Poderoso. Sensual. Sedutor. Ele é tudo que é descaradamente sexual em um homem



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Karen Marie Moning O feitiço do guerreiro HIGHLANDERS 7 Disponibilização: Dream Tradução: YGMR Revisão: Vanessa Straioto Revisão Final: Gis Miranda Formatação: Gis Miranda e YGMR PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Argumento

Poderoso. Sensual. Sedutor. Ele é tudo que é descaradamente sexual em um homem.

Um diabolicamente atraente guerreiro celta apanhado no tempo... E uma mulher disposta a pagar o máximo preço para lhe libertar. Antiqüíssimos segredos os perseguem. O perigo mortal e um desejo irresistível escurecem cada um de seus movimentos. É uma relação para toda a eternidade. E tudo o que os separa são "simplesmente" mil e trezentos anos...

Jessi St. James tem que arrumar uma vida. Muitas horas estudando objetos antigos fez com que a trabalhadora estudante de arqueologia não pudesse tirar o sexo da cabeça. Assim imagina que está sonhando quando parece ver um homem muito bonito, seminu olhá-la através do prateado reflexo de um antigo espelho. Mas quando uma rápida decisão a salva de um atentando contra sua vida, Jessi encontra-se de repente frente a mais de um metro e oitenta de ardente e insaciável macho alfa.

Herdeiro da antiga magia de seus antepassados druidas faz onze séculos que Cian MacKeltar foi apanhado dentro do Cristal Escuro, um dos quatro cobiçados cristais sagrados, objetos de um poder inenarrável. Quando o Cristal Escuro é roubado, um ancião inimigo não se deterá ante nada para reclamá-lo, destruindo tudo o que se interpõe em seu caminho... Incluindo à mulher que pode ter a chave para romper o feitiço que recai sobre este highlander do nono século. Para Jessi, o fornido Deus do sexo do espelho não só é absolutamente real, mas também lhe oferece seu amparo... Do que, não está segura. E tudo o que ele quer em troca é o delicioso prazer de compartilhar sua cama.

Entretanto, inclusive enquanto anseia o insaciável, e Cian começa a exercer sua escura magia em Jessi, seu antigo inimigo está a ponto de conseguir o último e mais perigoso dos Cristais Sagrados, e o highlander deve impedi-lo. Em jogo se encontra nada menos que a própria existência do universo e duas vidas apaixonadamente entrelaçadas... Enquanto Cian e Jessi lutam por reclamar o tipo de amor que aparece uma vez a cada idade do gelo...

Este é para meu marido, Neil Sequoyah Dover.

Se não estivesse aí, eu tampouco estaria.

Quero-te


Querida leitora:

Quando não estou segura de como pronunciar certas palavras em um livro, meu cérebro começa a gaguejar cada vez que aparecem em um texto e isso me distancia da rapidez do momento.

Para evitá-lo, acrescentei esta breve lista de nomes importantes junto a sua pronúncia:

Cian: Ki-on.

Dageus: Dava-gis.

Drustan: Drus-tin.

Os draghar: Drug-gar.

Tuatha dê danaan: Tua -day -dhanna.

Aoibheal: Ah-veel.

Sincronicismo: 1. A incidência simultânea de dois ou mais acontecimentos significativos, mas não relacionados causalmente. 2. A coincidência ou alinhamento de diferentes forças para criar um acontecimento ou circunstância dentro do universo. 3. Uma colisão de possibilidades tão incalculavelmente improváveis que se diria que obedecem a uma intervenção divina.

Não há coincidências neste mundo, Drustan.

SILVAN MACKELTAR,

Século VI da era cristã

Prólogo


Alguns homens nascem com boa estrela.

Cheio de cuidados femininos do esperado momento de seu nascimento no seio de uma família de sete formosas moças, mas, aí, nenhum varão, seu pai tinha morrido em um acidente de caça duas semanas antes, ao chegar ao mundo Cian MacKeltar pesava cinco quilogramas e já era o laird do castelo. É fácil que algo assim suba à cabeça de um bebê.

Ao amadurecer e fazer-se homem, Cian herdou os rasgos físicos típicos dos Keltar: corpulento e de ombros muito largos, seus músculos ondulavam em um corpo magnífico coroado pelo rosto escuro e grosseiramente formoso de um anjo vingador. Seus nobres antepassados celtas, com sua agressiva herança de guerreiros aristocratas, também lhe legaram uma tremenda sexualidade; um intenso erotismo que só esperava a ocasião de ser liberado dava forma ao seu andar, e estava presente em cada um de seus movimentos.

Aos trinta anos, Cian MacKeltar era o Sol, a Lua, e as estrelas.

E sabia.

Se por acaso isto fosse pouco, ainda era um druida.

E, a diferença da imensa maioria de seus ancestrais, sempre sérios e meditabundos (algo que logo seriam superados pela pletora de figuras realmente sombrias que ainda tinham que nascer), gostava de sê-lo.

Gostava de tudo o que tinha a ver com ser um druida.

Gostava do poder que sentia pulsar em suas veias. Gostava de passar largas horas na biblioteca da câmara subterrânea do castelo Keltar, em companhia de um bom uísque e a grande coleção de artefatos e textos da antiga sabedoria, para estudar o conhecimento oculto, combinar um feitiço de resultados imprevisíveis com uma arriscada poção, e assim ser cada vez mais forte e poderoso.

Gostava de percorrer as colinas cobertas de urze depois de uma tormenta enquanto pronunciava as antigas palavras que curavam a terra e às pequenas criaturas selvagens. Gostava de celebrar os ritos das estações, essas noites em que cantava sob a grande lua alaranjada das colheitas enquanto o vento das Highlands lhe enredava os largos cabelos escuros e convertia em pilares de fogo as fogueiras sagradas que tinha acendido, porque sabia que os todo-poderosos tuatha dê danaan dependiam dele.

Gostava de seduzir às mulheres formosas e as fazer sua sob seu corpo firme como a rocha, e nesses instantes sempre recorria a suas artes druidicas para lhes fazer sentir o tipo de prazer ilimitado que se murmurava só um exótico amante do povo mágico podia dar.

Inclusive gostava que uma grande parte de seu mundo não pudesse evitar lhe ter um pouco de medo, ao ser ele um druida Keltar e ter herdado a velha e aterradora magia dos Antigos.

O laird responsável pela continuação do sagrado legado Keltar a finais do século IX era obscuramente sedutor e ninguém podia resistir a seu encanto, e não tinha existido um druida mais capitalista que ele.

Cian MacKeltar não tinha tido que fazer frente a nenhuma classe de oposição ou desafio, e ninguém lhe tinha superado. Em honra à verdade, nem sequer lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade de que um dia algo ou alguém pudesse fazê-lo.

Até aquele maldito Samhain de seu trigésimo ano. Alguns homens nascem com boa estrela.

Cian MacKeltar não.

Pouco depois daquilo, a câmara subterrânea que continha a biblioteca ficou selada para não voltar a ser mencionada nunca, e todas as referências a Cian MacKeltar foram apagadas dos anais escritos dos Keltar.

Os Keltar da atualidade gostam de enredar-se em apaixonados debates sobre se esse ancestral tão controvertido existiu em realidade.

E ninguém sabe que agora mais de mil e cem anos depois, Cian MacKeltar ainda vive.

Se à existência infernal que leva agora pode chamar de vida.

Primeira parte

Chicago


1

Sexta-feira, 6 de outubro

A chamada que trocou o curso da vida da Jessica St. James chegou à noite de uma sexta-feira sem nada de particular, que não diferia significativamente das outras noites de sexta-feira de sua excessivamente previsível existência, e esse era um dos temas sobre os que Jessi preferia não falar porque se caracterizava por não ter nada de particular.

Sentada na escada de incêndios junto à janela da cozinha de seu apartamento, no terceiro piso do 222 da Elizabeth Street, Jessi desfrutava de um anoitecer mais quente do que o habitual no outono.

Esticava o pescoço para a esquina do edifício de pedra avermelhada sem incomodar-se em dissimular que tinha saído para bisbilhotar e observava a todos que, diferente dela, tinham tempo para viver sua vida, falavam e riam na calçada em frente ao clube noturno que havia do outro da rua.

Já fazia uns minutos que não podia apartar a vista de uma ruiva de pernas longas e seu noivo, um bonitão com jeans e camiseta branca de cabelo escuro, pele bronzeada e montões de músculos. O bonitão empurrou a ruiva para a parede e assim que a teve presa ali, levantou-lhe as mãos por cima da cabeça e a beijou como se o mundo fosse acabar-se nesse dia, com todo seu magnífico corpo concentrado no trabalho. (E que agitação de quadris! O bonitão se esfregava contra sua garota com tanto entusiasmo que era como vê-los fazer amor em plena rua.)

Jessi tragou ar.

Deus tinham-na beijado assim alguma vez? Como se o homem estivesse impaciente por penetrá-la? Como se quisesse devorá-la, tão cheio de desejo que não pararia até haver entrado na pele?

A ruiva apartou as mãos da parede para posá-las sobre o traseiro do bonitão, e Jessi apertou os punhos quando a viu curvar os dedos sobre aquelas nádegas tão musculosas.

Quando as mãos do bonitão subiram para os peitos da ruiva e começaram a lhe apertar os mamilos com os polegares, Jessi sentiu endurecer os seus como duas pequenas pérolas. Quase podia imaginar que era ela quem estava beijando aquele pedaço de homem, que era ela a que estava a ponto de afogar-se em uma tórrida paixão animal.

"Por que não posso ter esse tipo de vida?", pensou.

"Claro que pode tê-la recordou uma voz interior, mas antes tem que fazer o doutorado."

O aviso distou muito de ser tão efetivo como quando acabava de matricular-se na universidade. Jessi estava farta de dedicar metade de sua existência à faculdade, de ter que fazer equilíbrios para chegar ao fim do mês, de correr constantemente de sua aula para sua exaustiva jornada trabalhista como ajudante do professor Keene e logo correr a casa e começar a estudar de novo ou, se realmente tinha um de seus estranhos dias de sorte, se permitir quatro ou cinco horas de sono antes de levantar-se da cama e voltar a correr.

Seu horário estava tão rigidamente organizado e exigia tanto dela que não ficava tempo para levar uma vida social. Isso sempre tinha sido um problema, e Jessi levava pior que nunca. Havia casais em qualquer lugar que fosse e todos estavam muitos interessados em mostrar ao mundo que eram um casal, e pareciam maravilhosamente bem enquanto o faziam.

Mas Jessi não. Em sua vida simplesmente não havia tempo para dedicar a um casal. Jessi não era uma dessas afortunadas que podem passar pela universidade com todos os gastos pagos. Ela tinha que economizar, fazer todo tipo de economia, e assegurar-se de tirar o maior proveito a cada centavo e cada momento. Não só tinha que fazer frente ao programa acadêmico e a uma larga jornada trabalhista, mas também dava aulas. Isso apenas deixava tempo para comer, tomar banho e dormir.

Nas incomuns ocasiões em que tentava sair com alguém, seus homens em seguida se fartavam de que Jessi pudesse vê-los tão pouco e, combinado com o muito abaixo que pareciam estar em sua lista de prioridades e o pouco disposta que se mostrava a deitar-se com eles, a não ser conhecê-los (a maioria dos universitários pareciam convencidos de que se à terceira entrevista ainda não tinham conseguido anotar o tanto, devia ser porque aquela garota tinha algo estranho com os homens), fazia que não demorassem a procurar pastos mais verdes.

Mesmo assim, logo tudo teria valido a pena. Por muito que algumas pessoas pensassem que chegar a ser arqueóloga e dedicar o resto de sua vida a brincar com coisas velhas, cheias de pó ou freqüentemente mortas, não era uma perspectiva particularmente emocionante (ou ao menos isso pensava sua mãe, que detestava a especialidade acadêmica escolhida por Jessi e não entendia por que sua filha não estava felizmente casada e trazia para o mundo um bebê atrás do outro como faziam suas irmãs), Jessi não podia imaginar uma carreira mais apaixonante. Possivelmente não encabeçasse a lista de sonhos de outras pessoas, mas ocupava o primeiro lugar na sua.

Doutora Jessica St. James. Estava tão perto que quase podia tocá-lo com as pontas dos dedos. Outro ano e meio e teria terminado de preparar o doutorado.

Então sairia com todos os homens que pusessem a tiro, e se apressaria a recuperar todo o tempo perdido. Mas até então, não tinha trabalhado tão duro e contraído tantas dívidas para se agarrar ao primeiro homem que encontrasse só porque seu sistema hormonal cismou em fazer horas extras.

Dentro de uns anos, consolou-se Jessi sem apartar o olhar da concorrida rua, os que agora foram a esse clube provavelmente seguiriam indo a ele, sem que suas vidas tivessem trocado grande coisa, enquanto ela viajaria a lugares longínquos para desenterrar restos do passado e viver grandes aventuras.

E o melhor, o Senhor Apropriado a estaria esperando em algum dessas futuras jazidas arqueológicas. Sempre tinha a possibilidade de que houvesse tocado em sorte o tipo de vida que leva atraso no plano de vôo, e agora teria que armar-se de paciência enquanto via separar a outros antes que chegasse seu turno.

Mãe de Deus, o bonitão acabava de colocar a mão nas calças da ruiva. E ela acabava de lhe pôr a mão em cima da... OH, ali onde Deus e o mundo inteiro podiam vê-los!

Além da janela, em algum lugar daquele apartamento tão pequeno e cheio de coisas ao qual não iria mal que fossem para o lixo e uma boa limpeza, o telefone começou a soar. Jessi pôs os olhos em branco. A parte mundana de sua existência sempre sabia escolher os momentos menos apropriados para intrometer-se.

Ring. Ring.

Jessi devorou uma última porção ocular daquela descarada exibição de sexo na calçada, e logo subiu, a contra gosto, na beira da janela da cozinha para entrar no apartamento. Sacudiu a cabeça para tentar limpar a mente e logo baixou à persiana. Olhos que não vêem, coração que não sente. Ou ao menos não muito, em todo caso.

Riiing.


Onde estaria esse bendito telefone?

Finalmente o localizou no sofá, quase enterrado sob um montão de almofadas, pacotes de caramelos e uma caixa de pizza que continha -puaj- um pouco de pelinhos arrepiados que reluziam com um verdor fosforescente. Enquanto apartava com cautela a caixa, Jessi titubeou e sua mão ficou suspensa no ar sobre o telefone.

Por um instante, o mais breve e peculiar dos interlúdios, Jessi experimentou a inexplicável, mas muito intensa sensação de que não deveria agarrá-lo.

Que deveria deixá-lo no sofá para que soasse e soasse. Possivelmente durante todo o fim de semana.

Mais tarde, lembraria-se daquela sensação.

O tempo pareceu deter seu curso durante aquela estranha porção de segundos cheios de significado, e Jessi sentiu que o universo continha a respiração à espera de ver o que ela faria em seguida.

A idéia era tão ridícula e egocêntrica que enrugou o nariz só de pensá-lo.

Como se o universo tivesse reparado alguma vez em Jessi St. James.

Agarrou o telefone.

Lucan Myrddin Trevayne ia e vinha ante o fogo que ardia na chaminé.

Quando empregava o sortilégio de um feiticeiro para ocultar sua verdadeira aparência - coisa que fazia sempre que havia alguém presente-, Lucan era alto, arrumado, de constituição ainda muito robusta aos quarenta e poucos anos que aparentava, e sua abundante cabeleira negra tão somente mostrava um pouco de prata nas têmporas. Era o tipo de homem que as mulheres voltavam à cabeça para olhá-lo, e os homens retrocedessem instintivamente para lhe ceder o passo. Seu porte dizia uma coisa: " Poder? Eu o tenho, e você não. "E se pensar o contrário, me ponha a prova." Seus rasgos eram puro Velho Mundo, e seus olhos cinza eram tão frios como as águas de um lago escocês sob um céu de tormenta. Sua verdadeira aparência era muito menos atrativa.

Lucan tinha acumulado uma tremenda quantidade de riqueza e poder no curso de sua existência, que tinha sido muito mais longa que a da maioria dos humanos. Tinha participações majoritárias em muitas empresas de diferentes naturezas, desde bancos até meios de comunicação e companhias petrolíferas. Possuía residências em uma dúzia de cidades. Tinha a seu serviço um seleto grupo de homens que tinham sido submetidos a um adestramento muito peculiar, assim como a umas quantas mulheres às que recorria de vez em quando para seus assuntos mais privados.

A sua esquerda, sentado em uma grande poltrona, um daqueles homens permanecia imóvel em uma tensa espera.

-Isto é absurdo, Román - grunhiu Lucan. - por que diabos estão demorando tanto?

Roman se revolveu em sua poltrona, à defensiva. Com suas feições tão classicamente opostas como as de uma moeda antiga e seu cabelo comprido e loiro, vê-lo era como contemplar a uma estátua da Roma clássica que tivesse cobrado vida.

-Tenho vários homens trabalhando nisso, senhor Trevayne-Disse, com a sombra de um acento russo. - Os melhores homens de que dispomos. O problema é que seguiram uma dúzia de direções diferentes. Venderam-nas no mercado negro. Ninguém tem nomes. Precisamos de tempo...

-O tempo é algo do que não disponho - o interrompeu Lucan com aspereza-. Cada hora, cada momento que passa, faz menos provável que chegue a recuperá-las. Essas malditas coisas devem ser encontradas.

"Essas malditas coisas" eram as Consagrações Escuras ou "Invisíveis" dos tuatha dê danaan, artefatos dotados de um imenso poder criados por uma antiga civilização que tinha passado a figurar, séculos antes e de maneira completamente errônea, nos livros de história do homem como uma raça mítica: os daoine sidhe ou fae.

Lucan acreditou que não podia haver um lugar melhor onde guardar seus tesouros que a bem custodiada residência privada que tinha em Londres.

Estava equivocado. Terrivelmente equivocado.

Não estava seguro do que foi que aconteceu exatamente fazia uns meses, enquanto ele estava fora do país seguindo uma pista que esperava que pudesse levá-lo até o Livro Negro, a última e mais capitalista das quatro Consagrações Invisíveis, mas em algum lugar de Londres - e seu epicentro teve que estar no leste da cidade, porque Lucan ainda podia sentir os últimos resíduos de poder- tinha ocorrido algo que reverberou através de toda a Inglaterra. Um poder imenso e muito antigo tinha aflorado por um breve período de tempo, e suas descomunais emanações neutralizaram todas as outras classes de magia na Grã-Bretanha.

Este fato tivesse carecido de importância para Lucan, pois o que fosse aquilo voltou a esfumar-se tão depressa como tinha chegado, a não ser porque sua repentina aparição tinha feito pedacinhos às formidáveis, supostamente inatacáveis, defesas que protegiam suas posses mais apreciadas. Protegiam-nas tão bem que a idéia de complementá-las com algum moderno sistema de segurança sempre lhe tinha parecido risível.

Agora já não lhe parecia tão risível.

Apressou a fazer instalar o sistema mais avançado disponível da atualidade, com câmaras que varriam todos os ângulos em cada uma das habitações, porque enquanto ele estava fora do país, um ladrão tinha irrompido no museu privado de sua residência e roubado artefatos que Lucan tinha em seu poder desde fazia séculos, entre eles suas insubstituíveis Consagrações: a caixa, o amuleto e o espelho.

Por sorte uns vizinhos viram o ladrão enquanto partia com seu butim. Desgraçadamente, quando o pessoal cuidadosamente selecionado por Lucan conseguiu identificar ao bastardo e lhe seguir o rastro, este já tinha vendido os artefatos ao primeiro de uma larga série de escorregadios intermediários.

Artefatos como aqueles, de uma natureza tão fabulosa e cuja procedência não podia ser localizada, indevidamente terminavam em um de dois lugares: em mãos das autoridades de algum país depois de que os tivesse interceptado em trânsito, ou vendidos no mercado negro por uma pequena fração de seu valor antes de desaparecer, às vezes durante centenas de anos, até que se voltasse a ouvir falar deles em algum vago rumor. Puderam obter uns quantos nomes que, além disso, obviamente eram falsos, do ladrão antes que morresse. Os homens de Lucan levavam meses seguindo um rastro que tinha sido deliberada e astutamente turvado. E o tempo começava a ser vital.

-... Embora tenhamos recuperado três dos manuscritos e uma das espadas, não pudemos averiguar nada a respeito da caixa ou o amuleto. Mas parece que possivelmente tenhamos uma boa pista sobre o espelho - estava dizendo Roman.

Lucan se enrijeceu. O espelho. O Cristal Escuro era a única Consagração que necessitava com urgência. De todos os anos em que podiam havê-lo roubado, tinha tido que ser precisamente neste, quando terei que pagar o dízimo! As outras Consagrações Escuras podiam esperar um pouco mais, embora não muito: eram muito perigosas para que andassem soltas pelo mundo. Cada Consagração conferia a seu possuidor um dom em troca de um preço, sempre que o possuidor contasse com o conhecimento e o poder necessário para utilizá-la. O Dom Escuro do espelho era a imortalidade, sempre que seu possuidor cumprisse as condições impostas pelo espelho. Lucan levava mais de mil anos as cumprindo. E não tinha nenhuma intenção de deixar de fazê-lo.

-Um envio que se murmurava poderia corresponder ao que andamos procurando saiu da Inglaterra com rumo aos Estados Unidos através da Irlanda faz uns dias. Acreditam que irá para alguma universidade de Chicago, a uma...

-E então o que faz sentado aqui, merda? -disse Lucan friamente-. Se tiveres uma pista sobre o espelho, a que seja, quero que a siga pessoalmente. Já. Tinha que recuperar o espelho antes do Samhain. Ou do contrário...

Esse "ou do contrário" era uma eventualidade em que Lucan se negava a pensar. O espelho seria encontrado, o dízimo seria pago: uma pequena quantidade em ouro puro passava através do espelho cada cem anos; segundo a forma de medir o tempo que usavam os Antigos, o que equivalia a mais de um século de acordo com a cronologia moderna, exatamente a meia-noite da festividade do Samhain, ou Halloween, como a chamava o século atual. O dízimo devia pagar-se em um prazo de vinte e seis dias, ao cabo dos quais o espelho voltaria a estar em poder de Lucan... Ou "O Pacto" que obrigava a seu cativo ficaria quebrado.

Enquanto o homem loiro recolhia seu casaco e suas luvas, Lucan reiterou sua posição no que concernia às Consagrações Escuras.

-Nada de testemunhas, Roman. Qualquer pessoa que chegue, embora, só seja a vislumbrar uma das Consagrações...

Roman inclinou a cabeça em silenciosa aquiescência.

Lucan não disse nada mais. Não precisava. Roman sabia como gostava que levassem seus assuntos, ao igual que sabiam todos os que trabalhavam a seu serviço e ainda estavam vivos.

Passado um momento, pouco depois de meia-noite, Jessi voltava ao campus pela terceira vez aquele dia, à ala sul do Departamento de Arqueologia. Abriu a porta do escritório do professor Keene com sua chave.

Perguntou-se ironicamente por que se incomodou em ir-se dali. Dado seu horário de trabalho, mais valeria levar um cama de armar a esse velho quartinho, ao final do corredor, para ser deixado entre todos aqueles esfregões, vassouras e cubos que levavam anos sem usar-se. Assim não só conseguiria dormir mais, mas também economizaria em gasolina.

Quando o professor Keene a chamou do hospital para lhe contar que tinha tido "uma colisão sem importância" enquanto voltava para campus em seu carro -"umas quantas fraturas e contusões sem importância, nada pelo que teria que preocupar-se", apressou-se a assegurar-, o primeiro que pensou Jessi foi que o professor ia pedir lhe que se fizesse cargo de suas classes durante os próximos dias (o que significaria que sua janela de sono ficaria reduzida de só quatro ou cinco horas a um enorme zero), mas seu chefe a informou que já tinha chamado ao Mark Troudeau e acordado que ele se encarregaria das classes até sua volta. "Mas tenho que lhe pedir um pequeno favor, Jessica. Estou esperando um pacote. "Tinha que recebê-lo em meu escritório a primeira hora da noite", tinha-lhe explicado o professor Keene, com aquela voz tão profunda dele, que, inclusive depois de vinte e cinco anos longe do Country Louth, Irlanda, nunca tinha perdido seu acento.

Jessi adorava essa forma de falar tão musical. Sonhava com o dia em que a pudesse ouvir de lábios de todos os paroquianos de um pub enquanto dava boa conta de um guisado irlandês, uma grande fatia de pão de centeio e uma Guinness com a quantidade justa de espuma. Depois, naturalmente, de passar um dia inteiro no Museu Nacional da Irlanda contemplando com olhos cheios de deleite tesouros tão fabulosos como o broche da Tara, o cálice do Ardagh e a coleção dourada Broighter.

Com o telefone apertado entre a orelha e o ombro, Jessi olhou seu relógio e o dia luminoso lhe indicou que passavam dez minutos das dez.

-Que classe de pacote é esse para que o entreguem à uma hora tão tardia?- perguntou-se Jessi.

-OH, não se preocupe por isso. Assine a confirmação de recebimento, fecha com chave e vete a casa. É tudo o que necessito que faça.

- Claro, professor, mas o que...?

- Você assina, fecha com chave e te esqueça do assunto. Uma pausa, um silêncio muito significativo, e logo: Não há razão para que o mencione a ninguém. É um assunto pessoal. Não tem nada que ver com a universidade.

Jessi piscou, um pouco surpreendida; nunca tinha ouvido esse tom na voz do professor. As palavras tinham sido articuladas com uma estranha precisão, e soaram um pouco à defensiva, quase..., bom, como se o professor tivesse algo que ocultar.

- Tenha cuidado, que eu me encarregarei de tudo. Descanse, professor. Não se preocupe com nada- se apressou a tranqüilizá-lo, depois de chegar à conclusão de que o pobrezinho tinha que estar um pouco alterado pelos calmantes que lhe estariam dando no hospital. Jessi ainda se lembrava da vez que tomou Tylenol com codeína, e logo demorou horas em deixar de sentir-se irritável e ter picadas por todo o corpo. Com todas essas contusões múltiplas, estava segura de que ao professor lhe teriam dado algo mais forte que um pouco de Tylenol.

Deteve-se embaixo dos fluorescentes que zumbiam brandamente no teto do corredor da universidade e esfregou os olhos ao tempo que bocejava aparatosamente. Estava esgotada. Levantou-se as seis e quinze porque tinha que dar uma aula as sete e vinte e quando conseguisse chegar a casa essa noite - bem, essa manhã - e voltar a meter-se na cama, teria que fazer frente à outra jornada de vinte e quatro horas. Uma mais.

Jessi fez girar a chave na fechadura, empurrou a porta do escritório, procurou as cegas o interruptor da luz e o acionou. Entrou no escritório do professor e inalou, saboreando a mescla de aroma de livros, couro e polimento para madeira que flutuava no ar junto com o aroma do tabaco do cachimbo favorito do professor. Algum dia ela também teria seu próprio escritório, e se pareceria muito a esse.

A espaçosa habitação tinha estantes que iam do chão até o teto e umas grandes janelas que, durante o dia, banhavam de sol um antigo tapete tecido com uma intrincada teia de fios vermelhos, marrons e âmbar. O mobiliário de teca e mogno era muito masculino: um majestoso escritório cujas patas terminavam em forma de garras; um suntuoso sofá de couro Chesterfield em uma cor grão de café intensamente torrado; duas poltronas em conjunto. Havia numerosos aparadores de cristal para curiosidades e umas quantas mesas auxiliares com as réplicas mais valoradas pelo professor. A reprodução de um abajur Tiffany completava seu escritório. O computador, com sua tela plana de vinte e uma polegadas, era o único que parecia destoar naquele ambiente. Bastaria tira-lo, e Jessi estaria na biblioteca de uma casa de campo inglesa do século XIX.

-Aqui dentro - disse aos repartidores por cima do ombro. O envio resultou não ser exatamente o que ela esperava. Pelo modo em que o professor lhe falou dele, Jessi tinha imaginado um envelope muito grosso, possivelmente um pequeno pacote.

Mas em realidade se tratava de uma caixa de madeira enorme. Era alta, larga, aproximadamente do tamanho de um..., bom, de um sarcófago ou algo pelo estilo, e conduzir aquilo através dos corredores da universidade não estava resultando nada fácil.

-Com cuidado, homem. Inclina-o! Inclina-o! Ai! Que me esmaga o dedo. Retrocede um pouco e ponha em ângulo!

Uma desculpa com voz afogada. Mais grunhidos.

-Esta maldita coisa resiste horrores. O corredor é muito estreito.

-Já quase chegaram disse Jessi a modo de ajuda-. Só um pouquinho mais.

De fato, uns instantes depois os dois homens baixavam com cuidado dos ombros a caixa oblonga e a depositavam sobre o tapete.

-O professor me disse que teria que assinar algo - disse Jessi, sem dissimular seu intento por lhes apressar. Tinha por diante um dia inteiro de trabalho e estudo amanhã..., ou seja, hoje.

-Necessitamos algo mais que isso, senhora. Este envio não se pode deixar no destino até que tenha sido verificado.

-Verificado? -repetiu Jessi-. E isso o que significa?

- Que este envio vale um montão de grana, e a pela seguradora que contratou sua apólice, o transportador precisa dispor de uma verificação visual e uma comutação de responsabilidades. Vê? Aqui o tem. O carregador mais corpulento lhe estendeu uma tabuleta para sujeitar papéis em que havia umas quantas folhas. Dá-me igual quem o faça, senhora, como tal de que alguém me tire de cima os formulários.

Assim era, porque na folha de envio estava estampado em grandes letras vermelhas VERIFICAÇÃO VISUAL E REQUER COMUTAÇÃO, E logo havia duas páginas de pedante e pomposo jargão legal com toda uma série de términos e definições que detalhavam os direitos da naval e o comprador.

Jessi passou a mão por seus curtos cachos escuros e suspirou. O professor não ia gostar de nada daquilo. Havia dito que era algo pessoal.

-E se não deixar que abram o envio e o inspecionem?

-Então voltará para lugar de que veio, senhora. E asseguro que o transportador encherá o saco muitíssimo.

-Sim. - disse o outro homem.- Assegurar essa coisa há flanco um rim e parte do outro. Se tiver que devolvê-la, seu professor terá que cobrir com os gastos da viagem de volta. Ele também se encherá o saco muitíssimo.

Os dois repartidores ficaram olhando-a com expressão desafiante, remissos a tornar-se ao ombro pela segunda vez aquela caixa tão difícil de manobrar, levá-la pelo corredor, colocá-la na caminhonete e devolvê-la ao armazém, para logo voltar a fazer a entrega passado um tempo. Nem sequer lhe tinham falado a seus peitos, algo que os homens estavam acostumados a fazer, sobre tudo no primeiro encontro, o que lhe deixou muito claro que estavam impacientes por livrar-se daquela carga e reatar suas vidas.

Jessi olhou o telefone. Logo olhou seu relógio.

Não sabia o número da habitação do professor e suspeitava que se chamasse o posto telefônico do hospital nunca passariam para ele a essas horas. Embora o professor tivesse insistido em que não tinha nada grave, Jessi sabia que os médicos não o teriam internado se as lesões não tivessem sido bastante sérias. Os hospitais de hoje em dia davam as altas ao mesmo ritmo que os ganhos.

Preocuparia-se mais o professor se ela abrisse a caixa, ou se rechaçava a entrega e logo lhe custava uma fortuna ter que carregar com os custos de voltar a transportá-la?

Jessi suspirou de novo, tão temerosa de abrir a caixa como de não fazê-lo.

Ao final foi quão universitária nunca tinha um centavo a que se encarregou de tomar a decisão.

-Perfeito. Pois então façamo-lo. Abram a caixa.

Vinte minutos depois, os repartidores tinham posto a boa cobrança a assinatura rabiscada pela Jessi e partiram, levando consigo os restos da caixa.

E agora Jessi, em pé ante o objeto, contemplava-o com curiosidade. Não era um sarcófago depois de tudo. De fato, a maior parte do conteúdo da caixa resultou ser um recheio protetor acompanhado de uma grande quantidade de papel.

Os repartidores rebuscaram entre capas e mais capas de recheio misturado até extrair um espelho e, depois de perguntar onde queria que o pusessem, foram para as estantes e o deixaram apoiado nelas.

Trinta centímetros mais alto que Jessi, o marco do espelho reluzia com suaves brilhos dourados. Formas e símbolos esculpidos de tal uniformidade e coesão que pareciam implicar um sistema de escritura que cobriam até o último centímetro daquele grande adorno. Jessi entreabriu os olhos e ficou a examinar as talhas, mas sua especialidade não era a lingüística, e os símbolos não se correspondiam com nada que, sem rebuscar em livros ou notas, pudesse identificar como uma letra, palavra ou símbolo. Dentro do pomposo marco dourado, as bordas exteriores do cristal prateado se achavam turvados pelo que parecia ser alguma classe de nebulosa mancha negra, mas, além disso, o espelho era assombrosamente limpo. Jessi imaginou que em algum momento de sua existência se teria quebrado e sido substituído, com o que ao final resultaria ser séculos mais jovem que o marco. Nenhum espelho da antigüidade tinha conseguido alcançar semelhante nível de claridade. Embora os espelhos artificiais mais antigos descobertos até o momento pelos arqueólogos se remontavam ao ano 6200 a.C., não eram feitos de cristal, mas sim de obsidiana polida. Os primeiros espelhos de cristal de um tamanho realmente significativo - painéis de metro por metro e meio- não se fizeram até 1680 pelo vidraceiro italiano Bernardo Perrotto para o Salão dos Espelhos do palácio do Versalles, encarregados pelo extravagante Rei Sol, Luis XlV. Os excepcionais espelhos de cristal das dimensões do que Jessi tinha diante de si - com seus impressionantes quase dois metros de altura- geralmente resultavam ter só umas quantas centenas de anos, no melhor dos casos.

Tendo em vista como parecia antigo o azougue daquele, devia ter menos de um século de antigüidade, e ninguém tinha enlouquecido ou morrido ao envenenar-se lentamente por mercúrio enquanto o fazia. Muitos chapeleiros e fabricantes de espelhos tinham pagado com a vida sua maneira de ganhar o sustento, mas por sorte isso já pertencia ao passado.

Jessi voltou a entreabrir os olhos, pensativa, e submeteu o espelho a um minucioso escrutínio. A arqueóloga que levava por dentro morria de vontade de conhecer a procedência daquela peça, e já começava a se perguntar se o marco estaria datado com exatidão.

Franziu o sobrecenho. Para que podia querer o professor um espelho, em todo caso? Essa classe de objetos não correspondia em nada com seus gostos habituais, decantados para as reproduções de armas e relógios antigos como o astrolábio alemão do século XVI que adornava seu escritório. E como podia permitir o professor adquirir com seu salário acadêmico algo que valia "um montão de grana"?

Jessi tirou a chave do bolso dos jeans e deu meia volta para ir embora. Fazia o que lhe tinha pedido o professor. Ela já tinha terminado.

Apagou a luz e no momento em que se dispunha a sair pela porta sentiu um calafrio. O pêlo da nuca se arrepiou de repente com um súbito formigamento, como se acabasse de eletrizar-se. O coração começou a palpitar freneticamente, e teve a súbita e terrível certeza de que a estavam observando.

Do modo em que se observava a uma presa.

Com um estremecimento, Jessi voltou novamente para o espelho.

Suavemente iluminado pela pálida claridade azulada do protetor de tela do computador, o artefato apresentava um aspecto fantasmal. O dourado tornou se prateado; o azougue do espelho se obscureceu e estava povoado de sombras.

E então algo se moveu dentro daquelas sombras.

Jessi tragou ar com uma inspiração tão brusca que se engasgou e começou a tossir enquanto gesticulava em busca do interruptor d a luz.

Uma súbita corrente de claridade caiu do teto e alagou a habitação.

Jessi cravou o olhar no cristal oblongo e apertou a garganta com uma mão ao tempo que tragava convulsivamente.

Seu reflexo lhe devolveu o olhar.

Passado um instante, Jessi fechou os olhos. Logo os abriu de um golpe. Voltou a olhar no espelho.

Só viu si mesma.

Um calafrio atrás de outro lhe subia pelas costas. O pulso freneticamente no oco do pescoço sob a palma da mão. Jessi abriu muito os olhos e percorreu a habitação com o olhar, entre nervosa e assustada.

O escritório do professor estava exatamente como devia estar. Passado um instante que lhe fez eterno, Jessi tentou rir. Mas o que tivesse devido ser uma gargalhada se converteu em um ofego entrecortado que ressoou por todo o escritório com um sem-fim de eco desagradáveis, como se a quantidade de metros quadrados disponível e o espaço realmente ocupado não coincidissem de tudo.

- Jessi, começaram a afrouxar os parafusos - sussurrou. Estava no escritório do professor, a sós com um espelho e sua imaginação hiperativa.

Jessi sacudiu a cabeça, voltou-se, apagou a luz e esta vez fechou a porta energicamente e sem olhar atrás.

Cruzou o corredor com rápidas pernadas, saiu ao estacionamento na parte de atrás e se encaminhou para seu carro, tão depressa que deixou a seu passo uma esteira de folhas vermelhas e douradas.

Quanto maior era a distância que se interpunha entre ela e o edifício, mais ridícula se sentia Jessi. Como tinha chegado a assustar-se dessa maneira só porque era de noite e estava sozinha no campus? Algum dia trabalharia em alguma escavação arqueológica de qualquer rincão perdido do mundo, muito provavelmente a altas horas da noite e às vezes sozinha. Não podia permitir-se essa classe de fantasias. Havia momentos, entretanto, nos que a imaginação começava a fazer das suas, sobre tudo quando tocava um broche druida de dois mil e quinhentos anos ou examinava uma espada fabulosa do período de La Tène (segundo período da idade do ferro - 500ac). Certas relíquias do passado pareciam conter pequenas quantidades de energia, o resíduo das vidas cheias de paixões de quem as havia tocado.

Embora nunca nada nem remotamente parecido ao que ela acreditou ver fazia uns instantes.

-Que diabos foi isso? -resmungou, ao tempo que sentia um último estremecimento-. Deus, está claro que levo o sexo metido no cérebro.

Ver em ação ao bonitão e seu ruiva fazia um momento parecia havê-la afetado profundamente. Isso, combinado com o esgotamento e a pouca luz, decidiu Jessi firmemente enquanto abria a porta de seu carro e se sentava ao volante, teve que ser muito para sua mente e, por um instante, tinha-lhe feito ter uma espécie de alucinação/fantasia com os olhos abertos.

Porque por um instante tinha estado convencida de ver um homem meio nu, um deus do sexo feito homem, para falar a verdade em pé no escritório do Keene, que lhe devolvia o olhar.

Deixou-se enganar pela luz, algum estranho jogo de sombras, devia ser isso.

Um homem imponente, obscuramente belo e musculoso, que gotejava poder. E avidez. E sexo. A classe de sexo do que nunca chegam a desfrutar, as garotas boas.

"OH, querida, precisa encontrar um namorado!"

Aquele homem a olhava como se ela fosse Chapeuzinho Vermelho e ele o grande lobo mau depois de uma larga temporada de jejum.

Sim, não cabia dúvida de que se deixou enganar pela luz. Olhava-a de dentro do espelho.

Em um lugar que não era um lugar, e mesmo assim era o bastante lugar para utilizá-lo como fortaleza prisão da que não podia fugir, um lugar tão aterrador que um homem atual teria enlouquecido só vendo, quase dois metros de Highlander do século IX se agitou dentro de sua jaula.

Um som bestial vibrou nas profundidades de sua garganta. Tal como pensava: tinha cheirado a uma mulher.

2

Uns dias depois...



Quando Jessi voltou a usar sua chave do escritório do professor - já entrada a noite da segunda-feira-, uma parte distante de seu cérebro notou que algo não estava de tudo bem, algum detalhe insignificante que não chegou a advertir, porque nesse momento era a convidada de honra em sua própria e animadíssima festa de auto compaixão.

Aconteceu-lhe completamente por alto que primeiro tinha feito girar a chave para logo voltar a fazê-la girar, com o que em realidade fez foi fechar a porta e abri-la de novo.

Se não tivesse estado tão entretida em lamentar do deprimente monte de trabalhos de fim de trimestre com o que a obrigavam a carregar a ausência de seu chefe - uns trabalhos que teria tido tempo de começar a qualificar se a noite anterior o Professor Keene não tivesse deixado na secretária eletrônica uma mensagem com uma larguíssima lista de publicações e fontes diversas que queria que levasse ao hospital depois de recolher em uma dúzia de lugares distintos, a fim de tomar notas para o livro que tinha começado a escrever em sua convalescença-, Jessi teria sido o bastante consciente do que a rodeava para pensar-se duas vezes se devia voltar a entrar nesse escritório.

Então possivelmente houvesse tornado a fechar a porta, tivesse dado uma volta na chave e logo tivesse ido em busca do serviço de segurança do campus.

Desgraçadamente, absorta como estava em sua própria desdita Jessi não se deu conta de nada.

Plantada ante a porta entreaberta, apartou umas mechas da cara com um vigoroso bufido e trocou de lugar a mochila cheia prestes a arrebentar que levava no ombro para que seus livros lhe deixassem de cravar-se na parte posterior das costelas.

-Cento e onze trabalhos? Por que não se conformam me dando um tiro e ao menos assim deixarei de padecer? -Jessi tinha contado os trabalhos com incredulidade depois de que Mark Troud os entregasse com um amplo sorriso. Adeus a toda esperança de dormir embora só fosse uma hora durante os próximos dias.

"Né acordamos que eu daria as aulas do Keene, Jess, e já sabe quão apertado tenho o horário. "Ele disse que você se encarregaria de qualificar os trabalhos."

Jessi sabia exatamente por que seu chefe havia dito que ela se encarregaria de qualificar os trabalhos. Porque, sem dúvida, Mark o tinha chamado durante o fim de semana para " sugerir" que fosse ela. Mark não deixava de lhe complicar a vida desde o ano passado, qual tentou ficar com ela (sem êxito) na festa natalina do departamento. Jessi não suportava que os homens tentassem cercar conversação com seus peitos assim que a conheciam, como se por cima deles não houvesse nada no que valesse a pena fixar-se, e Mark era um caso particularmente patético. Ela não ia por aí falando com a entre perna dos homens.

Como era de esperar, o professor tinha deixado outra mensagem enquanto ela dava uma aula - com o que nas últimas vinte e quatro horas o total de comunicados já subia a cinco (Por Deus, que alguém lhe requisitasse o telefone desse homem ou o deixasse inconsciente com uma boa dose de sedativos)-, para lhe agradecer que fosse "uma ajudante tão simpática e disposta a ajudar aos dois, Mark está ocupadíssimo, e disse que não se importaria em lhe dar uma mão".

Claro. Como se Jessi pudesse escolher. E como se Mark estivesse ainda mais ocupado que ela. Mas o mundo acadêmico ainda era como o resto do mundo em muitos aspectos, uma reserva masculina e cada vez que Jessi começava a esquecê-lo, a vida invariavelmente se apressava a lhe administrar alguma classe de aviso. Jessi empurrou a porta com o quadril, entrou no escritório e a deixou entreaberta. Logo rodeou o escritório e foi diretamente para uma das paredes das estantes. Não se incomodou em acender a luz, em parte porque ela mesma se encarregou de organizar o escritório e sabia exatamente onde encontrar os dois livros sobre os celtas da Galia que queria o professor Keene, e em parte porque estava decidida a não deixar-se distrair pelo espelho e o formigueiro de perguntas que tinha feito aparecer em sua mente.

Procurava não pensar no estranho efeito óptico que padeceu na sexta-feira, e tinha chegado à conclusão de que tudo foi coisa da pouca luz combinada com o esgotamento. Mas morria de vontade de saber se o espelho era uma autêntica relíquia. Como tinha arrumado o professor para consegui-lo? Haveria alguma forma de estabelecer sua origem? Levou-se a cabo alguma datação realmente confiável? O que eram esses símbolos, em todo caso?

Jessi tinha o tipo de memória que sempre pegam as coisas com uma habilidade extremamente útil no campo acadêmico que tinha elegido, e bastou com aquela rápida inspeção inicial para que alguns dos símbolos ficassem gravados nela. Seu subconsciente não tinha deixado de dar voltas após, e estava muito ocupado perguntando-se por que lhe resultavam tão familiares e, entretanto, ao mesmo tempo lhe parecia que não deveriam estar ali. Jessi tentava determinar onde tinha visto. Algo similar anteriormente. Sua especialidade era a arqueologia da Europa do paleolítico até a Idade do Ferro "celta". Embora estivesse claro que o espelho era de manufatura recente, não podia evitar sentir-se fascinada pela possibilidade de que em realidade o marco pudesse remontar-se a algum momento de finais da Idade do Ferro.

Conhecia o bastante bem a si mesma para saber que se essa noite jogava outra olhada à relíquia, a curiosidade poderia mais que ela e ficaria a rebuscar nos livros de referência do professor para tentar determinar o que eram aqueles símbolos ao mesmo tempo em que espremia o cérebro para estabelecer uma data. "Tampouco seria a primeira vez", pensou sardonicamente. Já tinha perdido a conta das noites que tinha passado em claro sem dar-se conta, concentrada em examinar um artefato ou outro, sobretudo naquelas estranhas e gloriosas ocasiões em que a universidade tinha a sorte de que algum colecionador lhe confiasse uma peça durante uns dias para que fosse estudada ou verificada. Ao dia seguinte sempre o pagava com acréscimo. Com essa infernal pilha de trabalhos esperando-a, não podia permitir-se perder nem um instante. Entrar e sair, rápida e eficiente, era: o plano e se atinaria a ele.

Dispunha-se a agarrar da prateleira os dois grossos volumes que devia buscar quando ouviu o suave estalo da porta ao fechar-se atrás dela.

Jessi ficou imóvel, com a mão suspensa no ar. Logo soltou um bufido e agarrou o primeiro livro. Uma corrente e ar. Só tinha sido isso.

-Esquece-o, de acordo? Não pense me assustar só porque é de noite e volto a estar sozinha no campus. Esse ditoso espelho só é um espelho-. Disse firmemente à prateleira.

-Em realidade, não é - murmurou detrás dela uma voz que falava com um leve acento-. É muito mais que um mero espelho Quem mais sabe que está aqui?

Jessi deixou escapar uma exclamação afogada e se voltou tão depressa que o livro lhe escapou da mão, chocou-se contra a parede e caiu ao chão com um ruído que a fez estremecer. Sabia que o professor Keene adorava seus livros, sobre tudo os de tampas duras, e se poria feito uma fúria se o descuido de Jessi provocava que aquele acabasse com o lombo partido. Ao outro extremo do escritório, a tênue claridade que emanava do ordenador, pôde entrever a silhueta de um homem apoiado contra a porta, olhando-a com os braços cruzados em cima do peito.

-Q... o que..., quem...? -gaguejou Jessi.

A habitação ficou alagada de luz.

-Assustei-a - disse o homem docemente, ao tempo que apartava a mão do interruptor da parede.

Depois Jessi se daria conta de que não se tratou de uma desculpa, mas sim do mero reconhecimento de um fato.

Voltou a piscar, ainda um pouco deslumbrada pelo súbito incremento na voltagem, e olhou ao homem. Tranqüilamente apoiado na porta, havia tornado a cruzar-se de braços. Alto e com uma constituição magnífica, era extremamente atraente. Seus largos cabelos loiros recolhidos sobre a nuca revelavam um rosto clássico impecavelmente barbeado. Levava um caro traje escuro feito sob medida, uma camisa recém engomada, uma gravata muito elegante. Seu acento soava claramente eslavo, talvez russo, pensou Jessi. Um jovem professor estrangeiro em visita acadêmica? Contratado pela universidade para que desse algum curso, possivelmente?

-Não sabia que houvesse ninguém mais nesta ala do departamento-disse-. Busca ao professor Keene?

-O professor e eu já passamos um momento juntos esta noite-replicou ele com um fantasma de um sorriso.

Uma maneira bastante estranha de expressá-lo; o comentário passou pela mente do Jessi sem que chegasse a percebê-lo, porque ainda estava assimilando o gambito de abertura do visitante. O tema lhe interessava muito, assim decidiu centrar-se nele.

-O que quer dizer com isso de que é muito mais que um mero espelho? O que você sabe a respeito dele? De onde procede? Veio aqui para autenticá-lo? Ou já foi autenticado? O que são esses símbolos? Sabe?

Ele se separou da porta e deu dois passos para o interior do escritório.

-Tenho entendido que o trouxeram na sexta-feira passada. Viu-o alguém mais?

Jessi refletiu uns instantes e logo negou com a cabeça.

-Acredito que não. Os que trouxeram a encomenda abriram a caixa, mas, além disso, só eu o vi. Por quê?

Ele percorreu o escritório com o olhar.

-Não entraram para limpar? Alguma outra pessoa que tenha uma chave como a sua?

Jessi franziu o sobrecenho, um pouco perplexa ante o curso que tomavam as perguntas. E um pouco irritada ao ver que o homem não respondia a nenhuma das suas.

-Não. O serviço de limpeza vem às quartas-feiras e a única razão pela que tenho uma chave é que sou a ajudante do professor Keene.

-Compreendo - disse o homem, ao tempo que avançava outro passo.

Foi então quando Jessi o sentiu.

Ameaça. Como uma aura impalpável que emanava dele. A princípio não a tinha percebido, desarmada por sua atitude, curiosa sobre o artefato, distraída perifericamente por suas próprias reflexões. Mas estava aí, um lobo oculto sob o disfarce de ovelha. Em que pese a toda sua aparência de educado interesse, havia algo frio e perigoso debaixo daquele traje tão elegante. E agora seu olhar estava posto nela.

Por quê? Não tinha nenhum sentido!

E de repente esse minúsculo detalhe que lhe tinha passado por cima quando fez girar a chave na fechadura emergiu das águas lamacentas do subconsciente do Jessi. A porta não estava fechada com chave! Aquele homem tinha que estar dentro do escritório, e se escondeu detrás da porta quando ela a empurrou com o quadril!

"Faz que siga falando", pensou enquanto tentava não deixar-se levar pelo pânico. Respirou fundo. A adrenalina já havia entrado em ação, lhe acelerando o ritmo cardíaco e fazendo que sentisse pequenos tremores nas mãos e as pernas. Jessi se concentrou em ocultar que, embora tarde, por fim tinha reconhecido o perigo. A surpresa podia ser a única vantagem de que dispunha. Em algum lugar do escritório havia algo que poderia usar como arma, algo mais ameaçador que um livro. Tinha que fazer-se com esse algo ante que aquele homem soubesse que o tinha descoberto. Jessi olhou dissimuladamente para a direita.

Sim! Tal como pensava, uma das réplicas de facas antigas do professor estava exposta em uma mesinha de curiosidades perto dela. Embora fosse uma reprodução, feita de aço e não de ouro encravado com pedras preciosas, seria tão mortífera como o original.

-Bom, E que antigüidade tem esse espelho? -perguntou, ao tempo que adotava sua melhor expressão de olhos abertos ao máximo e perdão-mas-é-que-sou-um pouco-tonta.

Por um momento o homem pareceu meditar se devia lhe responder ou não, e logo encolheu de ombros.

-Você provavelmente o situaria na Antiga Idade da Pedra.

Jessi tragou ar, e por uma fração de segundo se esqueceu do medo. A Antiga Idade da Pedra? Tirava o sarro ou o que?

Um momento, um momento. Pois claro que não o dizia a sério! Era patentemente impossível. As primeiras formas de escrita, a cuneiforme e os hieróglifos, não tinham aparecido até um período situado entre meios e finais do século IV antes da era cristã! E esses símbolos esculpidos no marco do espelho em alguma classe de escritura.

- Ja, ja. Ouça, que não sou tão idiota. - Bom, admitiu Jessi uma careta de consternação, o certo era que hoje dava a ilusão de sê-lo, virtualmente em todas as frontes, mas normalmente ela não era assim. Normalmente ela só padecia de uma ou duas frentes de estupidez, mas não essa espécie de atordoamento generalizado que a envolvia por toda parte-. Isso o situaria antes do ano dez mil da era cristã - mofou, enquanto roubava uns quantos centímetros mais. Teria se dado conta o homem do que tentava fazer ela? Fosse assim, dissimulava-o muito bem.

-Sim, situaria-o justo aí. Consideravelmente "pre" - disse ele enquanto dava outro passo adiante.

Jessi considerou a possibilidade de gritar, mas estava quase segura de que não havia ninguém mais na ala sul àquelas horas da noite, e suspeitava que mais valia que economizasse energias para investi-las em defender-se.

-De acordo, ponhamos que dito aceitar isso como ponto de partida, ao tempo que se deslocava umas quantas frações de centímetro. "Só um pouquinho mais. "Que não deixe de falar." atreveria-se a saltar sobre a faca-. Você assegura que o marco pertence à Antiga Idade da Pedra. Correto? E as talhas foram acrescentadas depois, e o espelho foi inserido no marco ao redor do século passado.

-Não. A peça inteira, em sua totalidade, é da Antiga Idade da Pedra.

Jessi ficou boquiaberta. Apressou-se a fechá-la, mas sentiu que voltava a abrir. Escrutinou o rosto do homem e não detectou nenhum indício de que estivesse tomando o cabelo.

-Impossível! Símbolos à parte, isso é um espelho de cristal!

Ele riu brandamente.

- Não... De tudo. Nada é... Exatamente o que parece em uma peça invisível.

-Uma peça invisível? -repetiu ela com cara de perplexidade-. Temo-me que não estou familiarizada com essa classificação. Curvou os dedos, pronta para lançar-se sobre a faca enquanto sua mente iniciava a contagem. Cinco... , quatro... , três...

-Quase ninguém o está. Indica que referimos a certas relíquias tão especiais que poucas pessoas chegam às ver e são ainda menos as que vivem para contá-lo. Antigas consagrações feitas pelos tuatha dê danaan mais tenebrosos. Guardou silêncio, um instante. - Não se preocupe, Jessica St. James...

OH, Deus, aquele desconhecido sabia seu nome. Como tinha podido chegar a inteirar-se disso?

-... Farei que aconteça o mais rápido possível. Não sentirá nada. - Seu sorriso era aterradoramente amável.

-Mãe de Deus! Jessi saltou sobre a faca no mesmo instante em que o homem se equilibrava sobre ela.

Quando se teme por sua vida, observou Jessi com o sereno distanciamento próprio de um sonho, os acontecimentos têm uma estranha forma de fingir que transcorrem mais devagar, embora saiba que em realidade correm vertiginosamente para ti como um trem expresso decidido a te esmagar.

Foi consciente de cada detalhe do ataque do homem, como se a visse projetada em uma minuciosa supressão de fotos instantâneas: seus joelhos se flexionaram, seu corpo esticou sobre si mesmo como uma mola a ponto de saltar, uma mão entrou em um bolso e saiu dele com um cabo muito magro cujos extremos estavam envoltos em couro, os olhos esfriaram, o rosto endureceu, e inclusive reparou na sombra de brancura que apareceu ao redor de suas fossas nasais quando estas se dilataram de repente sob os efeitos de uma aterradora e incongruente excitação sexual.

A percepção de seu próprio corpo experimentou uma dicotomia similar. Sabia que respirava com bruscos ofegos entrecortados e o coração pulsava muito depressa, mas sentia as pernas pesadas como o chumbo e os poucos passos que conseguiu dar pareceram requerer uma vida inteira.

O homem apertou os lábios em uma careta zombadora e, nesse sorriso que cortava como uma navalha, Jessi viu a súbita certeza de que embora conseguisse chegar a armar-se com a pequena faca, daria absolutamente igual. A morte aguardava naquele sorriso. Ele já tinha feito aquilo antes. Muitas, muitas vezes. E era um perito nisso. Jessi não tinha nem idéia de como sabia, simplesmente sabia.

Enquanto o homem vinha para ela, os extremos envoltos em couro do cabo já estendidos ao redor de suas mãos, o brilho prateado do espelho, apoiado nas estantes além da mesa, atraiu o olhar do Jessi.

O espelho, claro!

Embora fosse seguro que nunca poderia vencer a aquele assassino em um enfrentamento físico, dava a casualidade de que se encontrava justo entre ele e o que queria.

E o que queria era muito frágil.

Jessi virtualmente caiu sobre a mesinha de curiosidades e, em vez de agarrar a faca, apartou-o e aferrou a grosa base de estanho do abajur que havia ao seu lado. Logo girou em um movimento sinuoso para encarar com o homem, retrocedeu até que sentiu que o espelho lhe roçava as costas, e elevou o abajur como se fosse um taco de beisebol de beisebol.

-Quieto aí!

O homem se deteve tão abruptamente que poderia ter caído de bruços, o que dizia muito sobre a enorme quantidade de músculo letal que havia debaixo daquele traje. OH, sim, assim que a tocasse podia dar-se por morta.

-Dá mais um passo e farei pedacinhos o espelho - disse Jessi, ao tempo que brandia o abajur ameaçadoramente.

Era o som de uma brusca inspiração o que acabava de ouvir detrás dela? Seguido por um juramento em voz baixa?

Impossível!

Jessi não se atreveu a voltar-se. Não se atreveu a apartar os olhos de seu atacante embora só fosse por um momento. Não se atreveu a dar passo ao soluço de medo que tentava subir por sua garganta.

Um brilho de fúria ardeu nos olhos do homem quando olhou mais à frente do ombro do Jessi, e logo voltou a cravar o olhar em seu rosto.

-Não o fará. Você não destrói a história, mas sim a preserva. Essa coisa não tem preço. E é tão antiga quanto disse que era. Poderia ser a relíquia mais importante jamais vista por arqueólogo algum. Desmente milhares de anos dessa suposta <

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