Passados sessenta e cinco anos que o mal-estar na civilização foi



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CAPÍTULO I


LIQUEFAÇÃO E INCERTEZA



Passados sessenta e cinco anos que O mal-estar na civilização foi
escrito e publicado, a liberdade individual reina soberana: é o valor
pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e a
referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e
resoluções supra-individuais devem ser medidas. Isso não significa,
porém, que os ideais de beleza, pureza e ordem que conduziram os
homens e mulheres em sua viagem de descoberta moderna tenham
sido abandonados, ou tenham perdido um tanto do brilho original.
Agora, todavia, eles devem ser perseguidos - e realizados - através
da espontaneidade, do desejo e do esforço individuais. Em sua
versão presente e pós-moderna, a modernidade parece ter
encontrado a pedra filosofal que Freud repudiou como uma fantasia
ingênua e perniciosa: ela pretende fundir os metais preciosos da
ordem limpa e da limpeza ordeira diretamente a partir do ouro do
humano, do demasiadamente humano reclamo de prazer, de sempre
mais prazer e sempre mais aprazível prazer - um reclamo outrora
desacreditado como base e condenado como autodestrutivo.
(Zygmunt Baumans)




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Capítulo I: Liquefação e incerteza

A problemática de nosso trabalho se refere à questão da angústia e, como veremos mais à frente, à questão da liberdade. Poderíamos abordar tal temática a partir de diversos vieses, o que seguramente já vem sendo feito, dada a importância que esse tema assume dentro do campo da Psicologia. Por questões de afinidade pessoal e por identificarmos a sua visão privilegiada, escolhemos o pensamento do filósofo Martin Heidegger para nos ajudar nessa tarefa.



Em Ser e Tempo, fazendo uma analítica da existencialidade humana, Heidegger inicia a sua investigação a partir do modo como cotidianamente se dá essa experiência, no âmbito do “todo mundo”, da indeterminação e da não singularidade, o que ele chama de impessoal. Utilizaremos semelhante método, ou seja, em um primeiro momento, que se constitui no capítulo que introduzimos, iremos fazer uma breve descrição do modo como tem se dado cotidianamente a experiência de sofrimento, mostrando, mesmo que bastante preliminarmente, como a angústia se apresenta nesse contexto. Compreenderemos, mais a frente, que esses são modos de manifestação impessoais da angústia, que ganha, na analítica estabelecida por Heidegger, uma dimensão privilegiada, conforme teremos a oportunidade de descrever.


Civilização, modernidade e mal estar
Em um texto clássico - O mal estar na civilização -, datado de 1930, Sigmund
Freud se propõe a pensar o advento do processo civilizatório. Para Freud a civilização
nasce de um interdito, é fruto da lei, envolve necessariamente a restrição da liberdade.
Ela limita o desejo, a satisfação dos instintos, da vontade pessoal e dá em troca
previsibilidade, segurança, ordem. De certa forma o que caracteriza o nosso tempo é a
inversão dessa equação, ou seja, o contemporâneo é marcado por um progressivo
aumento da liberdade individual com um decréscimo equivalente da segurança e da
previsibilidade. É com essa proposição que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman
(1998) introduz a sua obra O Mal-estar na Pós-modernidade. Utilizaremo-nos dessa
assertiva como um disparador da presente reflexão e para isso precisamos entendê-la
melhor.



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Quando Freud, busca refletir sobre o advento do processo civilizatório, que para Bauman é sinônimo de modernidade, ele ressalta que a possibilidade de construção de uma sociedade, conforme a entendemos, envolve a necessidade de interdição do desejo individual, a fim de que o interesse coletivo possa ser contemplado. Ou seja, uma sociedade não pode existir em um horizonte em que cada um busca unicamente a satisfação de seus desejos e instintos, sendo necessária a figura da lei, como forma de coibir o interesse individual. Fica implícito nessa proposição o fato de que, na constituição do processo civilizatório, existe uma necessária restrição da liberdade individual. Tal restrição é conseqüência natural da interdição do desejo. A perda da liberdade, no entanto, vem acompanhada de um ganho, que é exatamente o aumento da segurança, da previsibilidade, da ordem. É impossível pensarmos em modernidade sem termos esses indicadores como elementos basilares de seu projeto constituidor. Em seus pressupostos está implícito um modelo de sociedade marcada pela regulamentação, uma ausência de ambivalências, um mundo em que cada coisa tem o seu lugar específico e previamente estabelecido1. Dentro dessa perspectiva serão consideradas mais “civilizadas” as sociedades que são capazes de garantir o cumprimento perfeito dos interditos, muito especialmente, se eles forem legitimados por um sistema “democrático” de direito.



No plano do comportamento teremos modelos rígidos - de família, de casamento, do papel do homem, da mulher, da criança, do professor, do aluno etc. No campo do trabalho, deparamo-nos com saberes imutáveis, com a valorização da experiência, da disciplina, da capacidade de seguir sem maiores questionamentos os princípios das organizações. Esses modelos nos dão segurança, nos conferem um território, eles nos permitem saber onde estamos pisando, nos ditam como devemos lidar com os que nos cercam, bem como conosco mesmo. A regulamentação restringe a liberdade de construirmos nossas próprias modelagens pessoais, mas nos dá, muitas vezes, falsas certezas de termos um maior controle sobre o devir. Os casamentos são para a “vida toda”, sabemos exatamente como nos portar com os nossos filhos, temos a exata noção do que cabe ou não cabe para um homem, do que se pode e do que não se pode esperar de uma mulher. Adicionalmente, podemos estar seguros de que uma vez empregados e desde que não cometamos nenhum deslize maior, teremos o nosso emprego até a aposentadoria. Melhor do que isso, uma vez aprendido o nosso ofício não
1 A arquitetura moderna, cujo nosso exemplo maior é a cidade de Brasília, de forma alguma contradiz a

nossa proposição.



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precisamos nos preocupar com reciclagens constantes, pois o fundamental é se saber exatamente como se faz e, a partir daí, executar o aprendido.

Nesse horizonte o cumprimento dos deveres estabelecidos pelo todo social, seja através de regras explícita, ou pela obediência aos modelos previamente constituídos, tem papel de grande relevância, sendo, muitas vezes, mais importante do que a satisfação do desejo pessoal ou do que a idéia e a valorização da liberdade individual.

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