Processos de cómico1 CÓmico de carácter



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PROCESSOS DE CÓMICO1

  1. CÓMICO DE CARÁCTER

“É cómica a personagem que segue automaticamente o seu caminho sem se preocupar em entrar em contacto com os outros. O riso surge para corrigir a sua distracção ou para a arrancar ao seu sonho. (...) Geralmente, são deveras os defeitos de outrem que nos fazem rir – (…) acrescentemos que esses defeitos nos fazem rir mais pela sua insociabilidade do que pela sua imoralidade.” (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cómico, Relógio d'Água, Lisboa, 1991, pp.88-91).

Gil Vicente legou-nos uma vasta galeria de personagens-tipo que se destacam pelo seu carácter marcadamente insocial. [ex: o Parvo]

Não só a insociabilidade serve para marcar o cómico de carácter de uma personagem, pois em certos casos basta um defeito ou fraqueza do foro psicológico para determinar o riso. [ex: quando o Fidalgo pensa que vai para o Céu porque a mulher e a amante rezam por ele]

A diferença de personalidades também pode conduzir ao cómico de carácter. [ex: o Frade]

Cómico de carácter - a personalidade, a apresentação e o comportamento da personagem tornam-se ridículos.

  1. CÓMICO DE LINGUAGEM

Segundo a definição proposta por Henri Bergson: “Devemos distinguir entre o cómico que a linguagem exprime e aquele que a linguagem cria. (…) [ O cómico que a linguagem cria] Deve o seu ser à estrutura da frase ou às palavras escolhidas. (…). É a própria linguagem, aqui, que se torna cómica.” (O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cómico, Relógio d'Água, Lisboa, 1991, pp.69-70).

No Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente explora este tipo de cómico em particular com a personagem Joane, o Parvo, tipo marginal e grosseiro por definição, a quem a sociedade não cobraria defeitos de expressão linguística, como as célebres respostas em calão que dá ao Diabo que o quer encaminhar para a Barca do Inferno: “DIA.: De que morreste? / JOA.: De quê? / Samicas de caganeira. / DIA.: De quê? / JOA.: De cagamerdeira, / má ravugem te dê!”. Outros exemplos no teatro vicentino, sempre modelar no recurso ao cómico, pode ser (…) a utilização de latim macarrónico (Auto da Barca do Inferno).

Cómico de linguagem - recurso a vários tipos de linguagem para provocar o riso.

  1. CÓMICO DE SITUAÇÃO

“Uma situação é sempre cómica quando pertence ao mesmo tempo a duas séries de acontecimentos absolutamente independentes, podendo interpretar-se alternadamente em dois sentidos completamente diferentes.” (Henri Bergson, O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cómico, Relógio d'Água, Lisboa, 1991, pp.65-66).

Gil Vicente utiliza este tipo de cómico [ex: o Fidalgo querer regressar a Terra, o Frade jogar esgrima com o Diabo…]



Cómico de situação – o resultado da própria situação em que as personagens se inserem ou das circunstâncias por eles criadas fazem rir.


PARA SABER!

Personagens planas ou tipos:

As personagens planas ou tipos representam grupos sociais, uma qualidade e/ou defeito. Não têm vida interior própria. São, normalmente, estáticas, isto é, não se modificam ao longo da acção.


Tipos de cómico:

Cómico de linguagem: recurso a vários vocábulos, de diferentes níveis, a fim

de provocar o riso. Cómico de carácter: apresentação de comportamentos e atitudes ridículas por parte das personagens. Cómico de situação: criação de

situações cujas circunstâncias expõem as personagens ao ridículo.
Modos de caracterização:

Directa: apresentação das características ou atributos por parte do narrador, da própria personagem (autocaracterização) ou de outras personagens.

Indirecta: conhecimento das características da personagem através

dos seus comportamentos, atitudes, linguagem, etc. Mista: coexistência dos dois tipos de caracterização.







1 Dicionário de termos literários, Carlos Ceia



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