Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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fluidas, tem maior mobilidade e poder de escapar a apreensão, o que nos dá a idéia de estarmos lidando com algo sempre novo. Como répteis, que muito embora tenham um grande poder de adaptação e de mudança, continuam, a despeito das modificações estabelecidas em sua aparência, a serem, essencialmente, répteis.

Existem algumas miragens que tornam esse processo possível, que mantém todos a ele assujeitados. Talvez uma das mais fortes entre essas miragens seja exatamente a noção de um progresso permanente.


Progresso: miragem ou possibilidade?
Já tocamos nesse ponto anteriormente, nesse momento cabe-nos aprofundá-lo um pouco mais. Todo o sistema em que vivemos é baseado na noção difundida, explícita ou implicitamente, de que, primeiro não há outras alternativas, pode-se até aventar suavizações no sistema, modificações pontuais, aprimoramento em determinados pontos, mas não um outro caminho, uma outra forma que divirja essencialmente da que existe. Do ponto de vista econômico e político, o colapso das economias ditas socialistas, acabou por dar ainda maiores fundamentos para os defensores e formuladores dessas proposições. O movimento e a necessidade constante de “mudanças”, conforme já explicitado anteriormente, bem como a dificuldade de questionamento destes, quando estamos nele inseridos, só fortalece tal proposição.

Podemos, por exemplo, perceber que não estamos “dando conta”, que é difícil atender a todas as demandas, mas, normalmente, na mesma medida que o desejo é internalizado, o fracasso também o será. Ou seja, se eu não consigo, tenderei a ver o problema como meu, uma dificuldade particular, já que outros conseguem, outros são vitoriosos, outros podem. Dificilmente, colocarei em questão o próprio sistema, que me dispõe como uma peça de uma grande engrenagem, pronta pra ser substituída quando necessário. Esse processo de culpabilização é filho dileto do movimento de intimização, a que muitos autores, como Baptista (1999), nos chamam a atenção:



“Intimizar a vida quer dizer colocá-la para dentro, destituí-la da história das práticas humanas, esvaziando sua multiplicidade de formas e conexões. A partir daí, o público e o privado se dicotomizam em antagônicos espaços, reificam-se, e um eficaz aprisionamento efetua-se em lugares universalmente chamados de interiores. Interiores que se expressam em solitários e herméticos inconscientes ou personalidades,



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tornando a vida privada uma conquista individual à margem da história. (p. 34).

A intimização e a culpabilização, associadas à internalização dos desejos e a noção de um progresso permanente, acabam por se constituir em fortes elementos imobilizadores, a medida em que nos fornecem como alternativa, unicamente, um assujeitamento mais perfeito ou mais bem sucedido aos sistema de coisas a que estamos vinculados.

Além da máxima de que não há alternativas, a noção do progresso baseia-se em um outro elemento basilar, qual seja a idéia de que o progresso é inclusivo, de que será uma questão de tempo, até que todos estejam nele inseridos. Essa talvez seja uma das maiores falácias, se não for a maior, do sistema em que vivemos. Em verdade todo o sistema, e não nos referimos aqui meramente ao sistema econômico, mas mais do que isso ao conjunto de valores e sentidos, as verdades aceitas, ao modo enfim como a realidade é desvelada aos nossos olhos, pois bem, todo esse sistema baseia-se exatamente na exclusão, na produção de refugo.

O progresso jamais será para todos porque, simplesmente, não há lugar para todos e nem se deseja que haja. Não há lugar para todos, porque é economicamente inviável imaginarmos que poderemos difundir os níveis atuais de consumo e de utilização dos recursos naturais dos chamados “incluídos”, para o conjunto da população. Mas, ao mesmo tempo, não se deseja que haja tal inclusão, pois o sistema é baseado em uma visão individualizante do homem em que a sua satisfação e felicidade serão baseadas não na comunhão, mas sim na separação e destaque frente aos que nos cercam. A riqueza, a beleza, o sucesso e todos os demais ícones que passam a ser os valores maiores a serem alcançados por nossos contemporâneos, no fundo, somente tem sentido, quanto comparados à pobreza, à feiúra, ao fracasso etc.



Sendo o sistema essencialmente baseado na exclusão, ele está sempre a produzir um refugo, que é exatamente tudo aquilo que não têm condições de enquadrar-se em seu modelo organizador. Do ponto de vista econômico, poderíamos pensar nesse refugo como toda a massa de excluídos, personificados anteriormente pelos “vagabundos”. Do ponto de vista subjetivo, que é o que mais fortemente nos interessa no momento, o refugo poderia ser evidenciado na figura daqueles que não conseguem se adequar as demandas do sistema, não suportam a angústia, a incerteza, a pressa e acabam por se verem “doentes”.

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Voltaremos a essa questão em um momento posterior, por ora, cumpre-nos evidenciar como a idéia de um progresso permanente, acompanhada da noção de que estamos em um caminho óbvio e sem alternativas, esconde em seu bojo, exatamente a figura da ambivalência e do refugo, a fim de se legitimarem. Quando esse se faz muito evidente, ele acaba por ser neutralizado ou enfraquecido através da internalização da responsabilidade, a culpabilização, em que o problema passa a ser pessoal, um fracasso e uma fraqueza daquele que o vive.

Vai ficando claro que todo esse processo só se faz possível a partir de uma visão muito particular do homem, ou seja, um homem apartado do conjunto social, isolado na necessidade de dar conta de suas angústias e seus anseios.




O individualismo como marca do nosso tempo
Muitos autores têm chamado à atenção para essa característica do contemporâneo. Bauman, por exemplo, quando se propõe a pensar a incerteza em que vivemos, reflete sobre alguns movimentos que contribuem para a perpetuação do clima reinante. Além da desregulamentação, que acaba por destruir, como já salientamos, os modelos rígidos do passado, ele fala de uma perda das chamadas “redes de segurança”. Vejamos como ele trata do assunto:

“As outras redes de segurança, tecidas e sustentadas pessoalmente, essa segunda linha de trincheiras outrora oferecida pela vizinhança ou pela família, onde uma pessoa podia retirar-se para curar as contusões deixadas pelas escaramuças do local de trabalho - se elas não se desintegraram, então pelo menos foram consideravelmente enfraquecidas. A pragmática em mudança das relações interpessoais (...), agora permeada pelo dominante espírito do consumismo e, desse modo, dispondo do outro como a fonte potencial de experiência agradável (...). Os laços que ela gera, em profusão, têm cláusulas embutidas até segunda ordem e passíveis de retirada unilateral; não prometem a concessão nem a aquisição de direitos e obrigações.” (Bauman, 1998, p. 35).



Gostaríamos de ressaltar dois elementos que surgem da citação de Bauman: por um lado aquilo que estamos chamando de individualismo, ou seja, o fato de estarmos cada vez mais deixando de buscar os nossos sentidos e as soluções de nossos problemas, no conjunto social, na polis, que é progressivamente substituída pela “interioridade”, pelos territórios individualizantes, onde o “si mesmo” é reificado.



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Baptista (2000) tem um texto muito interessante sobre essa questão intitulado “Sujeitos e subjetividade na contemporaneidade: reflexões sobre o anestesiante espetáculo da diferença.” O autor estabelece alguns questionamentos e busca respondê-los, no decorrer do seu trabalho. A pergunta central parece ser o porquê de estarmos perdendo progressivamente a capacidade de insurgência, de levarmos as nossas experiências de espanto e estranheza para o campo coletivo, para o território da luta e do combate. Para pensar a questão, Baptista se utiliza das reflexões do filósofo tcheco arel Kosik, que vê como figura emblemática do nosso tempo Grete Samsa, irmã de Igor, do romance de Kafka “A Metamoforse”. Enquanto Igor ia sendo progressivamente metamorfoseado em barata, o esforço de Samsa era feito no sentido de esconder, de tentar manter entre as paredes do “lar” o incômodo capaz de trazer vergonha. Ao mesmo tempo, ela buscava o esquecimento, Igor já não era mais o seu irmão, já não devia ser considerado como tal, fora convertido em “isso”, uma “coisa” que devia ser desvinculada da imagem idealizada do irmão. Essa figura é contrastada com a de Antígona, heroína grega de Sófocles, que envolvida e determinada a sepultar o corpo de seu irmão Polinices, não reduz o problema a uma questão do privado, ao contrário, leva-o para o campo da polis, enfrentando as determinações do poder, tornando a sua inquietação algo coletivo.



O individualismo constituiu-se, desse modo, em uma verdadeira marca de nosso tempo. Não se trata aqui de tiranizar o presente e glamourizar os períodos que nos antecederam, numa “(...) nostalgia de um passado que nunca existiu (...)” (Silva, 2005). O nosso objetivo é, ao contrário deste, o de mostrar que cada época, cada articulação histórica tem os seus modos de experimentação do real, trazendo em seu escopo as contradições que lhe são próprias, que poderão se traduzir por modos diversos de estar “doente”. De qualquer maneira, podemos observar, mesmo entre autores que são mais entusiastas do tempo presente, como Lipovestky (2004) a sinalização da presença da incerteza e da angústia como elementos significativos de nossa era. Essa incerteza, e é importante que


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