Popper e o estatuto epistemológico da racionalidade econômica



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2.2 O problema da inadequação empírica
O que se entende por irracionalidade de um agente seriam alguns comportamentos que não se coadunam com as restrições impostas pelo postulado da racionalidade, seja ele interpretado como lei geral do comportamento humano, seja ele entendido como axioma da teoria. Alguns exemplos de irracionalidades típicas dos agentes racionais humanos, no sentido de comportamentos recorrentemente encontrados em teses empíricos, seriam (SUTHERLAND, 1992; TVERSKY, KAHNEMAN, 1981):


  1. Acreditar em contradições (ou seja, as crenças não obedeceriam à restrição de serem logicamente coerentes),

  2. Não acreditar nas consequências daquilo que se acredita,

  3. Intransitividade de preferências, inversão de preferências,

  4. Fazer escolhas baseadas em más estimativas de probabilidades,

  5. Fraqueza de vontade (i.e. não fazer aquilo que se acredita dever fazer),

  6. Autoengano (sinceramente não acreditar naquilo que se sabe que se deve acreditar).

A suposição do comportamento racional possui uma importância fulcral na ciência econômica, conforme já assinalado. É um problema importante para a filosofia da economia a adequação empírica da concepção de decisor racional, como definido na seção 1, ou seja, a suposição consoante a qual cada agente possui um rol de preferências ordenadas, transitivas, etc., e que escolhe o curso de ação mais favorável para a maximização da utilidade. Se o comportamento real do agente não está em conformidade com essas descrições, é necessário que uma resposta adequada seja endereçada.

Uma das reivindicações mais recorrentes, por parte dos críticos ao uso do modelo de racionalidade na ciência econômica, é a de que o egoísmo, enquanto componente essencial da racionalidade do agente deve ser rejeitado. Tal rejeição não deve ser exercitada porque se crê que os agentes sejam movidos pela adesão a sistemas morais, ou porque seja falso que o interesse pessoal desempenhe papel relevante em grande número de decisões, mas sim porque a teoria da escolha racional oferece uma descrição circularmente fundamentada acerca do que consiste a motivação do agente. É sempre possível argumentar e fazer parecer que o comportamento do agente foi racional, no sentido de autointeressado e maximizador da utilidade, não importando se o comportamento de fato foi egoísta, altruísta, ou qualquer combinação intermediária de ambos.

Com o intuito de escapar dessa crítica de circularidade, é possível relaxar H7 e H8, as hipóteses do comportamento autointeressado do agente e da utilidade esperada de sua ação. Neste caso, o problema da decisão racional passa a ser como especificar a melhor maneira de se decidir, entre um leque de opções de ações existentes e dados os objetivos do agente, qual seria a escolha mais adequada. O conteúdo dos objetivos do agente passa a ser uma questão em aberto. Alguns indivíduos podem vincular utilidade ao autointeresse, outros ao interesse de outrem, outros ainda ao bem comum, etc. No entanto isso não encerra a questão. Permanece válida a crítica da blindagem da teoria contra refutação, o que é algo indesejável do ponto de vista metodológico. E particularmente indesejável do ponto de vista popperiano. Isso explica o fato de Popper (1969:171-172) ter alegado que, se considerado como um axioma ou a priori lógico, como queria Mises, o princípio da racionalidade mostra-se claramente falso:
Aqueles que dizem que o princípio da racionalidade é apriorístico querem implicar, naturalmente, que ele é válido a priori, ou verdadeiro a priori. Mas parece-me bastante claro que eles devem estar errados. Isto porque o princípio da racionalidade pare-me claramente falso – mesmo na formulação zero, ou seja, a mais fraca, o que pode ser expresso como: ‘Agentes sempre agem de uma forma apropriada à situação em que se encontram’ [...] Se um princípio que não é universalmente verdadeiro, então ele é falso. Portanto, o princípio da racionalidade é falso. Penso que não há saída para isto. Consequentemente, devemos negar que ele seja válido a priori.
Quando Popper diz que o princípio da racionalidade é falso, sua intenção é esclarecer que ele não corresponde à realidade, ou seja, os homens não agem desta forma cem por cento do tempo. Com efeito, os estudos empíricos sobre o comportamento dos agentes apontam nessa direção. Ocorre que é exatamente isso que deveria acontecer, caso o postulado da racionalidade possuísse de fato o estatuto de axioma ou a priori e as condições de necessidade e universalidade que Mises lhe atribuiu. Não obstante, todas as vezes que o princípio falha, i.e., a cada contraexemplo encontrado, quando se faz o contraste da teoria com a realidade, a cada ação aparentemente “irracional” verificada, já existe um mecanismo autoprotetor na teoria voltada a explicar o que aconteceu. Se algum teste empírico malogrou, se a ação do indivíduo apresentou algum indício de irracionalidade, do tipo i-vi acima, por exemplo, então se tratava de um dado irredutível.

De forma análoga ao que foi argumentado com relação à possibilidade de o postulado da racionalidade desempenhar o papel epistemológico de axioma, tornou-se também muito difícil sustentar que a racionalidade revele uma lei causal que governa o comportamento dos agentes. Caso esta lei existisse, ao se formular a pergunta: “a racionalidade causa o comportamento do agente?”, a resposta precisaria ser “sim” em virtualmente todos os testes empíricos realizados.

Como algum pressuposto de racionalidade parece ser imprescindível, o que terminou por acontecer, para Popper, é que se tornou indefensável pretender que existe algo análogo à explicação física para a explicação econômica. É evidente que o mesmo vale para todas as demais disciplinas intencionais, i. e. as chamadas ciências sociais e humanas. Chega-se assim à terceira proposta de definição da função epistêmica exercida pelo postulado da racionalidade nas teorias sociais.


  1. O princípio da racionalidade como regra metodológica ou máxima regulativa da investigação social

Dadas essas dificuldades, na década de 1960 Popper começou a elaborar com maior detalhamento seus conceitos de sociologia da compreensão objetiva, método da compreensão objetiva e lógica situacional, sinalizando uma mudança em relação a sua postura anterior, de defesa veemente do isomorfismo lógico entre as ciências naturais e sociais. Numa de suas obras dedicadas especificamente à metodologia das ciências sociais, a Lógica das Ciências Sociais, Popper aponta para um método característico – e objetivo – para o âmbito das ciências da sociedade:


Vigésima-quinta tese:
A investigação lógica da Economia culmina com um resultado que pode ser aplicado a todas as ciências sociais. Este resultado mostra que existe um método puramente objetivo nas ciências sociais, que bem pode ser chamado de método de compreensão objetiva, ou de lógica situacional [...] Este método consiste em analisar suficientemente a situação social dos homens ativos para explicar a ação com a ajuda da situação, sem outra ajuda maior da psicologia. A compreensão objetiva consiste em considerar que a ação foi objetivamente apropriada à situação. Em outras palavras, a situação é analisada o bastante para que os elementos que parecem, inicialmente, ser psicológicos (como desejos, motivos, lembranças e associações), sejam transformados em elementos da situação. O homem com determinados desejos, portanto, torna-se um homem cuja situação pode ser caracterizada pelo fato de que persegue certos alvos objetivos; e um homem com determinadas lembranças ou associações torna-se um homem cuja situação pode ser caracterizada pelo fato de que é equipado, objetivamente, com outras teorias ou com certas informações[...] Eu chamo isso, usualmente, de “lógica situacional” ou “lógica da situação”. (Popper: 1961:31. Grifo nosso).
Uma das consequências do amadurecimento do conceito de “lógica situacional” foi uma mudança no papel considerado adequado para o princípio da racionalidade nas teorias. O fato de os indivíduos agirem racionalmente significa que a ação está de acordo com a situação que se lhes apresenta, levando-se em consideração as informações de que dispõem no momento, suas crenças, e toda sorte de outros fatores que ajudam a compor a situação, bem como seus objetivos pessoais. Neste momento, i. e., a partir da década de 1960, o princípio da racionalidade deixa de ser considerado por Popper como um enunciado nomológico, como foi em 1944, mas como “máxima regulativa da investigação social” (FARR, 1983).

Em outro artigo no qual aborda os mesmos temas, Popper (1966) volta a analisar o estatuto epistemológico desse princípio, investigando sua não refutabilidade. Ele discute então duas alternativas: se o correto seria considerá-lo como hipótese empírica ou como princípio metodológico. No primeiro caso, se uma teoria fosse submetida a um teste e malograsse, não haveria motivos para que se excluísse a possibilidade de que o próprio princípio fosse considerado responsável pelo fracasso, uma vez que uma hipótese empírica participa do corpo do modelo, devendo, portanto, ser submetida a teste junto com todo o resto da teoria. Ocorre que não é isso que se verifica na prática científica real. Via de regra, se uma teoria não passa nos testes, o que se costuma fazer, ou o que a “boa prática metodológica” sugere que se faça, é não rejeitar o princípio da racionalidade. Pelo contrário: no caso de dificuldades empíricas, o que costuma ocorrer é a manutenção do princípio e a revisão da teoria, no caso, o modelo situacional.

Assim, Popper chegou à conclusão de que o princípio é irrefutável porque não se localiza no plano lógico (teórico), mas sim no plano metodológico (metateórico). Isto explica o fato de ele ser utilizado de um modo que exclui a possibilidade de sua própria refutação, talvez mesmo para salvaguardar a refutabilidade de todo o sistema teórico..Essa é justamente a posição de Watkins (1970: 87), por exemplo, que considera os princípios como premissas imprescindíveis e irrefutáveis, cuja função principal é justamente garantir a refutabilidade da teoria como um todo:
Em qualquer ciência se requer um corpo considerável de premissas para que se possam derivar logicamente predições refutáveis. Geralmente não será muito difícil substituir uma premissa existente sem diminuir a refutabilidade empírica do sistema. Entretanto, também pode haver premissas das quais pareça praticamente impossível prescindir sem que se diminua seriamente a refutabilidade do sistema ou sem que ele se converta, inclusive, em um sistema incontrastável. A tais premissas se pode chamar princípios, quer dizer, componentes privilegiados que se considera como irrefutáveis em interesse da refutabilidade de todo o sistema [...] Se o princípio da racionalidade é necessário para deduzir predições sobre as ações a partir de descrições situacionais, parece claro que está dentro dessa categoria.
Sob o ponto de vista estritamente lógico, pode-se caracterizar a compreensão objetiva12 como obedecendo outra estrutura silogística esquematizada a seguir:
[A] Premissa

[B] Premissa

_______________

[C] Conclusão
Como se observa, trata-se neste caso de um modelo de explicação lógica bem mais simples que o modelo nomológico/hipotético-dedutivo, tendo em vista que não mais se considera necessária a existência de leis para a explicação. Isso implica também, conforme anteriormente assinalado, que se está abrindo mão do princípio da causalidade como norteador da explicação do fenômeno social.

Aplicando o modelo silogístico para o caso da ação racional, fazem-se as seguintes suposições: seja [C] a conclusão do argumento, i. e. uma descrição da ação que se deseja explicar. Sejam [A] e [B] suas premissas. Seja [A] uma descrição dos objetivos ou das metas do agente e [B] uma descrição das informações, crenças, teorias, bem como das pautas axiológicas às quais a ação obedece. E chega-se ao seguinte esquema geral13:


[A] O objetivo do agente X é Æ.

[B] Considerando as crenças, teorias, informações e pautas

axiológicas de X, A e o melhor e mais aceitável dos Premissas

recursos ou caminhos disponíveis para obter Æ.

_______________________________________________



[C] X opta por fazer, realizar ou empreender A. Conclusão

O que se intenta aqui é explicitar a estrutura lógica da operação mental chamada por Popper de compreensão objetiva. Nesse caso, um esquema lógico tão simples como um silogismo carece ainda de algo. Como o próprio Popper apontou, o que rege o modelo é justamente o princípio de racionalidade, entendido neste momento como o princípio segundo o qual os agentes sempre agem de maneira adequada à situação em que se encontram. Neste contexto, entende-se também, naturalmente, que os fins e as atitudes de tais agentes são os elementos que dão contorno a essa situação.

De acordo com esse segundo tipo de estrutura lógica, é possível formular o princípio de racionalidade como regra metodológica e, portanto, como uma diretriz normativa. Sendo a conclusão [C] a descrição da ação A empreendida por um agente X, deve-se formular e contrastar um conjunto premissas que contenha: [A] a atribuição de uma meta Æ ao agente X, e [B] a enumeração de um conjunto de informações, crenças, teorias, preferências e pautas axiológicas imputáveis a X, sob cuja consideração a ação A poderia ser pensada como a melhor alternativa disponível para alcançar o propósito Æ.

É importante salientar que tanto o principio da causalidade como o princípio da racionalidade constituem distintas maneiras de se interrogarem os fenômenos. O princípio de causalidade estabelece as regras para se explicarem causalmente os fenômenos naturais, ao passo que o principio da racionalidade estabelece as regras para que se possam compreender objetivamente os fenômenos socioeconômicos. Ambos desempenham função semelhante, nos seus respectivos domínios – ciências naturais e sociais, respectivamente –, a de servir como diretriz metodológica que indica como deve ser interrogado o fenômeno. A diferença entre ambos consiste no fato de que, enquanto o princípio da causalidade objetiva descortinar as leis, ou as relações de causa-efeito que regem os fenômenos naturais, o princípio da racionalidade prescinde da existência de leis e busca compreender as relações meios-fins que regem as tomadas de decisão dos agentes no âmbito social.

Do ponto de vista adotado por Popper a partir dos anos 1960, não se poderia mais afirmar que a racionalidade é causa da ação (que se deseja explicar), no mesmo sentido que a elevação da temperatura é causa da dilatação de uma barra de metal. A formulação correta, desta perspectiva, é afirmar que a racionalidade é o meio adequado para a ação voltada a alcançar certo fim. Só foi possível chegar a esse entendimento porque o princípio, nesse momento, faz o papel de regra metodológica ou de guia para a investigação científica. Enquanto tal, ele deve conduzir o olhar do cientista social à investigação do fenômeno em pauta, ou seja, no processo de ampliação, aprofundamento e estabelecimento dos pormenores da teoria na qual se insere. Como não poderia ser diferente, parte importante desse processo é o contraste com os dados empíricos.

Entendido desta forma, o princípio da racionalidade consegue responder bem à crítica de inadequação empírica das teorias que dele fazem uso. De fato, caso o princípio se localize no plano metodológico, essa crítica específica perde muito de sua força. Isto porque, como se viu, ela era pertinente quando se supunha que o postulado da racionalidade participasse do plano positivo das próprias teorias, ou seja, quando se acreditava que ele pretendesse revelar um aspecto sobre “aquilo que é” o ser humano. Não sendo este mais o caso, o que se espera do princípio da racionalidade, neste contexto metodológico, é tão somente servir de guia para os pesquisadores que dele se utilizam conseguirem formular perguntas interessantes à realidade socioeconômica, com o fim de compreender as ações humanas de forma objetiva. Essa forma de se entender o papel epistemológico da racionalidade guarda algumas semelhanças interessantes com o que foi proposto por outros filósofos contemporâneos de Popper.




  1. Popper, Kuhn e Lakatos: um ponto de consenso

Um dos aspectos mais controvertidos e também mais inovadores da abordagem de Kuhn (1970) sobre o funcionamento da ciência é aquele que caracterizaria o trabalho dos cientistas durante os períodos de ciência normal como a resolução de “quebra-cabeças”. Os problemas científicos, para ele, consistiam em puzzles, i. e., em enigmas com determinado número de peças, que o cientista precisaria montar até encontrar a solução final. É importante salientar que, para Kuhn, a solução final, tal como a imagem que ilustra a caixa do jogo, já era conhecida de antemão, servindo de guia para a resolução do quebra-cabeças. O paradigma no qual todo cientista se insere, incorporado durante o processo de sua formação profissional, ensina-lhe como deve ser visto o mundo. Por esse motivo a metáfora com o quebra-cabeça é tão interessante. O paradigma é a imagem de mundo que o cientista deve buscar nos testes empíricos, de modo análogo à imagem da caixa do jogo que o jogador deve reconstruir ao longo do processo de montagem. Ou seja, o paradigma, ou a teoria à qual se integra o pesquisador desempenha um papel normativo crucial no fazer científico cotidiano. A formação teórica ensina-lhe não apenas as “regras do jogo”, ou seja, as diretrizes metodológicas que devem ser obedecidas, mas também quais peças devem ser utilizadas em cada momento, o caminho a ser percorrido e o objetivo a ser atingido.

A consequência mais dramática do ensino deste tipo de diretriz metodológica, para Kuhn, é que, sem uma concepção normativa acerca daquilo que “deva ser” o mundo, não haveria investigação possível da realidade. Esse papel normativo, para ele, já seria exercido no plano da própria teoria, entendida no sentido mais amplo de paradigma. Já para Popper, como visto, o papel normativo localizar-se-ia no plano metodológico. Como se observa, para ambos os autores, ele seria absolutamente imprescindível.

A perspectiva apresentada na seção 3 também é plenamente compatível com algumas tentativas de aplicação da metodologia de Lakatos (1970, 1973) – herdeiro, como se sabe, de vários insights da metodologia popperiana – para a teoria econômica neoclássica. Weintraub, (1985) e Weiss (2002), por exemplo, procuraram utilizar os principais conceitos da metodologia dos programas de pesquisa científicos (os PPCs lakatosianos) para identificar a estrutura da teoria do equilíbrio geral de Walras. Uma de suas propostas era identificar as hipóteses componentes de seu núcleo irredutível, de seu cinturão protetor, bem como de suas heurísticas. Segundo Weiss (2002: 11-12), as hipóteses componentes do núcleo irredutível e as heurísticas – positiva e negativa – do PPC neowalrasiano seriam, em tradução livre, as seguintes:

As suposições do núcleo rígido são:

HC1. Existem agentes econômicos;

HC2. Os agentes possuem preferências com relação a ocorrências;

HC3. De modo autônomo, os agentes otimizam, sujeitos a resultados;

HC4. As escolhas são feitas em mercados inter-relacionados;

HC5. Os agentes possuem todo o conhecimento relevante;

HC6. Os resultados econômicos são coordenados, de sorte que devem ser discutidos com referência a teorias do equilíbrio.
E as heurísticas positiva e negativa são:

PH1. Prossiga e construa teorias em que os agentes econômicos otimizam;

PH2. Construa teorias que fazem predições sobre mudanças nos estados de equilíbrio;

NH1. Não construa teorias em que o comportamento irracional desempenhe qualquer papel;

NH2. Não construa em que o equilíbrio não possua qualquer significado;

NH3. Não teste as proposições do núcleo rígido.

Note-se que HC1-HC3 muito se assemelham a uma simplificação das proposições H1-H8 feitas na seção 1. Não obstante, a partir da perspectiva de Lakatos, as hipóteses aqui são consideradas irrefutáveis, possuindo inclusive certo caráter metafísico, já que compõem o núcleo irredutível do programa de pesquisa. Elas jamais serão testadas, i. e. colocadas em xeque pelos pesquisadores participantes do programa. A garantia para isso está dada pelo papel desempenhado pelas heurísticas positiva e negativa na proposta de Lakatos. Observe-se também que PH1 e NH1, simétricas e complementares, exercem exatamente o papel epistêmico advogado na seção 3, segundo o qual o princípio da racionalidade funciona (ou deve funcionar) como regra metodológica. Ou seja, sua função epistemológica consiste em estabelecer as diretrizes em consonância com as quais os participantes dos programas de investigação deverão (ou não deverão) nortear suas pesquisas. Caso optem por contestar estas regras, estarão, na realidade, optando pelo abandono deste programa de pesquisa, proposição esta expressa pela heurística negativa NH3.

Dando um passo além na argumentação, pode-se afirmar que o que deve ser levado em consideração quando se enfrenta o problema da (in)adequação empírica das caracterizações idealizantes dos agentes racionais é que nenhuma interpretação dos fatos obtidos experimentalmente pode ser realizada sem a utilização prévia das próprias propostas da teoria da decisão (ou do princípio da racionalidade, entendido neste momento como regra metodológica).

Uma explicação para a aderência dos participantes dos programas de pesquisa que fazem uso do modelo da racionalidade a essa regra é que o modelo de decisão racional, na acepção de que a ação foi adequada à situação, dados as crenças, desejos e objetivos do agente, é tão simples que as descobertas empíricas têm que adaptar-se a ele. Seria impossível, por exemplo, imaginar uma situação inversa, na qual se procuraria elaborar uma teoria da (ir)racionalidade a partir dos dados coletados pelas experiências sobre a (ir)racionalidade dos agentes. Em outras palavras, o que parece estar em causa aqui é a inevitabilidade do apelo intuitivo do postulado da racionalidade. (DAVIDSON, 1984). Caso assim seja, o estatuto epistêmico (ou o legítimo papel) que o princípio da racionalidade tem a desempenhar nas teorias econômicas é o de servir de regra metodológica. E isso foi defendido por Popper, pode ser defendido a partir da proposta lakatosiana, e poderia ser defendido a partir daquilo que foi proposto por Kuhn.

Decerto não se estará aqui tentando negar que existiram algumas divergências profundas entre as perspectivas propostas pelos três grandes nomes de epistemologia do século XX. Ao contrário, reconhecidas as profundas divergências, o que se pretendeu brevemente assinalar nesta seção é que, em pelo menos uma questão central, houve coincidência de posições.
Conclusão
No estudo da ciência econômica, desistir da tentativa de explicação da ação humana está tão fora de questão como desistir de se procurarem as causas dos fenômenos na física. Dada a relevância do tema, neste artigo foram feitas três tentativas de se entender a função do postulado da racionalidade nas teorias econômicas. Nas duas primeiras, Popper e Mises procuraram localizá-lo no interior das teorias, seja funcionando como uma lei do comportamento humano, seja como um axioma ou a priori lógico. Estas classificações epistemológicas se depararam com problemas. Em especial destacou-se a crítica de inadequação empírica do modelo de racionalidade.

Estudos empíricos acerca do comportamento de agentes humanos mostraram que, diferentemente do que é assumido por teorias econômicas e filosóficas, longe de serem perfeitamente racionais, as pessoas não são sequer consistentemente coerentes em suas crenças e preferências. Essas inconsistências refletem-se naturalmente também nas suas ações. Ocorre que estes contraexemplos tampouco podem servir para provar que as pessoas são irracionais, ou tendencialmente irracionais. Isso começa a ficar claro quando se assume a terceira proposta de Popper e passa-se a entender o postulado da racionalidade como uma regra metodológica para a investigação social.

O que se procurou explicitar na parte final deste artigo foi o argumento segundo o qual sem o contexto metateórico representado pelo suposto da racionalidade, sem os constrangimentos que a teoria da escolha racional explicita (coerência, transitividade, etc.) acerca de crenças e preferências, não se poderia sequer dizer o que é racionalidade. Assim, um bom argumento de defesa contra as críticas da inadequação empírica do modelo é a alegação de que não faz sentido pensar que contraexemplos provem que os agentes ajam grande parte do tempo de forma irracional. Chamar alguém ou algum comportamento de irracional já pressupõe um conhecimento prévio sobre o que seja (ou sobre o que deva ser chamado de) racional. Esse conhecimento prévio consiste num modelo teórico de racionalidade. E o melhor – no sentido de mais simples e abrangente – modelo de que se dispõe até o momento é o da escolha racional. Este propõe que o agente racional possui uma pauta coerente de preferências, que obedecem a certos requisitos, e que a escolha racional consiste na seleção da alternativa de ação que acarretará, de acordo com o entendimento do agente naquela circunstância, os resultados mais vantajosos.

Não há como negar que o postulado de racionalidade seja uma idealização da realidade. Enquanto tal, naturalmente ele não reflete o comportamento do agente humano “tal qual ele realmente é”. Conforme se argumentou neste artigo, nem poderia fazê-lo, pois tudo indica que ele não deva localizar-se no plano lógico das teorias. Sendo assim, estaria excluída a possibilidade de que ele participasse da esfera positiva, que objetiva dizer como “é” o fenômeno em pauta, no caso o comportamento humano. No entanto, funcionando no plano lógico superior, metodológico, o postulado da racionalidade exerce uma função precípua nas teorias. Isto porque, sem os constrangimentos idealizantes acerca do que constitui a racionalidade, não se disporia dos instrumentos que permitem buscar os dados empíricos, a fim de testar a teoria.

Talvez a última resposta elaborada por Popper para elucidar o papel do postulado da racionalidade nas teorias sociais, i.e. tratando-o como um princípio metodológico, ajude a explicar as razões epistêmicas pelas quais ele tenha sobrevivido na ciência econômica até agora, em que pesem todos os problemas nele identificados. Ao fim e ao cabo, sem a diretriz metodológica que direciona o olhar do cientista para a realidade em busca da compreensão da ação humana no âmbito econômico/social, sequer seria possível formular as críticas ao modelo.

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