Para recordar os velhos bambas do samba carioca



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PARA RECORDAR OS VELHOS BAMBAS DO SAMBA CARIOCA

Documentário resgata canções quase perdidas da Velha Guarda da Portela

Márcio Rodrigo

Gazeta Mercantil - São Paulo / 29/08/2008

Gramado (RS), 29 de Agosto de 2008 - Sentada comodamente enquanto faz suas unhas em um salão de beleza em Oswaldo Cruz, zona norte do Rio, a cantora Marisa Monte conversa com velhas pastoras do samba portelense. Ali, num clima de total intimidade com uma das maiores intérpretes da MPB atual estão mulheres como tia Surica, tia Doca e tia Eunice, três legítimas entidades vivas da Portela, escola de samba fundada em 1923 por Paulo Benjamim de Oliveira (o Paulo da Portela), Antônio Caetano e Antônio Rufino.

Espectadores mais maliciosos poderiam pensar que Marisa se permitiu ser filmada assim apenas como mais um golpe de marketing promocional, destes que são tão comuns no show business nos dias de hoje. Mas, portelense desde criança, a cantora tem com a agremiação carnavalesca - maior campeã do carnaval carioca, com 21 títulos ganhos - uma história de envolvimento estreito que só se intensificou na última década, desde que iniciou pesquisa histórica de velhos sambas portelenses para a gravação do CD "Tudo Azul", lançado em 2000.

Como resultado desta vasta pesquisa, a cantora conseguiu reunir mais de 100 canções inéditas, quase esquecidas de portelenses históricos como Casquinha, Jair do Cavaquinho, Monarco - que no início deste mês foi diagnosticado com a Síndrome de Guillain-Barré, uma doença pouco comum na qual os nervos periféricos se deterioram - e seu Argemiro, muitas delas compostas entre os anos 40 e 50. Só que em vez de gravar uma série de CDs, a diva preferiu com a ajuda dos diretores Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, filha de Arnaldo Jabor, da Conspiração Filmes, transformar o material no documentário "O Mistério do Samba", que tem estréia agendada para hoje em Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio, Salvador e São Paulo, depois de ser exibido na última edição do badalado Festival de Cinema de Cannes e também em sessão especial no 36 Festival de Cinema de Gramado.

O resultado do filme é tão bom e comovente quanto a homenagem que Lírio Ferreira e Hilton Lacerda conseguiram ao homenagear o fundador e alma da Estação Primeira de Mangueira, no documentário "Cartola", de 2007. É inegável que Carolina e Lula foram menos ousados esteticamente ao produzir e montar "O Mistério do Samba" do que a dupla que homenageou o mangueirense histórico. Mas o documentário da Conspiração tem o louvável mérito de dar voz e resgatar a história da vida dos membros da Velha Guarda portelense enquanto boa parte deles ainda está viva. Um prodígio, num País que só costuma lembrar de seus artistas, principalmente os populares, depois que eles estão mortos.

Com Marisa Monte como a condutora de boa parte das entrevistas, o longa percorre as ruas de Oswaldo Cruz e apresenta a Velha Guarda fazendo aquilo que eles sabem fazer de melhor: tocar samba. Seja na quadra da agremiação ou na casa de figuras lendárias, como seu Argemiro, Marisa, algumas vezes acompanhada por Paulinho da Viola - outro portelense histórico - ou pelo malandro Zeca Pagodinho consegue levar toda a trupe a cantar de maneira descontraída e espontânea, o que dá ao público que assiste ao filme a sensação de estar ali também presente, cantando samba com os bambas.

As pastoras da Portela já haviam sido homenageadas pelo cinema no curta-metragem "Batuque na Cozinha", de 2004, realizado por Anna Azevedo, que mostrou com deliciosa ginga o que é uma feijoada com roda de samba no quintal de tia Surica. Desta vez, a ala masculina da Velha Guarda também tem sua vida esmiuçada. É impressionante por, exemplo, perceber a vitalidade e toda a (boa) malandragem de Monarco, que já ultrapassou a barreira das sete décadas de existência.

Nada é mais saboroso e comovente em "O Mistério do Samba", no entanto, do que ver tia Eunice, uma das integrantes mais antigas da Velha Guarda, ensinando a meninas no barracão da Portela a dançar um "miudinho". Sem esconder o peso dos anos, a pastora mostra com classe e elegância legítimas de uma passista nata como se deve proceder para encantar o público sem em nenhum momento ter que apelar para rebolados ou passos mais vulgares. Quando se vê tia Eunice dançando e cantando samba com tanta vitalidade, torna-se mais fácil compreender por que a escola azul e branco do subúrbio carioca é uma das maiores campeãs do Rio.

Realizando um belo trabalho de resgate da memória de portelenses históricos, sem em nenhum momento apelar para a nostalgia ou o sentimentalismo raso - recurso fácil de ser usado num documentário deste tipo - "O Mistério do Samba" faz a águia da Portela, símbolo máximo da escola desde a década de 30, novamente bater asas e levantar as arquibancadas, sejam elas formadas por um público erudito ou popular.



No final do filme, mesmo aqueles que não são portelenses de coração são conquistados pela agremiação e pela poética história de vida de seus membros mais antigos. Enquanto a Portela adota como enredo do próximo ano o tema "E por Falar em Amor, Onde Anda Você?" todos os brasileiros deveriam ir ao cinema ver "Mistério do Samba" para ajudar a desvendar os motivos que transformaram o Carnaval numa de nossas festas mais importantes.

(Gazeta Mercantil/Fim de Semana - Pág. 2)(Márcio Rodrigo)


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