Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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isso fique suficientemente claro, surge exatamente em um tempo em que a dimensão


coletiva é desvalorizada em favor de uma compreensão do homem enquanto uma
individualidade apartada do mundo. Perdendo as referências e suportes do coletivo, tem
ele que dar conta de seu próprio destino. Mais uma vez, ganha-se por um lado e perde-
se por outro.

Vive-se uma hipervalorização da experiência do psicológico, conforme apontado por Coimbra (1995) e também por Sennett (1999). O inventário pessoal, a importância das motivações interiores, a busca da “intimidade” entre os íntimos, na mesma medida do afastamento daqueles que são considerados estranhos, são algumas marcas desse movimento. Nos dois autores, assim como também em Baptista, evidencia-se a importância que se passa a dar ao núcleo familiar, que torna-se um local de proteção frente à fragmentação do mundo, frente ao espaço social, agora interpretado como indomável e perigoso.

O outro elemento, que surge da citação que anteriormente fizemos de Bauman, é a mudança no modo como as nossas relações se constroem, à medida que o individualismo progride. As relações baseadas na pragmática, passam a ser um acordo em que a fidelidade e a permanência inexistem, sendo percebidas como experiências de prazer, deixando de ter sentido quando esse sai de cena. As relações pragmáticas ou contratuais são fundadas naquilo que Guignon (1999) chama de “individualismo ontológico”, ou seja, o fato de nos identificarmos como indivíduos auto-encapsulados, que estão circunstancialmente envolvidos em um todo social, acaba por um gerar um conflito natural. Vendo a mim mesmo como alguém essencialmente desvinculado do todo coletivo, tendo necessidade de competir e lutar por um lugar, pela aquisição de recursos limitados, acabo por perceber o outro ou como um aliado circunstancial, ou como um obstáculo para os meus objetivos. As relações passam a ser naturalmente descartáveis, tendo sentido enquanto me “dão prazer”, ou me são úteis de alguma forma.

Bauman retorna a essa temática em dois outros livros: Amor líquido (2004) e Comunidade (2003). No primeiro, ele pensa mais diretamente essa questão, sinalizando para a liquefação e impermanência que caracteriza as relações contemporâneas. Nessa obra, surge mais uma vez a incerteza, fruto da ausência de territórios seguros, originando relações marcadas pela ambivalência, nas quais, por um lado, existe a necessidade da entrega, como forma de resgatar a segurança e, por outro, a necessidade de manter os laços afrouxados, em função do medo natural que a entrega produz. Em “Comunidade” Bauman retoma ao tema por um caminho diverso, mostrando a





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necessidade, experimentada por muitos, de pertencimento, de “dar conta” da incerteza, da angústia e da falta de segurança, através de inserção em um grupo que seja constituidor de sentidos. Nessa obra, ele mais uma vez se detém na questão da liberdade, mostrando que, se estar em comunidade implica em segurança, ao mesmo tempo, o comprometimento em suas estruturas resulta inevitavelmente numa perda de liberdade. Em suas próprias palavras:

“Dados os atributos desagradáveis com que a liberdade sem segurança é sobrecarregada, tanto quanto a segurança sem liberdade, parece que nunca deixamos de sonhar com a comunidade, mas também jamais encontraremos em qualquer comunidade autoproclamada os prazeres que imaginamos em nossos sonhos.” (Bauman, 2003, p. 10).



Para Bauman parece haver uma recorrência da questão: aspiramos à liberdade, conquistamo-la, perdemos em segurança, vivemos a angústia e passamos a desejar os laços sociais, a volta a existência comunitária, só que essa sempre nos pedirá em troca um pouco de nossa liberdade, o que resistimos a ceder. Podemos perceber que não há, na obra de Bauman, uma solução para esse problema, sendo um questionamento e uma inquietação que ainda nos cabe dar conta. De qualquer forma, o anseio de liberdade, marcado pelo profundo individualismo, claramente se sobrepõe.

Esse projeto de sujeito individualizado, que anseia pela liberdade, encontrado-a, ou ao menos a buscando no consumo, é motivado por uma grande miragem, um elemento fortemente mobilizador, promessa de satisfação eterna, algo como nosso Santo Graal: a felicidade.


A euforia perpétua
Em um livro muito interessante, intitulado “A euforia perpétua: ensaio sobre o dever da felicidade”, Bruckner (2002) nos traz algumas contribuições que consideramos importantes. Ele começa nos mostrando como o ideal de uma vida ascética, a preocupação prioritária com a “salvação da alma”, vai progressivamente se convertendo em um esforço, a fim de se encontrar a felicidade no mundo em que estamos. Para Bruckner, a assertiva de Voltaire “O paraíso terrestre é onde estou”, consubstancia muitos dos ideais modernos de felicidade, que já não podem mais ser transferidos para um local remoto e evanescente, mas que devem ser construídos no aqui e no agora. Por outro lado, a expectativa e o sonho da felicidade, conforme a



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entendemos, passar a estar cada vez mais presente, à medida que o heroísmo feudal vai cedendo terreno. Em verdade um projeto de vida baseado no sacrifício pessoal, seja por um ideal religioso, seja por um compromisso com o grupo social, vai fazendo cada vez menos sentido. A felicidade passa a ser algo da esfera do íntimo, do privado. A vida, antes vista como penitência ou um fardo, é agora exaltada e glorificada. O corpo, entendido como adversário, sobre o qual se devia manter controle, anuncia-se como o fiel companheiro, uma virtual fonte de prazer, de quem nos cabe cuidar e proteger. A felicidade passa a ser uma imposição, algo que não nos cabe não desejar, ao contrário, buscá-la passa a ser o sentido óbvio, uma lei natural.



Bruckner, no entanto chama-nos a atenção para três paradoxos, relacionados a esse projeto e mesmo imposição de ser feliz: em primeiro lugar a imprecisão. O que significa ser feliz? Que lugar é esse? Como saber se o encontramos ou não? Afinal, felicidade não é um algo, escapa à mensuração, nem pode ser alcançada por uma fórmula específica. Sua abstração é fonte de angústia, mas, ao mesmo tempo, à medida que é abstrata, ela favorece a sua perpetuação enquanto ideal. Ela mantém, como bem salienta Bruckner, tanto o conformismo - “o alinhamento com os prazeres da maioria”, quanto a inveja - “a atração pelos eleitos que o acaso parece ter favorecido”.

Na verdade, já tratamos desses pontos. O primeiro deles, quando nos referimos à impossibilidade de questionamento da ordem vigente, bem como do ideal de progresso, que são compreendidos como óbvios, levando a um conformismo e a uma equalização de nossos projetos e desejos, que são nivelados ao do “todo mundo”. O que temos é um retraimento dos investimentos coletivos, em favor de uma busca de felicidade na esfera do eu, local onde se afirma continuamente que ela se encontra.

O segundo ponto foi abordado quando nos referimos aos turistas, que revestem as suas vidas de uma áurea de felicidade e perfeição, convertendo-se em símbolos a serem invejados e seguidos. Naturalmente não temos como estar certos de que o outro - aquele que exibe a sua felicidade como um modelo a ser seguido, uma taça que o distingue dos demais -, é realmente feliz. Aliás, a pergunta surge de forma recorrente: o





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que é felicidade? Como ter segurança de que estamos no caminho correto, a fim


conquistá-la? E se eu acreditar que sou feliz, quando apenas estou me conformando com
uma existência medíocre? Ora, quando estamos falando de algo tão impreciso,
acabamos por necessitar encontrar algumas referências, que nos dêem um território
seguro. Nesse contexto, mais facilmente a felicidade pode ser “vendida” como um algo,
a partir de um conjunto de valores que ganham o contorno de hegemônicos, recaindo no
ponto que anteriormente tratamos. Buscamo-la em experiências capazes de trazer prazer
ou destaque, como bens de consumo, realização profissional, relacionamentos que nos
sejam agradáveis, beleza, dinheiro etc, ou então, em instâncias que nos sugerem
acolhimento e proteção, como a família, o casamento estável, a segurança material. Em
geral o projeto de felicidade que desejamos, de algum modo, alia os dois elementos
acima.

Cada um desses lugares, é, como já salientamos antes, fluido, o que impossibilita que se possa estar certos de que, de fato, o alcançamos. A sensação de “ainda não”, de premência, de insuficiência e, portanto, de angústia persiste. De qualquer forma, é exatamente em função da angústia que precisamos nos mover, nos manter em busca desse lugar idílico, chamado felicidade, onde existe a promessa implícita de que ela – a angústia - não estará mais presente, ou onde ela poderá ser definitivamente aplacada.
Será?

O segundo paradoxo refere-se exatamente a essa questão. Para Bruckner,
a felicidade, uma vez alcançada, se converte em tédio ou apatia. Isso porque, entendida tão fortemente a partir dos ideais do homem individualizado e intimizado, ela habitualmente se confunde com prazer. Na experiência do prazer, a busca em si e as inquietações por ela geradas, são tão ou mais importantes do que a própria satisfação. A morte do desejo, a saciedade, a ausência da angústia, que confere propósito e movimento, acaba se convertendo em falta de sentido. Para se manter, essa felicidade intimizada necessita de contraste, de variedade, ela não se sustenta sem a presença do refugo - os turistas necessitam dos vagabundos, muito mais do que, a primeira vista, eles poderiam supor.

O terceiro paradoxo refere-se ao papel da felicidade de disfarçar, neutralizar e manter distante o sofrimento. Em uma sociedade em que a felicidade, entendida como gozo e prazer, passa a ser o maior dos bens, tudo o que retarda ou dificulta de algum modo esse projeto passa a ser vivido como contrariedade e como fracasso. O dever e o sacrifício perdem o sentido, sendo considerados como elementos obstaculizantes, pedras a serem removidas, vivemos em busca de analgésicos do corpo e da alma, passamos a não tolerar nenhuma forma de dor. Para Brukner:




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