Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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Sofre-se pelo tédio de uma existência linearmente traçada, bem como pela presença do interdito, que determina comportamentos, modos de pensar e de agir. A histeria surge como protótipo da patologia desse tempo, sobre a qual Freud gasta grande parte de seu tempo e de suas reflexões.



Obviamente, que esse não é mais o nosso tempo. O que marca o contemporâneo é uma desconstrução constante, uma ausência de certezas, uma indefinição dos modelos. Assistimos a uma progressiva dissolução das referências, antes sólidas, substituídas que são pela permanente transformação.

No lugar dos modelos rígidos do passado, temos agora mil possibilidades de sermos no mundo. A família, por exemplo, já não pode ser definida apenas a partir de um modelo patriarcal, em que um homem e uma mulher faziam votos “até que a morte os separasse”. Hoje podemos falar de variadas formas de uniões familiares, a família patriarcal ainda persiste, no entanto, vemos famílias dirigidas por mulheres, por dois homens, por duas mulheres, e mesmo aí existe uma enorme diversidade, sendo impossível a caracterização a partir de modelos uniformes. O mesmo raciocínio podemos utilizar para o papel desempenhado pelo homem e pela mulher; todos os dias vemos territórios anteriormente exclusivos de um dos sexos ser ocupado pelo outro, afinal o que é ser homem e ser mulher?

Utilizamos aí apenas um exemplo, mas se desejarmos nos estender em maiores observações, veremos que em praticamente todas as áreas do comportamento humano semelhante movimento pode ser observado. Os antigos modelos rígidos vão sendo progressivamente substituídos por formas mais imprecisas, difíceis de serem delineadas e, conseqüentemente, também difíceis de serem seguidas.

Vivemos aquilo que Bauman, parafraseando Giddens, chama de desencaixe: os portos seguros já não existem mais e foram substituídos por barcos a deriva, que já não tendo mais os modelos que os guiavam, precisam criar suas próprias referências em um mundo sem referências, tendo que fazê-lo por sua própria conta e risco. Pode-se dizer que perdemos em segurança, na mesma medida que ganhamos em





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liberdade. Esse ponto nos parece ser consenso, mesmo entre autores que, como


Lipovetsky (2005), são entusiastas e crentes nessa liberdade contemporânea.
A liberdade individual passa a ser o grande bem a ser defendido. Todos têm o
direito de fazer aquilo que desejam, todos devem ter a “liberdade” para tanto. Nenhum
comportamento, nenhum modo de pensar pode ser imposto ou deve ser previamente
estabelecido. Passamos a nos perceber como construtores do nosso próprio destino,
detentores desse grande bem que é nossa liberdade, que nos permite escolher tudo que
desejarmos.

Poderíamos nos perguntar, no entanto, porque o sistema não entra em colapso.


Estaria Freud redondamente enganado em suas asseverações? Ao contrário de suas
afirmações, seria possível sim, pensar em uma sociedade organizada, onde cada um
agisse em conformidade com o seu desejo? Estaríamos enfim livres de todas as
sujeições?

Teremos que voltar a esse ponto mais a frente, a fim de abordá-lo com maior


profundidade, por enquanto, entretanto cabe-nos afirmar que a noção de uma liberdade
irremissível, tão ao gosto da sociedade contemporânea, é muito mais miragem do que
fato.

Foucault, através dos ricos insights que teve, foi um daqueles e, talvez o mais importante deles, que nos ensinou que o poder é muito mais produtor do que interditor. Se Freud ressalta o papel da lei, da proibição, Foucault no conjunto de sua obra, nos chama a atenção para a produção do real, a constituição de uma realidade através das chamadas práticas do poder. Como salienta Foucault (1975):

“É preciso parar de sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele ‘exclui’, ele ‘reprime’, ele ‘recalca’, ele ‘censura’, ele ‘abstrai’, ele ‘mascara’, ele ‘esconde’. De fato, o poder produz; ele produz real; produz domínios de objetos e rituais de verdade”. (p. 196)

Podemos perceber que, para Foucault, as instrumentalizações de poder agem muito mais fortemente produzindo, no sentido de que elas moldam a realidade, os desejos e a própria subjetividade, do que através das interdições. Isso pode ser visto, por exemplo, no sistema de consumo, que cria modos de pensar e agir, estabelecendo processos de assujeitamento, assim como em atos aparentemente simples e despretensiosos, como a separação, já nas escolas, dos banheiros, entre feminino e masculino, que contribui na formação das identidades de gênero. Essa reflexão nos auxilia a compreender como os processos de assujeitamento foram progressivamente se



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sofisticando, de forma que os desejos historicamente constituídos, são internalizados, são tomados como pessoais, próprios, singulares. Essa internalização do desejo, associado ao completo desconhecimento desse processo, faz com que cada um aja exatamente como “deve” agir, em um movimento totalmente impessoal, acreditando que o faz como um exercício de sua liberdade individual, como um ato característico de sua singularidade.

O que estamos afirmando é que as interdições deixam de ser necessárias, ou ao menos tornam-se menos necessárias do que no passado, a medida que as modelagens passam a ser internalizadas e vividas como uma experiência individualizada, como um exercício da liberdade individual.

Vamos tentar deixar esse ponto mais claro: no passado, como já afirmamos anteriormente, existiam modelos definidos de família, de trabalho, de casamento etc; nos dias que vivemos eles não existem mais, ao menos da mesma forma. Essa afirmação, no entanto, não implica em dizer que não existam mais modelagens, modos de se comportar e de ser que ganham o escopo de privilegiados ou hegemônicos. A grande diferença, e esse nos parece o ponto que precisamos pensar, é que não há mais imposição, ao contrário, nos acreditamos livres, mas não percebemos que, até mesmo em função dessa ilusão da liberdade individual, somos compelidos a nos comportar de mil maneiras, só que tomando essas maneiras como produtos de nossos desejos, de nossa interioridade, de nossa subjetividade. Uma pessoa que vive preocupada com a forma física, em permanecer com o corpo perfeito, em estar sempre magra, não o faz por instrumento de imposição, que lhe determina que assim deve ser, ao contrário, ela toma esse anseio por ser magra, por moldar o seu corpo, com um desejo pessoal, individualizado. De modo idêntico, a preocupação com a beleza ou a juventude, que é uma das marcas de nosso tempo, e os significados do que são beleza e juventude, dificilmente serão associados às modelagens que os constituem, ou seja, aos artistas, a mídia etc. O indivíduo, simplesmente, quer ter o corpo que se assemelhe ao da figura idealizada, no entanto, ele não o faz porque a isso se sente obrigado, ele, ao contrário, toma esse desejo como fruto de sua interioridade, algo próprio e pessoal.



Para que todo esse processo se mova, ou seja, para que os indivíduos possam manter-se ajustados em seu ideário, um outro elemento, além da constituição e internalização dos desejos, necessita estar presente: a incerteza.



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A presença da incerteza: a manutenção do movimento

Esse ponto já foi abordado anteriormente, quando dissemos que a desconstrução
dos modelos rígidos acaba por se traduzir em uma dissolução dos portos seguros. Se o
casamento não é mais para “a vida toda”, como estar certo ou seguro de que os meus
investimentos afetivos serão recompensados? Como garantir a presença do parceiro
amoroso? Já não se pode mais estar tranqüilo com as “gordurinhas” a mais, é preciso ter
o corpo em forma, manter-se como alguém sedutor. Da mesma maneira, os homens não
podem contar com a presença de uma esposa submissa e livre de desejos, que não sejam
o de agradá-los. Torna-se necessário satisfazê-la sexualmente, ter o corpo “sarado”, ter
um bom papo, ser viril e ao mesmo tempo educado; é importante acima de tudo se
preocupar com ela, sondar as suas aspirações e vontade, sob pena de perdê-la, de ser
trocado, substituído. E como ser um bom pai ou uma boa mãe? Quais são os critérios
em um mundo sem modelos? Como estar seguro da educação que estamos dando?
Como era mais fácil no tempo em que bastava mandar e ser obedecido, quando não
havia nenhuma preocupação psicológica: se os filhos iriam “ficar traumatizados”, ou se
eles seriam ou não felizes. Como era mais tranqüilo quando a felicidade dos filhos
dependia deles, filhos, e não de nós, pais.

Em relação ao trabalho, as perguntas também são inúmeras e a ausência de respostas seguras ainda maiores. Afinal como ter garantias de que estou no caminho certo? De que terei “sucesso”? E mais, o que é o sucesso? Os lugares são fluidos, a necessidade de aperfeiçoamento constante, as habilidades valorizáveis pelo mercado em constante mutação. Ontem era necessário saber o inglês, hoje talvez isso não baste; é preciso um outro idioma, espanhol, francês, alemão, quem sabe, em um tempo bem próximo, o mandarim? Múltiplas são as possibilidades, diversos os caminhos. O fato é que não se pode estar parado, o movimento é imperioso. Mas seguir para onde? E se eu não estiver fazendo o suficiente? E se outro vier e tomar o meu lugar?A incerteza persiste. O temor nos cerca. Mas parece que esse temor não é de algo específico, ele não tem um objeto claro, ele se anuncia frente ao mundo de possibilidades que se abrem para mim, à medida em que me tomo e me percebo como alguém livre, que precisa escolher, fazer opções, definir caminhos, traçar horizontes. E isso tudo dentro de um contexto em que não há caminhos definidos, mas somente possibilidades, muitos pontos de interrogação, poucas conclusões. Fenomenologicamente, esse temor que não tem um




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