Os deslocamentos comunicacionais krahô em redes digitais e não-digitais1 Thiago Franco2



Baixar 0,83 Mb.
Página1/3
Encontro27.01.2018
Tamanho0,83 Mb.
  1   2   3


OS DESLOCAMENTOS COMUNICACIONAIS KRAHÔ EM REDES DIGITAIS E NÃO-DIGITAIS1

Thiago Franco2

RESUMO

Este texto apresenta, de modo exploratório, um artigo sobre os deslocamentos comunicacionais dos Krahô3, e de sua cosmologia, tanto no seu território quanto nas redes digitais das quais participam. Considera-se nesse processo a forma comunicativa do habitar4 Krahô, que apresenta um conjunto específico de linguagens imagéticas, anímicas, sonoras e corporais. Percebe-se ainda um trânsito de conteúdo no território, nas e/ou entre as aldeias, nas matas, nas trilhas e nas redes digitais. Todos esses elementos criam uma experiência junto aos Krahô, que dão forma a um habitar comunicativo que escapa do pensamento ocidental5.



Palavras-chave: deslocamentos; etnia; habitar; redes não digitais; redes digitais.

Introdução
Atualmente, existem 25 aldeias distribuídas em uma área demarcada de 302.000 hectares, situada no nordeste do Estado do Tocantins, mas os Krahô não se deslocam apenas pelas trilhas que os conectam em território nativo. A Internet chegou às aldeias, estabelecendo outras formas de conexão e de habitar. Por isso, o artigo expõe os contrastes das redes Krahô em ambientes digitais e não digitais. Seu objetivo principal, portanto, será mostrar como estão configurados os deslocamentos comunicacionais dos Krahô no território e na internet. Para tanto, foi necessária uma metodologia capaz analisar conexões nos dois ambientes, a partir da vivência junto aos Krahô.

Tudo decorreu de um trabalho de campo iniciado em 2015, com uso de observação participante, e aprofundado em 2016, quando o pesquisador habitou por sete meses o território indígena. O artigo, portanto, mesclará dados de campo colhidos durante a estadia na aldeia com informações obtidas durante navegação em perfis dos Krahô no Facebook.

Durante o convívio com os nativos, o pesquisador registrou os dinamismos anímicos e virtuais estabelecidos pela condição xamânica, considerou os deslocamentos de humanos e não-humanos no território, percebeu o extrapolar da terra demarcada e analisou as possibilidades de linguagens, performances, fluxos informacionais digitais e não-digitais, experiências sensíveis/estéticas que dão forma ao habitar Krahô.

De acordo com algumas percepções já vivenciadas junto aos Krahô, a pesquisa estaria incompleta se vista apenas de um ângulo. É preciso habitar junto a eles, tanto nas redes digitais quanto nas não-digitais. O pesquisador tem contato com a etnia desde 2002. Nesse sentido, foram propostas as seguintes condições para a composição da observação participante, pensada na forma de redes de redes6 e combinada à teoria-método da fenomenologia7: é preciso habitar o território8; é preciso habitar os ambientes virtuais nos quais os Krahô estão inseridos.

Para pensar o encontro do digital com o habitar Krahô, foram consideradas as categorias de formas comunicativas do habitar apresentadas por Di Felice (2009): a empática, a exotópica e a atópica. Essas três categorias comunicativas mantêm relações estreitas com as guinadas históricas cognitivas da linguagem ocidental, que transitam de oral para manuscrita/impressa (considera-se o alfabeto), de impressa/mecânico-imagética para eletrônica, de eletrônica para digital.

Nenhuma das categorias de Di Felice (2009) descrevem a forma do habitar comunicativo Krahô. Contudo, a descrição do autor nos mostra um conceito com passado histórico e que em algum momento toma contato com a forma específica Krahô. Nesse sentido, temos que considerar que as linguagem escrita, impressa, mecânico-imagética, eletrônica e digital chegam ao território. Não chegam na ordem cronológica europeia, mas de forma desordenada está presente entre os nativos, nesse momento. As linguagens externas ao território passam a interferir na experiência comunicacional tradicional.



A figura 1, por exemplo, representa o encontro de duas redes que abrigam o não-digital e o digital. No lado esquerdo, tem-se, com a contribuição de Costa (2013), a rede de 25 aldeias Krahô mapeada e digitalizada por satélites. Já no lado direito, vê-se o modelo de comunicação distribuída da Internet pensada por Baran (1964). A figura 1 não faz jus às dinâmicas de cada rede, pois está estática, mas é ilustrativa.

Figura 1: Conexões atópicas - redes de redes


  1   2   3


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal