Os pecados de uma boa menina the downfall of a good girl



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OS PECADOS DE UMA BOA MENINA

THE DOWNFALL OF A GOOD GIRL

Kimberly Lang


AS IRMÃS LABLANC
Uma boa menina... e um malicioso rapaz!

A debutante Vivienne LaBlanc não podia acreditar que o astro do rock, o bad boy Connor Masfield, voltou à cidade para participar do concurso anual "Santos e Pecadores de Nova Orleans". Ele tem uma reputação tão perversa quanto o seu sorriso, e Vivi não tem nenhuma intenção de ficar idolatrando ele. Connor já havia partido o seu coração, então, fingir ser a santa enquanto ele bancava o pecador seria fácil. Mas como Vivi pode tirar pensamentos nada angelicais de sua cabeça quando Connor é tão bom em tentá-la?




Digitalização: Mariana N.

Revisão: Alê Ramos


Querida leitora,

Para escrever a história de Connor e Vivi precisei viajar para um de meus lugares favoritos: Nova Orleans. Essa é a cidade que sempre tem algo a oferecer para todos os gostos. Música, história, comida, arquitetura, arte... Não importa a sua idade ou interesse, lá você encontra algo de que gosta! Na minha época de estudante fiquei em Nova Orleans bastante tempo, por isso tenho várias histórias para contar. Mas vamos deixar isso para lá. Minha mãe deve estar lendo esta carta, e o que os olhos não veem o coração não sente.

Foi com muito horror que acompanhei pelo noticiário a cidade ser inundada por causa do furacão Katrina. Fiquei pensando como seria possível reergue-la e também em como as coisas passariam a ser. O espírito, a cultura e a atitude permaneceriam?

Eu devia ter suspeitado que seria necessário muito mais do que uma enchente para apagar a personalidade de Nova Orleans. Seu tempero único e atitude ainda estão impregnados em tudo, tornando a cidade um personagem de qualquer história que a tenha como cenário. Não existe outro lugar como Nova Orleans

No caso de Os pecados de uma boa menina, foi absolutamente necessário fazer uma viagem de pesquisa a Nova Orleans para trabalhar com Cristina Lynn, uma cantora e compositora local que me ajudou na criação das canções de Connor. É difícil dizer de qual parte do processo de criação desse livro gostei mais.

Espero que gostem de Os pecados de uma boa menina, que se apaixonem por Nova Orleans e também, é claro, por Connor e Vivi.



Geaux Saints!

Kimberly
Tradução Rodrigo Peixoto
HARLEQUIN

2014
PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A.

Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.


Título original: THE DOWNFALL OF A GOOD GIRL

Copyright © 2013 by Kimberly Kerr

Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance
Título original: THE TAMING OF A WILD CHILD

Copyright © 2013 by Kimberly Kerr

Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Heat
Projeto gráfico de capa:

Nucleo i designers associados

Arte-final de capa:

Ô de casa

Editoração eletrônica:

EDITORIARTE

Impressão:

RR DONNELLEY

www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

FC Comercial Distribuidora S.A.

Editora HR Ltda.

Rua Argentina, 171,4° andar

São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380

Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


CAPÍTULO 1

Vivienne LaBlanc esperava, impaciente, tentando não esbarrar as asas em nada nem se mover muito rápido, para não perder seu halo, enquanto Max Hale fazia seu discurso inaugural do outro lado da cortina.

— Muitas são as comparsas de carnaval, mas nenhuma como a Bon Argent. Há cinco anos, nós resolvemos arrecadar fundos para as vítimas do furacão Katrina, mas queríamos fazer isso bem ao estilo de nossa cidade. Com o festival Santos e Pecadores, que cresce a cada ano, conseguimos angariar milhares de dólares para vários projetos de caridade, e eu agradeço a todos pelo apoio.

Após uma rápida onda de aplausos educados, Max continuou falando sobre o que tinham conseguido fazer, mas Vivi não prestava muita atenção. Ela conhecia muito bem a história da Bon Argent, pois estava envolvida com eles desde o início. Candy Hale era uma de mais longa data, e Max era uma espécie de segundo pai. A sua mãe costumava fazer parte da diretoria. Portanto, conhecia aquela história. Mas precisava, no entanto, dar um jeito naquelas asas.



Como vou me sentar com isso preso às minhas costas? Aquelas asas cheias de penas e pedras eram maravilhosas, mas muito pesadas.

Vivi franzia a testa ao tentar ajustar as tiras de suas sandálias, que eram altíssimas. Sendo honesta consigo mesma, ela parecia uma showgirl de Las Vegas, não uma Santa.

Aquele era o baile do Santos e Pecadores (e aquela era a comparsa Bon Argent), que costumava beirar a cafonice certas vezes. No entanto, a pompa e o brilho da comparsa eram os responsáveis por atrair tanta gente aos eventos de caridade, que ganharam enorme popularidade em muito pouco tempo.

E havia mais de 300 pessoas reunidas ali, todas esperando, ansiosas, pelo anúncio do baile daquele ano. Seguindo as tradições das comparsas de carnaval, tais informações eram mantidas em segredo. Pelo que Vivi sabia, a cada ano só três pessoas conheciam o segredo. Max, o chefe do projeto de caridade da Bon Argent, Paula, a chefe de relações públicas, e a Sra. Rene, que confeccionava as fantasias para o baile.

Nem Vivi sabia o que aconteceria até a quarta-feira de cinzas. Mas tinha alguns palpites...

Ao contrário das comparsas tradicionais, que coroavam um rei e uma rainha, na Bon Argent não havia tais postos. O Santo e o Pecador eram escolhidos entre as celebridades locais e sua reputação tinha de combinar com o posto. Além do mais, as duas pessoas podiam ser do mesmo sexo.

Vivi apostava que a dona de um nightclub, Marianne Foster, que estava muito presente na mídia naqueles tempos, seria uma ótima candidata, mas Vivi não ficava atrás.

Ainda que Marianne pudesse ser popular nas votações, conseguindo muito dinheiro para a caridade, não era um ato egoísta afirmar que ela própria (Vivi) poderia ser ainda mais popular e arrecadar ainda mais dinheiro se comparada a Marianne.

Ela não queria pensar nisso. Os pensamentos são os precursores de palavras e ações, e ela aprendera a manter a cabeça no lugar, pois dessa maneira evitava dizer ou fazer algo de que poderia se arrepender mais tarde. A questão aqui é arrecadar o máximo possível de dinheiro. Não importa quem será a vencedora.

Mas claro que isso também importava. A Pecadora (ou Pecador) conseguira ganhar a coroa por dois anos consecutivos, mas naquele ano as honras seriam da Santa, pois Vivi se recusava a perder. Ela só perdera uma coroa na vida e ainda se lembrava do terrível gosto de ser derrotada no concurso de Miss América, vencido pela representante de Indiana. Ela adorava a personalidade de Janelle, sem dúvida, e sabia que poderia ser uma ótima Miss América, mas mesmo assim perder era terrível.

Ela gostava de uma competição. Sua personalidade era muito forte. Claro que ninguém gosta de perder. Porém, no caso do Santos e Pecadores, sua natureza competitiva sereia benéfica, pois a causa apoiada era justa e muito necessária.

Max estava apresentando sua corte de Querubins: dez alunos de escolas secundárias locais escolhidos pela comissão de caridade para ajudá-la na arrecadação de fundos.

E chegara sua vez. Ela respirou fundo, arrumou o vestido pela milésima vez e esperou.

— ... é um prazer apresentar aos senhores a Santa Vivienne LaBlanc!

A cortina se abriu e vários flashes espocaram, vindos dos muitos fotógrafos reunidos bem na frente do palco. Por outro lado, uma grande onda de aplausos se levantou entre o público. Vivi ouviu o famoso assobio de sua irmã e olhou para a mesa onde a sua família estava.

Ao se levantar da mesa, uns 20 minutos antes, ela lhes dissera que precisava atender uma importante ligação, mas Lorelei piscara o olho para ela.

Vivi acenou para sua família e observou que as pessoas ao redor davam os parabéns a seus pais.

Ser escolhida como Santa era uma grande honra, e Vivi ficou tocada com os aplausos, pois demonstravam que muita gente a apoiava, que muita gente concordava que ela merecia o posto.

Vivi ganhara muitos concursos na vida, levara para casa muitas coroas, mas aquele concurso era diferente. Não se tratava de ser linda ou popular. Aliás, o lado negativo de sua carreira era ser vista unicamente como uma mulher linda, mas vazia, sem substância. Ela passara anos lutando contra o estereótipo, tentando provar que havia algo mais em seu interior. Aquele sempre fora seu maior objetivo, e o halo em sua cabeça era a prova de que conseguira. Sua fantasia poderia ser cafona, mas o halo significava mais do que qualquer coroa.

E ganhar da Pecadora (ou do Pecador, seja lá quem fosse), seria a cereja no bolo naquele momento. Tudo o que ela queria era o troféu.

Vivi tirou o halo da cabeça, depositando-o com cuidado sobre o travesseiro de cetim azul que guardaria o halo da Santa e os chifres da Pecadora até que a competição tivesse chegado ao fim, quando a vencedora seria anunciada aos quatro ventos. Em seguida, sentou-se junto à sua corte e aplaudiu, educadamente, no momento em que a corte da Pecadora foi anunciada.

Max respirou fundo e parecia muito agitado.

— Nossa Pecadora deste ano, ou melhor, nosso Pecador, é uma escolha óbvia. E estamos muito orgulhosos ao saber que ele reservou um tempo em sua agenda para reinar neste evento tão importante para nós.

Quando ouviu que seria um Pecador, no masculino, Vivi achou que já tivesse perdido a aposta. Droga! Tinha certeza de que seria Marianne...



Mas não importa, ela pensou, pois estava preparada para enfrentar qualquer um, até mesmo um homem..

— ... Connor Mansfield!

E o sorriso de Vivi ficou congelado. No mesmo instante, o público explodiu em uma ovação generalizada. Vocês só podem estar de brincadeira...

Ao entrar no palco, Connor viu de relance a expressão no rosto de Vivi e quase sorriu ao notar a mistura perfeita entre terror e fúria junto a um par de asas angelicais. Claro que ele entendia. Aliás, entendia perfeitamente, pois sentira o mesmo ao ouvir o nome de Vivi sendo anunciado como o da Santa, mas Connor contava com a vantagem de estar atrás das cortinas quando isso aconteceu.

Ele aceitara o convite para o bem dos gerentes do Bon Argent, pois aquelas pessoas sabiam que Connor atrairia a atenção de toda a imprensa local. E sabiam também que tal atenção poderia ofuscar todos os outros eventos carnavalescos. O mais provável é que quebrassem todos os recordes de arrecadação de fundos.

Vivi parecia a ponto de partir para cima dele, mas a verdade é que sempre o encarava daquela maneira. Algumas coisas não mudam nunca, não importa quanto tempo a pessoa passe longe de sua terra natal.

Mas o show tinha de continuar e todo mundo esperava que os dois tomassem seus devidos lugares para que o jantar fosse servido.

Connor tirou os chifres de Pecador da cabeça e deixou-o ao lado do halo de Santa de Vivi. Isso feito, aproximou-se de Vivi, fez um aceno educado com a cabeça e esperou que ela retornasse o gesto. Lentamente, os dois seguiram para a mesa mais destacada do salão. Quando chegaram às suas respectivas cadeiras, a competição do festival Santos e Pecadores foi oficialmente iniciada. Os garçons surgiram com as bandejas, e o público voltou a atenção às elaboradas saladas que estavam sendo servidas.

Connor inclinou o corpo na direção de Vivi e disse:

— Você vai arruinar três anos de tratamento dentário se continuar rangendo os dentes dessa maneira, Vivi.

Ela franziu a testa, mas finalmente parou de ranger os dentes.

Pegando sua taça de vinho, Vivi percebeu que estava vazia e resolveu pegar a taça de água. Ele a observou com cuidado e deu de ombros antes que ela tomasse o primeiro gole. Conhecendo Vivi, sabia como ela estaria se sentindo.

— Eu diria: seja bem-vindo de volta, mas...

— Mas não vai dizer — retrucou ele sorrindo —, pois não seria sincero.

Na verdade... — disse ela —, com a recepção que você teve, seria um pouco redundante.

— Você está com ciúme por eu ter recebido mais aplausos? — perguntou ele.

— Não! — retrucou ela, mudando de posição na cadeira. — Eu não nutro o vício da atenção.

— Não diga mentiras...

Vivi respirou fundo e seu sorriso ficou mais tímido.

— Pois saiba que algumas pessoas conseguem superar a adolescência.

Ele fingiu pensar por alguns segundos no que ela dissera, depois fez que não com a cabeça triste.

— Mas você continua sendo a mesma santa de sempre...

— E você continua sendo um...

Vivi parou de repente, tanto que Connor imaginou que ela tivesse mordido a língua.

Ela respirou fundo e engoliu em seco.

— Você deve estar muito orgulhoso por finalmente ver suas conquistas reconhecidas, certo?

— Sinto muito em frustrar suas expectativas, Santa Vivienne, mas esses títulos não são referências de caráter.

— Sério? — perguntou ela, com uma expressão de inocência confusa estampada no rosto. — Você parece perfeito para o título que recebeu.



Essa foi a primeira alfinetada. Ele, com certeza, sabia que Vivi não deixaria a ocasião passar em branco. Mesmo tendo se vingado, os rumores e as fofocas tinham feito seu trabalho. Todos acreditavam haver um grão de verdade naquela história toda... e tal grão nunca deixaria que a história morresse.

Vivi deve ter atingido um ponto fraco, mas ele nunca admitiria isso.

— Santa e julgadora! Você diversificou seu repertório.

— E acho que você também deveria diversificar o seu. Um pouco de decoro de sua parte seria bem-vindo, ainda mais depois de receber tamanha honra.

— De acordo com você, o que eu recebi não foi exatamente uma honra, certo?

— Você continua muito seguro de si, pelo que vejo — disse ela. — Mas sua pose é ridícula, sabia? E você está ridículo nessa calça de couro, Connor. O que é isso? Estamos de volta a 1988?

Ele vestia uma calça parecida quando os dois foram apresentados.

— Eu concordo. A calça é horrorosa. Muito anos 1980... Mas acho que funciona para o personagem

Vivi sorriu. Dessa vez, seu sorriso foi real. Mas fora dirigido ao garçom que lhe servia vinho. Quando o homem foi embora, o sorriso desapareceu de seu rosto.

— Eu não sei no que Max estava pensando — resmungou ela, mexendo em sua salada. — O Santo e o Pecador devem ser representados por celebridades locais.

— Eu sou um homem comum, Vivi. E sou tão local quanto você.

— Você era local — corrigiu-o ela. — Agora é internacional. Você passa mais tempo fora do que aqui nesta cidade.

Ele mudou de posição na cadeira, tentando ficar confortável, mas as enormes asas negras presas às suas costas dificultavam o trabalho. Ele não entendia muito bem aquela história de Santos e Pecadores, mas a Sra. Rene caprichara na fantasia de Lúcifer. Na verdade, ele parecia um grande corvo.

— Quer dizer que você não gosta das exigências do meu trabalho? — perguntou ele.

Vivi tentou jogar os cabelos para trás dos ombros, mas as asas impediram o movimento, criando ondas de inspiração artística em suas asas.

— Eu sou contra a criação de uma competição injusta.

Exceto pelos cabelos negros, Vivi poderia passar perfeitamente por um anjo... seus olhos eram azuis; sua pele, macia; suas feições, elegantes. O fogo em seus olhos, no entanto, passava longe de ser um traço angelical... A irritação deixou seus movimentos muito duros, um pouco desconcertados.

— Quer dizer que a competição é injusta? — perguntou ele.

Com um movimento decidido, ela finalmente conseguiu se livrar de uns fios de cabelo caídos sobre o rosto. Nesse momento, um pedaço da asa caiu no chão. Vivi olhou para baixo e os olhos de Connor seguiram os seus, depois pousaram em seu rosto. A boca de Vivi era linda; seus lábios, fartos, delicados. Porém, quando ela os abriu, quebrou o encanto.

— Suas fãs e seus amigos famosos vão encher os cofrinhos e você será o vencedor — disse ela.

— Mas a questão aqui é encher os cofrinhos, certo? — perguntou ele. — A questão é conseguir levantar um bom dinheiro.

— Claro que isso é o mais importante — disse ela novamente trincando os dentes. — Porém, sua vantagem é grande demais. Ninguém poderia competir com você.

Ele sorriu e disse:

— Fico feliz ao ver que, por fim, você admite isso.

— Eu só estou querendo dizer que... que eu sou daqui, que sou desta cidade e que você é uma maldita estrela do rock. Você tem um grupo de fãs muito maior e isso é uma desvantagem, é injusto.

— Mas você é a Santa da história, Vivi. Não a mártir.

Vivi apertava sua taça de vinho com tanta força que Connor ficou com medo de que a quebrasse.

— Por que você não se concentra em comer seu jantar? — sugeriu ela.

Ele abriu um novo sorriso.

— Por que você não se dá por vencida agora mesmo?

— Não vou jogar a toalha.

— Quer dizer que a competição segue de pé? — perguntou ele.

— Pode ter certeza de que sim — respondeu ela, agarrando o garfo com toda a força e cortando a alface de uma maneira exagerada.

Vivi nunca desistiria de um desafio, não importava qual fosse. Ela sempre vivia tudo ao máximo, gostava de chegar ao limite. E isso era uma das poucas coisas que os dois tinham em comum. Tudo o mais sobre aquela mulher o deixava louco, fora de si. Sempre fora assim

Connor não deveria permitir que Vivi o atingisse daquela maneira. Ele era um adulto, pelo amor de Deus! Vivi talvez não gostasse dele, mas muitas mulheres gostavam.

Por isso, tal atitude não deveria chateá-lo. Havia algo naquela menina, no entanto, que parecia impregnar-se em sua pele, no interior de seu corpo...

Será que ele teria concordado em participar se soubesse que Vivi também participaria? Será que ele teria enviado um cheque à caridade e deixado aquela história de lado?

Não. Ele pensara muito sobre voltar para casa. Aquele evento era apenas uma forma de trazê-lo de volta. Era uma desculpa para compensar um pouco o dano causado... para fechar um pouco a ferida ainda aberta, para conseguir algumas manchetes que não tivessem nada a ver com testes de paternidade ou atividades sexuais. Assim, ele talvez conseguisse dar um passo atrás e respirar aliviado pela primeira vez em muitos anos.

Até então, ele não percebera o quanto estava cansado. Conseguir tudo o que sempre quis na vida era ótimo na teoria, mas ele nunca imaginou que acabaria se sentindo um trapo. Claro que Connor conseguira a liberdade, mas tudo na vida tem um preço...

Estar em casa, verdadeiramente em casa, o fez sentir os pés no chão novamente. As ideias que passara um bom tempo nutrindo no fundo da mente ganhavam forma naquela cidade. Nova Orleans era ótima para sua cabeça e sua alma, e ele aproveitaria as semanas seguintes para pensar em qual seria seu próximo passo... ou no que gostaria de ser dali para a frente.

Ele ouviu o suspiro de irritação de Vivi e isso o trouxe de volta ao presente. Naquele momento, Connor tinha um concurso a vencer. Voltar para casa era ótimo e ainda melhor do que voltar para casa era ser tão bem recebido e ter a oportunidade de fazer algo em prol de sua comunidade.

E chatear Vivi seria um bônus perfeito.

Vivi não parava de comer, pois queria manter sua boca ocupada. Controlar os pensamentos seria impossível, mas pelo menos assim ela não diria algo de que poderia acabar se arrependendo.

Sem dúvida, Connor seria uma galinha de ovos de ouro para a fundação. O dinheiro que seria arrecadado e a publicidade grátis das manchetes de jornais seriam incalculáveis. O lado racional da mente de Vivi aplaudia a decisão de Max, e ela invejava sua habilidade para convencer Connor a participar.

Mas Connor Mansfield? Droga! Se queriam uma estrela da música, por que não escolheram alguém que morasse em Nova Orleans? Mas não, eles queriam Connor, queriam a maior estrela que conseguissem, e ainda por cima ele era considerado o maior Pecador do momento.

De sua mesa, Vivi podia ver o salão inteiro. A lista de convidados, que englobava os mais ricos e famosos da sociedade local, era imensa, e ela conhecia todos os rostos ali presentes. E todos naquela sala sabiam perfeitamente que Vivi e Connor se odiavam.

Odiavam não é palavra mais adequada. As pessoas costumavam dizer isso, mas ela não odiava Connor. Vivi não gostava nada dele, mas odiar implicava mais energia do que ela gostaria de empregar naquela história. Os dois simplesmente não deveriam permanecer no mesmo local por muito tempo. Connor era um homem que fazia o sangue dela ferver. Qualquer conversa entre os dois a deixava muito nervosa para pensar racionalmente.

Ela começou a sentir uma dor de cabeça...

Pelos olhares lançados em sua direção, todos naquele salão pareciam atentos à situação. Provavelmente, eles já estavam fazendo apostas sobre quando surgiria a primeira faísca entre os dois.

dez anos, em um baile como aquele, a Rainha esbofeteou o Rei 10 minutos após a coroação.

Connor merecia ser esbofeteado, mas Vivi não faria uma coisa dessas. Ela não voltaria a manchar sua reputação, o que poderia inclusive impedir que participasse de novos concursos. Após a última discussão entre os dois, ela passara meses tentando limpar sua imagem, em um processo que foi auxiliado por Connor e seu escândalo pessoal.

Todos os olhos se voltaram para ele. Ainda assim, aquela noite tinha certa aura de revanche, e ela e Connor deveriam manter a maior distância possível.

No início da carreira, a música de Connor demorou a chegar às rádios. Porém, em algum momento, o sucesso apareceu. Aliás, ele era um homem de muito sucesso. Portanto, logo após a quarta-feira de cinzas, ele voltaria a Los Angeles ou a Nova York ou a qualquer outro lugar do mundo onde tivesse estabelecido residência, e a vida de Vivi voltaria ao normal. Seria um pequeno prêmio de consolação, mas ainda assim serviria.

No entanto, será que ela agüentaria tanto tempo a seu lado? Será que não perderia a cabeça? Eles eram adultos. Mais velhos, mais sábios, mais maduros. Talvez as coisas tivessem mudado...

Ela arriscou uma olhadela.

Provavelmente não.

Connor exalava arrogância por todos os poros. Parecia um homem muito seguro de si mesmo, sempre com um sorriso sarcástico estampado no rosto. Era como se estivesse sempre rindo dela. Mesmo sentado à sua frente, com aquela ridícula fantasia de Lúcifer, ele conseguia manter a pose.

A Sra. Rene o vestira de couro preto... e não era apenas a calça sobre a qual ela fizera um comentário sarcástico antes, mas também um jaleco e uma bota de motoqueiro. Faixas de couro atravessavam o peito dele, deixando visível uma forma física nada comum entre pianistas.

O contraste com a roupa branca de cetim de Vivi era enorme. No entanto, se sua roupa indicava santidade, a de Connor parecia mais próxima do sexo: o couro funcionava como uma segunda pele, deixando pouco espaço à imaginação. Se a Sra. Rene preparara uma roupa diáfana para a Santa, fizera algo completamente distinto para Connor.

Ele era alto, moreno e a sua imagem era perigosa...

Ela engoliu em seco. Seu amor pela arte permitia que Vivi apreciasse o belo, mas Connor ultrapassava a imagem do belo masculino. O que havia nele era virilidade, força, paixão. Era difícil não enxergar Connor dessa maneira.

Ele ergueu os olhos, percebeu que Vivi o observava e sorriu. Seu sorriso era matador, um sorriso que fez nascer leves rugas nos cantos de seus olhos castanhos e brilhantes.

E aquele sorriso deixaria qualquer mulher fora de si, pelo menos até o momento em que ele abriu a boca.

— Algum problema, Vivi? — perguntou ele.

— Não. Eu só estou surpresa com essa barba. Você perdeu a gilete no meio da turnê?

Ele passou uma das mãos no rosto barbudo.

— Eu achei que combinaria com a fantasia, que me deixaria com uma imagem mais diabólica.

— Essa barba é tão ridícula quanto a calça de couro — disse ela, mentindo e voltando a jantar.

A imagem de Connor era diabólica, perigosa, sexy e pronta para roubar uma dúzia de almas femininas. E tais mulheres provavelmente não resistiriam As mulheres costumavam adorar Connor.

A quem ela queria enganar? Todo mundo ama Connor, todo mundo fala maravilhas de seus talentos, todo mundo festeja seu sucesso. Eis uma das razões por que todo mundo estranhe o fato de ela não fazer nada disso.

Vivi não tinha certeza absoluta de quando tudo isso começou. Porém, nos 25 anos que o conhecia, não era capaz de se lembrar de um único dia em que Connor não a irritara a ponto de ela ser praticamente capaz de cometer um homicídio justificável.

E Vivi não era o diabo. Ela gostava das pessoas. Connor era a única pessoa do mundo que a atingia daquela maneira, e ela já lidou com vários tipos de pessoa irritante. Vivi era conhecida por suas habilidades interpessoais. No entanto, elas não foram suficientes para que ela soubesse lidar com uma estrela do rock.

Como ela mesmo dissera, Connor era um homem comum quando os dois se conheceram. As mães deles participavam de vários projetos de caridade e almoçavam juntas duas vezes por semana. Os pais jogavam golfe juntos e eram sócios em alguns negócios. Ela passara a vida inteira ouvindo maravilhas de Connor. Às vezes, toda a vizinhança parecia viver à sombra daquele menino. Os dois tinham a mesma idade, freqüentaram a mesma escola, tinham os mesmos amigos e se davam mal desde a puberdade.

E não parecia importar a ninguém o fato de eles não se darem bem, e Connor parecia disposto a irritá-la sempre que possível.

As pessoas ficavam anestesiadas.

Elas deixavam que a beleza do menino e seu talento vencessem suas falhas de personalidade.

Por outro lado, ela talvez fosse a única vítima do oposto do charme de Connor. Ele não se preocupava muito com o que não estivesse ao alcance de seu mundo. Aliás, obviamente, ele era o centro de seu próprio mundo. Uma prova disso era que fora chamado para participar daquele baile de caridade... Aliás, aquele baile deveria ser um evento de caridade, mas passara a ser um baile para ele.

Perder o concurso seria terrível para ela, mas perder para Connor seria insuportável para seu orgulho.

E orgulho era tudo o que lhe restava naquele momento. Vivi tinha de agarrar-se àquele orgulho para conseguir sobreviver até a quarta-feira de cinzas.

Comendo sem parar a fim de evitar qualquer conversa, ela aproveitou o tempo para revisar seus planos e estratégias. Vivi precisava pensar alto, precisava pensar além de Nova Orleans. Isso seria duro, pois grande parte do mundo parecia ter se esquecido da cidade depois que o furacão Katrina deixou de ser notícia.

Ela poderia se envolver em coisas maiores, poderia se candidatar a concursos nacionais. Droga! Todos os seus amigos, e entre eles aquela Miss Indiana, teriam de ser contatados. Ela precisava exercitar a criatividade, pois tudo o que Connor precisava fazer era sorrir, e o dinheiro e os votos voariam para seu lado.



Que nojo! Ela passara semanas pensando naquele momento, guardando o segredo a sete chaves, sonhando com o Santos e Pecadores. Mas, naquele momento, toda a alegria e animação tinham desaparecido. Seu coração estava ferido. Apesar de todos os seus esforços, ela provavelmente perderia a coroa. O breve êxito ao ser chamada ao palco não se repetiria. Aliás, ela provavelmente fora chamada para fazer um bom contraste com a vitória gloriosa de Connor. Pensando nisso, ela o odiou mais do que nunca.

Não!, ela disse a si mesma. Não permitiria que Connor a atingisse dessa maneira. Ela merecia aquele título.

Sim, poderia perder a competição, e Deus sabia que ela faria de tudo para não perder, mas manteria a dignidade e ficaria satisfeita com um trabalho bem-feito.



Dignidade. Mas como conseguiria manter a dignidade diante de tudo aquilo?

Uma ideia surgiu. Quanto mais pensava, melhor o pensamento lhe parecia.

Não poderia controlar o desempenho de Connor naquele concurso, mas poderia controlar o seu próprio. Ela fora escolhida como Santa. Deveria demonstrar calma e santidade. Por sua vez, Connor pareceria arrogante, um louco arrogante. Seria uma pequena vitória, mas ela a aceitaria mesmo assim.

Vivi deixou o garfo apoiado na borda do prato e disse:

— Connor?

— Sim, Vivi — respondeu ele.

Ela ergueu a taça de vinho, fazendo um brinde e Connor ficou aturdido.

— Um brinde a um bom competidor e a uma boa causa. Estou ansiosa para começar a aventura, pois os verdadeiros vencedores são as pessoas e as comunidades que vamos ajudar. E estou feliz que você tenha vindo aqui, que esteja participando deste evento.

Connor parecia em choque. Ele ficou com os olhos arregalados, mas se recuperou rapidamente e ergueu sua taça. Ao fazer o brinde, percebeu que a multidão se agitava. Percebeu vários flashes. E Vivi abriu seu melhor sorriso possível, o maior de todos os tempos.

O olhar de Connor fez tudo aquilo valer a pena. No final das contas, a história poderia ser divertida.

E certamente seria satisfatória.

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