse se decidido imediatamente a enviar as primeiras cestas ao endereço de Hedy em Hamburg. Desde aquele dia não teve nenhuma semana sem que ele mandasse para ela ao menos uma cesta. A jovem moça, que, no começo, ficara um pouco impressionada com aquele “tio do Brasil”, que havia caído do céu assim meio de repente, e que se anunciara na primeira carta como amigo de sua mãe na juventude, logo se acostumara com as coisas maravilhosas muito bem vindas e ainda com regularidade, provenientes do tio maravilhoso de um país maravilhoso, ela que não se cansava de expressar seus agradecimentos em cartas tocantes pelas doações gigantescas. Já se percebia em suas palavras que ela já se sentia atraída por ele e então, depois de dois anos, quando ele sugeriu que ela viesse ao Rio de Janeiro, aí ela nem hesitou muito. Na verdade, nem era assim tão fácil naquela época mandar vir uma cidadã de nacionalidade alemã para o Brasil – mas para que servem afinal as suas boas relações e para que gastou tanto dinheiro, se não para mandar remover qualquer obstáculo numa oportunidade como aquela? – algumas semanas mais tarde e tudo estava pronto: numa daquelas tardes de setembro, a Hedy já desembarcava na sua frente ali no aeroporto, alegre e de face rosada, ao modo de seus 22 anos de idade e, ainda, séria e madura, assim como ele a havia conhecido pelas cartas. – E, em pouco tempo, aconteceu o mais impressionante: a filha de Hedwig já lhe era a mais imprescindível funcionária da fábrica.
Mas só na fábrica?
Christian Jürgens retira os óculos do rosto e os limpa demoradamente, bem devagar com o lenço de bolso. Com certeza, tais situações não existem em seus hábitos e ele nunca precisou se empenhar em coisas paralelas como aquelas. Mas hoje – hoje vai ser mesmo diferente como nunca foi. O dia de hoje vai ser um marco na sua vida. Não, um estímulo – o estímulo para uma nova juventude, para um novo casamento: hoje à noite ele vai ficar noivo de Hedy. Será que ela ao menos desconfia? Com certeza, pois, apesar de seus 52 anos, ela o ama e faz tempo. Disto ele sabe. Ele tem provas suficientes disto. É um sentimento abençoado para ele, ser amado por esta mulher mais divina de todas. Naturalmente que o Gert e o Fredy vão fazer objeções, especialmente o Gert que vai argumentar que a Hedy, a madrasta, não é mais velha do que Miriam, a futura esposa dele. Mas, meu Deus, o que importam estes anos a mais para uma pessoa madura como Hedy? Pode-se até conversar com ela as coisas mais sérias da vida, consultá-la sobre os momentos mais difíceis nos negócios e sempre se terá o sentimento de que ela já interiorizou muitos outros anos. Sim, com frequência, é como se a Hedwig estivesse sentada na sua frente e tudo aquilo que ele experimentara há trinta anos estivesse ali resumido na sua filha. Ele não consegue mais afastá-la de sua vida. Ele a ama e quer se unir a ela para sempre...
“Papai, eu gostaria de conversar uma coisa em particular com você... um negócio sério e importante”.

Christian Jürgens fitou seu filho mais velho por cima dos óculos e o encarou.

“Mas precisa ser agora, justo hoje?”.

“Sim, pai. Tem que ser agora! Eu fiquei noivo ontem à noite!”.

“Aha! É isso! Pois é, então tá! Acima de tudo, meus parabéns, meu jovem! Tem tudo a ver, porque eu também tenho uma surpresa para vocês! Então, hoje à noite a Miriam natural...”.

“Que Miriam, pai! Por que pensou nela?”.

“Então, você não ficou noivo da Miriam?”.

“Eu? Quando? Naturalmente que foi com a Hedy. Haveria outra mulher além da Hedy, com quem eu poderia ficar noivo? Hedy, a mais incrível de todas as mulheres. A única!”

Christian Jürgens percebe que está sorrindo, mas também nota um sentimento especial, como se ele recostasse em sua cadeira e fosse uma outra pessoa. Ele engole seco, mais de uma vez, assim como fazia quando era criança e sua mãe ficava na frente dele com a colher de xarope, dizendo: vamos, coragem Cris... Abre a boca, fecha os olhos! Aí, Você já é grandão! ...

“O caso com a Miriam já passou faz tempo. Já faz mais de meio ano. Você não sabia de nada disso, pai! Sabe, ela não seria a mulher ideal para mim. A Hedy, sim! Esta é outro papo. Totalmente. Até mesmo você sabe disso e é por isso mesmo que você dá tanto valor a ela, né pai? A Hedy te ama também, como a um pai – você nem acredita o quanto ela te quer bem...”.

“Pois é, coragem Cris. Abre a boca, fecha os olhos...” é o que dizia a mãe antigamente, há 45 anos...

“E daí pai? Você também tinha uma surpresa para nós? Você estava dizendo que hoje à noite naturalmente...”.



“Eu???... eu???.... Sim, é, é mesmo, claro Gert! Eu, na verdade, eu bem.... É o seguinte... eu vou comprar o bangalô no Leblon... o branquinho cor de neve, com as colunas... você sabe, né, aquele... que tanto agradou a Hedy...”.


** Tradução de José Luís Félix. Herkenhoff, Elly. Die Überraschung. In: Serra-Post Kalender. Ijuí, Ulrich Löw, 1954, p. 137-140.



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