Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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“Tudo o que resiste ao claro poder do entendimento, à satisfação dos sentidos, à propagação do progresso, toma, pois, o nome de sofrimento: a sociedade da felicidade proclamada torna-se pouco a pouco uma sociedade obcecada pelo desgosto, perseguida pelo medo da morte, da doença, do envelhecimento. Sob uma máscara sorridente, fareja em toda parte o odor irrespirável do desastre”. (2002, p. 49)

Mais uma vez, identificamos a presença da incerteza e da angústia, como a espreitar, sempre sorrateira, evidenciando a contradição de um projeto de felicidade sem máculas, fundado numa experiência estética de prazer.

Brukner, adicionalmente, se propõe a perguntar porque ou como, algo que foi conquistado como um direito, deflagrado por todo o movimento iluminista, acabou se convertendo em uma lei, um algo que, se não alcançado, nos condenará inevitavelmente ao fracasso. Para responder a essa pergunta ele escolhe um caminho interessante, o de pensar a felicidade como uma experiência de domínio, que se constrói a partir da visão de um sujeito onipotente, que, livre das influências e determinações religiosas, passa a ser o construtor de seu próprio destino. Ora, se é ele o responsável por seu destino, é também ele o único responsável por sua felicidade, ela não pode mais ser creditada a forças religiosas ou sociais, ela é intimizada. A felicidade deixa de ser um acaso que acontece frente à monotonia dos dias e se converte em destino, dever. Constrói-se então uma ética do prazer, baseada na plena satisfação desse sujeito onipotente, que não deve mais adoecer, de quem é exigida a satisfação sexual e afetiva, a quem a doença passa a ser um interdito, a morte um fracasso.

O sexo passa a ser uma experiência de cálculo, um termômetro para se medir a realização e a felicidade pessoal e conjugal. Nas palavras de Brukner:

(...) “ a portas fechadas, os amantes fazem o exame da felicidade e se perguntam: estamos à altura? É à sua sexualidade, novo oráculo, que solicitam provas tangíveis de sua paixão. Combinações do modelo escolar com o gastronômico: a boa receita conduz à boa nota. De carícias a posições, de perversões a frissons, testam seu casamento ou união, estabelecem balanços de prazeres, rivalizam com outros casais em demonstrações sonoras, em arroubos exibicionistas, atribuem-se prêmios de excelência ou menções de ‘sofrível’, procurando assim se assegurar do estado de seus sentimentos.” (2002, p. 64)

De idêntica forma, vive-se uma verdadeira obsessão com a saúde, tornando-a uma questão de ordem médica. Os alimentos são agora avaliados a partir de seu potencial calórico e lipídico, convertendo-se em remédios ou venenos. Nesse contexto não é tão importante o tipo de vida que se leva, o fundamental é poder prolongá-la o mais indefinidamente quanto possível. Aqueles que conseguem mascarar as impressões do tempo, passam a ser vistos como vitoriosos, se não é possível uma juventude eterna,



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é preciso, ao menos, mimetizar a juventude tanto quanto possível. Faz-se necessário eliminar todo o sinal de fraqueza, deve-se sempre se manter alerta, alimentar-se conforme o devido, manter-se as atividades físicas regulares. Tira-se da saúde, como bem salienta Brukner, aquilo que ela tem de mais rico, qual seja a despreocupação com a doença.

Transformada em dever, a felicidade passa a ser fonte óbvia de angústia - “(...) nós constituímos provavelmente as primeiras sociedades da história a tornar as pessoas infelizes por não ser felizes.” ( Brukner, 2002, p. 77) A angústia surge pelo medo de não estarmos fazendo o suficiente, de não correspondermos as expectativas e acabarmos por fracassar.

Essas expectativas, por outro lado, como já deixamos claro anteriormente, não provém de modelos rígidos e impositivos, mas são, ao contrário, internalizadas como anseios que nos são próprios. Elas se fazem presentes nos ideais de felicidade, dos relacionamentos, da vida conjugal etc. Vividas como uma experiência singular, passam a ser condições para a felicidade, convertendo-se, muitas vezes, em verdadeiros fantasmas. Fowers, Guignon & Richardson (1999) nos chamam a atenção para o fato de que o aumento do individualismo, associado à noção de que a auto-realização, no sentido de uma satisfação estética do sujeito, é um elemento basilar na determinação de que vida vale ou não a pena ser vivida, acaba por influenciar de modo determinante as relações. O casamento, por exemplo, deixa de ser uma instituição que tem como sentido uma obrigação social, tal como a necessidade de segurança, o desejo de procriação ou questões de natureza econômica e passa a ser a ser entendido como um caminho fundamental para a auto-satisfação. As expectativas se tornam ainda maiores, no entanto, porque o casamento, considerado nas sociedades tradicionais, uma base sobre a qual as questões maiores da existência se construiriam, se transforma no objetivo por si mesmo, o centro originador de sentidos e propósitos para a existência. Obviamente que esse elevado nível de expectativa, acaba por se traduzir numa diminuição da tolerância às contrariedades próprias à vida conjugal.

Todo esse movimento, conforme já explicitado, torna-se grande fomentador de angústia. Será exatamente a angústia o fenômeno sobre o qual desejamos estabelecer as nossas interrogações. Até o momento, nós o fizemos sem grandes preocupações conceituais, mantendo-nos livres dentro de referenciais teóricos diversos. Não agimos desse modo por acaso. O nosso objetivo foi o de caracterizar a angústia tal qual ela se dá e se articula na medianidade, a fim de que a partir dai, tomando como ponto de partida

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aquilo que se apresenta na experiência cotidiana, pudéssemos buscar as suas bases ontológicas. Seguindo esse caminho nós nos deteremos, em nosso próximo capítulo, na circunscrição dos conceitos. Acreditamos que encontraremos nas reflexões trazidas por Heidegger elementos que, como lentes acuradas, nos auxiliarão a enxergar melhor o fenômeno que nos interpela.





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