Pecado original



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PECADO ORIGINAL Capítulo 12



PECADO ORIGINAL
Novela de


RÔMULO GUILHERME
Criada e escrita por
RÔMULO GUILHERME
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Cena 01/Casa Rufino/Quarto/Int/Dia

Rufino desliga o celular.

Rufino - Pode vir pra Jandaia, meu filho. Pois daqui você não sairá mais... vai assumir seu lugar, seu posto, como novo padre dessa cidade! Se Deus quiser e ele vai querer, ainda mais com à ajuda que vou dar!
Cena 02/Jandaia/Ext/Dia

A cidade está de luto. As lojas estão fechadas. Poucas pessoas nas ruas. Algumas seguem em direção da igreja, outras conversam... Nas sacadas de muitas casas, vemos um pano preto, em luto pela morte de Januário. Clima fúnebre.


Cena 03/Igreja/Int/Dia

A porta da igreja, que estava recostada, se abre. Revelando o que se passa. CAM entra na igreja lentamente. Vemos o caixão aberto de Januário no centro. Perto dele e espalhados em torno estão: Rebeca, Jeferson, Moisés, Betânia, Patrício, Vladimir, Turíbio, Isabel, Marinho, Lívia, Narcisa, Mary. Momento. Licurgo está acariciando o rosto de Januário, em um rito continuo, como se não acredita-se que ele está morto. Rebeca se aproxima de Licurgo, que olha pra ela.

Licurgo - Padre Januário não morreu, né? Ele tá só dormindo...

Rebeca - Ele descansou, Licurgo. Agora padre Januário está mais perto de Deus, do que sempre esteve. Está lá no céu, olhando pela gente, por você, quem ele tanto gostava.

Licurgo - Não pode gostar de mim, não pode! Eu não mereço!

Licurgo abraça Rebeca, que o conforta.

Rebeca - Não fala besteira. Todos gostávamos de você.

Licurgo - Não... não...

Licurgo saí correndo pra fora da igreja. Jeferson se aproxima de Rebeca.

Rebeca - Coitado, está inconformado.

Jeferson - Foi tão de repente.

Mary - Infarto fulminante é assim mesmo.

Rebeca - Mas o mais estranho é que a saúde do padre Januário estava ótima. Tinha pouco tempo que realizamos um check-up completo e não tinha nada errado.

Mary - Eu lembro. Até comentamos isso.

Jeferson - Mas como você mesma disse, meu amor. Infarto é de uma hora pra outra. Pode acontecer com qualquer um.

Corta para Vladmir, Patrício e Lívia.

Vladmir - Quando chega a hora não adianta. Você vai de qualquer jeito.

Patrício - Deus o recebeu de braços abertos, com todas as honras que um homem tão bom como Januário era, merece.

Lívia - Mas que vai fazer um falta enorme pra essa cidade, vai.

Vladmir - Ele agora está melhor do que todos nos.

Corta para Turíbio e Isabel.

Isabel - Eu gostava muito dele. Mesmo não frequentando muito a igreja.

Turíbio - O que devia fazer mais vezes, pra parar de ficar pensando besteira.

Isabel - Não começa, pai...

Turíbio - E a Filipa que não chega.

Isabel - Tava se arrumando. Até parece que não conhece a mulher que tem.

Turíbio - Mas é um velório e não uma festa.
Cena 03/Praia/Ext/Dia

Licurgo observa o mar. Instantes. Pega o vidrinho que continha o veneno, do seu bolso e se aproxima mais do mar, jogando-o mais longe que consegue. Quando vira-se, dá de cara com Gorete.

Gorete - Eu sei que foi você!

Licurgo - Não sei do que está falando, sua bruxa! Você é má, você não é boa...

Gorete - Você sabe o que você fez. E isso vai te atormentar pra sempre.

Licurgo - Mas foi Deus quem mandou. O Rufino me disse isso. Eu só cumpri uma missão.

Gorete - Pobre menino. Usado pelo demônio, em sua inocência. O que fez vai te condenar a ir de ponta cabeça pro inferno, pagar pelo seu pecado, Licurgo!

Licurgo fica assustado com tudo o que escuta e saí correndo, indo embora da praia. Gorete observa Licurgo se afastando.

Gorete - Peça perdão, Licurgo. Peça perdão, pois vai precisar acertar suas contas com Deus no juízo final, juntamente com aquele monstro, manipulador. (t) Mas a hora dele vai chegar. Mais cedo do que ele imagina...
Cena 04/Casa Rufino/Escritório/Int/Dia

Rufino, vestido um terno preto, super alinhado e elegante, acaba de entrar no escritório. Fecha a porta. Senta na sua cadeira, pega sua agenda de contatos, procura, até achar o contato que queria. Pega o telefone e disca...

Rufino - (tel.) Quero falar com o Arcebispo... é Rufino Expedito de Moura Alcântara. (t) Arcebispo Vicente Hilário?! Que prazer falar com vossa Eminência...
Cena 05/Igreja Catedral/Gabinete do Arcebispo/Int/Dia

Arcebispo no telefone.

Arcebispo - (tel.) Já estou sabendo da morte de padre Januário. Uma grande perda pro corpo da igreja.

Rufino - (tel.) Sim. Uma perda lastimável! Estamos todos de luto...

Arcebispo - (tel.) Estou impossibilitado de comparecer à cerimônia. Tenho assuntos e compromissos inadiáveis. Mas mandei um representante no meu lugar, que se ainda não chegou, não vai tardar em aparecer por ai.
Cena 06/Casa Rufino/Escritório/Int/Dia

Rufino - (tel.) Vai ser uma honra. E que pena o senhor não pode vir. (t) Mas é justamente sobre a perda do nosso querido padre Januário, o assunto que desejo tratar com o Vossa Eminência.

Arcebispo - (tel.) Estou todo ouvidos. Só peço que vá direto ao assunto. Como eu disse, tenho um dia muito atarefado hoje.

Rufino - (tel.) Posso imaginar e serei bem direto, pois não gosto de fazer rodeio. Pois bem... Como o senhor sabe, meu filho Pedro se tornou padre. E eu queria tê-lo mais perto de mim. E pensei que o senhor poderia me ajudar nisso.


Cena 07/Igreja Catedral/Gabinete Arcebispo/Int/Dia

Arcebispo - (tel.) De que forma?


Cena 08/Casa Rufino/Escritório/Int/Dia

Rufino - (tel.) Indicando o nome do meu filho Pedro, pra que ele seja o novo padre de Jandaia... seria a consagração do meu sonho e tenha certeza que padre Januário aprovaria essa escolha de Pedro ser seu sucessor.


Cena 09/Casa Rufino/Sótão/Int/Dia

Eva acende uma vela. Veste preto, em luto pela morte de Januário. Ajoelha e começa a rezar.

Eva - (voz) Me dê forças, padre Januário. Pra suportar tudo isso que estou vivendo. (t) Sei que Rufino está ligado a morte do senhor. Sendo mais um dos seus planos... Mas o senhor pode ter certeza, que um dia essa verdade vira à tona e ele será castigado, por todo mal que vem fazendo...
Cena 10/Casa Rufino/Escritório/Int/Dia

Continuação da cena 08. Rufino conversa com o Arcebispo.

Rufino - (tel.) O que o senhor me responde?... Não estaria ocupando seu tempo se não soubesse da influência que o senhor tem sobre a cúria, que vai escolher e decidir o nome do novo padre que vai assumir a igreja de Jandaia. Mas uma coisa eu posso garantir pro senhor: padre Januário ficaria muito satisfeito se meu filho, quem ele batizou, fez a primeira comunhão, viu crescer e se tornar padre, ficasse no seu lugar!

Arcebispo - (tel.) O falecido Januário tinha me dito que o senhor é um prefeito muito ativo nas causas da igreja, em prol dos necessitados. Generoso, que contribuiu sem pensar duas vezes.


Cena 11/Casa Rufino/Sótão/Int/Dia

Eva continua rezando, concentrada.

Eva - (voz) Me perdoa, padre Januário... eu podia ter evitado sua morte, se eu tivesse coragem de enfrentar o Rufino. Evitando assim tantas dores, tragédias... O senhor merecia mais do que eu estar vivo, já que vai fazer falta pra muita gente. Ao contrário de mim!
Cena 12/Igreja/Int/Dia

Continuação da cena 03. Zinha está perto do caixão, se acabando de chorar, fazendo maior escândalo, chamando atenção de todos.

Zinha - O que será dessa cidade sem padre Januário. Sem o nosso pastor, pra nos conduzir, guiar, em direção ao céu. Livre do pecado, da tentação que nos ronda a todo momento...

Zinha apoia sua cabeça no corpo de Januário, balançando o caixão, de uma forma cômica, nesse momento triste. Todos ficam muito apreensivos.

Zinha - Por que, meu Deus?! Por quê?!
Narcisa - Ele descansou, Zinha. Mas vai estar sempre vivo nos nossos corações, nas nossas lembranças...

Meirinho - Alguém tem que fazer alguma coisa. Se não é capaz dela jogar o corpo do padre no chão!

Patrício se aproxima de Zinha, tentando lhe acalmar.

Patrício - A senhora precisa se acalmar.

Zinha - Me solta. Não preciso me acalmar. Estou bem... eu nem sei o que o senhor está fazendo aqui. Volta pra sua igreja, pro seu culto...

Patrício - Não é porque eu e padre Januário somos de religiões diferentes, que eu deixaria de comparecer na sua despedida. Tenho uma grande admiração por ele.

Lívia - Todas as religiões só levam a um caminho, dona Zinha. O caminho pra Deus!

Zinha - Eu só quero me despedir de padre Januário. Pois ninguém gostava mais dele, nessa cidade, do que eu!

Vladimir - Se quer aparecer, fazer show, vai pro circo!

Zinha - Me deixa com a minha dor, seu louco!

Moisés - Todos gostávamos muito do padre Januário. Vai fazer falta pra todos nós. E a dor da senhora não é diferente da nossa.

Rebeca - Gente, pelo amor de Deus! Não vamos brigar aqui no velório do nosso querido padre Januário, pra ver quem gostava mais dele. Cada um de nós, do seu jeito, tinha uma ligação com esse homem tão bom e que agora está lá no céu, olhando pela gente.

Isabel - Falou a puritana. Santinha do pau oco!

Rebeca encara Isabel.

Zinha - Você é a última pessoa do mundo que tem o direito de falar alguma coisa, sua pecadora. Foi atrás de um homem preste a se tornar padre, pra tenta-lo, querendo fazer com ele desistisse de assumir sua vocação, pra se refestelar com ele.

Rebeca - Eu só não te respondo a altura, dona Zinha, porque estamos em uma igreja, num velório, e pela sua idade.

Zinha - Mas não estou mentindo. Você foi atrás do Pedro, pra impedir que ele se tornasse padre. Achando que assim ficariam juntos. Não é verdade? Quero que um raio me parta ao meio se estou falando alguma mentira, algo que não seja a mais pura e vergonhosa verdade!

Jeferson - Chega! Cala boca sua velha linguaruda!

Rebeca fica incomodada com tudo o que escuta e caminha. Passa por Isabel.

Isabel - A verdade dói né, querida!

Jeferson - (p/Zinha) Um dia a senhora morre com seu veneno, dona Zinha. Eu torno pra que a senhora possa sentir na pele o que é ser julgada e condenada pelos outros, como a senhora faz com tanta gente sem nenhuma dó e compaixão!

Zinha - Sou uma mulher pura e imaculada. Não tenho nada pra esconder de ninguém, ao contrário de muitas pessoas, que deviam ter vergonha de sair de casa...

Jeferson vai atrás de Rebeca. Zinha continua chorando, voltando a lamentar pela morte de Januário.
Cena 14/Casa Rufino/Escritório/Int/Dia

Rufino continua conversando com Arcebispo.

Rufino - (tel.) Fico esperando ansioso pela decisão que os senhores vão tomar, quanto a escolha do novo padre de Jandaia.

Arcebispo - (off) Pode deixar que não vou esquecer nossa conversa. Principalmente quanto a gentileza que o senhor vai demonstrar...


Rufino - (tel.) Assim eu espero! Foi um prazer falar com Vossa Eminência...

Rufino desliga, satisfeito pela conversa.

Rufino - (feliz) Em breve você assumirá o posto que lhe cabe nessa cidade!
Cena 15/Casa Licurgo/Ateliê/Int/Dia

Licurgo está muito agitado, nervoso. Em fúria, quebra todos os santos que já fez e vários outros objetos.

Licurgo - Não quero ir preso... não posso ir preso. Lá é ruim, ruim, ruim...

Licurgo escuta passos se aproximando.

Licurgo - Quem tá aí?

Rufino aparece.

Rufino - Sou eu, Licurgo... seu amigo Rufino!

Licurgo abraça Rufino, que lhe consola e acalma.

Rufino - Tá tudo bem, Licurgo. Deus está muito feliz com o que você fez. Com a missão bem sucedida que realizou.

Licurgo - Padre Januário está com Deus?

Rufino - Pertinho dele. E está muito mais feliz agora que está lá no paraíso.

Licurgo - O que vai acontecer comigo agora. Vou preso? Não quero ir preso.

Rufino - Você cumpriu a vontade de Deus, Licurgo. A justiça dos homens não atinge quem cumpre a vontade divina. (t) Sua recompensa será maior, algo tão superior que virá de uma forma menos esperada. Pode ter certeza disso, Licurgo. Pode confiar em mim!
Cena 16/Jandaia/Praça/Ext/Dia

Rebeca está sentada no banco, observando o jardim. Jeferson se aproxima dela e senta do seu lado.

Jeferson - Não liga pro que aquela velha beata disse, Rebeca. O que importa é que existe entre nós dois.

Rebeca - As palavras dela pesaram em mim...

Jeferson - Eu acredito no nosso amor, na nossa união!

Rebeca - Vou te fazer muito feliz, Jeferson. Te amar, como você merece!

Jeferson - É uma pena que padre Januário tenha morrido, antes de realizar nossa cerimônia.

Rebeca - Podemos nos casar no terreiro da umbanda. Posso falar com o Marinho. É uma cerimônia tão linda... e depois de sentir e ver Iemanjá me salvando, me liguei ainda mais a todos os ritos.

Jeferson - Eu faço questão de nos casar na igreja, Rebeca. Com tudo o que temos direito... sou muito tradicional e faço questão de cada detalhe.

Rebeca - Tudo bem então.

Jeferson - Temos só esperar o novo padre chegar e acertar com ele a nossa cerimônia!
Cena 17/Jandaia/Ruas/Ext/Dia

O táxi onde Basileu está, vem seguida pelas ruas da cidade.


Cena 18/Táxi/Int/Dia

Basileu estranha a cidade vazia, sem movimento.

Basileu - O que aconteceu? Cadê todo mundo?

Taxista - O pároco da cidade morreu essa madrugada.

Basileu - (abalado) Padre Januário morreu?
Cena 19/Casa Turíbio/Quarto casal/Int/Dia

Filipa usa um vestido preto bem justo e decotado.

Filipa - Linda... maravilhosa!

Dá uma última ajeitada na frente do espelho, antes de sair.


Cena 20/Casa Turíbio/Frente/Ext/Dia

O táxi estaciona. O taxista saí, indo pegar a bagagem. Basileu saí do carro, pega sua carteira e paga o taxista.

Basileu - Pode ficar com o troco.

Basileu pega sua bagagem. Dá uma olhada na cidade.

Basileu - Cheguei justo nesse dia triste...

O taxista vai embora. Quando Basileu se prepara pra bater na porta, Filipa saí e se assusta com Basileu. Nesse momento, acaba perdendo o equilíbrio do seu salto e caí em cima de Basileu, que lhe segura, evitando que ela se esborrache no chão. Os dois se olham. Momento. Filipa levanta e os dois se ajeitam.

Filipa - (surpresa) Basileu? É você mesmo?

Basileu - Quanto tempo, Filipa! Você não mudou nada!

Filipa - Ao contrário de você, que mudou muito.

Filipa olha Basileu dos pés à cabeça, avaliando o belo exemplar de homem parado na sua frente, sem conseguir disfarçar muito a atração imediata que sentiu por ele.

Basileu - Cadê todo mundo?

Filipa - Seu pai não disse nada que você iria chegar.

Basileu - Não avisei... quis fazer uma surpresa.

Filipa - E que surpresa! Pena que você chegou em um dia tão triste.

Basileu - Já fiquei sabendo da morte do padre Januário.

Filipa - Uma perda lastimável. Tá todo mundo lá na igreja. Pra onde eu ia, quando nós tivemos esse belo encontro... (sorri)

Basileu - Vou com você, então. Quero me despedir do padre Januário e assim aproveito e vejo todos.

Basileu pega sua mala. Filipa abre a porta. Filipa fica no caminho, fazendo com quem Basileu passe esfregando por ela, pra conseguir entrar na casa. Quando Basileu entra, Filipa fica se abanando com as mãos.

Filipa - Até esquentou!

Basileu volta.

Basileu - Vamos?

Filipa fecha a casa, pega no braço de Basileu, que estranha, mas não fala nada. Os dois seguem em direção a igreja.


Cena 21/Igreja/Frente/Ext/Dia

Rufino vem caminhando em direção a entrada da igreja. Vladimir aparece na sua frente.

Rufino - Posso passar?

Vladimir encara Rufino.

Vladimir - O senhor não devia estar aqui.

Rufino - Quem é o senhor pra me impedir de entrar na casa de Deus!

Vladmir- Eu sei que foi você!

Rufino - Do que está falando, seu louco? Biruta!



Vladimir - Foi você quem matou padre Januário.
FIM DO CAPÍTULO 12


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