PerceçÕes e representaçÕes de professores sobre as causas da indisciplina: um estudo com professores do ensino básico



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Marília Favinha

Universidade de Évora

Departamento de Pedagogia e Educação/CIEP

mfavinha@uevora.pt


Maria de Lurdes Moreira

Universidade de Évora

Departamento de Pedagogia e Educação

mlrm@uevora.pt


PERCEÇÕES E REPRESENTAÇÕES DE PROFESSORES SOBRE AS CAUSAS DA INDISCIPLINA: UM ESTUDO COM PROFESSORES DO ENSINO BÁSICO
Resumo: Este artigo resulta de dois fatores importantes, por um lado, da revisão bibliográfica do que nos últimos anos se tem escrito sobre as causas da indisciplina, e por outro, do estudo que realizámos com professores do Ensino Básico e Secundário, sobre as suas perceções e representações relativas a este fenómeno. Com esse intento recolhemos os testemunhos escritos de 30 professores, de uma escola da periferia norte de Lisboa. Após a análise de conteúdo e a categorização, as conclusões obtidas permitem alcançar o objetivo deste artigo: promover questões que, julgamos, serem evidenciadas pela trajetória desta problemática relativamente a duas linhas de focagem, a sala de aula e a Escola enquanto organização, do ponto de vista dos professores.


Enquadramento da problemática

É antiga a ideia que o conceito de indisciplina é um conceito difícil de definir, quer pela complexidade, quer multiplicidade de sentidos que traduz. Os autores que se têm dedicado ao estudo desta problemática têm-se debruçado sobre o conceito, o seu carácter subjetivo, a sua abrangência e as suas delimitações. O que é unânime, quer para todos os autores, quer para todos os atores, é que a indisciplina é hoje um dos principais problemas das escolas. E nem sequer é um problema apenas de âmbito nacional, Giver & Onieva, para o caso espanhol, apresentam esta descrição “La indisciplina y consequentemente la perdida de autoridade son probablemente los mayores retos a los que los professores nos enfrentamos diariamente cuanto llevamos a cabo nuestro cometido de enseñar” (2009, p. 1).

Os comportamentos, traduzidos por indisciplina, estão evidenciados em muitos estudos como sendo os responsáveis pelo stress constante a que os professores estão sujeitos e ao abandono da profissão (Mónica, 2014). Os fenómenos que podem caracterizar indisciplina assumem contornos comportamentais que passam pela linguagem verbal e não-verbal, de diferentes modos e em diferentes graus, em desafio à autoridade do professor e/ou da escola (Aires, 2010). Numa sociedade onde a capacidade educadora da família apresenta falhas é o subsistema educativo e, por consequência o poder que confere ao professor, a autoridade para transmitir os valores e os saberes às novas gerações (Amado, 2001). A escola e o professor, em particular, são em muitos casos, os únicos agentes socializadores na nossa sociedade. Este facto tem provocado uma dificuldade acrescida à tarefa do professor, ensinar, avolumado ainda quando as atitudes dos professores nem sempre são coincidentes face aos vários comportamentos dos alunos, que consideram indisciplina. Este facto, no entender de Caeiro & Delgado (2005) tem perturbado a perceção dos alunos sobre o que é ou não um comportamento perturbador e as consequências que daí advêm. Dados os muitos problemas apresentados por esta problemática, importa fundamentalmente, conhecer o que os professores consideram como estando na origem da indisciplina para tentar, a partir do diagnóstico, pensar soluções.

Sendo, como referido, um dos problemas que mais angústia gera nos professores (Amado, 2001; Picado, 2009), os autores apontam diversos fatores, concorrentes para a ocorrência de indisciplina, como os fatores sociais, culturais, geracionais. Estes fatores situam-se em diferentes domínios e tanto têm origem em fatores familiares, como inerentes à história de vida, ou à personalidade dos diferentes elementos envolvidos, os professores e os alunos. Outro domínio está relacionado com o estilo de liderança e direção da escola. No que diz respeito aos fatores relacionados com a dinâmica pedagógica em sala de aula, o autor refere fatores como a dinâmica do grupo-turma, a relação estabelecida com os alunos e o tipo de interação pedagógica desenvolvido na aula.

Assim, aponta alguns comportamentos considerados, pelos alunos, como desmotivantes e estando na origem de comportamentos disruptivos, quando os professores não atendem a estas questões: à clareza na apresentação e organização, ao uso de metodologias de ensino ativas, à demonstração de interesse e entusiasmo pelos conteúdos transmitidos, à gestão equilibrada das comunicações e estímulos positivos, bem como a demonstração de expectativas positivas em relação a todos os alunos, a par com adequados níveis de exigência, respeito, humor e regras coerentes.

Segundo Picado (2009), o facto de o problema da indisciplina ser associado a fenómenos de agressividade e delinquência levou os professores a considerarem uma fatalidade, e a colocarem toda a culpa nos alunos e na sociedade, não refletindo, por isso, verdadeiramente, sobre o problema e os seus possíveis fatores. Várias investigações têm mostrado que uma das principais causas de stress, exaustão e menor sentido de realização pessoal, é a perceção de dificuldades no controlo da turma (Arthur, Davison e Lewis, 2005; Boyle, Borg, Falzon e Baglioni (1995). Assim, os problemas de indisciplina relacionados com a autoridade do professor surgem associados à relação pedagógica estabelecida (Estrela, 1994). Também Fontana (1988) citado por Picado (2009) refere que quando os problemas disciplinares dependem, em parte, do que é considerado boa disciplina e, consequentemente, de como o educador avalia o comportamento. O que para um educador pode constituir um problema, para outro, pode apenas ser irritante, ou mesmo, simples boa disposição. A falta de coerência leva os alunos a percecionar a existência de diferente tolerância de comportamentos, em diferentes ambientes e a testar em cada contexto quais os comportamentos tolerados. Destacando ainda o autor, que esta problemática tem de ser contextualizada na cultura, tempo e espaço em que se situa.

Assim, os investigadores são unânimes em considerar que quando se fala em indisciplina nem sempre se fala do mesmo. Para alguns professores, quando um aluno entra na sala de aula com o boné na cabeça ou a mascar pastilha elástica é considerado indisciplinado, enquanto para outros professores não é. Estes diferentes entendimentos resultam possivelmente de, nalguns casos, a indisciplina se reportar aos comportamentos e noutros às significações. Talvez, também por isso, a indisciplina apareça definida de forma muito variada na literatura (Amado, 1998; Durkheim, 1984; Estrela, 1992; Magalhães, 1992; Silva, Nossa & Silvério, 2000).

No presente estudo, considerou-se indisciplina na sala de aula como a manifestação de atos/condutas, por parte dos alunos, que têm subjacentes atitudes que não são legitimadas pelo professor no contexto regulador da sua prática pedagógica e, consequentemente perturbam o processo normal de ensino-aprendizagem. Neste sentido, os atos e condutas manifestados pelos alunos e legitimados pelo professor, no contexto regulador da sua prática pedagógica, são tomados como comportamentos de disciplina, enquanto atos e condutas não legitimados pelo professor, no contexto regulador da sua prática pedagógica, são tomados como comportamentos de indisciplina.

Se os professores, em vez de procurarem receitas, investirem mais numa reflexão baseada em análises desta natureza poderão, certamente, encontrar formas mais eficazes de resolver os seus problemas de indisciplina. Além disso, tratando-se a indisciplina de um fenómeno complexo, quanto maior for o número de interações que se consigam analisar, maior será também a compreensão do significado sociológico de indisciplina e dos diferentes níveis que esta pode assumir.

Objetivos deste estudo

Foi nosso objetivo conhecer as perceções e representações de professores sobre as motivações que estão na base do comportamento perturbador dos alunos, sobre as causas da indisciplina. Foram inquiridos 21 professores, do Ensino Básico e Secundário, de um Agrupamento de Escolas da periferia de Vila Franca de Xira. Foram colocadas apenas duas questões diretas e de resposta rápida.

- Quais as causas da indisciplina na Escola;

- Quais as causas da indisciplina na sala de aula.

Os dados foram recolhidos em Julho de 2014, de forma presencial e individual. Espera-se que a informação recolhida possa constituir um contributo recente para a discussão e compreensão da problemática, levando em consideração as opiniões de um dos atores determinantes para a adequada dinâmica disciplinar, os professores.
Apresentação de resultados

A partir das respostas dadas pelos professores, por escrito, foram constituídas categorias e subcategorias, e calculada a frequência de resposta por categoria e subcategoria, sendo apresentadas no Quadro 1 as respostas dos professores sobre as causas da indisciplina na escola e no Quadro 2 as respostas dos professores sobre as causas da indisciplina na sala de aula.

Quadro 1 – Causas da indisciplina na escola, segundo os professores


Categorias

SubCategorias

Exemplo

NI

NC

Condições de Funcionamento

Funcionários

Falta de funcionários

Falta de cooperação/atitudes dos funcionários na gestão dos comportamentos pouco ajustados



17

18,7%


55

60,4%


Espaços e materiais

Problemas de higiene (depósito dos invólucros nos respetivos caixotes)

Sobrelotação dos espaços

Falta de equipamento em muitas salas

Ausência de espaços onde os alunos possam passar o tempo de modo a contactarem com outras “ocupações”/ formas de ocuparem o tempo sem ser o telemóvel

Ausência de espaços físicos escolares mais atrativos e convidativos como forma de descomprimir (salas de estudo, polivalente)

Instalações degradadas

Elevado número de alunos no espaço escolar


19

20,1%


Regras

Falta de coragem dos órgãos de gestão para impedir que os alunos permaneçam frente à escola (paragem de autocarro) a fumar

Falta de colaboração da Direção da escola

Falta de normas ou regras

Incoerência na aplicação das normas e regras

A não aplicação por todos os professores do Regulamento Interno da Escola

Falta de uniformidade de critérios na aplicação das normas instituídas



10

11%


Turma

Turmas numerosas

5

5,5%


Carga Horária

Carga horária/horários

Excesso de horas na instituição



4

4,4%


Atitudes dos Alunos

Valores

Falta de consciência cívica - respeito pelo espaço comum

Desrespeito pelos funcionários e pelas regras de funcionamento da escola



8

8,8%


18

19,9%


Educação e Respeito

Correria/brincadeiras nos corredores

Gritaria e conversas nos corredores durante a mudança de turnos



9

9,9%


Regras

Falta de regras dos alunos

1

1,1%


Expectativas dos Alunos

Valorização da escola

Falta de expectativas futuras/valorização da escola

3

3,3%


4

4,4%


Desinteresse e desmotivação

Desmotivação dos alunos

1

1,1%


Família

Desresponsabilização dos Pais/EE

Desresponsabilização/ desautorização dos EE

5

5,5%


11

12,1%


Contexto familiar

Ambiente familiar desestruturado

Falta de educação dos Encarregados de Educação



6

6,6%


Consumo de estupefacientes

Consumo de drogas

Consumo de certas substâncias psicoativas

1

1,1%


3

3,3%


Consumo de álcool

Consumo de álcool

2

2,2%


Total

91

Para os professores inquiridos, a indisciplina na escola é resultado das Condições de Funcionamento da Escola (60,4%), das Atitudes dos Alunos (19,9%), da Atitude das Famílias (12,1%), das Expectativas dos alunos face à escola (4,4%) e ainda o Consumo de Estupefacientes (3,3%).

Em relação às Condições de Funcionamento, os professores referem diversos problemas relacionados com o Espaço e Materiais (20,1%), sendo indicados, por exemplo, falta de equipamentos em muitas salas, sobrelotação dos espaços, degradação das instalações e ausências de salas de convívio; com a falta de Funcionários (18,7%) e a sua falta de intervenção perante comportamentos desadequados dos alunos; com a falta de Regras ou de uniformidade de regras e sua imposição pela direção da escola (11%). São ainda referidos problemas devido ao elevado número de alunos por Turma (5,5%) e com a Carga Horária, nomeadamente, a organização dos horários e o excesso de horas na instituição (4,4%).

Relativamente às atitudes dos alunos, os professores inquiridos apontam a falta de educação e respeito (9,9%), no que diz respeito aos valores (8,8%), os professores referem a falta de consciência cívica, respeito pelo espaço comum e desrespeito pelos funcionários e pelas regras na escola. Ainda dentro desta categoria, 1,1% especificou a falta de regras dos alunos.

Na categoria Família, os professores inquiridos apontam a desresponsabilização dos pais e encarregados de educação (5,1%) e o contexto familiar (6,6%), nomeadamente ambiente familiar desestruturado e falta de educação dos encarregados de educação.

Relativamente às Expectativas é indicada a falta de valorização da escola e a falta de expectativas futuras (3,3%) e a desmotivação dos alunos (1,1%).

No que diz respeito ao Consumo de Estupefacientes, é referido o consumo de drogas (1,1%) e o consumo de álcool (2,2%).

Quadro 2 – Causas da indisciplina na sala de aula, segundo os professores



Categorias

SubCategorias

Exemplo

UR

NC

Condições de Funcionamento

Espaços e materiais

Material danificado/velho

Pouco espaço físico



4

3,1%


25

19,2%


Regras

Permissividade por parte de elementos do CT que não respeita o que é definido por unanimidade

Falta de uniformidade de critérios

Avaliação do comportamento – aferição das estratégias e construção de novas


3

2,3%


Turma

Elevado número de alunos por turma

Heterogeneidade das turmas



12

9,2%


Carga Horária

Sobrecarga horária dos alunos

Existência de tempos mortos



6

4,6%


Atitudes dos alunos

Valores

Falta de saber estar, de obediência

Ausência de princípios/formação cívica

Racismo


19

14,6%


55

42,3%


Educação e Respeito

Conversa

Brincadeiras

Comportamentos desajustados/abusivos por parte dos alunos


20

15,4%



Regras

Manuseamento de telemóvel

Cumprimento de regras/atitudes – ação dos alunos



13

10%


Cansaço

Fadiga de diversas origens exteriores às tarefas escolares

Falta de hábitos de trabalho

Falta de descanso (poucas horas de sono)


3

2,3%


Expectativas dos alunos

Não valorização da escola

Falta de expectativas, de objectivos relativamente ao futuro (por parte dos alunos)

4

3,1%


19

14,6%


Desinteresse e desmotivação

Falta de concentração dos alunos

Falta de motivação para frequentar o curso imposto



15

11,5%


Família

Ausência dos Pais/EE

Não acompanhamento por parte dos pais/EE

Falta de colaboração dos pais/EE



3

2,3%


23

17,7%


Desresponsabilização dos Pais/EE

Desresponsabilização dos EE

9

7%


Contexto familiar

Encarregados de Educação com falta de princípios, normas, regras de conduta

Ausência de amor e afeto por parte da família

Ambiente familiar desfavorável

Ausência de códigos de conduta familiares



11

8,5%


Professor

Atitudes

Atitude e postura do adulto


2

1,5%


7

5,4%


Práticas pedagógicas

Características do professor – ser humano – profissional/pessoal

Dificuldades do professor enquanto gestor de conflitos e formador

Estratégias rotineiras repetitivas


4

3,1%


Programas

Programas completamente desajustados e obsoletos

1

0,8%


Consumo de estupefacientes

Consumo de drogas

Consumo de certas substâncias psicoativas

1

0,8%


1

0,8%


Total

130

As causas da indisciplina na sala de aula referidas pelos professores são as Atitudes dos Alunos (42,3%), as Condições de Funcionamento (19, 2%), a Família (17,7%), a Expectativas dos Alunos (14,6%), o Professor (5,4%) e o Consumo de Estupefacientes (0,8%).

Relativamente às Atitudes dos Alunos, os professores apontam a falta de educação e respeito (15,4%), nomeadamente, comportamentos desajustados, conversas e brincadeiras, a falta de valores (14,6%): a ausência de princípios, racismo, falta de saber estar e desobediência. Também referem nesta categoria o cansaço dos alunos (2,3%) e a falta de regras (10%), como o manuseamento de telemóvel e o incumprimento das regras.

Sobre as Condições de Funcionamento, os professores referem o elevado número de alunos por turma e a heterogeneidade das turmas (9,2%). Referem ainda, a Carga Horária, sobrecarga horária dos alunos e também existência de tempos mortos (4,6%). Relativamente à subcategoria Espaços e Materiais (3,1%) os professores apontam a existência de material danificado e velho e pouco espaço físico. Relativamente à Falta de Regras (2,2%) os inquiridos apontam a falta de uniformidade de critérios de atuação dos colegas, ou permissividade por parte de elementos do Conselho de Turma.

Relativamente à categoria Família, os professores apontam o contexto familiar (8,5%), por exemplo, ambiente familiar desfavorável, ausência de códigos de conduta familiares e encarregados de educação com falta de princípios, normas e regras de conduta. A desresponsabilização dos pais e encarregados de educação (7%) e a ausência dos pais (2,7%).

Sobre as Expectativas dos Alunos, os professores referiram desinteresse e desmotivação (11,5%), nomeadamente a falta de concentração dos alunos e a falta de motivação para frequentar o curso imposto, e a não valorização da escola (3,1%), devido a falta de expectativas, e de objetivos relativamente ao futuro.

Na categoria Professor, os inquiridos referem as práticas pedagógicas (3,1%), nomeadamente a dificuldade do professor enquanto gestor de conflitos e formador e as estratégias rotineiras e repetitivas, as Atitudes (1,5%) e os Programas (0,8%), que consideram desajustados e obsoletos. Por fim, é ainda referido o Consumo de Estupefacientes (0,8).
Conclusões

Os docentes consideram, na sua esmagadora maioria, que indisciplina é o incumprimento de regras. Para os professores, as principais causas da indisciplina são exteriores à sua ação: são o desinteresse pela escola, a falta de valores morais, resultado de estruturas familiares onde existem problemas de natureza diversa, a falta de perspetivas de futuro, a falta de visão sobre a importância da escola para a sua vida. A frequente conversa entre alunos ou a passividade destes, não são comportamentos considerados de indisciplina, mas são para os professores atos deliberados que prejudicam e não enriquecem a aula, desgastam o professor e o clima de relacionamento com a turma.

Os professores do estudo, à semelhança de outros estudos descritos, apontam para causas exógenas à sua ação, as causas da indisciplina são da responsabilidade do aluno; provocadas por fatores sociais e familiares, pela própria instituição e pelo próprio sistema de ensino. Pelo aluno, enquanto indivíduo e pelas relações que se estabelecem dentro do grupo turma. Neste sentido, referem Caeiro & Delgado: “ Muitas vezes, a pressão exercida por certos grupos no interior da turma é direcionada no sentido de pôr em causa as exigências da escola, não só nas actividades desenvolvidas na sala de aula mas também nos valores e na lógica da escola, conseguindo detrair a actividade dos colegas mais conformistas e aderentes ao que lhes é exigido pelos professores, originando um clima de receios e de intimidação no interior da turma” (2005, p. 29).

Pelas influências Sociais/familiares: famílias disruptivas, falhas emocionais entre pais e filhos, autoridade familiar inconsistente; pelas influências Institucionais/Sistema Educativo: currículos extensos, metas desadequadas à faixa etária, muitos alunos por turma, falta de funcionários, desvalorização do professor, falhas nas constituições das turmas, condições dos espaços físicos; pelo desempenho do Aluno: dificuldades de aprendizagem, falta de interesse, baixa autoestima, diferenças de personalidades, de desenvolvimento intelectual e moral, desvalorização da escola, ou por influências relacionadas com o grupo Turma: agressividade, professor visto como inimigo, dinâmicas coletivas de interação.

No caso específico desta escola, que não sofre obras de melhoramentos há bastantes anos, os professores consideram as Condições de Funcionamento da Escola como grandes causadoras de indisciplina, essencialmente a sobrelotação do espaço e a degradação das instalações, mas também a falta de funcionários e intervenção adequada destes junto dos alunos. Referem também, a falta de uniformidade de regras, o elevado número de alunos por turma e o excesso de carga horária.

Por outro lado, são referidas, como causa de indisciplina na escola, as atitudes dos alunos e as famílias, nomeadamente a falta de educação e respeito, falta de valores e incumprimento de regras, bem como contextos familiares desfavoráveis. Também as expectativas dos alunos e o consumo de estupefacientes são apontadas como causa, embora com baixa percentagem.

Relativamente às causas da indisciplina na sala de aula, a maior percentagem recai igualmente, sobre as atitudes dos alunos, nomeadamente a falta de educação e respeito, a falta de valores e, ainda, falta de regras e cansaço dos alunos. São também causas de indisciplina na sala de aula, segundo os professores inquiridos, as condições de funcionamento que incidem no elevado número de alunos por turma e heterogeneidade, na sobrecarga horária, na degradação de materiais e espaço, mas também na falta de uniformidade de regras por parte dos professores e aplicação das mesmas de forma constante. O contexto familiar desfavorável e com insuficientes valores e regras de conduta, e a falta de expectativas dos alunos face à escola e objetivos futuros, gera desvalorização da escola, desinteresse e desmotivação, o que, segundo os professores inquiridos é fator de indisciplina.

Embora com baixa percentagem, cerca de 5%, foi apontado, como causa de indisciplina na sala, fatores relacionados com a atuação do professor, nomeadamente as práticas pedagógicas desenvolvidas, a dificuldade de gestão de conflitos, a atitude para com os alunos e os programas, os quais são referidos como desajustados e obsoletos.

Em síntese, os professores, não reconhecem a sua ação, como um dos principais fatores que podem conduzir a comportamentos de indisciplina, seria um estudo interessante verificar de que forma as relações entre as perceções e as representações dos professores condicionam a natureza e a incidência do comportamento indisciplinado dos alunos.

Bibliografia

Aires, L. (2010). Disciplina na sala de aulas- um guia de boas práticas para professores do 3º Ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário. Lisboa: Edições Sílabo.

Amado, J. (2001) A indisciplina e a formação do professor competente. In: Seminário Modelos e práticas de formação inicial de professores. Lisboa: Universidade de Lisboa, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, p. 1-17.

Amado, J. (2001). Interacção pedagógica e indisciplina na aula. Porto: Asa.

Amado, J. & Freire, I. (2009). A (s) indisciplina (s) na Escola- compreender para prevenir. Coimbra: Almedina.

Boyle, G.; Borg, M.; Falzon, J.; Baglioni, A. (1995). A structural model of the dimensions of teacher stress. British Journal of Educational Psychology, 65, 49-67.

Caeiro, J. & Delgado, P. (2005). Indisciplina em contexto escolar. Lisboa: Instituto Piaget.

Mónica, Mª. (2014). A sala de aula. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Picado, L. (2009). A indisciplina em sala de aula: Uma abordagem comportamental e cognitiva. Psicologia.com.pt.



Silva, Mª & Neves, I. (2006). Compreender a (in)disciplina na sala de aula: uma análise das relações de controlo e de poder, Revista Portuguesa de Educação, 19 (1), pp. 5-41


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