Pecuária Seleção objetiva de matrizes



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Pecuária

Seleção objetiva de matrizes

O peso da vaca, ao contrário do que muitos acreditam, não está matematicamente correlacionado ao peso de desmama do seu produto.


AGRON17·novembro·2015 -*Por Marcelo Almeida Oliveira

Todo produtor envolvido com cria utiliza-se de alguns critérios de seleção em seu rebanho. Alguns deles tangíveis e outros subjetivos, portanto todo criador é um selecionador. Contudo, nem todos os criadores conseguem imprimir ganhos efetivos no processo de seleção de seus animais, portanto, embora selecionadores, não conseguem imprimir melhoramento ao seu rebanho. Muito disto se deve à natureza das características selecionadas, da herdabilidade das mesmas e da intensidade de seleção empregada.

Vamos discutir algumas destas características e suas aplicações para revitalizar a discussão sobre o tema.
Fertilidade - Um bezerro ao ano.
As características ligadas à reprodução possuem o maior impacto econômico neste sistema de produção, suplantam com larga vantagem as características de crescimento e qualidade de carcaça. Contudo, o viés frigorífico ocupa a maior parcela dos esforços seletivos empregados. A percepção do produtor de cria é muito maior para o peso do que para o desempenho reprodutivo, embora a maior parcela do resultado financeiro da atividade seja proveniente da eficiência reprodutiva do seu rebanho, talvez o maior paradoxo da atividade de cria.

É importante mencionar que a fertilidade é uma característica de baixa herdabilidade, portanto muito sujeita à condição ambiental, por causa e efeito do processo de lactação.

A lactação resulta um dispêndio brutal de energia para a fêmea.

Neste quadro de balanço energético desafiador e submetida à condições ambientais restritivas, a performance reprodutiva é diretamente afetada (Frisch & Vercoe, 1977: Taylor et Al., 1986) . Em condições da pecuária nacional alguns autores relatam taxas de anestro de 75,5% em fêmeas multíparas de corte lactantes (1332 animais), avaliadas AGRON. 18· novembro· 2015 ultrassonograficamente (Peres ct al., 2011), em alguns casos atingindo até 85% de não ciclicidade conforme outras publicações (Sales et al., 2011).

Estas constatações nos levam a crer que o biótipo ideal de matrizes será determinado pelas condições ambientais disponíveis e o sistema de produção de empregado, equilibrando oferta e demanda de alimentos, sobretudo para salvaguardar a performance reprodutiva do rebanho.
Habilidades Maternais Um bom bezerro ao ano.
Especialmente nos últimos anos temos assistido a uma corrida por incrementos na qualidade dos bezerros produzidos, estratégias nutricionais, reprodutivas, cruzamentos e seleção de características maternais estão definitivamente na moda. É fácil e lógico entendermos o ponto de vista do criador, com um bezerro mais pesado, mais apresentável ao mercado, pode-se agregar valor ao produto e isto pode alterar substancialmente o seu resultado financeiro, já que o custo de produção é muito semelhante a um sistema não melhorado, do ponto de vista dos produtores envolvidos na recria e engorda, ou ciclo completo, com maior peso de desmama encurta-se o caminho até o abate.

Utilizando de uma lei natural onde toda causa tem um efeito, precisamos relembrar alguns pomos: Data de nascimento (estratégias reprodutivas) - Bezerros produzidos no "cedo" são mais pesados, isto se deve a melhor condição ambiental que este animal desfrutará até a desmama, aproveitando o melhor do ciclo das forragens tropicais. Este ganho não é genético, portanto não herdável, é meramente ambiental. Quando a matriz deslocar sua data estação este benefício desaparecerá.

Seleção direta para aumento da produção de leite, ou Habilidade materna (estratégias genéticas) - também afeta positivamente o crescimento dos produtos, este efeito é mais sensível aos 4 meses de idade, a partir do que, a atividade ruminal gradativamente se sobrepõe ao efeito do aleitamento. Ao maximizarmos a produção de leite em vacas de corte, aumentamos também a exigência nutricional destas matrizes, pois a produção de leite é uma atividade metabolicamente dispendiosa para a fêmea. Algumas pesquisas realizadas pelo Clay Center (Nebraska, USA) também encontraram uma associação entre a produção de leite e o tamanho final dos animais, o que seria um efeito indireto e indesejável ao sistema de produção como reportam os pesquisadores Jenkins & Ferrel.

Os benefícios destes diferenciais maternais representam um risco à eficiência reprodutiva das matrizes do rebanho. Assim, a seleção direta para velocidade de ganho de peso à desmama parece ser um opção mais ponderada, equilibrando habilidades maternais e o próprio potencial de crescimento do bezerro. Cruzamento (estratégia genética) - através da heterose o produtor deva o peso à desmama e afere maior resultado na comercialização da desmama ou na recria dos animais.

Novamente fazendo uso da lei de causa e efeito, é importante rememorarmos que não existem milagres. O maior ganho de peso do bezerro cruzado é fruto de maior metabolismo, que gera mais apetite, provoca maior consumo de alimentos e resulta em um maior desgaste orgânico e espoliação da mãe. Avaliar a eficiência da sua matriz é a relação de desmama. Em uma análise proporcional visualiza-se o percentual de kg de bezerros em relação

ao peso da vaca, uma estimativa do uso fruto do estoque (em kg de carne) imobilizado na atividade de cria. Uma baixa relação de desmama indica um bezerro de má qualidade ou uma fêmea demasiadamente pesada. A relação de desmama será sempre baixa quando a matriz entregar um bezerro inferior, quando a mesma for excessivamente pesada, esta relação ficará ainda pior.

O peso da vaca, ao contrário do que muitos acreditam, não está matematicamente correlacionado ao peso de desmama do seu produto. Portanto, aumentar ou diminuir o peso da vaca não afeta o peso do bezerro, contudo, aumentar o peso da vaca afeta diretamente a relação de desmama e a capacidade de suporte da fazenda, uma vez que o consumo de alimento é proporcional ao peso vivo do animal.

A partir desta ferramenta de avaliação, fica evidente que a medida

em que aumentamos o tamanho da vaca, perdemos eficiência no sistema de produção. A incongruência existente na seleção para peso, afetando principalmente o tamanho adulto, e precisa ser devidamente equacionada ou perderemos as grandes virtudes produtivas das raças zebuínas, especialmente a raça Nelore.


Precocidade Sexual - Mais bezerros por estação reprodutiva.

Segundo professor Luis Alberto Fries (In memoriam], o maior desperdício da pecuária nacional é o não aproveitamento do potencial de precocidade sexual de novilhas nelore. Embora ele tenha profetizado há alguns anos, somente após os avanços da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) é que pudemos explorar melhor o potencial da precocidade sexual em novilhas, Precoces ou Super Precoces, de acordo com o sistema de produção de cada rebanho. Antes este desafio de precocidade sexual era feito exclusivamente através do uso de reprodutores em monta natural. Com a evolução de ganho de peso, ganhos reais em qualidade e composição de carcaça e principalmente, a massificação do uso reprodutor provados via IATF a precocidade

sexual aflorou nos rebanhos que participam dos programas de melhoramento genético animal e os resultados obtidos são muito promissores. Esta antecipação, aumenta a produção de bezerros na fazenda, pois antecipamos o parto de uma categoria até então reprodutivamente improdutiva (Novilhas em recria) e colocamos mais ventres para trabalho otimizando a mesma estrutura de custos.

Atualmente vários rebanhos operam com taxas de precocidade sexual acima de 50%, para esta realidade descortina-se um novo cenário produtivo, no qual a reposição do rebanho será feita apenas com novilhas precoces ou super precoces, a estação reprodutiva aos 24 meses vai ser abandonada como sistema de produção, a característica da precocidade sexual vai ser fixada na população selecionada, pois os trabalhos científicos apontam herdabilidades

médias a altas (0,43 a 0,70) para precocidade sexual, superiores àquelas encontradas nas características de crescimento e qualidade de carcaça, conforme descrevem os autores (Brinks, 1989; Eler, 2001; Silva, 2003).

Índices de seleção - Mais bezerros, melhores bezerros, produzidos eficientemente.
Está claro que vivemos um paradoxo na pecuária de cria. O setor

é orientado por características relevantes para a indústria frigorífica, de certa forma está correto, pois como parte integrada à cadeia da carne precisamos estar atentos às demandas do segmento. Contudo, estas características não necessariamente estão correlacionadas com a maior eficiência na atividade de cria, especialmente àquelas ligadas à reprodução, que são responsáveis pelo maior impacto econômico nesta atividade. Produção e reprodução não estão necessariamente associadas, ou melhor este casamento se dá por força de seleção. Quando ocorrem são considerados pontos fora da curva (out layers), exceções dentro da população. A complexidade do assunto nos conduz a necessidade de adotarmos, cada vez mais, índices de seleção mais completos, como meio de balancearmos e agruparmos no mesmo animal características regidas por grupamentos genéticos independentes.

Particularmente utilizamos o RMat, como índice de avaliação objetiva de matrizes, um indicador desenvolvido pelo Gensys, que

contempla eficiência reprodutiva, eficiência produtiva e custo de produção, utilizando-se de informações estatisticamente tratadas e portanto mais confiáveis.

*0 autor é Msc. Medicina Veterinária e

Gerente executivo Cia de Melhoramento



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