Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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sensações variadas. O homem-consumidor estabelece com a vida uma relação absolutamente estética, em que a descartabilidade e o prazer, tem papel central. Como afirma Bauman (1999):

“Para os consumidores da sociedade de consumo, estar em movimento - procurar, buscar, não encontrar ou, mais precisamente não encontrar ainda - não é sinônimo de mal-estar, mas promessa de bem aventurança, talvez a própria bem-aventurança. Seu tipo de viagem esperançosa faz da chegada uma maldição”. (p.91)
Enquanto o movimento se mantém, enquanto existem premências e lugares a serem conquistados, os sentidos surgem como óbvios, muito embora eles se traduzam, em última análise, como a própria manutenção do sistema.

Bauman, no entanto, sinaliza-nos que nos movemos divididos, ou seja, como é absolutamente óbvio, o simples desejo do consumo não se traduz, necessariamente, em uma possibilidade real. Provocados que somos todos nós a nos compreendermos enquanto consumidores, somente uma parcela restrita do grupo social, tem realmente condições de sê-lo. Os que estão entre estes “eleitos” vivem dois movimentos distintos: por um lado, precisam apresentar o seu modo de vida como ideal, uma modelagem a ser desejada por todos; isso acaba por lhes garantir a segurança de estarem no lugar certo, fazendo e sendo o que devem ser. Por outro lado, vivem a angústia de perderem esse lugar, de se tornarem um como todo mundo, de serem destituídos da condição especial em que acreditam se encontrar. Já os que estão na posição dos excluídos, também são interpelados no sentido de se enxergarem enquanto consumidores, vivem o desejo de fazê-lo, mas não o podem, o que não os impede de aspirar tais condições, de estarem inseridos nesse contexto em que o valor pessoal é determinado pela possibilidade ou não de consumir. Naturalmente, que se estabelece aí uma tensão, que só não é maior porque o sistema não é, habitualmente, colocado em questão, já que o esforço, o foco, é dirigido para a possibilidade de se colocarem na posição de incluídos.



Pensando essa questão, Bauman descreve dois modos de subjetivação do contemporâneo - os turistas e os vagabundos - que se diferenciam em função do grau de mobilidade, bem como pelo acesso ou não ao consumo. Eles irão falar de subjetividades extremamente angustiadas. Veremos no “turista”, que é o personagem perfeitamente integrado à lógica do consumo das proposições neo-liberais, um sujeito volátil, colecionador de sensações, que tem na possibilidade de mobilidade, seja ela real



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ou virtual, um grande bem. Vive sob a égide de um eterno presente, onde passado e futuro não são mais importantes. De forma diversa do homem moderno, ajustado à ética do trabalho descrita por Weber, que tinha como norma o adiamento do prazer e a constituição de uma existência ascética, o que o “turista” pretende é eternizar o instante e usufruir o máximo de sensações que ele puder trazer; ao mesmo tempo, vive sob permanente angústia: sua fonte mais óbvia, conforme já explicitamos anteriormente, se dá pelo receio sempre constante, que é continuamente fortalecido pelas “verdades” difundidas pela nova estrutura social globalizada, de vir a perder o seu espaço, de tornar-se um “vagabundo” e não poder mais usufruir de todos os benefícios que a vida de “turista” lhe traz; não que a sua vida seja assim tão maravilhosa, mas a presença constante do “vagabundo” está sempre a lhe lembrar que a única alternativa possível - tornar-se um “vagabundo” - (ou a única alternativa que ele consegue enxergar como possível), é por demais aterrorizante.

Podemos observar no “turista” - que nada mais é do que o sujeito contemporâneo globalizado, confrontado com todas as incertezas do nosso tempo, angustiado frente à impermanência e à fragmentação - a busca do consumo como forma de escape do desconforto gerado pela angústia. Busca-se o consumo para aliviar a angústia, ao mesmo tempo que mais angústia precisa ser produzida e instrumentalizada para manter de pé a máquina produtiva. É necessário que se conserve a incerteza e a insegurança, tanto em relação à integridade física, quanto ao futuro, aos valores e às verdades. O que observamos são sujeitos tonteados frente às possibilidades de consumo, inebriados pelas novas e variadas sensações, esperançosos por uma realização que jamais virá e ao mesmo tempo tendo como sentido, muitas vezes de sua própria existência, esta esperança. O “turista” serve com perfeição a uma grande engrenagem, na qual ele é apenas uma pequena peça, iludido por uma noção de valor, de liberdade de escolha, de ter garantido o seu direito de consumidor e todas as outras máximas que, como cantos da sereia, envolvem o nosso personagem contemporâneo.

De outro gênero de angústia padecem os “vagabundos”. Sinteticamente já explicitamos anteriormente que, estando dentro de uma mesma construção social, alimentando-se de idêntica produção de valores, os anseios dos “vagabundos” não são assim tão diversos dos “turistas”, com a diferença de que a eles é negada toda possibilidade, se não de satisfação, por que esta ninguém parece ter, pelo menos da busca; a angústia do “vagabundo” é pela possibilidade de não poder e pela fantasia que é criada frente aos que podem. Estes revestem sua vida de uma aura tão brilhante, suas





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existências surgem como tão perfeitas e felizes que toda produção do “vagabundo”, sua vida e suas conquistas, parecem sempre opacas quando comparadas às daqueles.
Cabe-nos pensar, no entanto, qual o sentido de toda essa “mudança”, dessa
constante busca pelo novo e o conseqüente movimento em que estamos inseridos, mais do que isso, qual o papel da angústia nesse contexto?


Angústia e incerteza: instrumentos de movimento ou de imobilidade?
Quando comparamos a modernidade com a chamada pós-modernidade, ou como Bauman (2000) posteriormente passou a nomear, “modernidade líquida”2, não podemos afirmar que as velhas expectativas modernas foram definitivamente afastadas, em verdade elas continuam a atravessar os anseios pós-modernos. Não estamos tratando de uma ruptura, mas sim de uma transição que talvez seja mais aparente do que real. Até que ponto mudar tudo o tempo todo não é uma nova maneira de não mudar nada de fato? A esse respeito Arnold Gehlen (conforme citado por Gianni Vattimo) escreve:

“as capacidades humanas de dispor tecnicamente da natureza se

intensificaram, e continuam intensificando-se, a tal ponto que, enquanto novos resultados sempre se tornarão alcançáveis, a capacidade de disposição e de planejamento os tornará cada vez menos ‘novos’. Já agora na sociedade de consumo, a contínua renovação (das roupas, dos utensílios, dos edifícios) é fisiologicamente requerida para a pura e simples sobrevivência do sistema; a novidade nada tem de ‘revolucionário’ e perturbador, ela é o que permite que as coisas prossigam do mesmo modo.” (Vattimo, 1996, pp. XII e XIII)

O novo perde o seu poder de estranhamento, sendo convertido em hábito -


mudar passa a ser a regra primeira a ser seguida. Por outro lado, para que nada mude, para que as coisas permaneçam no mesmo lugar, mesmo que sob a roupagem da transformação, precisa-se fabricar a angústia, ou melhor, utilizar-se dela. Este processo se dá, como já salientamos anteriormente, através de um apelo constante à “liberdade individual”, uma ampliação das possibilidades apresentadas, uma ausência de certezas e de convites constantes a uma busca permanente - se estabelece uma necessidade de aprimoramento contínuo e uma preocupação, que poderíamos considerar desmedidas, com a excelência; a cultura é a da urgência - não se pode estagnar, o progresso precisa continuar, afinal ele parece ser a única garantia contra todas as incertezas. Forma-se um

2 O termo modernidade líquida expressa bem, a nosso ver, a fluidez que caracteriza a experiência

contemporânea.



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círculo vicioso em que a abertura às possibilidades (tanto as possibilidades de êxito quanto as de fracasso) produz angústia, que por sua vez, mantém a necessidade de não parar, como forma de buscar alguma segurança frente à incerteza. O resultado que temos, porém, é mais angústia. Nicole Aubert (1999), pensa esta questão em relação ao gerenciamento empresarial no que ela chama de “paradoxo do progresso permanente” - as empresas se vêem na necessidade de um constante progresso sob pena de não terem mais um espaço no mercado, a imperiosidade do progresso exige mais e mais rapidez por parte delas. Elas estão convencidas de que, se não progredirem, morrem; por outro lado, andar mais e mais rápido acabará por se tornar destrutivo, conduzirá a morte também : “Se nós não acelerarmos, morremos; mas se aceleramos mais, morremos também.” (p.96)

O que não se coloca em questão, o que não se tematiza é a própria necessidade de manutenção desse sistema e a urgência de nos ajustarmos a ele. Parece não haver alternativas; na era da fragmentação e do questionamento de todas as verdades, uma verdade reina soberana: o “progresso” é necessário e inexorável, ajuste-se a ele ou perecerá. Nos dias atuais, são os convites à liberdade e às possibilidades, instrumentos de manutenção da imobilidade, que vem travestida do novo, da mudança e é a angústia o combustível que mantém este sistema funcionando, não só pelo medo constante de perder o espaço alcançado, mas também por um apelo ao consumo como forma de realização pessoal. Aquele que, antes com um título universitário, sentia-se seguro em um emprego “estável”, aguardando nele manter-se até a aposentadoria, hoje é convocado à “reciclagem constante”, à “qualidade total”, à não-imobilidade. A simples escolha de um objeto de consumo torna-se angustiante, já que inúmeros são os artigos e variadas as formas de aquisição. Entretanto, para se manter entre aqueles que têm a possibilidade de escolher (que na sociedade pós-moderna são os que consomem) é preciso permanecer sempre atento, pois não há qualquer garantia. Surge a necessidade imperiosa do constante aprimoramento, a busca sem tréguas pela excelência . Já não é mais possível parar.

Muito embora deparemo-nos na chamada pós-modernidade, ou modernidade líquida, ou mesmo modernidade tardia (Giddens), com um convite constante a fragmentação e a mudança, em essência, ou seja, naquilo que fundamentalmente caracteriza os projetos de homem e de sociedade modernos e pós-modernos, não somos assim tão diferentes. Em realidade, as pretensões são muito semelhantes, elas apenas se sofisticaram, ganharam uma cunhagem diferente, são mais




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