Pintura-pintura



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Encontro21.09.2018
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A "PINTURA-PINTURA"

DE GUILHERME PARENTE


Não há muito, no prefácio a um volume sobre Guilherme Parente, tive ocasião de falar de uma viagem de ida-e-volta ao reino da pintura.

A verdade destas idas-e-voltas mede-se pela bitola de um empenho sensível, movido por uma necessidade interior em que pintor e pintura se encontram, amam, lutam e ganham a batalha para sempre perdida... Luta com o Anjo: Delacroix a pôs em cena, em uma das suas últimas obras em que a pintura canta, corpos dos lutadores, terra que pisam, árvore que lhes dá a sombra da madrugada, à hora em que tombam extenuados, entre vida e morte...

A pintura é esta luta sempre necessária e sempre insuficiante, para além das figuras representadas, dos ícones e dos símbolos de um discurso alusivo. Caso de formas e de cores, de linhas e de planos, de espaços e de ritmos. Parente foi apanhado pela fascinação deste jogo, e passou, sem se enganar, pelas aventuras de histórias contadas - histórias feéricas em que as personagens e os objectos vinham de além de um quotidiano que ele já sabia feito de cores e de luzes. Feito, em suma, de "pintura-pintura", como convém dizer.

Por isso não parece necessário voltar a falar da viagem feita pelo pintor porque, verdadeiramente trata-se de uma só viagem - ao fim da pintura, quer dizer, ao fim do dia, da luz, da vida...

Diante da pintura de Guilherme Parente, é de pintura que importa falar, pois é pintura que se olha. Certo é que nunca se olha outra coisa quando se olha um quadro: o resto, a identificação possível das figuras e o sentido do tema, só depois vem, função segunda do olhar-percepção. "Um quadro, antes de ser um cavalo de combate, etc., etc... é uma superfície plana coberta de tintas, etc., etc..." A coisa foi escrita há quase uma centena de anos (e sempre praticada...), demo-la assim por dita. Se a citação volta a esta folha é apenas porque os anos 60 puzeram em circulação um sistema "pop" de imagens que confundiu as pistas picturais do Ocidente e a acção "bad" de um expressionismo requentado esqueceu que Kirchner ou De Kooning eram pintores tão profundamente empenhados na pintura quanto Pollock ou Rothko. Parece portanto de novo necessário lembrar a palavra de Maurice Denis - e utilizar a expressão avançada cerca de 1965 por um jovem crítico francês desaparecido, esta "pintura-pintura" na qual muitas vezes gosto de insistir. Pintura-pintura como pintura. Pintura como Guilherme Parente, no caso aqui presente - subtil, essencial, preciosa.

Há, sim, barcos e casas, árvores e pássaros, núvens e rios nos quadros do pintor - e porque não? As coisas encontram-se neles como se emergissem dum magma de cores esmagadas ou delicadamente postos na tela, como se involuntariamente nascessem, por efeito do acaso, numa espécie de geração espontânea. Lentamente, do gesto do pintor que se advinha, vê-se sair um objecto, mesmo uma personagem que toma traços e cores e se põe a existir ou a andar, plumas ou vapores que o vento da imaginação leva pelos ares... Mas o que deve existir pode igualmente vir de um acidente, como toda a vida. "Little bang" que o pintor faz e refaz na sua modéstia necessária, como um poeta tece as palavras na sorte de todos os acasos. Sons e cores cantam docemente como a água corre e as crianças riem nos seus sonhos, num tempo suspenso e lírico, todo róseo, azul celeste, branco...

Para isto serve a pintura, quando o tempo é bom. Na pintura-pintura de Guilherme Parente, jamais faz mau tempo, por impossibilidade metafísica. E muito bem é que assim seja, num pintor português lírico e fora do tempo...

Fevereiro 1992



José-Augusto FRANÇA

(Presidente de honra da Association Internationale des Critiques d'Art, AICA)


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