Pacto de sangue



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PACTO DE SANGUE

E OUTRAS HISTÓRIAS DE TERROR


JOÃO ANATALINO

PACTO DE SANGUE

E OUTRAS HISTÓRIAS DE TERROR


Índice
Memórias de um Defunto Ateu

Não Saia de Casa Esta Noite

O Ritual da Perda

A Imagem do Terror.

A Chacina do Pavilhão 9

O Piloto do Airbus

Mensagem do Futuro

Roleta Russa

A Estratégia do Diabo

A Escolha do Provedor

Vingança Diabólica

O Estranho Caso do Alfaiate 

O Morto Antecipado

Crônica de um Assassinato

O Comprador de Almas

Um Amor dos Infernos ─ Lenda Medieval

O Outro

A Vida, a Morte e a Lei de Murphy

Galinhas Destroncadas

A Morte Quântica

O Boêmio Defunto

Brincadeira Macabra

Pacto de Sangue


PACTO DE SANGUE


 
Eu sou um homem cinquentão e já muito vivido. Também não sou ingênuo em questões de sexo e suas consequências. Hoje, quem pega AIDS ou outra doença sexualmente transmissível é pessoa muito relaxada, que não dá a mínima para as medidas preventivas que estão á disposição de todos, por preços bastante acessíveis. Na minha adolescência e juventude, as coisas eram mais difíceis. Camisinha custava caro e os comprimidos anticoncepcionais eram muito difíceis de obter. Isso inibia muito as aventuras sexuais, principalmente por parte das garotas, por que uma gravidez indesejada tinha muito mais apelo coercitivo do que as inúteis aulas de educação sexual que se davam nas escolas, e as parlapatonices dos padres e dos pastores em suas igrejas.

Sexo é uma função do organismo, e quando a hora chega, não há Cristo que consiga inibir esse apelo mágico que nos vem das nossas mais profundas raízes. Os animais tem uma marca distintiva que identifica quando a função sexual está aflorando nos seus organismos. Essa marca é identificada pelo cheiro que a fêmea exala quando está no cio. Essa é a diferença que existe entre os seres humanos e os animais. Enquanto estes últimos só têm o seu desejo despertado no momento em que seus organismos são eliciados por essa âncora olfativa, os seres humanos são excitados em qualquer momento, muito mais pela fantasia que seus inconscientes articulam do que por âncoras fisiológicas mesmo, ligadas ao instinto da procriação.

Nesta cama de hospital, onde sinto escorrer das minhas veias, junto com o sangue que parece secar aos poucos, como um açude que as chuvas deixaram de alimentar, os meus últimos momentos de vida, não posso deixar de pensar nesse assunto. Recordo meus dias de juventude, quando o maior temor que tínhamos, em relação ás nossas descomprometidas aventuras sexuais era pegar uma gonorreia ou outra infecção qualquer, que acabava sendo curada com penicilina. Era até motivo de orgulho pegar uma dessas doenças. Servia como prova de machismo, um sinal da iniciação sexual, que ninguém podia contestar.

Nunca peguei nenhuma doença sexual transmissível e dou graças a Deus por ter sido poupado desse “selo” probatório de perda de virgindade. Em virtude disso consegui casar bem e produzir uma família saudável. Mas isso não foi porque eu tivesse tido uma vida sexual bem comportada e procurado evitar a natural promiscuidade que sempre rodeia a juventude iniciante nessa fase da vida. Foi, talvez, a sorte, que não me levou á cama de uma prostituta contaminada, para deixar no meu sangue o vírus de uma moléstia qualquer, que queiramos ou não, por mais que os remédios a mantenham controlada, permanece para sempre no nosso organismo, só esperando uma chance para se manifestar. No entanto, aqui estou, nesta cama de hospital, esperando pelo momento final, que eu sei que está muito próximo, e mais que isso, causado por uma aventura sexual, que eu jamais esperaria ter neste momento da minha vida.

Não. Não peguei o vírus do HIV, se é isso que você está pensando. Não adquiri a síndrome da imunodeficiência adquirida, mal do século, que alguns religiosos fundamentalistas sustentam ser um dos quatro Cavaleiros do Apocalipse, previstos no texto cabalístico do velho profeta de Patmos, que criou o nosso fascínio pela Besta e impregnou o nosso inconsciente com o medo do Apocalipse. Eu peguei mesmo foi outra doença, mais mortal que a AIDS, que vai levar a minha vida atual, mas em troca vai me dar, segundo quem me a transmitiu, outra vida, esta, porém quase eterna...

Tudo bem, se for isso mesmo. Afinal não é isso que prometem todas as religiões? Outra vida após á morte? Só que isso ninguém provou ser verdadeiro. Cristãos e muçulmanos estão se matando uns aos outros há milênios em troca dessa quimera. Hindus se enterram em vida em busca desse sonho. Milhões e milhões de pessoas se imolaram ao longo da história, na esperança de encontrar essa porta que dá para o outro mundo, e nele poder viver a continuidade da existência. Tudo ilusão, apenas uma doce ilusão que os espertalhões de batina, os estelionatários do púlpito e os covardes que não têm coragem de encarar a vida como ela é ─ uma verdadeira luta pela sobrevivência─ inventaram para justificar, os primeiros a sua maneira de ganhar a vida, os segundos a sua inapetência para viver.

Eu, porém, sei que essa vida após a morte existe. Tenho tanta certeza disso agora quanto o fato de ter vivido a minha vida anterior, de ser humano. Pode ser que eu esteja entrando em uma aventura terrível, temerária, onde o horror eterno seja o prêmio e não o prazer que me foi prometido. Que essa vida após a morte, que eu conquistei, seja mais uma maldição do que uma benção. Mas pelo menos, quem me prometeu essa vida, não eterna, mas durável enquanto houver humanidade ─ e por consequência, sangue ─ não foi um pretenso deus morto, nem um profeta esquizofrênico, ou mesmo um esquelético guru que escolheu matar os prazeres da vida ao invés de estimulá-los e gozá-los em toda sua plenitude. Ao contrário, foi uma criatura que realmente sabia do que estava falando e podia provar que estava falando a verdade e não simplesmente teorizando sobre coisas que nunca viu e sensibilidades que nunca teve.

Como efetivamente fez.

Tudo aconteceu há algumas noites atrás. Explico. Eu fiquei viúvo há cerca de um ano. O mal de enviuvar cedo é que as nossas ilusões, as nossas fantasias, a nossa libido, e consequentemente, os nossos desejos, não morrem com a pessoa que as alimentou durante tempo. Eles permanecem vivos e nos incitam a procurar sustento em outra parte. Quando a gente tem a sorte de encontrar logo uma parceria que preencha essas necessidades, tudo bem, mas quando isso não acontece, a gente se torna um vampiro neurológico á caça dessas substâncias necessárias para nos manter no estado que convencionamos chamar de ser humano.

E sucede de acontecer o que aconteceu comigo. Imaginem um cinquentão como eu numa dessas casas noturnas onde os jovens se encontram hoje.  Uma balada, um rolê, sei lá do que mais chamam isso. Eu fui lá á caça de uma parceira para uma noite de prazer. E eu estava lá, sentado numa cadeira em frente ao bar ─ porque é o único lugar próprio para um cara da minha idade ficar, num ambiente desses ─ e de repente, ela surgiu ali, como se tivesse saído do nada. Sentou-se ao meu lado, sorridente, fresquinha, uma menina linda, cheirosa e ‘facinha” como se costuma dizer nesses ambientes.

─ Me paga um drinque ? ─ perguntou ela com um sorriso ambíguo, de menina travessa.

─ Claro, peça o que quiser ─ respondi com cara de tio desconfiado. Uma menina de rosto quase angelical, novinha, gostozinha como aquela, o que podia querer comigo?

─ Me dá um bloody-mary ─ ordenou ela ao garçom.

─ Você não é muito jovem para beber isso? ─ perguntei.

─ Você não acreditaria se eu lhe dissesse que idade eu tenho ─ respondeu ela com um sorriso mais melífluo ainda.

Olhei para ela tentando adivinhar que idade teria. Não mais que dezesseis ou dezessete, conclui. Tudo bem. Hoje em dia são tantos os recursos de maquiagem, de cirurgia plástica e outras bruxarias tecnológicas que as mulheres usam, que a idade deixou de ser uma informação detectável pelo sentido da visão. E depois, a parca luminosidade do ambiente talvez contribuísse para a visão distorcida que eu poderia estar tendo a respeito da idade dela. Eu não queria me sentir um pedófilo á cata de carne nova para saciar meus instintos libidinosos. Então pensei que seria mais confiável buscar informação pelo conteúdo que saia da cabeça dela do que pela mensagem visual que a aparência nos transmite. Levei a conversa para assuntos que achei, não interessaria a uma menina da idade dela.

Surpresa. Aquela menina parecia ter uma longa vida de experiências e aprendizagem. Se não, pelo menos devia ter lido muito, que é outra forma de se forjar uma vida interior. Pois ela tinha uma conversa de mulher adulta, a quem o mundo já parecia ter ensinado tudo, e muito mais.


Para um homem da minha idade e condição, se ver na cama de um motel com uma garota que poderia ser sua neta ─ pelo menos na aparência─ deveria ser algo que mataria de inveja muitos cinquentões do meu círculo social. E principalmente pelo que aconteceu entre nós naquela noite, coisa que nem nas minhas mais loucas fantasias eu julguei que um dia poderia me envolver em uma situação real.

Coisa de filme de Hollywood, aquilo. Depois do sexo, que foi um dos melhores que já tive, veio aquele ritual. Ela me propôs um pacto de sangue.

─ Como é isso?─ perguntei,  antecipando o prazer que aquela cabecinha linda estaria maquinando para tornar ainda mais prazerosa aquela aventura. Sim. Não pude deixar de pensar nos comportamentos malucos que a nossa libido, muitas vezes, nos inspira, para fazer com que o sexo se torne ainda mais prazeroso, associando a ele fantasias eróticas e, não raro, até sádicas. Há pessoas que gostam de algemar seus parceiros, de bater neles, ou apanhar deles de chicote, derramar e beber champanhe nas partes íntimas do parceiro (um conhecido meu gostava de derramar iogurte na vagina da parceira e depois lamber).  Coisas que nem o Marques de Sade teve a imaginação de inventar.

Mas um pacto de sangue era novidade para mim. Coisa simples, disse ela. A gente ia simplesmente beber um pouco de sangue um do outro. Um pequeno corte no dedo dela, e no meu;  ela chupava meu dedo, eu o dela. Isso enquanto fazíamos sexo. No estado em que eu estava, tudo me pareceu muito excitante. Tanto que depois dessa experiência vampírica, eu, um homem com mais de cinquenta anos, ainda fui capaz de mais dois orgasmos naquela noite.

─ Você sabia que a seita dos naassenos bebiam o sangue uns dos outros em seus rituais? ─ disse-me ela, com aquele sorriso ambíguo que havia me cativado. ─ Eles faziam isso porque acreditavam que o sangue continha a essência que lhes daria a vida eterna.

─ Eu já li alguma coisa a esse respeito. Houve também uma dessas seitas malucas que bebiam esperma com mesma finalidade ─ respondi, sem envolver muito minha mente nessa questão. Foi apenas uma resposta sugerida pela bizarrice do assunto, inimaginável para uma garota como aquela. Mas era verdade. Eu tinha lido mesmo alguma coisa sobre esses bizarros rituais praticados por seitas secretas da Idade Média, e para mim era apenas uma curiosidade libidinosa que só servia para encher linguiça numa conversa sem propósito.

─ Eles tinham razão ─ disse ela.

─ Tinham? ─ perguntei, sem mostrar interesse no assunto, que me parecia completamente fora de propósito para aquela hora, local e situação.

─ Você verá por si mesmo ─ disse ela. Então picou o meu dedo e chupou-o com tanta volúpia e sensualidade, como havia feito antes com outra parte da minha anatomia. Depois, fez o mesmo em um dos seus próprios dedos e o introduziu nos meus lábios, fazendo com que eu provasse do seu sangue. Era quen- te, ácido, de cheiro ocre e gosto adocicado. Renovou as minhas energias e estimulou a minha libido. Nem uma dose maciça de Viagra faria o que o sangue dela fez pela minha virilidade.

Eu estava naturalmente bem cansado. Tanto que nem me dei conta do tom e da forma como ela falou. Até porque, em seguida, cai num sono tão profundo, como há muito eu não tinha tido.


Acordei nesta cama de hospital. Foi a moça que arruma os quartos do motel que chamou a ambulância que me trouxe para cá. Ela me encontrou pela manhã, praticamente sem forças, com uma febre beirando os quarenta graus, falando coisas desconexas e sem qualquer noção de identidade e lugar onde estava. O médico que me examinou não foi capaz de fazer um diagnóstico preciso da minha doença, mas identificou que o meu organismo estava com pelo menos dois litros de sangue abaixo do normal para um homem do meu tamanho e com o meu estado físico. Notara o corte no meu dedo, mas duvidava que um ferimento tão pequeno fosse a causa dessa sangria.

Perguntei pela moça que estivera comigo no motel na noite anterior. A informação da portaria foi que eu entrara sozinho. Não havia qualquer sinal de que alguém passara a noite comigo. E seria impossível alguém ter deixado o motel sem que a portaria tivesse conhecimento. A segurança, naquele motel, era o item de maior qualidade que eles possuiam. Aliás, as câmaras registravam que eu entrei de fato sozinho, na suíte, e que no carro não havia ninguém comigo.

Não tem problema. Eu estou calmo. Eu já tinha entendido tudo. Estou neste hospital faz sete dias e sete noites. Foi o tempo que ela disse que a coisa ia durar. Que eu não me preocupasse nem ficasse com medo. Que depois disso seria apenas o eterno prazer de uma vida completamente sem dores, sem angústias, sem culpas nem quaisquer outros sentimentos que tanto infelicitam um ser humano.

Sei que esta será a última noite desta minha vida. Não estou com medo. Os meus amigos e parentes têm me visitado durante o dia, e á noite, quando as visitas são proibidas, ela sempre está aqui comigo. Não me deixou passar sozinho uma noite sequer.

Nem pergunto ás enfermeiras, ou aos médicos, ou a quem quer que seja, se a viram. Eu sei que todos vão dizer que nunca viram aquela menina lourinha, quase adolescente, de olhar angelical, me visitando. Ainda mais á noite, quando as visitas são proibidas.

Os meus parentes e amigos se espantam com a aparência mumificada que eu apresento agora. É a aparência de um homem que já não tem mais sangue em seu corpo. E os médicos que tem feito tudo para descobrir o que eu tenho, estão mais espantados ainda com a constatação que fazem, que a cada dia que passa, meu sangue parece sumir, na medida de um litro por dia. Não sabem como isso pode acontecer. É uma moléstia totalmente desconhecida, que eles não conseguem diagnosticar a causa. Pobre sabedoria humana, que não sabe que entre o céu e a terra há muito mais coisas que a nossa limitada imaginação nem ousa supor. O ferimento do meu dedo sempre está aberto pela manhã. Isso também eles não conseguem entender, porque á noite fazem um curativo, e ele parece estar seco. Mas pela manhã está sempre sangrando.

Mas o que mais os médicos, os parentes e amigos que me visitam estranham, é o semblante que eu aparento pela manhã, mesmo nestas últimas horas desta minha vida. É aparência de quem acorda no dia seguinte á sua noite de núpcias. De quem passou a noite tendo deliciosos orgasmos. E melhor ainda, aparência de quem realmente tem certeza de que há uma outra vida, e que ela começará na primeira noite após o dia em que o meu corpo for depositado naquele túmulo. Eu sei disso porque ela me prometeu que assim será, e ela está ali, me esperando para começar essa nova vida comigo. E enquanto houver sangue na terra nos estaremos vivos. Por que então eu terei me libertado das leis da vida para viver segundo as leis da morte.
MEMÓRIAS DE UM DEFUNTO ATEU

“ Ah! Eu sei por quê vocês estão aqui. Sei bem por quê vieram. Querem ver se é verdade que esse cara que está ai, deitado nessa cama de flores, com esses chumaços de algodão no nariz e essa cara de quem dormiu no serviço sou eu mesmo. Se desta vez é verdade que eu bati as botas, que não foi mais uma das minhas ensaiadas de defunto, igual ás que andei fazendo nestes últimos dois anos, desde que descobri que estava com esse maldito câncer nos testículos.”

“Sim, eu sei. Que lugar mais desgraçado para se ter um câncer! Parece até praga de mulher que foi traída a vida inteira pelo marido e só veio a descobrir que ele tinha uma amante quando ele já não podia mais satisfazê-la na cama. Mas não foi isso que aconteceu comigo. Foi desleixo mesmo. Homem tem dessas coisas. Sempre acha que nunca vai acontecer com ele. Por isso não se previne, não faz exames periódicos, não se examina, como as mulheres comumente fazem com seus corpos. Ficam constrangidos com outros homens apalpando seu saco, enfiando o dedo no seu rabo, investigando suas intimidades e quando se dão conta da sua imbecilidade já estão com a próstata comprometida ou com os testículos do tamanho de um ovo de galinha.”

“Foi o que aconteceu comigo. Percebi que havia um caroço no meu testículo esquerdo e não dei bola. “Deve ser um quisto queratinoso” pensei, uma tumefação de pele, coisa que eu, um indivíduo de pele oleosa, sempre tive. Na minha juventude sofri “pacas” com os tais furúnculos, tumores purulentos que costumavam estourar em todos os lugares do meu corpo, principalmente na testa e na bunda. Quando adolescente meu rosto parecia a superfície da lua: cheia de crateras. Depois que fiquei adulto e principalmente quando entrei na chamada maturidade, parei de ter essas infecções de pele; por isso talvez não tenha dado bola á calosidade que apareceu no meu saco trazendo essa sentença de morte que os médicos conseguiram adiar por uns dois anos, mas que no fim tive que cumprir sem remédio.”  


“ Médicos são profissionais engraçados. Alguns pensam que são deuses, outros têm certeza que são. O meu médico me submeteu a horríveis seções de quimioterapia que me transformaram em um verdadeiro zumbi. Fiquei carequinha de tudo. Durante um tempo tive nojo de tudo. De comida, de bebida, de gente, até de sexo. Eles diziam que tudo isso passaria, que era apenas uma reação do tratamento. Que logo eu iria recuperar até o meu apetite sexual, pois um homem com cinquenta e dois anos, como eu, ainda tinha muita testosterona para queimar.

“Essa foi a pior parte. Acreditar que eu podia ser curado. Eu sou advogado, ou melhor, era. Quando um cliente aparecia no meu escritório com um caso desesperado eu não ficava dando falsas ilusões para ele. Mas os médicos fazem isso. Advogados não são deuses que tudo pensam poder. Até porque nós sabemos que no sistema judiciário, se há alguém que sofre de empáfia reivindicatória de direitos celestes, não é o advogado, mas o juiz. Este sim, quando está sentado no Olimpo da sua arrogância, sente-se um Zeus atirando seus raios egrégios sobre os pobres mortais que pediram a sua tutela. Mas o juiz, ainda que na plenitude da sua potestade, será sempre um deus menor porque haverá depois um deus maior atrás dele, que pode revogar sua sentença, ou adiar sua execução indefinidamente, pelo menos neste nosso sistema jurídico onde o direito e a justiça costumam sempre se divorciar no curso do processo. Deus, se ele existir como entidade, não seria assim. Ele seria um juiz inflexível, que uma vez prolatada a sentença, ela será irremediavelmente cumprida, façam o que façam os nossos heroicos defensores da vida.”

“Engraçado que essas elucubrações me venham justamente agora. Eu, que nunca acreditei que Deus existisse estou agora como que admitindo que ele pode existir. Mas é assim mesmo. Já me haviam dito que ateus não existem. O ateísmo é a negação da existência de Deus mas para que a gente possa negar alguma coisa é preciso antes admitir a possibilidade da sua existência. Porque nossa mente é dialética e não consegue construir nenhum conhecimento sem um processo de afirmação e negação."

"É o que estou pensando aqui, deitado neste esquife cheio de flores. Se estou morto é porque já estive vivo. Não teria morrido se não tivesse nascido. Espalhei amor e ódio pela vida e as pessoas que estão aqui vieram por uma dessas causas. Para lamentar a minha morte ou para saborear o fato de que morri. Vejo alegria e tristeza no coração e na mente das pessoas que estão velando o meu corpo."

"Decerto que o meu pensamento, que agora sei, é o que as religiões chamam de espírito, não está mais no meu corpo. As pessoas que estão aqui não podem ver, mas se pudessem veriam que ele é uma espécie de esfera brilhante que saiu do meu cadáver assim que o cérebro deixou de emitir sinais vitais para os circuitos da minha rede nervosa e todos os meus órgãos deixaram de funcionar. Salvo as células que continuarão vivas por algum tempo e que farão ainda o meus cabelos e as minhas unhas crescerem enquanto as minhas carnes forem apodrecendo. Isso também não será um processo muito demorado por que restou tão pouca matéria no meu corpo para ser consumida. Eu só gostaria de ver o espanto dessa gente que está aqui, velando meu cadáver, se daqui há dois ou três meses eles abrissem o meu caixão e encontrassem um esqueleto cabeludo e com unhas do tamanho das do Zé do Caixão. Que susto eles não iriam levar ao ver que na morte os cabelos que o câncer me comeu em vida me foram todos devolvidos com juros e correção monetária do tempo em que o Sarney era o presidente do país.”

“Perdoem-me a ilação, mas enquanto a energia desta esfera de construções mentais, que é o meu espirito, não se esgotar, eu ainda vou pensar como o advogado que eu fui. Morri sem ver a sentença final de vários processos que ajuizei nos tempos da ditadura militar. Em nosso complicado sistema jurídico alguns processos acabam sendo mais longos que a vida de um homem.”

“É isso que acho engraçado. Daqui, de onde estou, ora pairando sobre a testa do meu cadáver, ora girando em volta do coração, ás vezes subindo como um balão de gás que se solta e fica preso ao teto, eu posso ver todos os corações e cérebros das pessoas exatamente como eles são. Centros pulsantes de energia, que expelem fluxos de sangue e eletricidade para todo o corpo, em forma de líquidos pastosos e centelhas luminosas. É bonito e aterrador ao mesmo tempo. Vejo como as chispas elétricas que a química do cérebro expele formam pensamentos e como os pensamentos se transformam em ações. Aquele sujeito ali está com a bexiga cheia e está pensando que quer mijar. Aquela moça está incomodada com o fluxo menstrual que está para chegar. Quer logo ir para casa para ser surpreendida sem o necessário absorvente . Aquele outro está pensando no compromisso que marcou para daqui há duas horas. Não vai poder esperar o meu enterro. Lá fora um grupinho aproveita para por em dia as fofocas e as piadas em dia.”

“Ainda bem que durante a vida não nos é dado saber o que as pessoas pensam verdadeiramente quando estão na nossa presença. Se tivéssemos essa faculdade amaríamos mais e odiaríamos com infinita intensidade as pessoas, de forma que seria impossível manter essa farisaica paz social que garante a nossa convivência num nível suportável. Os núcleos de amor e ódio seriam muito mais intensos do já são, principalmente quando se exacerba o ódio racial e se sublima o pensamento religioso.”

“ Aliás, essa é outra coisa sobre a qual gostaria de falar antes que a energia do meu espirito se esgote e a esfera de pensamento que se despregou do meu cérebro se apague definitivamente. Nosso corpo material é como uma bateria que só aos poucos vai descarregando. A mente, uma vez carregada de sentimentos e memórias, ainda vibra durante algum tempo depois que a gente morre, precisamente o tempo que se leva para apagar todas as lembranças da vida. Uma pessoa desapegada dos bens materiais, isenta de ódios, amores, enfim, afetos e desejos, consegue fazer isso mais depressa. Ás vezes está pronta para ir embora já no instante em que ela se desprega do corpo. Isso porque já está vazia de tudo que se convencionou chamar de Ser. Já é completamente nada ao dar o último suspiro. Nenhum peso a chumba mais á roda da existência. Se a gente descobrisse isso ainda em vida trataria de aprender logo a se desapegar de tudo para não sentir esta angústia de saber que se está morto e tudo que foi, sentiu, pensou, fez e achou que era nada significa no fim das contas."

“Mas a maioria das pessoas não tem essa consciência. Quanto mais motivos se têm para viver, quanto mais sentimentos, mais desejos, mais apegos, mais lenta será a nossa desencarnação, pois a mente é como uma pilha carregada, cuja energia, depois que o invólucro onde ela foi armazenada se desfaz, ainda continua circulando em volta dela, como limalhas de ferro presas em volta de um corpo imantado.”

“Esta esfera de energia, que sou eu fora do meu corpo, vai demorar bastante para apagar. Meus amores e ódios foram muito intensos. Ainda são. Vejo dentro da cabeça das pessoas os seus pensamentos. Marli, a mulher de Pedro, o meu filho caçula, está olhando para o meu rosto e pensando se este velho filho da puta deixou grana suficiente para eles viverem numa boa. Luiza, a esposa de Walter, meu filho mais velho, quer para eles a nossa casa de praia. Está pensando no que vai dizer ao seu marido para que ele não abra a mão desse imóvel. Walter, por seu lado, prefere ficar com o apartamento de Moema. Pedro quer fazer uma viagem á Europa. Acha que agora vai ter grana suficiente para isso. Pior é o meu genro Paulo. Ele está pensando em vender tudo que herdarem para fazer uma boa grana. Vai precisar dela para salvar aquela empresa falida que ele fundou. O miserável já enterrou lá todo o dinheiro que eu dei para minha filha Rosana. Rosana está pensando em como vai defender sua parte na herança frente aos seus irmãos e em como vai preservá-la da voragem do marido. Pelo menos ela é sensata. Está pensando no futuro do meu neto Paulinho, que com um pai irresponsável como o seu, não  parece muito animador.”

“De todos estes que estão aqui, velando o meu cadáver, só Lucinda está pensando em mim. Lucinda é, ou melhor, foi minha esposa. Ela está repassando mentalmente os vinte e cinco anos que vivemos juntos. Coisas boas e ruins. Acho que no fim o balanço me favorece.  Ela está se achando velha demais para começar de novo com outro homem. Não tem certeza, está insegura quanto ao fato de se dar bem em uma nova relação. Comigo ela já sabia tudo que devia fazer para que as coisas andassem bem. Ela está pensando que eu não era um cara difícil de lidar. Não concordo. Ela é que era tolerante e cordata o bastante para não ficar me cobrando pelos meus deslizes, que eu sei agora, ela sempre soube que eu cometi. Mas eu fico feliz ─ se é que um morto ainda pode falar em sentimentos ─ em saber que ela se sente assim. Podem dizer, eu não importo. Fui um cara ciumento, egoísta, mesquinho e não é porque morri que deixei de ser.  Sê-lo-ei enquanto a minha consciência ainda estiver ligada ao mundo. Talvez por isso eu vá demorar mais tempo para descarregar de vez a minha pilha e deixar de influir na mente de outras pessoas, que ainda distilam vapores de amor e ódio quando olham para o meu corpo imóvel dentro daquele caixão."

“Quem sabe até fique por aí, penando, tateando na escuridão, vagando feito uma sombra sem rumo e nem vulto para se integrar, como dizem os espiritualistas que algumas pessoas ficam, quando não se dão conta que morreram. Mas acho que não. Em vida sempre achei uma baita bobagem essa idéia de vida após a morte. Nunca acreditei na existência de espíritos e não vejo nenhum motivo para acreditar agora. Eu sei que estou morto. Eu vejo meu cadáver ali, deitado em meio aquela cama de flores e sei que este é um estado irreversível. Sei também que há outras esferas de pensamento nas proximidades porque este é um local de velório. Neste momento quatro outros corpos estão sendo velados neste edifício. Mas não sei seus nomes, nem me lembro se os conhecia. Não há comunicação entre nós. Comunicação é ação entre vivos. Nem percebo, pelo menos neste momento, qualquer ação externa, de uma entidade ou força no sentido de orientar-me para alguma ação futura. O que sinto é um constante enfraquecimento da minha energia, como uma vela cujo sebo  está se acabando e ela, aos poucos, bruxuleia e começa a se apagar.”  

“Não estou vendo Deus nem anjos nem espíritos luminosos a me esperar. Se eles existem devem estar na escuridão que daqui há pouco será total. Aliás, isso seria mais coerente e justificaria a premissa de que Deus, antes de ser Deus, era um universo imerso em profundas trevas. Isso até dá para acreditar. Deus era a luz que estava dentro das trevas. Uma energia, que por ser tanta, não coube em si mesma e explodiu. E se tornou esse mundo do qual fui uma partícula, que agora está desaparecendo.”

“ Mas também, dentro de pouco já não precisarei mais me preocupar com crença nenhuma. Já, já, serei, ou não, apenas trevas. E trevas é nada.  Daqui só levo uma certeza, se é que levo alguma coisa: a de que, se passo desta para outra, melhor ou pior, tudo que fui ou fiz de nada me servirá porque eu estarei definitivamente extinto para todos os tempos e para todos os universos. E o universo que fui estará em paz.”

 

NÃO SAIA DE CASA ESTA NOITE


 

HOMEM MORRE APÓS COLISÃO FRONTAL ENTRE CARRO E CAMINHÃO  (...)


Um homem morreu após um acidente envolvendo um carro e caminhão na manhã deste sábado (20), na Rodovia  (..) . A vítima, de 43 anos, estava sozinha no carro, um táxi com placas de (...), e morreu no local. MSN - |Notícias-21-06.2015


 

***

Heitor acordou com a aquela voz nos seus ouvidos. Foi a primeira frase articulada que vibrou dentro da sua cabeça naquela manhã.  Uma frase estranha, completamente estrangeira aos seus hábitos e aos seus interesses, que ele nem de longe conseguia suspeitar de onde viesse e por que motivos chegava ás bordas da sua consciência. Parecia vir do fundo de uma caverna, trazida pelo vento encanado de um túnel cheio de nichos e cavidades. Era uma voz cavernosa, espectral, sibilante, que lhe chegava como uma antiga transmissão de rádio feita em ondas curtas. Ele só conseguia distinguir uma frase curta, naquela profusão de chiados intermitentes, que incomodavam seus tímpanos e provocavam arrepios em sua pele como se alguém estivesse arranhando uma superfície rugosa, provocando aqueles ruídos que incomodam e fazem os pelos do corpo se arrepiarem todos.
“Não saia de casa esta noite” parecia ser a frase. Heitor convocou toda sua atenção auditiva para se certificar se era isso mesmo que ele ouvira. Talvez fosse apenas sua imaginação. Afinal, acabara de acordar. Podia ser apenas o eco de um sonho, uma frase solta que escapara de algum filme, música ou livro que lera no passado, e que perdida nos circuitos do seu cérebro, denunciara a sua presença e expressara a sua inconformidade por estar ali, expulsa do seu contexto, perambulando como uma alma perdida.

Sentado na cama tentara capturar de novo a voz, mas esta não estava mais nos condutos auditivos que levam o som á mente e depois aos órgãos da fala. Só ficara aquele chiado de onda curta que parecia bater nos seus tímpanos como se fossem as ondas do mar a quebrar em uma praia deserta.

Era estranho. Heitor não bebera a noite passada, e no entanto, acordara como se estivesse de ressaca. Aliás, ele bebia muito pouco. Raras cervejas em encontros com amigos, em um churrasco em fins de semana. E nem podia beber muito, pois seu trabalho assim o exigia. Um motorista de táxi não pode ser amante de noitadas nem amigo da garrafa.

Depois de fazer a barba, tomar banho, beber o seu café da manhã, tudo estava esquecido. Teria sido mesmo um surto de imaginação, provocado pela memória desgarrada de um sonho que ele não conseguia lembrar. Uma bobagem que não valia a pena trabalhar como informação útil. Ele sabia que o nosso inconsciente é um celeiro que armazena tudo que o cérebro processa. Desejos conscientes e inconscientes, temores, prazeres, anseios, ódios e amores, sentimentos insuspeitos que jamais são trazidos á tona da nossa consciência porque a censura da nossa polícia moral não permite. Então, de vez em quando alguma dessas espécies submersas no pântano da nossa inconsciência escapa e sobe á superfície para lembrar-nos que dentro da nossa mente habita uma fauna desconhecida, que não obstante todo o nosso esforço para suprimi-la, ela está lá, pulsante como uma célula viva, a reclamar um lugar nas nossas vidas.

Era nisso que Heitor pensava enquanto dirigia seu táxi pelas ruas da cidade. Durante o dia inteiro ia e voltava para esse assunto. Esquecera o incidente da manhã, mas não conseguira se livrar dos pensamentos que ele levantara. “Não saia de casa esta noite”. Seria o nome de um filme de suspense? Parecia. Uma frase solta, boba, despregada de qualquer contexto. E o entanto, quantos pensamentos e sentimentos ela não despertara nele. Pensamentos e sentimentos que ele nem julgava que tinha.

E eles o acompanharam o dia inteiro. E estavam ali, com ele, dentro do carro, naquele momento, como se fossem passageiros do quais ele não conseguia se livrar. Pensava no esforço que as pessoas fazem para enterrar em suas consciências o ódio, o rancor, a cobiça, a inveja, a mágoa de serem contrariadas, a dor de não serem amadas, a sensação angustiante da perda. “Aquele sujeito ali, que fica no meio da rua, esperando o semáforo fechar para fazer suas acrobacias idiotas em troca de algumas moedas que as pessoas lhe dão, muito mais por pena ou enfado, do que em troca da sua arte. Quanto não será o ódio que ele tem das pessoas que passam em seus luxuosos automóveis e olham para ele com aquela cara de desprezo e mal disfarçada tolerância? E, no entanto, ele tem que arquivar esse ódio no porão da sua consciência, pois se deixar que ele aflore, ao invés daquelas garrafas de boliche que usa para fazer acrobacias, ele comprará um revólver e sairá atirando em todo mundo.

E assim ele esquadrinhara a cidade inteira, no exercício da sua profissão, dando campo a tais pensamentos, tentando adivinhar o que se passava na cabeça das pessoas.
Heitor é um professor de literatura que dá aulas durante o dia e á noite dirige um táxi para aumentar sua renda. Ele está dirigindo o seu táxi desde ás seis da tarde.  Dentro de alguns minutos ele irá parar em um semáforo. É quase meia-noite e ele está indo para casa depois de atender o último passageiro da sua longa e cansativa jornada diária. Durante o dia inteiro ele trabalhou como sempre fez, pensou, especulou, sepultou suas mágoas, dores, cansaço e desilusões, em uma conformada esperança de que o dia seguinte poderá lhe trazer alguma coisa melhor do que estava tendo hoje.

O semáforo ficou vermelho alguns segundos antes de ele invadir o cruzamento. As ruas estavam desertas e silenciosas. Não deu nem para ouvir o choque violento do caminhão que atingiu em cheio o seu táxi, praticamente cortando-o no meio. Ele não conseguiu ouvir porque justo naquele momento aquela voz cavernosa e sibilante, que o acordara pela manhã, tinha invadido novamente os condutos do seu aparelho auditivo. “Não saia de casa esta noite” dizia ela, agora em alto e bom tom. Mas agora já era tarde. Não dava mais para parar a roda do destino. Heitor morreu instantaneamente.

O RITUAL DA PERDA

                            


Um homem de cinquenta e cincos que acabava de ficar viúvo e uma garota com cerca de vinte e cinco, que precisava ganhar dinheiro se encontraram em um posto de gasolina. Ele parou lá para abastecer a sua bela Hilux. Ela para fazer a mesma coisa com a sua velha Saveiro cheia de bugigangas esotéricas. 

De repente ele percebeu o olhar da garota, caindo insistentemente sobre ele. Não estava acostumado a ser objeto de um olhar tão intenso assim. Principalmente de uma mulher tão jovem e bonita como aquela garota, vestida com uma longa e colorida saia de estilo indiano, e um lenço prendendo os longos e negros cabelos que lhe caíam até as espáduas.

“Exótica” pensou ele, ao cruzar os olhos com a garota. Resolveu retribuir o olhar. Ela esboçou um sorriso e ele devolveu. E ela então se aproximou dele. Era ainda mais bonita vista de perto. Um rosto de formas perfeitas, onde duas bolinhas negras como jabuticabas nadavam, céleres, de um lado para outro, em dois pequenos lagos azuis, de profundidade insondável, preencheu o campo da sua visão de tal modo que ele esqueceu tudo o mais para se concentrar apenas naquela imagem. Sentiu-se como um sapo sendo atraído por uma cobra.

─ Posso falar com o senhor um instante? ─ perguntou a garota.

─ Hã? Sim, claro ─ respondeu ele maquinalmente, como se estivesse saindo de um transe.

─ Sabe, é que eu sou vidente. Estava olhando para o senhor e vi algumas coisas que eu preciso lhe falar. O senhor gostaria de ouvir?─ disse a garota.

De repente ele se sentiu como se até aquele momento estivesse observando uma bolha de sabão flutuando no ar. Uma bolha colorida que explode e tudo que fica são alguns fragmentos de água e sabão que respingam em cima dele. E imediatamente ele voltou a sentir o cheiro da gasolina e do óleo diesel que estavam fluindo das bombas para os tanques dos carros dele e dela, e a decepção se estampou no seu rosto.
Vidente. Ele já conhecia aquele golpe. Há tempos atrás uma mulher, com uma criança nos braços havia tentado aplicar esse golpe nele. Estava chovendo e ele parara para dar uma carona a ela, movido mais por pena da criança. Mas aí ela viera com aquele papo de vidente, dizendo que ele estava cheio de “encostos” e no final pedindo grana para fazer um trabalho de descarrego para afastar dele as tais mandigas. E ele, imediatamente, descarregara a mulher no meio da estrada com chuva, criança e tudo.

Bando de vigaristas. Mas de repente, a garota tinha pegado a sua mão esquerda e estava percorrendo com o polegar aveludado dela as linhas do M da sua palma. Como era quente e macia a mãozinha dela. E como eram bonitos os olhos da ciganinha.

─ O senhor acaba de sofrer uma grande perda em sua vida ─ disse ela, encarando-o diretamente com seus grandes olhos azuis.

Ele olhou para a garota com desconfiança e apreensão. Como ela podia ter adivinhado? Ela não o conhecia. Ele nunca a vira antes. Como ela poderia saber de uma coisa dessas? Como poderia saber que sua esposa havia falecido recentemente? Apenas há uma semana atrás.

“Ela deve ter algum cúmplice” pensou ele. “Uma pessoa que me conhece e contou para ela.”  “E esses pilantras estão tentando me dar um golpe.”

Olhou para todos os lados para ver se havia alguém observando a cena. Nada, nenhum suspeito. Os dois estavam praticamente sozinhos no posto além dos frentistas. Estes não o conheciam. Não podiam ter conhecimento de uma coisa dessas.

]─ Ela ainda não se desligou do senhor. Ela o amava muito e as pessoas que falecem tem dificuldade para se desligarem das coisas e das pessoas que amam ─ disse a garota.

─ É mesmo? ─ respondeu ele, pensando: “vamos ver aonde vai dar isso.”

─ Ela está encostada no senhor e quer levá-lo com ela.

─ É? ─ perguntou ele, meio desconfiado, meio sarcástico. ─ E como vai fazer isso se ela morreu e eu estou vivo?

─ Os mortos demoram algum tempo para descobrirem que morreram. E quanto mais eles são lembrados e chorados, mais tempo eles levam para se desligar da sua vida carnal ─ disse a garota.

Ele sempre fora cético com relação á essas coisas. Não acreditava em nada disso. “Pessoas são como pilhas de lanterna” pensava ele. “Uma vez consumida a energia existente nelas, tornam-se apenas objetos descartáveis.”

“ Essa menina é uma vigarista”, concluiu ele. Mas a mãozinha dela ela macia e calorosa. E ele estava gostando do contato.

Mas não gostava da ideia de ter um encosto.  Nem que fosse da sua querida esposa falecida. Não conseguia acreditar nisso, mas sentiu um desconforto, algo assim como uma lufada quase imperceptível de um vento gelado a roçar-lhe a nuca, descendo pela base da espinha dorsal na forma de um arrepio.

“Quanta besteira”, disse para si mesmo. Mas não afastou a mãozinha quente e macia dela.

─ Vou dizer uma coisa para o senhor ─ disse a garota, olhando gravemente para ele. E seus olhos de pupilas negras pareceram enegrecer mais ainda em contraste com o fundo azul onde elas dançavam num ritmo de valsa: um – para - cá – um –para lá. ─ Se ela não for embora de vez, vai acabar levando o senhor com ela. O senhor não tem sentido alguma fraqueza de uns tempos para cá, desde que ela morreu?

Ele sentiu de novo aquele calafrio na espinha. Que diabos! Sentira sim. Nos últimos dias andara tendo umas tonturas meio esquisitas, coisa que nunca o acometera antes. Algo parecido com labirintite, uns pequenos surtos de perda de consciência e equilíbrio, nos quais a sua cabeça se enchia de pequenas espirais coloridas que ficavam girando na sua mente, fazendo-a parecer uma tela de televisão quando perde a imagem. Nada grave, concluíra, talvez um pouco de fraqueza, em consequência da mudança de costumes alimentares dos últimos tempos, forçada pela longa doença da esposa e principalmente nos dias terminais dela, quando praticamente não fizera uma única refeição regular.

“Falta de alguma vitamina” concluíra ele. Coisa que logo seria corrigido.

Mas como a danada da ciganinha podia ter adivinhado isso também?  Talvez ela tivesse deduzido pela leitura das informações não verbais que seu corpo e rosto apresentavam. Já notara que ultimamente estava meio pálido. Falta de exposição ao sol nos últimos tempos. Por isso estava indo para a praia. Precisava de um pouco de sol, ar e espaços abertos para compensar aqueles últimos meses de casa-hospital-hospital-casa, que fora a sua vida até então.

─ E o que é que a gente faz para se livrar de um encosto desses?─ perguntou ele, com um arremedo de sorriso, entre desconfiado e sarcástico. Já havia recuperado, em parte, o ceticismo e sabia que agora vinha a facada.

─ É preciso fazer para ela o Ritual da Perda ─ disse a menina.

─ Ritual da Perda? O que é isso?

─ É um ritual que nós, os ciganos, praticamos quando um ente querido nos abandona por morte. Nós somos um povo muito apegado uns aos outros. Temos dificuldade de abandonar nossos entes queridos, por isso nossos espíritos ficam grudados neles até que tenham consciência da morte e desapeguem da sua vida terrena. Então eles ficam leves e sobem para a esfera astral. Isso acontece com todos os espíritos, mas são poucas as pessoas que sabem disso. Só os médiuns.

─ É mesmo? ─ perguntou ele, pensando que pelo menos essa garota tinha um discurso mais bem elaborado que a outra cigana com a criança, que tentara dar um golpe nele. Pelo menos aquela ideia do Ritual da Perda era uma coisa nova, que parecia ter algum sentido.

─ Sabe ─ continuou a garota ─ entre nós há muitos médiuns. Eu tenho dons mediúnicos. Nós nos comunicamos com o espírito do defunto e fazemos ver a ele que ele desencarnou e precisa se desligar da sua vida terrena. Enquanto ele não faz isso ele continua a vagar pela terra, preso ás memórias da sua vida carnal, aos seus desejos e sentimentos de posse. Com isso ele sofre e também as pessoas que o amaram, pois nenhuma delas se desapega. Isso significa escuridão para o espírito e doenças para quem está vivo, pois o espírito do morto suga a energia dos vivos.

Ele não era um sujeito desinformado sobre esses assuntos. Lera Alan Kardeck e outras obras do espiritismo. “Essa menina pode ser uma embusteira do cacete, mas pelo menos é bem preparada”, pensou.

─ E daí? Como é feito esse Ritual da Perda? ─ perguntou ele, já quase adivinhando a resposta.

─ Posso fazer esse ritual para o senhor. Mas isso tem um custo ─ disse ela.

“Eu sabia,” pensou ele.

─ Quanto?

─ Duzentos e cinquentas reais. Duzentos para o meu trabalho e cinquenta para uma vela do seu tamanho que eu vou ter que acender. Essa vela é como se fosse uma oferenda do senhor para ela. Quando ela acabar de queimar ela terá entendido que a sua passagem na terra terminou e que precisa ir embora. Enquanto ela queima eu converso com a falecida e faço os passos necessários do ritual para que ela entenda que precisa se desapegar da vida.

─ Interessante essa sua estratégia ─ disse ele, agora já perfeitamente recuperado, com todo o seu arsenal de ceticismo a postos.  ─ Devo reconhecer que vocês estão aperfeiçoando cada vez mais a vigarice ─ completou, olhando para a garota com olhos um tanto lúgubres e maliciosos.

─ Como disse? ─ perguntou a garota, tentando libertar a mão dela, que ele havia agarrado e estava agora apertando com força.

─ Que vocês, com esse papo de ciganos, videntes, médiuns, são todos uns vigaristas. Videntes o escambau. Vocês só querem é tirar dinheiro dos incautos. Vela do meu tamanho, Ritual da Perda. Você pensa que eu sou trouxa, menina? Eu não creio nessas besteiras ─ disse ele.

─ Se o senhor não crê porque deixou que eu lesse sua mão e falasse todas as coisas que eu disse para o senhor?

─ Porque eu sou um homem viúvo, estou carente, e você é uma menina bonita e bem gostozinha. Deixei a coisa rolar porque quem sabe, no fim, pintava uma química... A propósito, completou ele, com um olhar de malícia para ela ─ eu te dou os duzentinhos, se você quiser, mas não para velas e rituais...

─ O senhor é um tarado ─ disse ela, libertando, com um puxão mais forte,  a mão que ele prendera.

─ E você uma baita um-sete-um ─ respondeu ele, com um sorriso debochado.


Assim se foram, cada um para um lado. A jovem ciganinha, com a sua velha Saveiro, cheia de bugigangas esotéricas, tomou o rumo do centro da cidade. O homem de meia idade saiu do posto de gasolina com sua Hilux e tomou a estrada em direção á praia. Ia pensando na ciganinha. Que audácia dessa menina. Vidente o cacete. Mas ela era gostosinha. Bem que valia uns duzentos paus...

Foi em uma curva da estrada, em plena descida da serra, que ele a viu. Em meio á neblina que cobria a estrada, uma mulher, vestida de branco, tentando atravessá-la. Não teve nem tempo de pensar. Meteu violentamente o pé no freio. A caminhonete derrapou, deslizou no asfalto, deu dois rodopios e capotou, antes de sair da estrada e mergulhar na insondável profundeza de um barranco de mais de duzentos metros de altura.

Quando parou, no fundo do precipício, a bela Hilux era apenas um monte de ferros retorcidos, onde um corpo dilacerado, com os olhos esbugalhados, contemplava a sua última cena: o seu próprio espírito deixando o corpo e sendo recebido, com um longo e vaporoso abraço, dado pelos braços de uma mulher vestida de branco, toda descarnada, mas ainda assim reconhecível como aquela que ele amou durante muitos anos. 

─  O Ritual da Perda ... Foram os últimos movimentos que seus lábios tentaram articular, antes de mergulhar para sempre numa escuridão absoluta e impenetrável. 

A IMAGEM DO TERROR.

                                            


O sentimento é simplesmente arrasador. É como se uma manopla de ferro rasgasse o peito e começasse a apertar o coração, até reduzi-lo ao tamanho de uma castanha do Pará. Não importa que a gente saiba que esse momento chega para todos nós. Que é tão certo como o nascer do dia, ou a chegada da noite, que um dia todos nós teremos que viver esse momento. Quando ele chega ninguém sabe lidar com ele.

Saber que é inevitável a chegada da morte não a torna menos temível; saber que inevitavelmente temos que envelhecer não faz a velhice menos indesejável. Por mais que a gente saiba e espere, existem coisas, que quando acontecem, doem como se fossem  feridas incuráveis, porque mesmo sabendo que são inevitáveis, a nossa mente sempre espera que alguma coisa, no meio do processo, possa acontecer e dar causa á uma sentença favorável, bem diferente daquela que a gente está esperando.


Foi isso que Jordão sentiu quando viu Mariana com aquela radiografia nas mãos. Sentada na cama, ela chorava silenciosamente. A porta estava fechada para que as meninas não ouvissem o choro. Mas ele nunca batia na porta do quarto para entrar. Afinal era o quarto deles. O quarto onde dividiam as intimidades, onde diziam, um para o outro, as coisas que um gostava que o outro fizesse, onde se cobravam e depois se embolavam, numa fusão de corpos e gemidos que, mais do que qualquer palavra, mostrava o quanto se amavam, se queriam e se entendiam, mesmo depois de brigar. Por isso, diziam os amigos, com uma ponta de surpresa, inveja e até de despeito: “ esse casal parece que nunca briga”. Brigavam sim, mas nunca na frente dos outros. Nem das filhas.

Mas isso agora parecia coisa do passado. Dez anos de um casamento que se diria quase perfeito pareciam que estava próximo do fim. Jordão não conseguia entender o que estava acontecendo com a vida deles. Do seu lado não havia traição, não havia falta de compromisso, não havia sequer a perda de interesse sexual que normalmente ocorre á medida que as parcerias vão esgotando as surpresas e se tornam íntimos demais. Depois que a relação atinge aquele estágio onde o apelo sexual é substituído por um sentimento de irmandade cúmplice.

Ele continuava ativo e interessado sexualmente nela como nos primeiros tempos do casamento, e jamais sonegava carinho para Mariana e as filhas. Dificuldades financeiras também não podiam ser o motivo daquela esfriada que acontecera na relação. Ele, empresário do comércio, tinha construído uma situação financeira sólida e segura, que permitia á família que eles construíram uma existência tranquila, confortável e bem provida de todas as materialidades necessárias ao que o vulgo chama de uma vida com qualidade. Ela, Mariana, formara-se professora e lecionava meio período em uma escola da municipalidade. Muito mais para se sentir uma profissional e ter algo com que se ocupar, além dos serviços de casa e da educação das duas filhas que tiveram, do que com a necessidade de ganhar dinheiro . Até então, tudo tinha sido perfeito para os dois.
Mas agora aquilo. De repente Mariana esfriara como se uma febre hipotérmica tivesse se instalado no corpo dela e não tivesse saído mais. De uma hora para outra ela começara a evitar as intimidades com Jordão, não permitindo até que ele a abraçasse. E isso era o que ele mais gostava quando chegava em casa, á tarde, e ela estava na cozinha, preparando o jantar. O abraço que ele lhe dava, pegando-a por trás, beijando o pescoço dela, acariciando seus seios, era como uma senha que identificava o prazer e a satisfação que havia naquela parceria.

O que mudara na relação deles? Quando ele chegava e ensaiava o abraço habitual, ela se afastava e saia do alcance dele, simulando necessidade imperiosa de desligar algum aparelho ou atender á um chamado, que só ela escutava, das meninas.

“O que está acontecendo com ela?”, Jordão perguntou-se várias vezes. “Será que ela está achando que eu tenho algum caso fora de casa?” Só podia ser isso, Jordão concluiu. Para que uma mulher, que parecia gostar tanto do jogo sensual que alimenta a relação de um casal que se ama, de repente esfriasse dessa maneira, esse comportamento era inexplicável e só podia vir da falsa concepção de que ele a estava traindo.

Ou então que ela teria deixado de amá-lo, ou teria um caso com outro homem... Muitas perguntas passaram pela cabeça de Jordão. Todas sem resposta. Não. Mariana não era o tipo de mulher que conseguiria manter uma vida conjugal paralela. Se fosse outro homem, se fosse a falta de amor, ela seria a primeira a abrir o jogo. Será que alguém andou envenenando a cabeça dela com a mentira de que eu tenho um caso?”

Não tinha meios de saber, a menos que Mariana falasse. Mas ela não falava. Quando ele começava a tocar no assunto ela desconversava, fugia, inventava tarefas fictícias, tudo para não falar do assunto. E á noite, quando ele a procurava, era como se ela tivesse adquirido uma profunda aversão por ele, pois ao simples contato da mão dele no corpo dela, ela se afastava como se tivesse sido tocada por um inseto asqueroso.
Já fazia cerca de um mês que aquilo estava acontecendo e Jordão estava no limite da sua paciência. As desculpas de cansaço, dor de cabeça, estresse com as crianças da escola e as filhas, já não colavam mais. Ou Mariana estava doente, ou... Se fosse doença precisava ser tratada. Se fosse outra coisa... De qualquer modo tudo precisava ser esclarecido, pois do jeito não dava para continuar mais.

Foi com essa disposição que ele chegou em casa naquele dia. Mariana não estava na cozinha preparando o jantar, como usualmente fazia. Nem na sala assistindo televisão.

─Onde está sua mãe? ─ perguntou á filha mais velha, que estava deitada no sofá, rolando a tela do celular para cima e para baixo.

─ No quarto ─ respondeu a menina. ─ Ela está meio esquisita hoje. Passou por nós como se não visse a gente.

Jordão foi imediatamente ao quarto. Mariana estava sentada na cama chorando convulsivamente. Soube imediatamente o que significava aquela cena. A radiografia, que ela segurava maquinalmente nas mãos, era uma imagem clara da razão de todos aqueles constrangimentos. Pontos esbranquiçados, nodosos, assustadores, se destacavam contra o fundo opaco daquela chapa radiográfica, que se apresentava ali, como se fosse uma sentença de morte que acabava de ser prolatada por um  juiz.

Em cima da cama um laudo, assustador, sinistro, assinado pelo médico do laboratório. “ A histologia da mama esquerda indica a presença de células modificadas...”

Jordão nem tentou continuar a leitura. Primeiro por que não entendia a linguagem médica, segundo por que sua intuição já adivinhara o que era aquilo. Foi direto ao final do laudo, onde o diagnóstico fatal, aterrador, bateu direto no seu coração, como se tivesse recebido uma estocada mortal.  Mesmo sem entender as palavras que descreviam aquela visão da morte estampada na radiografia, Jordão logo percebeu que aquelas manchas esbranquiçadas eram a verdadeira imagem do terror!  
“ Trata-se de um carcinoma ductal do tipo invasor, com alto grau de malignidade...” dizia a conclusão do laudo.

─ Eu não quero morrer!” explodiu Mariana, caindo num choro convulsivo, abraçando Jordão com uma força que ele nunca pensou que ela fosse capaz.

─Você não vai morrer ─ disse ele. ─ Vamos vencer isso. Você vai ver. Foram as únicas palavras que ele conseguiu pronunciar naquele momento. Sua mente estava vazia e seu coração parecia ter sido esmagado por uma prensa. Então era isso a causa de tudo...

Mariana chorou durante cerca de duas horas, enlaçada pelos braços de Jordão. Molhou toda a camisa dele. Durante esse tempo ele não disse uma palavra. Não cessava de acariciá-la e depositar beijos na sua testa, face, olhos, cabelos. Naquela noite ela dormiu nos braços dele como costumava fazer nos primeiros anos de seu casamento. Como se precisasse de um refúgio para se proteger contra aquela imagem de terror que se instalara em sua mente.

Agora tudo estava esclarecido. Na noite seguinte eles fizeram amor com a mesma satisfação das suas primeiras noites.

Uma semana mais tarde Mariana submeteu-se á uma cirurgia onde a mama comprometida foi retirada e substituída por uma prótese. Depois fez um tratamento quimioterápico, que ela suportou estoicamente, apesar de todo o sofrimento que ele representou. Perdeu os cabelos e os recuperou. Em toda essa verdadeira "via crucis" Jordão sempre esteve ao seu lado, dando-lhe todo o carinho, todo o suporte, demonstrando com palavras e atos o verdadeiro amor que sentia por ela.


Não há terror que não se dissipe quando a verdade é revelada. Mariana viveu dezenove anos depois disso e viu seu primeiro neto nascer. Morreu com sessenta e dois anos de parada cardíaca. Jordão ainda está vivo e não se casou de novo. Contou-me essa história como se ela fosse uma história de terror, mas na verdade eu acho que ela é, na verdade, uma linda história de amor.

 

A BAILARINA



                
 
Deus existe e sabe que você existe?  Entre as mais de sete bilhões de pessoas vivendo  na terra, porque Deus se lembraria exatamente de você? Será que ele sequer sabe o seu nome? Deus é justo?  Se é, por que ele deixa que aconteçam tantas coisas ruins? Porque Hitler não nasceu morto, porque Al Capone não sofreu um acidente mortal na infância, porque Jim Jones não teve um câncer na adolescência e morreu, antes de provocar a morte de tantos ingênuos que o seguiram até as selvas da Colômbia para terminarem daquela maneira? Porque Bin Laden não foi atingido por uma bomba antes de se tornar líder de um grupo de terroristas responsável pro tantas mortes e atrocidades?

Sobretudo, porque Deus permitira que aquilo acontecesse com ele, ele que sempre acreditou na justiça divina, que até se propôs a pregá-la de porta em porta, abordando pessoas nas ruas e nas praças, enfrentando a má vontade e até a repulsa de muita gente, quando se aproximava com aquele papo de crente, para falar das histórias da Bíblia e depois tentar vender para elas aquelas revistinhas que sua Igreja produzia.

─ Lá vem aqueles chatos das Testemunhas de Jeová outra vez!

Quantas vezes Mário ouvira pessoas se referindo a ele e á seus companheiros de seita como sendo uns idiotas fanáticos que tentavam vender para o povo uma crença ultrapassada e fundamentalista que se apoiava em mitos e histórias da carochinha, que não já tinham o menor sentido em uma época em que a ciência já provara que o mundo é outra coisa?

Mas ele, que estudara a teodiceia ensinada pelos seus pastores, nunca duvidara da justiça divina. Tinha certeza de que todo o sofrimento humano tinha um propósito; que Deus, sendo onipotente, onisciente e misericordioso, devia reservar para todos esses injustiçados da sorte uma recompensa em outra vida, enquanto os maus teriam o devido castigo. Dessa forma, o que aos olhos do vulgo parecia grosseira injustiça, passaria a ser uma inteligente estratégia de Deus para separar o joio do trigo e assim, em um mundo futuro a perfeita virtude seria instalada.

Estranha estratégia para um ser que tudo pode, como se supõe que  Deus seja. Porque gastar milhões de anos de tentativas e erros para selecionar uma raça perfeita, se ele pode fazer isso com um simples sopro da sua boca? Essa era uma pergunta que Mário vivia fazendo a si mesmo, sem coragem de fazê-la ao seu pastor, pois sabia que se o fizesse, teria que romper com um passado que ainda não estava pronto para renegar.

Depois que Marta morrera, depois do horrível sofrimento que ela enfrentara, com aquele câncer, por dois longos e cruéis anos, e depois do próprio sofrimento dele por não poder fazer nada para aliviar as dores dela, e principalmente depois de rezar tanto para que Deus os ajudasse nessa provação, e ver que nada acontecera, ele também começara a duvidar da própria crença. Começara a perceber que aquela argumentação eclesiástica domingueira não convencia nem os próprios pastores, pois não percebia neles nenhum desapego pelos bens materiais, nem qualquer desejo de despir seus invólucros carnais para entrar logo nessa outra vida onde a justiça, afinal, seria feita.

“ É fácil pregar conformação e resignação ao sofrimento quando são os outros que o suportam”, concluiu ele, ao ouvir o pastor falar sobre a justiça divina. “O que vou dizer á Martinha amanhã, quando ela perguntar pela mãe dela” sentindo as lágrimas aflorarem nos olhos.


Martinha era a sua filha de sete anos, que ele estava agora criando sozinho.  "Como é difícil para um homem", pensava Mário, criar uma criança sozinho. Para uma mulher é mais fácil. Elas já têm o dom natural de criar uma família. A mulher, por si mesma, já é uma família. É do seu corpo que ela sai. Desde que o mundo é mundo e os seres humanos começaram a cumprir o mandamento bíblico do “crescei e multiplicai-vos,"  é a mulher que assume a tarefa de cuidar da prole, enquanto do homem se exige o encargo de ser o provedor do lar. Nem todos são capazes de cumprir essa tarefa, mas é o que natureza, em principio, requer que eles façam. Coisa bem mais fácil é a tarefa do macho, e assim mesmo não são todos que a suportam...

Era nisso que Mário estava pensando, sentado no banco da praça, tentando se recuperar  da canseira que estava sentindo, depois de mais de duas horas varejando lojas e mais lojas de brinquedos atrás do presente de Natal que Martinha havia lhe pedido: uma caixinha de música, que ela havia visto em um filme, no qual uma música tocava e uma bailarina saia de dentro da caixinha, dançava a música inteira e depois voltava para dentro da caixa.

Por conta disso ela dizia que iria ser bailarina quando crescesse. Ele também tinha visto o filme e sabia exatamente como era o presente que a Martinha queria, mas onde encontrá-lo? Afinal, caixinhas de música eram coisas tão antigas quanto máquinas de escrever neste tempo de tecnologias tão avançadas. Mas sonho de criança é como um pensamento de Deus. Quem mata o sonho de uma criança, mata a própria manifestação divina na terra.

Procurou em todas as lojas, varejou até antiquários, mas não encontrou nada parecido. Por isso  estava agora sentado naquele banco da praça, tentando recuperar as pernas cansadas de andar e enxugar os olhos marejados de tristeza por não ter encontrado o que a sua filha tanto queria.


Estava começando a sentir um mau pai. E nesse momento sentiu ainda mais falta de Marta, sua esposa, pensando que esse seria o primeiro natal que passariam sem ela. Lágrimas silenciosas começaram a rolar dos seus olhos. Nem reparou na jovem que acabara de sentar-se ao lado dele no banco.

─ Véspera de natal é uma loucura, não é? Tanta gente na rua, tanta coisa para comprar, tantos presentes para dar...─ disse ela, como se estivesse falando consigo mesma.

Só então ele percebeu a presença dela. ─ É mesmo─ respondeu Mário, passando disfarçadamente a mãos nos olhos para enxugar as furtivas lágrimas que lhe desciam pelo rosto.

─ Já comprou os seus presentes? ─ perguntou a garota, com um ar bem jovial.

─ Na verdade não. Minha filha me pediu um presente difícil de achar. Acho que nem fabricam mais o tipo de brinquedo que ela me pediu ─ disse Mário.

─ É? E o que é que ela pediu? ─ perguntou a jovem.

─ Uma dessas caixinhas de música com uma bailarina. Acho que isso nem existe mais ─ disse Mário, desconsolado.

─ É. Hoje em dia é realmente estranho uma criança pedir um presente desses. As crianças só querem brinquedos eletrônicos, jogos de computador, celulares e coisas parecidas. Ninguém brinca mais com boneca ou carrinho. Mas eu acho que posso ajudar o senhor a encontrar o que procura ─ concluiu a jovem.

─ É mesmo? ─ respondeu Mário, olhando para a jovem com alegria e esperança. E só então percebeu o quanto ela era bonita, com aquele vestido vaporoso e rodado. Parecia ter saído de um espetáculo de ballet com a roupa com a qual havia dançado o Lago do Cisne.

─ É verdade, eu sei onde achar uma caixinha de música. Mas antes o senhor tem que me ajudar em uma coisa ─ disse ela com um sorriso angelical.

─ O que? ─ perguntou Mário, com curiosidade.

─ Tenho um monte de brinquedos para entregar em um orfanato e várias roupas e presentes para levar em um asilo ─ disse ela. ─ Ah! e também vou dançar para essas crianças e para os velhinhos. Por isso estou com esta roupa ─ completou a jovem, com aquele sorriso maravilhoso que já começava a cativar Mário.

─ Vai demorar muito? ─ perguntou Mário pensando no presente da Martinha e se ia dar tempo de comprá-lo.  

─ Não. Pode ficar tranquilo. Vai dar muito tempo para a gente ir depois á loja onde eu sei que tem o que você quer ─ disse ela, como se estivesse adivinhando o pensamento dele.


Mário acompanhou a bela jovem até uma caminhonete cheia de presentes, todos embalados com papéis de lindas cores e amarrados com belas fitinhas. Depois foram a dois orfanatos e dois asilos. Em todos eles entregaram presentes e a garota dançou lindamente “ O Lago do Cisne”, ‘ Luzes da Ribalta”, “Quebra Nozes” e outros clássicos do ballet. Mário estava simplesmente comovido e impressionado com a simpatia e a amorosidade com que aquela jovem tratava as crianças e os velhinhos.

Por volta das seis horas da tarde ela o levou á loja onde ele, com certeza, encontraria a caixinha de música que Martinha havia pedido.

─ Eu sei que lá tem pelo menos uma ─ disse a jovem. ─ Eu a vi ainda hoje.

Era uma loja de antiguidades. Realmente lá havia uma caixinha de música do tipo que Mário procurava. Era uma linda peça que tocava pelo menos 10 músicas próprias para ballet. Luzes da Ribalta, Quebra Nozes, Lago do Cisne, Sugar Plum Fairy,  a Dança de Maria em West Side Story e outras. Só havia um problema. O lugar da bailarina estava vago.

─ Era uma peça de porcelana e quebrou. Infelizmente não encontrei uma peça igual que pudesse repor ─ disse o vendedor, constrangido.  ─ Mas se o senhor quiser levar assim mesmo, e botar uma bonequinha de plástico no lugar eu lhe dou cinquenta por cento de desconto no preço.

Mário olhou para o lado procurando a sua jovem amiga para pedir uma opinião. Mas ela não estava mais ali. Esquadrinhou a loja á sua procura, sem encontrar. Saiu para a rua e olhou em todas as direções. Não a viu mais. Nem a caminhonete com a qual ele andara a tarde inteira com ela estava mais ali. Suspirou desconsolado. Será que nunca mais a veria? Era tão meiga e tão bonita a jovem bailarina ...

A caixinha de música sem a bailarina era a coisa mais próxima do presente que a Martinha pedira. E tinha saído quase de graça. Podia arrumar uma bonequinha de plástico e colar na plataforma vazia. Não era a mesma coisa, mas não podia fazer mais que isso. O dono da loja praticamente lhe dera o artefato, por um preço simbólico, como se quisesse se livrar dele. Infelizmente, ele não estava completo, pensou Mário.

Mais uma vez ele ia decepcionar Martinha. Decididamente não era um bom pai. Não conseguia nem cumprir integralmente um desejo da sua filha. Sentiu outra vez a ausência de Marta. Interrogou-se novamente, sobre a justiça divina. Deus é justo? Deus existe? Se existe, porque permite que as pessoas boas sofram e os maus triunfem?  O que mesmo se comemorava no Natal? O nascimento do Filho de Deus? E porque ele permitira que o próprio filho sofresse tanto para salvar uma humanidade que não merecia ser salva? Porque ele não conseguia nem fazer feliz a própria filha?

Mário sentiu que iria dormir naquela noite de natal com a sensação de um dever mal cumprido. Uma sensação de fracasso e derrota que lhe dava um amargo na língua como se ele tivesse bebido uma garrafa inteira de cachaça ruim.
Era quase meia noite quando Martinha entrou no quarto, onde ele estava sentado na cama, se sentindo o último dos homens.

─ Pai, eu te amo. Você achou a minha caixinha de música ─ disse a menina, pulando no pescoço dele.

─ Ah! filha, achei. Mas não sei se ela está do jeito que você queria. Sabe, ela está meio velhinha e parece que falta alguma coisa nela.

─ Nada, pai. Ela está perfeita. Igualzinha á do filme. Quer ver?

Martinha colocou a caixinha de música em cima da cama. Girou a chavezinha e uma música encheu o quarto de alegria. Era o Lago do Cisne. Lentamente uma pequena plataforma se abriu na tampa da caixinha e uma linda dançarina de porcelana apareceu. Usava um vestido branco e rodado. Mário olhou para ela e teve a impressão que já havia visto aquele rosto em algum lugar. Olhou mais detidamente e ficou mudo de espanto. Sim. Não havia nenhuma dúvida. Tinha certeza que era ela. A jovem bailarina da praça.

─ Pai, você está chorando. O que é? Você está doente? ─ perguntou Martinha, olhando para as lágrimas silenciosas que caiam dos olhos de Mário.

─ Não filha. É que eu acabei de ter certeza que Deus existe de verdade. E que Ele realmente nos ama. Só que ás vezes a gente não entende o que Ele quer dizer para nós...

 
  

A CHACINA DO PAVILHÃO 9

O nome, por si só, já inspirava constrangimento. Pavilhão 9. Lembrava divisão de penitenciária ou campo de concentração. Estava perfeito. Não podia haver lugar melhor para acontecer tudo aquilo. Ele abriu os lábios em um sorriso malicioso, que revelava uma íntima satisfação. Adorava fazer aquilo. Mesmo sendo quem era, não se lembrava de quando tinha se iniciado naquela profissão. Seguramente fazia muito tempo. Milênios incontáveis, desde que se desentendera com o seu Mestre. Mas por causa dele quanto trabalho o Mestre já tinha tido. Quantas vezes o velho e temível Vasto Semblante, o Ancião dos Dias, o Senhor dos Tempos e outros títulos bombásticos que o Mestre gostava de ser chamado, tivera que reconstruir o que ele, o Anjo Rebelde, o Grande Desencaminhador, destruíra.

Ah! mas o que ele mais gostava era daquilo que ele estava fazendo naquele momento. O sorriso malévolo que tinha nos lábios foi despertado por doces lembranças.

Auschwitz, Jonestown, Carandiru, Candelária, só para lembrar suas mais recentes e memoráveis façanhas...

Sentou-se na penumbra do salão soturno e assustador e esperou. Os doze indivíduos que estavam ali, conversando animadamente nem suspeitaram da sua presença entre eles. Eram onze horas da noite quando os três sujeitos que ele agenciara entraram no salão. Os doze indivíduos estavam pintando uma bandeira e demoraram para perceber a intrusão. Ele não deixou de perceber a ironia daquilo tudo. O nome Corinthians puxou a sua memória para outro nome tão odiado: o daquele maldito rabino judeu que tanto o prejudicara há muito tempo atrás, roubando de sua influência praticamente meio mundo. .

Quatro dos sujeitos que estavam ali perceberam o perigo e saíram correndo. “Sorte deles,” pensou o estranho indivíduo sentado nas sombras. Mas logo se esqueceu deles e passou a contemplar, com satisfação, o que estava acontecendo dentro do salão. Os três assassinos que haviam invadido o salão sabiam trabalhar bem. Pareciam profissionais que tinham aprendido com os alunos que ele instruíra no Oriente Médio, aqueles caras do Estado Islâmico. Eram matadores frios, cuja alma já estavam comprometidas com ele. 

Os três assassinos armados mandaram os oito se ajoelharem no chão. Ouviu as súplicas deles. Ele adorava isso. Era movido a dor e sofrimento. Desde o início dos tempos era só o que havia feito. Provocar dor e sofrimento. Se não fosse quem fosse teria tido um orgasmo de prazer ao ouvir as espocadas das pistolas nove milímetros, o barulho dos cartuchos batendo no cimento frio do salão e á vista dos oito corpos estrebuchando, o sangue manchando de um vermelho ocre o cimento do piso. Aqueles oito mortos e os três assassinos eram exatamente o tipo de almas que ele precisava. Gente que já estava a meio caminho do seu reino. 

Rindo diabolicamente ele tocou os oito corpos deitados no chão e enfiou a mão na boca de cada um deles. De cada boca sua mão voltou com uma pequena luz que ele guardou em uma bolsa. Depois ergueu os olhos para cima em sinal de desafio. Tinha vencido mais uma queda de braço com o Mestre. Podia agora, voltar para o seu reino de eterna danação e descansar um pouco, entre serpentes, brasas vivas e indizíveis horrores, da mesma forma que seu velho e odiado velho Senhor tinha descansado depois de construir toda essa empresa que ele, há milhões de anos, estava empenhado em levar á falência. Tinha cooptado mais onze almas para o seu exército de danados. Tinha ganho o dia.

O PILOTO DO AIRBUS

                                   


 
Dizem que os psicopatas são charmosos, simpáticos, mentirosos e manipuladores. Que não se importam de passar por cima de tudo e de todos para alcançar seus objetivos. Que são egocêntricos e narcisistas, e não sentem remorso ou qualquer tipo de culpa quando fazem alguma coisa que a lei define como crime ou que  a moral social condena.  

Ah! E tem também a patacoada que as religiões ensinam, com esse negócio de pecado. Psicopata não acredita em pecado. Tem mais. Se algo ou alguém ameaça seus planos, eles ficam agressivos e batem sem dó. Se alguém os acusa, eles procuram inverter o jogo, colocando-se no papel de vítimas. Fazem carinha de inocentes, choram, parecem bezerrinhos de sacrifício, com aqueles olhinhos que dão dó.

Li em algum lugar que a psicopatia atinge cerca de 4% da população mundial, sendo que 3% é de homens e 1% fica com as mulheres.  Se essa estatística estiver certa, em um país como o nosso, com cerca de 80 milhões de habitantes, temos pelo menos 3.2  milhões de psicopatas andando por aí. Quem sabe esse cara que está aí do seu lado, nessa mesa de bar, tomando cerveja nessa caneca de pedra, ou essa mulher que está aí, com você esperando o médico, ou o cabeleireiro, para atendê-la, não seja um, ou uma psicopata? Quem garante que você não casou com um deles, ou então que não divide uma mesa de trabalho, ou até senta-se ao lado de um na escola? E esses caras que você mandou para as câmaras de vereadores, esses deputados e senadores, esses não há dúvidas de que são mesmos doidos de pedra!

Ah! Ah! Ah!. Aliás, há quem diga que nós já fomos uma nação de psicopatas, pois elegemos e apoiamos o maior psicopata de todos os tempos, responsável por uma guerra que deixou mais de vinte milhões de mortos.  Diante disso, o que representam essas cento e cinquenta pessoas, pouco mais, pouco menos, que estão nesse avião?  

Mas você, que está aí, lendo estas palavras, não precisa ficar com medo. Nem todo psicopata é violento e de repente vai sacar uma arma e sair atirando nas pessoas. Ou derrubar um avião. Nem é comum que eles andem armados com afiados facões, como o Jason, ou saiam por aí retalhando pessoas com um machado. Isso é coisa de filmes de terror. A realidade é um pouco mais sutil. A natureza é sábia e sabe esconder os horrores que ela fabrica.

Você não identificará um psicopata até ser vítima de um deles. Isso é o que dizem os estudiosos. Adoro esses estudos. Um desses caras, acho que de uma universidade americana, disse que, de fato, há uma tendência de os psicopatas recorrerem à violência física e sexual, mas no comum, a maioria deles não é violenta. Dizem até que há muitos psicopatas bem-sucedidos profissionalmente, ocupando posições de destaque na sociedade, principalmente nos negócios, nas artes e principalmente, na política. Nisso eu acredito. Eu mesmo sou um cara bem sucedido profissionalmente. Afinal, não é todo mundo que consegue ser piloto de um avião de carreira, em uma companhia aérea tão conceituada como esta em que trabalho.

Sim. Claro que não adianta ficar olhando nos olhos de um psicopata para ver se ele apresenta sinais do seu  desequilíbrio. Aliás, a palavra desequilíbrio talvez nem caiba para ele. Psicopatas não são desequilibrados. Ao contrário, se eles são assim tão centrados em suas obsessões, isso denota que são mais firmes em suas crenças que a maioria das pessoas, que muitas vezes deixam de realizar seus propósitos com medo de serem descobertas pela polícia, ou de sofrer constrangimentos morais, ou ainda, o que é pior, serem castigadas depois de mortas.

Psicopatas são pessoas normais, se é que existem pessoas normais. Dizem que, olhando de perto, ninguém é normal, mas de uma coisa eu tenho certeza: os verdadeiros psicopatas são tão normais que são irreconhecíveis a olho nu. Aliás, se um psicopata é mesmo tudo isso que os estudiosos dizem que é, então eles não estão descrevendo um ser monstruoso – um golém social – criado pelas pressões da sociedade moderna, mas sim o indivíduo perfeito, o protótipo que Nietszche procurou durante a vida inteira para encarnar o seu super-homem.

Aliás, se alguém quer saber, eu sou o super-homem de Nietszche. Senão vejamos: o psicopata, segundo um renomado estudioso, desenvolve um acentuado egocentrismo, que lhe dá condição para nunca sentir culpa e remorso por qualquer sofrimento que ele venha a infringir a alguém. O excesso de razão e a inexistência de qualquer emoção são suas principais características. Sabem mentir e fingir como ninguém e são mestres em forjar afetos. Em razão disso, são capazes de enganar a maioria das pessoas, que veem neles indivíduos simpáticos, afáveis, positivos, prafrentex em todos os sentidos.  Não é esse o tipo de pessoa que a maioria gostaria de ser?

Eu, por exemplo, olho para mim mesmo no espelho e sinto um prazer incomensurável.  Sou um jovem bonito, alto, com cabelos e olhos castanhos bem clarinhos, maçãs do rosto bem redondinhas. Nada em mim denuncia qualquer distúrbio mental. Pareço mais com o Talentoso Ripley do que com o Norman Bates. Sou o típico ariano que Himmler escolheria para encarnar o modelo ideal do homem alemão. Tenho vinte e sete anos, boa situação financeira, bons amigos, jogo golfe, pratico esqui, nunca tive problemas com as garotas, que aliás, parecem gostar muito de mim.

Sinto-me feliz e prendado. Há tanta gente no mundo lutando para adquirir uma personalidade de psicopata e eu já nasci com ela. Tem gente até que faz cursos para aprender a ser psicopata. Gente que lê um monte de livros de autoajuda para aprender a ser psicopata. Gente que gasta um dinheirão com analistas para descobrir que na verdade, o que eles querem mesmo é serem psicopatas, isto é, se livrar de suas culpas, seus remorsos, seus medos, suas neuras.

Psicopata já nasce imune a tudo isso. Quando sente prazer em enganar pessoas, para tomar alguma coisa delas, pouco importa que lhe chamem de estelionatário. Ele tem satisfação em ver o quanto é esperto e os outros são tolos. É uma indiscutível prova de superioridade da sua inteligência sobre a deles. E se ele tem um perfil de assassino, a sua maior glória é poder tirar de uma pessoa tudo que ela tem: a vida. Sim. Pois quem tira a vida de uma pessoa tira, concomitantemente, tudo que ela tem. Não é uma coisa bestial, essa?   



É engraçado. Costumam pintar os psicopatas como assassinos e bandidos. Mas a mídia costuma transformar em heróis muitos deles. Eles tem muito mercado.  Batman não é um psicopata? O Homem-Aranha também não? O John MacClane (aquele cara duro de matar), e todos os personagens do Stalone, do Schwarzenegger, o 007, que tem licença para matar, e o Jason Bourne, também não são? E na História geral, quem escreve seu nome nela, geralmente não são os psicopatas? Alexandre não era? Quase todos os imperadores romanos? Os mais famosos, Nero, Augusto, César, Calígula, Constantino, quem o pode negar que eram doidos de pedra? E Hitler, Mussolini, Lenin, Che Guevara, Abraão Linconl, aquele outro Abraão mais antigo, que deu origem a toda psicopatia social e religiosa que existe no mundo ocidental, Napoleão, um bom número de papas, Martinho Lutero e tantos outros nomes que você já leu nos seus livros? Todos eles mataram pessoas ou mandaram matar, e alguém terá ouvido falar que algum deles se consumia de culpa por isso? Todos tinham uma causa. Todo psicopata tem uma causa. E alguns deles são muitos úteis. Keóps, Kefren e Miquerinos, os construtores das pirâmides eram psicopatas, mas o Egito vive até hoje da sua loucura. Quem nega que devemos ao nosso querido Adolph os momentos mais gloriosos da nossa história e uma boa parte da receita que o país hoje faz com o turismo? Quantas pessoas por ano vêm ao nosso país só para ver os restos dos bunkers nazistas, os campos de concentração, as cinzas desse passado que todos dizem odiar, mas secretamente amam e lhes dá orgulho?
Já ouvi muita bobagem a respeito. Uma delas é que os psicopatas geralmente tiveram uma infância repleta de violência e muitos cresceram em uma família desestruturada. Isso nunca aconteceu comigo. Meus pais sempre me trataram com muito carinho. Acho até que foram super protetores, não deixando que a violência das ruas chegasse até mim. Conservaram-me em uma redoma, me puseram em bons colégios, fizeram de tudo para que eu crescesse num ambiente o mais seguro e saudável possível. Sempre me deram tudo que eu quis. Brinquedos, viagens, roupas de grife, aparelhos eletrônicos, tudo. Nunca fiscalizaram o que eu via na televisão e os meus jogos de computador. Sou vidrado no Assassins Creed. Altair é o meu herói. Adoro ver como ele elimina os inimigos Templários. Gostaria de ser como ele, um assassino estrategista. Sei tudo sobre as seitas dos Assassinos e dos Templários. Sei que eram inimigos durante as cruzadas e viviam se matando uns aos outros. Sei também que a seita dos Assassinos tem origem nos antigos sicários dos tempos de Jesus, homens que se misturavam á multidão e assassinavam suas vítimas com uma faca de lâmina curva chamada sica, por isso o nome, sicários. Os sicários tinham objetivos políticos. Eles matavam os inimigos do povo de Israel. Coisa bíblica. Nada como o prazer de matar por uma crença. Os Templários matavam em nome de Cristo. Os assassinos matavam em nome de Alá. Ainda matam. Os cristãos matam os muçulmanos e os muçulmanos se vingam jogando bombas e aviões nos prédios públicos dos cristãos. Hitler mandou matar milhões de judeus, eslavos, ciganos e outras raças porque achava que elas atrapalhavam o desenvolvimento das raças mais fortes. Ele acreditava na teoria de Darwin e achava que matando essa gente estava colaborando com a natureza.  O mundo é um grande celeiro de psicopatas. É um verdadeiro manicômio. Acho que não é só quatro por cento. Tem muito mais.
Talvez seja por isso que eu não estou me importando muito com o que vai acontecer comigo. Vou me suicidar e levar toda essa gente do avião comigo. Não tenho remorso de nada. Pouco me importa que todos tenham filhos, famílias, amigos que estão esperando por eles em qualquer lugar do mundo. Ainda bem que esse idiota do piloto saiu para dar uma mijada. Posso acionar o mecanismo de descida do avião sem problema. É o que acabo de fazer. Ouço as batidas desesperadas dele na porta da cabina. Mas eu a tranquei por dentro. Ele não vai me impedir de virar notícia. Sim. Se alguém quer saber por que vou jogar este avião contra uma montanha a verdade é esta: sempre sonhei em fazer alguma coisa espetacular; uma coisa que me tornasse famoso no mundo todo. Sempre quis ver o meu nome nas manchetes dos jornais.

Sim, você pode estar se perguntando o que vai adiantar este meu tresloucado gesto (na sua opinião) se eu também vou morrer? Porque não estarei vivo para ver a repercussão do meu ato. Não faz mal. Eu sei que falarão disso meses e meses. Que os jornais revirarão todo o meu passado, pesquisarão toda a minha vida, só para descobrir a razão de eu ter feito o que fiz. Publicarão minha biografia e talvez até façam um filme sobre mim. Se fizerem, gostaria que o Brad Pitt fizesse o meu papel. Eu não me pareço um pouco com ele?

Escuto os gritos das pessoas lá atrás. O meu companheiro de pilotagem está batendo desesperadamente na porta da cabina. Posso imaginar o desespero dele. Posso imaginar o pânico dos passageiros. Posso sentir o que estão sentindo. É como mergulhar de uma montanha russa. O estômago vai todo para a boca. É um mergulho no vácuo, uma queda no infinito. Todos sabem que vão morrer. Penso em todos eles e não sinto absolutamente nada. Nem a visão dos destroços, os corpos ensanguentados, que é projetada na tela da minha visão interior me comove ou me assusta.

Nem a visão do meu próprio corpo todo arrebentado me constrange. O sangue derramado tem uma cor fascinante. Não é vermelho nem púrpura, nem carmesim. Tem um cheiro forte e uma cor ocre, quase ferruginosa. Não se encontra uma cor dessas no catálogo das fábricas de tinta. Sei disso porque uma vez pedi aos meus pais que pintassem uma parede do meu quarto com cor de sangue derramado. Eles não conseguiram achar essa cor no catálogo e pegaram uma tinta de cor rubra, tipo ferrugem. Não ficou bom. Se eu não fosse psicopata, teria odiado meus pais por isso.

Mas psicopata não tem sentimentos. Se não ama, também não odeia. Assim não é por ódio de ninguém que vou jogar este avião contra a montanha. Se alguém quiser encontrar uma justificativa, ao menos para botar num relatório e dar uma satisfação para a sociedade e fundamentar o laudo para a companhia de seguro, podem dizer que fiz isso por prazer. Não foi por dinheiro, como aquela patrícia brasileira, a Suzane Ritchhofen, que mandou o namorado matar os pais dela para ficar com o dinheiro dos velhos. Meus pais não são ricos, embora tenham algum. Mas não é isso que me move. Até porque eu não vou mesmo tirar nenhum proveito disso. Meus motivos são mais nobres. Eu quero a fama. Eu quero o meu nome nos jornais.

Não importa a dor que eu vou causar nos outros nem a dor que eu mesmo puder sentir. Psicopata é assim. Adora causar dor nas pessoas. Adora provocar frustração nos outros. Adora tirar coisas dos outros. Nem que tenha que tirar dele mesmo. Talvez isso explique a razão dos suicidas, que até hoje ninguém conseguiu teorizar a contento.

Uma última coisa. Eu sou um psicopata consciente. Sei que o que eu vou fazer é uma coisa  ruim, segundo todos os códigos de humanidade que a sociedade desenvolveu. Mas não se preocupem, porque vou fazer isso que vocês chamam de maldade pela primeira e última vez. Afinal, eu também vou morrer.  Já vejo a montanha se aproximando. Nossa, como ela está branquinha de neve! Deve estar fazendo um frio dos infernos lá embaixo. Mas não vai dar tempo para senti-lo. Bateremos em cinco segundos. Não adianta afivelar os cintos nem colocar os assentos em posição vertical. As máscaras que caírem automaticamente não vão servir para nada. Em segundos estaremos todos mortos! Adeus para vocês. Nos veremos no inferno, se esse lugar existir.

MENSAGEM DO FUTURO


                                                           


Querido Vovô.

 
Onde quer que você esteja, espero que esteja com saúde e muito feliz. Afinal, só pode estar, não é? Afinal, como você mesmo dizia, só fica doente quem tem corpo e só é infeliz quem tem ego. Nada disso você tem mais, então só posso deduzir que esteja saudável e feliz nesse lugar que todo mundo diz que é melhor do que aqui, mas que no fundo ninguém vai de boa vontade ...

Ah! escrevi isso só por praxe, tentando imitar o jeito de escrever que se usava no seu tempo. Hoje não se escreve mais assim. Você sabe. Simplificamos tudo, até o jeito de escrever. Você deve se lembrar. Quando ainda estava aqui com a gente nós tínhamos começado a fazer isso em nossos e-mails, twitters, face-books e outras formas de comunicação que surgiram depois da Internet. Você ficava fulo da vida quando a gente escrevia vç ao invés de você, ap ao invés de apartamento, cs ao invés de casa e por aí afora...

Aliás, Internet, face-books, twitters, whatssaps já são coisas do passado. E-mails então... São mais antigos do que o código morse era no seu tempo. Putz vô. Escrever do jeito que se escrevia quando você estava aqui é um saco, sabe? É duro até para construir uma frase inteira, usando todas as letras de uma palavra. Como é que vocês conseguiam fazer isso? E onde conseguiam tanto papel para escrever?

Aliás, papel é coisa que hoje não se usa mais. Vi alguns tipos de papel em um museu e achei engraçado que vocês escrevessem naquilo. Agora a gente só usa o tele-imagem, que além de transformar em legendas tudo que a gente fala ainda mostra a nossa cara para que a pessoa saiba com quem está falando. Todo mundo hoje tem um tele-imagem. É bom porque ninguém precisa mais ir á escola para aprender a escrever. Hoje a gente só precisa aprender a falar.

Mas até isso já está ficando obsoleto. Porque nós já estamos aprendendo a nos comunicar por telepatia. Lembra? O senhor falava muito isso. Que no futuro as pessoas iam se comunicar através do pensamento. Não iam mais precisar falar nem escrever. Já está acontecendo. Falo com a minha namorada lá em Sidney por telepatia. A comunicação ainda não é muito clara, pois é difícil fazer o sincronismo entre o pensamento dela e o meu. E também é preciso ter cuidado, pois pode não ser muito saudável para a cabeça da gente. Por que se nós emitirmos pensamentos no mesmo intervalo de tempo e eles se chocarem no espaço, podem gerar partículas radioativas que prejudicarão os nossos neurônios. Por isso as autoridades aconselham as pessoas que quiserem usar esse novo meio de comunicação que elas façam um bom treinamento antes para sincronizarem as ondas cerebrais de modo que uma não se choque com a outra.

Sim. As autoridades, o governo, a política. Sei que o senhor gostaria que eu falasse desses assuntos. Lembro-me. Eu era bem pequenino, mas não esqueço o quanto o senhor se aborrecia com os políticos do seu tempo, que eram todos corruptos, mentirosos, aproveitadores e safados. Ah! vô. Lamento dizer que isso não mudou muito não. E também, porque mudaria? Como o senhor mesmo dizia, os políticos são o retrato do seu povo. Eles vêm do povo. A corrupção, por exemplo, está no DNA das pessoas.

É. Os cientistas já isolaram DNAs de pessoas comprovadamente honestas e criaram um banco de genes. Isso já faz algum tempo. Acho que foi logo depois que o senhor passou dessa para a melhor, como se diz. Acho que foi em 2028. A ideia era fazer, em um futuro próximo, um Governo (Executivo, Legislativo e Judiciário) só com pessoas honestas, fertilizadas “in vitro” (nem barriga de aluguel eles queriam usar) e criadas em um ambiente isolado, para que não se contaminassem com o ambiente corrupto do resto da humanidade. Mas até hoje isso não vingou. O senhor pode imaginar por quê. Claro, essa era uma ideia de cientistas, e eles, como o senhor sabe, são idealistas sonhadores. Mas dificilmente os políticos deixarão que isso aconteça. Até já aprovaram uma lei proibindo a fertilização “in vitro” e outra para controlar as experiências genéticas, para evitar que sua espécie seja extinta por um desses ditadores malucos que de vez em quando aparecem no mundo pensando que são a encarnação de Jesus Cristo.

De resto vô, tudo continua igual. Só o calor e o frio aumentaram paca. Hoje está fazendo 45 graus aqui. No inverno, aqui em São Paulo, chega a 10 graus negativos. Parece a Nova Iorque do seu tempo. Aliás, Nova Iorque, hoje é uma cidade quase deserta. Calor e frio insuportáveis, e o mar que já cobriu a maior parte da cidade, resultado do descongelamento das geleiras polares. São Paulo também diminuiu de tamanho, graças a Deus. Menos de cinco milhões de pessoas moram hoje aqui. A moda agora é morar na Amazônia. Por causa da água. Ah! sim. O Tietê, o Tamanduateí e o Pinheiros agora estão tão limpinhos como na época em que São José de Anchieta chegou aqui. Só não tem o mesmo volume de água de antigamente. Por isso a maioria da população do litoral e das grandes cidades do sul se mudaram para a Amazônia. As duas maiores cidades do Brasil hoje são Manaus e Santarém.

Sim. O Anchieta virou santo oficial agora, com dia feriado e tudo. E tornou-se o padroeiro de São Paulo, no lugar do velho rabino e tecelão judeu, como o senhor o chamava. Aquelas coisas que o senhor falava que ia acontecer com o clima realmente aconteceram. A gente só aguenta por que hoje usamos roupas climatizadas e não precisamos andar mais ao relento. As cidades são equipadas com esteiras rolantes nas ruas, montadas dentro de tubos de plástico, e os transportes públicos tem ar condicionado. Lembra a Avenida Paulista ás seis da tarde? Agora ela é um enorme túnel de plástico com dez esteiras rolantes em cada pista. As marginais também, e as demais grandes avenidas da cidade. O aero-trem, que aquele sujeito ridículo de bigodinho, toda eleição dizia que ia fazer se fosse eleito já é uma realidade há mais de quarenta anos. A gente roda o centro inteiro de São Paulo de aero-trem.  Aquele montão de automóveis do seu tempo não existe mais. Hoje ninguém mais tem carro particular. Só usamos transporte publico, movido á energia solar ou atômica. Também porque o petróleo já acabou e ninguém usa mais combustíveis fósseis. Mas aquelas eternas guerras que haviam no Oriente Médio, que o senhor achava que eram travadas por causa do petróleo, continuam a acontecer. Eles agora brigam por causa da água, por causa da religião, por causa de futebol e outras coisas mais. Tudo muda, mas certas coisas sobrevivem para sempre. Uma delas é a estultice do ser humano.(essa palavra ninguém usa mais, mas como o senhor gostava de usá-la, resolvi ressuscitá-la.).

Agora a maior parte das nossas vidas a gente passa dentro de casa ou em escritórios climatizados, ou nos shoppings. Sei. Você vai dizer que no seu tempo já acontecia isso. Só que hoje essa é a única forma de viver, pois o clima ficou tão hostil que é impossível andar na rua por mais de dez ou quinze minutos.

Mas não tem só coisa ruim neste ano da graça de Nosso Senhor de 2065. O nosso Coringão ganhou, no ano passado, o seu décimo título mundial. E aquelas malditas torcidas organizadas, que o senhor tanto odiava, por não poder me levar ao estádio por causas da brigaiada que eles aprontavam, não existem mais. Há uns trinta anos atrás um promotor e um juiz de culhão finalmente tomaram coragem e extinguiram de vez aquele cancro que corroía o futebol brasileiro.

Tchau vô. Estou indo para Sidney, na Austrália, visitar minha namorada. A viagem de São Paulo a Sidney hoje não leva mais que duas horas. Aviões movidos á energia atômica. Fazem cinco mil quilômetros por hora. Não estranhe que eu, aos 65 anos, tenha uma namorada do outro lado de planeta. Ir de São Paulo á Sidney, hoje é como ir do centro São Paulo até Santo Amaro de carro. E sessenta e cinco anos, para nós, é a plena juventude. Nossa média de vida está pelos 130 anos. É paradoxal, não é? Mas a vida é assim mesmo. O velho Charles Darwin já dizia que quanto mais hostil o ambiente se torna para ela, mais ela se aperfeiçoa e se fortalece. Talvez seja por isso que a gente mesmo, ás vezes, vive estragando tudo. Só para poder vencer a dificuldade que a gente mesmo cria. O senhor tinha razão. Nós sempre existiremos. Mesmo que a gente viva eternamente tentando se matar.

Até um dia. 

Em São Paulo, aos 2 de março de 2065




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